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2.1. Fibromiyalji Sendromu

2.1.2. Epidemiyoloji

Nos primeiros trabalhos sobre a sexualidade infantil e no contexto científico do início do século XX, Freud “chamou a atenção para algo completamente ignorado na época, isto é, a sexualidade infantil”, tal como afirma Medeiros (2005, p. 65). Na verdade Freud “destaca- se pela inovação por ter encontrado uma teoria explicativa da sexualidade (1905), ligada à líbido e à pulsão sexual, com a vantagem de ter uma perspetiva evolutiva do desenvolvimento – da criança recém-nascida ao adulto – com várias fases psicossexuais: oral, anal, fálica e genital, e que foi postulada sob a forma de três ensaios”.

A abordagem psicanalítica, que se inicia com os trabalhos de Freud, e prossegue, com diferentes psicanalistas como Ana Freud, Erikson, Melanie Klein, Bion, entre outros, atribui especial ênfase às forças inconscientes que condicionam o comportamento humano. Embora sendo uma teoria que dista mais de um século, optámos por pontuá-la dado que nos encontramos mudança conceptual explicativa da sexualidade infantil.

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Tran-Thong (1987) distingue a existência de estádios especiais, os quais incluem os estádios da inteligência (de Piaget) e os estádios da afetividade, nomeadamente os estádios psicanalíticos de Freud. Neste sentido, estabelece um paralelismo entre os sistemas de Piaget e de Freud, reforçando que esta é uma ideia comummente aceite por muitos psicanalistas, tal como o era pelo próprio Piaget. No entanto, recorda também que Freud assumia que os estádios psicanalíticos eram secundários à teoria psicanalítica, e portanto, a sua noção de estádio nunca foi descrita, tendo apenas ficado implícita ao longo da sua extensa obra.

Para Freud os processos psíquicos são maioritariamente inconscientes e a sexualidade manifesta-se através de pulsões sexuais. Com base nos dados clínicos obtidos a partir da análise dos sonhos e sintomas neuróticos do adulto, das suas conceções acerca do aparelho psíquico8,

e postulando que a personalidade do indivíduo se forma nos primeiros anos de vida em

8 Freud começou por conceber um aparelho psíquico contendo três instâncias, mais

especificamente, o inconsciente, o pré-consciente e o consciente, no entanto, tendo em conta seu o desfasamento face à realidade observada em contexto clinico, definiu três novas instâncias da personalidade, a saber, o id, o ego e o superego. Estas instâncias evoluem umas das outras – o ego diferencia-se a partir do id, e o superego do ego – e são, simultaneamente, estrutura e função, ou seja, constituem camadas psíquicas distintas e exclusivas, mas também são sede de operações e processos mentais. O id representa a componente obscura e impenetrável da nossa personalidade, e é composto por dois instintos essenciais, mais especificamente, o instinto de vida, ou Eros, e o instinto da morte ou

de destruição. O id constitui-se como o polo pulsional do aparelho psíquico, ou seja, a fonte de impulsos

e desejos. É a mais antiga das três instâncias psíquicas e está presente desde o nascimento. Rege-se pelo

princípio do prazer, não evidencia qualquer organização (cronológica, motivacional ou outra) e não

distingue juízos de valor, o bem e o mal, e a moral, razão pela qual, por natureza, a relação entre a realidade e o id é conflituosa. O ego desenvolve-se a partir da resolução dos conflitos gerados entre as necessidades instintivas do id e as exigências do exterior. Resolvidos os conflitos é restabelecido novo equilíbrio, caso contrário, poderá gerar-se um desequilíbrio que resultará na fixação em determinado estádio, na regressão a estádios anteriores, ou até na fragmentação patológica do ego (Freud, 1924/1966; Dolto, 1982; Tran-Thong, 1987; Bee, 2003; Dias & Magalhães, 2006). A terceira instância do aparelho psíquico é o superego, que se diferencia a partir do ego apenas a partir dos cinco anos de idade, altura em que o superego passa a assumir a função coerciva e repressiva até então desempenhada pelos pais, ou seja, assumindo-se como a consciência moral pré-racional e predominantemente inconsciente, frequentemente através de mecanismos de auto-observação, autocritica, remorso e culpa (Freud, 1914/1957; Freud, 1924/1966; Dias, 1978; Dolto, 1982; Papalia et al., 2001; Davidoff, 2001; Golse, 2005; Tran-Thong, 1987; Dias & Magalhães, 2006).

