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A palavra estresse apresenta seu primeiro significado, no século XIV, representando o sentido de aflição e adversidade. No século XVII opressão, desconforto e adversidade. Historicamente, o termo estresse já assumiu o inglês ordinário, stress, e, o seu aparecimento na física (Lima, 2007), designando as forças que agiam sobre determinada resistência de um material, representando a sua capacidade de suportar antes de romper-se. Também na medicina posicionando-se como uma tensão psicológica. Posteriormente, entre os séculos XVII e XIX popularizou-se e passou a representar opressão (Lima, 2007).

Na perspectiva de uma interpretação, o termo inglês “stress” vem do latim “stringere”, que significa apertar, cerrar, comprimir ou reduzir como afirmam os estudos de Houaiss et al. (2001). No entanto, foi por volta de 1936 que o termo estresse passou a ser introduzido nos estudos das ciências biológicas por Hans Selye, cientista e fisiologista canadense, precursor deste tema, que iniciou seus trabalhos em 1925, ainda como estudante de medicina. Seus estudos significam o marco histórico inicial nas referências sobre estresse e continuam na contemporaneidade, em parte, originando e fundamentando novas pesquisas.

Os primeiros estudos desenvolvidos por Selye (1965) foram direcionados à pesquisa experimental e fez importantes descobertas para as ciências biológicas. Observou que as reações orgânicas dos pacientes, independente da causa da doença ou do diagnóstico, geralmente, eram as mesmas, motivando assim, para aguçar sua grande curiosidade.

Pesquisas anteriores foram fundamentais e representaram importante base conceitual aos achados e proposições de Selye (1965), como os estudos realizados pelo

fisiologista francês Claude Bernard, que na segunda metade do século XIX defendeu que um dos aspectos fundamentais para a manutenção do bem-estar é a habilidade do organismo para manter a constância do seu ambiente interno, mesmo com as mudanças que ocorrem externamente (Fernandes, 2008).

O estresse como uma condição interna do organismo produzida diante de uma determinada situação que busque adaptação por parte do indivíduo compreende o modelo apresentado por Selye (1965), denotando condições para consequente interpretação da percepção de que existe uma discrepância entre as necessidades e exigências sociais e ambientais e a própria capacidade de responder a elas. A sua teoria ficou conhecida como teoria do estresse biológico (Guido, 2003).

Outros autores como Lipp e Tanganelli (2002) também definiram estresse. Segundo eles a função da reação de estresse é a adaptação do indivíduo ao ambiente, e o que determina se o estresse ocorrerá ou não é a sua capacidade de atender às demandas da situação. Em continuidade às discussões de Seyle (1965), foram desenvolvidos a partir desse início pioneiro, diferentes modelos, entre eles o modelo interacionista de Folkman e Lazarus (1980), que abordaremos em destaque mais adiante.

Frente a esse contexto, pesquisadores buscaram identificar, avaliar e medir o nível de estresse ligado aos profissionais de saúde pautados principalmente nas teorias: interacionista e biologicista. Buscaram identificar a adaptação do indivíduo ao ambiente, destacando como princípio que o estresse pode apresentar-se como um risco ocupacional para os profissionais que atuam em diversas áreas, principalmente na saúde. Por outro lado, a necessidade de também investigar os estressores presentes no desenvolvimento de suas atividades de trabalho, em diversas unidades e campos de atuação e cenários emergentes, bem como sua relação com a saúde desses profissionais no desempenho de suas atividades laborais.

De acordo com os estudos de Sadir (2010), essa adaptação desejada pelo indivíduo deve ser entendida a partir do conceito de homeostase, utilizado por Cannon em 1939, identificado ao se referir ao equilíbrio que o organismo procura manter diante dos estímulos do ambiente para preservar a sua existência. Essa busca da homeostase faz com que os sistemas fisiológicos operem com o objetivo de reduzir a variação do organismo e manter a constância de suas funções internas, equilibrando os hormônios. O conceito de homeostase pressupõe que variações orgânicas são respostas transitórias às flutuações promovidas por estímulos ambientais (Pakenas, Souza Junior & Pereira, 2007).

Com o final da Segunda Guerra Mundial, outros fatores foram identificados ao se perceber que os militares apresentavam transtornos decorrentes não só das condições físicas a que foram submetidos nos enfrentamentos da guerra, mas em função das pressões de ordem psicológica e do manejo dos conflitos, a compreensão do estresse passou a englobar outro fator respondente que se caracterizou como biopsicológico (Benevides-Pereira, 2003).

Em 1975, Selye amplia sua teoria inicial ao introduziu os conceitos de eustress, para identificar o estresse benéfico, e de distresse, para denominar aquele que causa reações adversas às pessoas. Lazarus, no final da década de 1970 enfatizou a subjetividade do indivíduo como elemento determinante da severidade do estressor, isto é, a cognição seria um mediador das respostas aos estressores (Guido, 2003).

Os estressores, então denominados “acontecimentos vitais” (life-events), são eventos que demandam uma adaptação do indivíduo exposto a ele e que geram respostas de estresse. Podem ser considerados externos quando independem da vontade ou do controle do indivíduo, como mortes, violência urbana e demissão, e internos quando dependentes do indivíduo, como o modo como enfrenta o mundo, o padrão de

comportamento e o tipo de personalidade (Lipp & Malagris, 1998; Lipp & Tanganelli, 2002; Margis et al., 2003; Sanzovo & Coelho, 2007). Os estressores foram estudados inicialmente por Holmes e Rahe, que elaboraram uma escala para avaliação do estresse, e publicaram em 1967 sobre o assunto, no Journal of Psychosomatic Research, um artigo.

