Dentro do panorama da Literatura Brasileira, Monteiro Lobato fora associado, de certa forma recorrente, à figura de retrógrado, lembrado como alguém que execrou as manifestações da Semana de Arte Moderna e, conseqüentemente, os modernistas. Pesquisas posteriores, e, nesse sentido, deve-se registrar que os estudos continuam a crescer dia após dia, provaram que nada se passou como se pensara a princípio, quando o escritor foi taxado de contrário ao movimento que transformou as letras brasileiras. Podem ser citados os trabalhos da professora Dilma Castelo Branco Diniz (DINIZ,1990,1997, 1998,1999,2000,2001, 2003/2004) que teve como objeto de estudo tanto em seu mestrado quanto em seu doutorado a figura do escritor de Taubaté, além da análise da correspondência mantida entre Monteiro Lobato, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Oswald (Citado por DINIZ, 2000) descobriu que Lobato estava sintonizado com o que se fazia em Paris mais que os próprios Andrades:
Estou desmoralizadíssimo. Percebendo que a verdadeira literatura francesa está mais com o Lobato do Urupês et caterva de Cidades Mortas aos últimos contos que com esses impagáveis Andrades (Mários e Oswalds) dispus-me a fazer propaganda de tua obra – “quelque chose de puissant et savoureux. Tout le pessimisme de l´étendue!” E criei um mito em Paris – Lobatô! Agora os apuros. Oú est Lobatô? Ses livres? Ses
nouvelles? Um échantillon de son génie! E eu, silêncio, excusas vilíssimas, esperem um pouco, mandei buscar, já vem já! é longe...(DINIZ, 2000, p.219-220)
Em conferência na Sorbonne, cuja tradução a pesquisadora Dilma Castelo Branco teve oportunidade de abordar e analisar (DINIZ, 2003/2004), Oswald de Andrad realça a
importância que Lobato dava ao aspecto documental em sua produção, fator essencial para sua proposta desmistificadora na realização do que Oswald reconhece como regionalismo crítico. Um parágrafo omitido na tradução da conferência, que foi publicada na Revista do Brasil, em dezembro de 1923, discute as vertentes do século XX, que estaria dirigido às origens, colocando as influências étnicas em evidência. São dados que se devem aos estudos aqui mencionados.
Essas observações levaram Oswald de Andrad a concluir pela modernidade de Lobato, ao perceber, nos contos deste, a aproximação com a cultura popular e o folclore, atribuindo a Urupês o verdadeiro marco zero do modernismo. O germe do “Manifesto Pau-Brasil” já se manifestara na obra de Lobato, justificando o pronunciamento de Oswald por ocasião da morte do escritor que defendeu a inclusão do autor de Urupês nas fileiras do modernismo.
Um dos aspectos dessa aproximação com o popular no nível da configuração formal é exemplificado pela professora Dilma Castelo Branco Diniz. Trata-se de seu artigo o “Édipo sertanejo de Monteiro Lobato”(DINIZ,2001), em que apresenta uma análise do conto “O mata-pau”, publicado no livro Urupês. A reconstituição lingüística popular sertaneja é explorada na fala de todos os personagens pertencentes ao mundo rural. Tal procedimento é perceptível na maioria dos seus contos, sobretudo nos apresentados em Urupês e Negrinha, onde a galeria de personagens desse universo é mais ampla. Também um trecho de “A vingança da peroba”, do mesmo Urupês, reafirma esse trabalho formal:
E de tanto lidar com paus, fiquei na suposição de que árvores têm alma, como a gente. — T´esconjuro! — espirrou Nunes.
— Isto dizia lá o velho; eu por mim não dou opinião. E têm alma, dizia ele, porque sente a dor e choram [...] — Lá isso...
— Então, dizia ele, há em cada mato um pau que ninguém sabe qual é, a modo que peitado p´r´a desforra dos mais. É o pau do feitiço. O desgraçado que acerta meter o machado no cerne desse pau pode encomendar a alma p´r´o diabo, que está perdido. Ou estrepado ou de cabeça rachada por um galho seco que despenca de cima, ou mais tarde por artes da obra feita com a madeira, de todo jeito não escapa. Não ´dianta se precatar: a desgraça peala mesmo, mais hoje, mais amanhã, a criatura marcada (LOBATO, 1994, p.62).
Esse trabalho também se concretiza na fala de seu personagem mais controvertido, o Jeca Tatu:
Perguntem ao Jeca quem é o presidente da República: — O homem que manda em nós tudo?
— Sim
— Pois de certo que há de ser o imperador. Em matéria de civismo não sobe de ponto.