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resultado da maturação do desenvolvimento psicossexual, Freud identificou quatro fases do desenvolvimento da sexualidade na criança, respetivamente fases: oral, anal, fálica e genital a que se adiciona o período de latência que intermedeia as fases fálica e genital. Cada fase tem associada uma zona erógena dominante, ou seja, uma região corporal cuja estimulação produz satisfação libidinal; a sucessão ao longo dos estádios acontece por deslocamento das zonas erógenas e determina o estádio de desenvolvimento psicossexual (Freud, 1899/1988; Freud, 1924/1966; Freud, 1930/2008; Dolto, 1982; Tran-Thong, 1987; Dias & Magalhães, 2006; Tavares et al., 2007).

Ao longo destas fases a criança lida com conflitos e pulsões sexuais que parecem definir-se segundo quatro aspetos principais, mais especificamente: força, fonte, alvo e objeto de pulsão. A força da pulsão indica a direção e intensidade; a fonte da pulsão indica a zona corporal onde esta tem origem; o alvo da pulsão corresponde à satisfação pulsional e ao alívio da tensão secundária à ativação da fonte de pulsão; por fim, o objeto de pulsão corresponde ao meio pelo qual esta é satisfeita. Da adequada resolução dos conflitos, e consequente gratificação, resulta a formação da personalidade (Papalia et al., 2001; Golse, 2005; Dias & Magalhães, 2006).

A fase oral decorre durante o primeiro ano de vida da criança, compreende duas subfases, uma primitiva9 e outra tardia, e carateriza-se tipicamente pela sucessão de atividades

libidinais específicas, mais propriamente a sucção e o morder; a zona erógena dominante neste estádio corresponde à região bucolabial (Freud, 1924/1966; Dolto, 1982; Tran-Thong, 1987; Dias & Magalhães, 2006).

Na fase anal a zona erógena dominante desloca-se para a região anal e está associada aos esforços de retenção e expulsão anal e vesical. Decorre entre o primeiro e o terceiro ano de vida e divide-se em duas subfases. Na primeira predominam as tendências de aniquilamento e

9 Na subfase primitiva, predominante no primeiro semestre de vida, a criança descobre a sucção

através da função alimentar, mas rapidamente dissocia o ato da função e utiliza-o de forma autoerótica para obter prazer. No segundo semestre de vida, correspondente à subfase tardia, o surgimento dos dentes despoleta a necessidade de morder, ato que ganha contornos de pulsão destrutiva e agressiva na procura por satisfação libidinal. É nesta sequência que surge a ambivalência e o ego se diferencia. Freud identifica o chuchar o seio da mãe como o primeiro e mais determinante objeto do instinto sexual, que determinará profundamente a vida sexual do indivíduo (Freud, 1924/1966; Dolto, 1982; Tran-Thong, 1987; Dias & Magalhães, 2006).

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perda, na segunda fase as tendências de apego e possessão. O ego já está completamente formado neste estádio, enquanto um precursor do superego começa a emergir (Freud, 1924/1966; Dolto, 1982; Tran-Thong, 1987; Dias & Magalhães, 2006).

Na fase fálica, que decorre entre os 3 e os 5 anos, os órgãos genitais surgem como as zonas erógenas dominantes; o prazer sexual associado à retenção vesical faz surgir a curiosidade sobre os genitais, resultando inevitavelmente na sua estimulação e exploração. Aspeto relevante desta fase é a formação do complexo de Édipo, ou como se designa mais recentemente, a situação edipiana, através da qual a sexualidade infantil evolui de autoerótica para objetal. Significa isto que a libido passa a ser investida sobre os pais, frequentemente a figura parental do sexo oposto, por quem a criança nutre sentimentos de ambivalência absolutamente contraditórios. Da resolução da situação edipiana, que tipicamente ocorre no final deste período, surgirá a terceira instância do psiquismo, o superego (Freud, 1924/1966; Dolto, 1982; Tran-Thong, 1987; Dias & Magalhães, 2006). O superego surge durante a resolução da situação edipiana, a qual se carateriza pela sexualidade ambivalente da criança para com a figura parental do mesmo género, manifestada através de uma dualidade entre amor libidinal e ciúme agressivo. A resolução desta situação surge quando a criança é capaz de renunciar a estes objetos de amor, frequentemente através do recalcamento das tensões libidinosas, permitindo a interiorização da autoridade parental e a incorporação da consciência e dos valores socialmente aceites.