A relevância do construto estresse está em sua provável relação com o adoecimento, fato que preocupa a comunidade científica internacional e nacional, sindicatos, órgãos governamentais e organizações do trabalho, uma vez que o nível de absenteísmo, produtividade e qualidade dos serviços prestados, as doenças psicossomáticas e o abandono comportamental ou emocional no trabalho trazem prejuízos à qualidade de vida dos trabalhadores, às organizações e à comunidade em geral, já que os efeitos dessas condições comprometem as relações familiares e sociais. (Tamayo et.al., 2004, p 45-46).

Nos estudos iniciais, o mecanismo de estresse abordava os subsistemas que interagem em busca do reequilíbrio orgânico frente às demandas ambientais. O cérebro e o sistema neuroendócrino compõem a rede de estruturas no processo de estresse. Pode ter consequências organizacionais e pessoais, e estas se revelam tanto ao nível intelectual como nas relações sociais e no respectivo comportamento organizacional, provocando desta forma elevadíssima e avultados custos para as próprias organizações. (Sanzovo & Coelho, 2007)

O indivíduo convive, desde a pré-história, com situações adversas, geradoras de estresse, preparando-o para a luta pela sua sobrevivência como homem e espécie, convivendo com momentos oscilantes de tranquilidade, prazer, repouso e descanso, mas também de inquietação, medo, tensão, ansiedade e violência.

A partir da modernidade, o estresse é considerado doença do Século XXI e está cada vez mais frequente no cotidiano. Tem sido estudado com mais atenção nos últimos anos, em virtude da associação com doenças e desordens emocionais, podendo causar uma série de complicações à saúde. Talvez seja por conta disso que a denominação

estresse como sofrimento vem sendo amplamente utilizada não só nos estudos e pesquisas científicas, mas também nos órgãos de comunicação e na linguagem popular. No universo científico, o estresse vem ganhando diversas denominações associadas ao biológico, psicológico, social, ambiental, entre outros.

A literatura internacional apresenta diversificações de abordagens sobre estresse, em relação ao uso de avaliação individual e subjetiva, bem como a validação de conhecimento sobre o nível e fontes de estresse, o que tem dificultado o estudo do tema. A mesma situação é observada na retrospectiva dos estudos realizados no Brasil, tendo como exemplo a população de profissionais de saúde, um dos grupos investigados deste estudo. Portanto, diante do cenário, analisando-se a literatura existente acerca do estresse, verifica-se uma diversidade quanto ao referencial teórico.

No tocante ao público deste estudo, profissionais que atuam nas áreas administrativa e saúde, observa-se que os programas de Pós-Graduação no Brasil, apresentam pesquisas relacionadas ao estresse em profissionais de saúde, que crescem e se desenvolvem com elevada relevância, denotando que esse interesse está associado às reais preocupações que são apresentadas diariamente em todas as mídias nacionais e internacionais. Destacam-se, sobretudo, as condições precárias existentes nos contextos de trabalho, e em especial nos hospitais públicos e privados (Magnago, Lisboa & Griep, 2010). Contudo, não há comparativos entre estes profissionais e os da área administrativa, que efetivemente colaboram para o funcionamento dos processos organizacionais no hospital, e estão suceptíveis às influências do estresse em suas práticas laborais.

As estimativas da OMS (1995) demonstram que aproximadamente 30% dos trabalhadores são acometidos dos transtornos mentais menores, e que os transtornos mentais graves, estão entre 5% e 10%. Trazendo essa estimativa para o Brasil, o

Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) revela dados preocupantes. As estatísticas quanto à concessão de benefícios previdenciários, a exemplo do auxílio- doença, por incapacidade para o efetivo desempenho no trabalho, superiores há 15 dias, provocam afastamentos que incorre em deficiências no desempenho da equipe de trabalho. Por outro lado, fatores relacionados à aposentadoria por invalidez ou até por incapacidade definitiva para esse desempenho do trabalho, revelam também, que os transtornos mentais já ocupam a terceira posição entre as causas dessas ocorrências, tendo a presença constante do estresse nestes transtornos (Reis, Fernandes & Gomes 2010).

Considerando esses dados, o Ministério da Saúde (BRASIL, 2012) recomenda já há algum tempo, especial atenção para as condições de insegurança no emprego, subemprego e segmentação crescente do mercado de trabalho. Esses fatores provocam reflexos nas condutas internas que definem o processo de produção e produtividade na organização de trabalho, ocasionando reduções do quadro de funcionários e a incessante exigência na expansão tecnológica, com implantação de novos sistemas e competência frente aos programas computadorizados que são implantados nas redes hospitalares, como uma das inovações tecnológicas. O aparecimento dessas exigências, intensifica o trabalho levando ao surgimento de novas formas de adoecimento, corroborando aos fatores de fadiga física e mental e outros indicadores de adoecimento que estão relacionados ao trabalho. Frente a essas situações se faz necessário, portanto, novas pesquisas para que possam ser delineadas propostas condizentes e efetivas de melhorias e intervenções nessas condições de trabalho.