— Guerra? T´esconjuro! Meu pai viveu afundado no mato p´ra mais de cinco anos por causa da guerra grande. Eu, para escapar do “reculutamento”, sou inté capaz de cortar um dedo, como o meu tio Lourenço...(LOBATO, 1994, p. 173)
Dessa forma, o que vai ser explorado pelos modernistas em vários momentos e proclamado no manifesto de Oswald já tem seu espaço nos contos de Lobato em que o regionalismo crítico ganha destaque. O autor de Urupês se vale de expressões da fala como: “mais hoje, mais amanhã”, “t´escunjuro”; marcada também pela oralidade da supressão de fonemas: “´dianta”, “p´rá”, “p´r´o”, o que o coloca como um precursor do que desenvolverá Guimarães Rosa.114
Lobato, na verdade, esteve à frente de seu tempo, mesmo naquilo que considerou como falta de talento: a incapacidade de “produzir pérolas”, como ele classificava a obra de Godofredo Rangel em comparação com a sua, mera produção de “milho”, razão do [seu] sucesso, já que o público não estava preparado para “pérolas”, utilizando-se intertextualmente do texto bíblico para classificar sua obra. Nesse sentido, Lobato sempre minimizou a potencialidade de seus textos, considerando-se um mero contador de “causos”, o que na verdade se tornou um aspecto bastante estudado na atualidade — a passagem do oral para o escrito. Essa forma de tratar a matéria-prima que alimenta a ficção passou a constituir um diferencial na sua escrita, ao se verificar em sua obra “a narrativa em encaixe”, isto é, a “narrativa dentro da narrativa”(LAJOLO, 1998, p.68).
114 Nesse sentido, o texto de Diniz (2001) reafirma, citando, a posição de Vasda B. Landers que estabelece a ligação entre os procedimentos de Monteiro Lobato e Guimarães Rosa.
LANDERS, Vasda B. De Jeca a Macunaíma: Monteiro Lobato e o Modernismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1988 .
A oposição entre “milho” e “pérolas” aponta para a conhecida dicotomia entre a produção erudita em contraponto à popular, ou ao facilmente digerível, principalmente porque Lobato sempre se manteve firme contra tudo o que não possibilitasse uma clara conexão entre forma e sentido. Embora popular não seja necessariamente o que é facilmente absorvido, esse “milho” ofertado aos seus leitores estava conforme o que seu autor considerava fundamental para a narrativa, ou seja, devia ser compreensível, as peças deviam se encaixar, de forma lógica e clara:
As platéias costumam impar umas tantas finuras de bom gosto e tom muito de rir; entram no teatro depois de começada a peça e saem mal as ameaça o epílogo.
Já as galerias querem a coisa pelo comprido, a jeito de aproveitar o rico dinheirinho até o derradeiro vintém. Nos romances e contos, pedem esmiuçamento completo do enredo; e se o autor, levado por fórmulas de escola, lhe arruma para cima, no melhor da festa, com a caudinha reticenciada a que chama “nota impressionista”, franzem o nariz. Querem saber — e fazem muito bem — se Fulano morreu, se a menina casou e foi feliz, se o homem afinal vendeu a fazenda, a quem e por quanto (LOBATO, 1994, p.142).
Se, para o adulto, Lobato defendia tudo a que o leitor tinha direito, “o esmiuçamento completo do enredo”, em relação à literatura infantil não poderia ser diferente. Embora defendesse clareza de sentido, Lobato não menosprezava o que seria um trabalho com arte e o que chegou à posteridade, como ojeriza ao modernismo, não passava de hostilização à experimentação formal, quando esta significava o que ele julgava perda de compreensão para o público.
Suas relações com os modernistas nunca foram de distanciamento como demonstra o trabalho de pesquisadores, ao encontrarem provas de relacionamento próximo que a correspondência entre eles evidenciou. Os contatos foram estáveis, mesmo que revelem que entre eles não havia unanimidade de idéias.
Isto posto, apesar de a marca de liberdade crítica de Lobato estar alinhada com o pensamento vanguardista que Oswald reconhecera, o escritor de Taubaté, embora não colocasse o ponto de vista estético vanguardista em primeiro lugar, mantinha-se, assim como
os modernistas, ligado a tudo o que ocorria no país e ao que contribuiria para a valorização de uma cultura brasileira, momento em que os esclarecimentos sobre a motivação para a escrita do livro Sacy-Perêrê — resultado de um inquérito demonstram sua posição moderna no que concerne à formação de um acervo brasileiro, ou seja, busca da cultura popular.