O período de latência, que decorre entre os 5-6 anos de idade e o início da puberdade, carateriza-se por ser relativamente tranquilo do ponto de vista psicossexual, especialmente quando comparado com os tumultos vividos nas fases limítrofes, e onde o desenvolvimento sexual praticamente cessa e a amnésia retrógrada impera. Por essa razão, é entendido como um período em que pouco acontece; de uma forma geral, o ego torna-se mais forte e, conjuntamente com um superego também reforçado, dominam superiormente as pulsões sexuais. Para tal, recorrem a mecanismos de defesa formados durante a fase fálica, mais especificamente, a sublimação e a formação reativa. Paralelamente, as energias do id são canalizadas para a aquisição de conhecimentos e para o estabelecimento de relações familiares e escolares (Freud, 1924/1966; Dolto, 1982; Tran-Thong, 1987; Papalia et al., 2001; Golse, 2005; Dias & Magalhães, 2006).

Significa isto que, apesar dos conflitos vividos durante a fase fálica ainda persistirem parcialmente, revelam-se progressivamente menos intensos durante o período de latência. A latência representa um período de acalmia das pulsões sexuais, de progressiva dessexualização do pensamento, e em que se verifica o extravasamento da problemática edipiana para além do

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seio familiar (Freud, 1924/1966; Dolto, 1982; Papalia et al., 2001; Davidoff, 2001; Golse, 2005; Dias & Magalhães, 2006).

Estas modificações contribuem para submeter a criança à norma educacional e escolar, e para torná-la mais disponível para a aprendizagem e capaz de sublimações. Permitem também aumentar a sua sociabilidade e liquidar, em definitivo, o complexo de Édipo. A obsessivação relativa do Ego permite ainda à criança transformar pulsões agressivas em cortesia, exibicionismo em pudor, e atração fecal em nojo (Freud, 1924/1966; Dolto, 1982; Tran-Thong, 1987; Papalia et al., 2001; Davidoff, 2001; Golse, 2005; Dias & Magalhães, 2006).

Por último, a partir da puberdade decorre a fase genital, caraterizada pela dominância dos genitais como zona erógena corporal e pela separação definitiva entre ego e superego. Esta dissociação acontece em resultado da resolução da tarefa de separação dos pais, essencial para que o indivíduo alcance definitivamente a autonomia e conquiste um lugar como membro efetivo do coletivo social (Freud, 1924/1966; Dolto, 1982; Tran-Thong, 1987; Dias & Magalhães, 2006).

Em síntese, segundo a teoria de Freud, o desenvolvimento humano é explicado através da evolução psicossexual, ou seja, a sexualidade é parte integrante do desenvolvimento e ocorre desde o nascimento até à adolescência. Esta evolução decorre ao longo de quatro fases psicossexuais, caraterizadas pelo predomínio de determinada zona erógena e pelo conflito entre pulsões sexuais e respetivas forças opostas (Freud, 1924/1966; Dolto, 1982; Dias & Magalhães, 2006; Tavares et al., 2007).

Apesar de centenária, muitas das ideias da teoria psicossexual de Freud deram origem, e continuam ainda, a acender debates e inspirar novas teorias e investigações, como são o caso da teoria psicossocial de Erikson, que abordaremos já de seguida quando falarmos de desenvolvimento psicossocial, e da teoria do apego de Bowlby10.

10 John Bowlby (1907-1990) foi fortemente influenciado pela teoria psicanalítica de Freud.

Debruçou-se sobre o desenvolvimento infantil muito inicial e a importância das primeiras relações do bebé, especialmente com a mãe, para o desenvolvimento da personalidade, de que resultou a sua teoria

do apego. Os estudos dos processos de vinculação promovidos por Bowlby durante a década de 1950

contribuíram decisivamente para a compreensão da natureza da relação mãe-filho. O autor destacou a importância da observação direta da interação familiar, bem como dos primeiros eventos na vida da criança para o desenvolvimento da personalidade. Bowlby concluiu que o recém-nascido tem uma necessidade instintiva de se relacionar com uma figura de vinculação principal, mais frequentemente a

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Não obstante a necessidade de alargar o estudo do apego a todo o ciclo vital, nomeadamente à idade escolar, a investigação científica na área do apego não tem seguido esse percurso, optando antes por se dedicar apenas à primeira infância (Kerns et al., 2005; Silva, Soares & Esteves, 2012; Simões et al., 2013). Por esta razão não daremos maior destaque ao trabalho de Bowlby no contexto deste estudo empírico.

Benzer Belgeler