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Desde várias frentes, governamentais e não-governamentais, se outorga às cooperativas de trabalho associado uma função econômica e social prodigiosa. Para alguns, estas empresas mitigam a pobreza, geram emprego e bem-estar para a sociedade. Para outros, mais otimistas, representam um sistema alternativo chamado a superar as contradições do mercado.

Não obstante, na atualidade as cooperativas de Trabalho associado na Colômbia e Brasil se encontram em um estado de alerta devido à proliferação de pseudo- cooperativas que utilizam esta figura jurídica, para realizar práticas trabalhistas e de contratação contrárias ao espírito cooperativo, e que definitivamente geram terceirização e precarização das condições salariais e da segurança social dos trabalhadores-associados. (FARNE, 2008, p.11)

A generalização do uso destas empresas teve conseqüências bem importantes nas estratégias empresariais para controlar a força de trabalho, ao tempo em que se reduzem os custas da mão-de-obra e se iniciam mecanismos de disciplinamento trabalhista, via novas modalidades de contratação.

Especificamente na Colômbia as criticas mais ouvidas são, segundo Farné (2008), que as CTAs apesar de se configurarem em um tipo de prestação de trabalho com características peculiares, não têm um regime legal próprio, nem tributário, nem de previdência ou de seguridade social.

No que diz respeito à representatividade, Aricapa (2007) descreve como as denúncias partem de alguns sindicatos e trabalhadores, onde para eles o problema se radica em que as empresas utilizam às CTAs como instrumentos para disciplinar trabalhadores, como ferramenta para dificultar a ação sindical, reduzir os custos trabalhistas e, com isso, os ingressos mensais líquidos dos trabalhadores. Segundo

Bedoya e Caruso (2006, p. 99, tradução nossa): “aparentemente, hoje o lema dos empresários é substituir os sindicatos por cooperativas de trabalho associado”. A similares conclusões9 chegaram alguns estudos de pesquisa desenvolvidos por pesquisadores da Universidade do Vale , Universidade Nacional da Colômbia , Universidade Externado da Colômbia, Pontifícia Universidade Javeriana , Universidade Autônoma da Colômbia e Escola Nacional Sindical nos quais se indicam como sinais de alerta:

- baixo nível de formação cooperativa dos associados; - ausência de propriedade dos meios de produção; - pouca independência contratual;

- alta rotatividade de associados;

- associados - trabalhadores trabalhando para a mesma empresa e com uma experiência anterior nas empresas contratantes;

- presença de múltiplas cooperativas promovidas por um só grupo empresarial.

Estes sinais de alerta nos indicam que algumas destas empresas realizam práticas de deslaborização, precarização por mecanismos de terceirização e induzem seus trabalhadores a pertencer a estas empresas dados os benefícios que gera a ausência de pagamento de imposto de renda e a diminuição de custos via terceirização. O superintendente de economia solidária, referindo-se às CTAs que apresentam práticas desviadas dos princípios cooperativistas, reconhece que (SUPERSOLIDARIA, 2008, p.9, tradução nossa): “sob a figura de Trabalho Associado vêm se constituindo grande quantidade de cooperativas para desenvolver atividades próprias das Empresas de Serviços Temporários, para o qual as CTA colombianas não têm autorização legal” (Valderrama, 2004).

No Brasil, as criticas não são muito diferentes. Como cita Lins (2001, p.47-48):

No Brasil, o debate sobre as cooperativas de trabalho parece abrigar pêlo menos dois tipos de posições: a que considera tal forma de organização uma possibilidade concreta de enfrentamento dá crise dó trabalho e a que entende serem as cooperativas de trabalho, no modo como boa parte delas funciona, exemplos de deterioração dás condições de trabalho.

9

Ver Urrea (2006), Ome(2005), Hernandez E Martinez (2004), Moncada e Monsalvo(2000), Alvarez, Gordo e Sacristan (2006), e Aricapa (2006),

E também:

Não pode haver trabalho associativo quando uma cooperativa desenvolve suas atividades com instrumentos de produção que não lhe são próprios, com instrumentos que não possuem, dos quais não são possuidores em virtude de um contrato especial, nem são aportados pelos associados, quando não dirige o processo produtivo, nem exerce autoridade; nem funções de orientação sobre os trabalhadores que executam os trabalhos, nestas condições este tipo de cooperativas são, sobretudo entidades subministradoras de pessoal ou administradoras de relações de empregados.

Neste sentido o secretário Nacional de Economia Solidária, Paul Singer (2004) confirma10·:

O esforço do Ministério do Trabalho e Emprego de propor uma regulamentação das cooperativas de trabalho tem, a nosso ver, uma dupla motivação: por um lado reconhecer e conceituar juridicamente as cooperativas de trabalho, lhes possibilitando segurança jurídica, uma vez que a legislação cooperativista em vigor hoje no Brasil, a Lei 5.764 de 1971, não dá conta de regular a realidade das cooperativas de trabalho que crescem e proliferam a partir dos anos 80 do século XX. Por outro lado, busca-se regular as cooperativas de trabalho para brecar o processo de precarização do trabalho que se abriu através da utilização desta forma jurídica para burlar a legislação trabalhista.

Barcellos (2004) é mais incisivo ao afirmar que muitas cooperativas de trabalho formais estão sendo criadas, com o objetivo de fraudar a legislação trabalhista brasileira] na qual a má interpretação dos artigos que regem a ausência de vinculo trabalhista nestas atividades, acabou por gerar o estereótipo negativo nestas instituições, denegrindo inclusive a imagem de outras cooperativas que se mantêm legitimas aos princípios cooperativos.

Mesmo que as criticas às cooperativas de trabalho associado venham aumentando, existe unanimidade por parte de todos os atores sociais e inclusive até mesmo dos críticos, de que estas devem constituir-se como uma verdadeira alternativa de trabalho e, portanto não pode ser inferior em garantias aos instrumentos já reconhecidos pela humanidade, isto é, aqueles concernentes ao trabalhador assalariado e proteção do trabalho de menores de idade, da maternidade e da saúde ocupacional. Se o que pretende é dignificar o homem na realização de sua função social do trabalho, não teria sentido que o trabalho associado cooperativo se

10

Parecer emitido em 4 de outubro de 2004 pela Secretaria Nacional de Economia Solidaria, denominado “As Cooperativas de trabalho e a precarizaçao”

constituísse em uma forma inferior na quantidade de vantagens para o trabalhador e uma expressão de menor grau de dignificação e realização de homem.

Precisamente para fazer frente ao processo de precarização nas condições de trabalho, os mandatários da OIT — governos e organizações de empregadores e de trabalhadores - conceberam o conceito de “Trabalho Decente”, com o objetivo de identificar parâmetros para que homens e mulheres possam conseguir um trabalho digno e produtivo em condições de liberdade, eqüidade, segurança e dignidade humana; e ao mesmo tempo, para que a criação de emprego digno e de qualidade ocupe um lugar central na formulação das políticas econômica e social nos diferentes países que fazem parte da Organização Internacional do Trabalho, dentre os quais se encontram a Colômbia e o Brasil.