1.3. ENTELEKTÜEL SERMAYE YÖNETİMİ
1.3.1. Entelektüel Sermaye Yönetim Modelleri
1.3.1.2. Entelektüel Sermaye İndeks Modeli
No Brasil, os levantamentos25 censitários existem desde o século XVI, registrados pela esfera eclesiástica e, sobretudo, com objetivos militares e fiscais, tendo sido impulsionados pela administração da metrópole portuguesa. Após a emancipação política, em 1822, é possível notar um progressivo empenho, por parte do governo, em conhecer a situação demográfica e material em que se encontrava o país. Assim, ainda na primeira metade do século XIX, várias províncias brasileiras, a exemplos de São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso, apresentaram iniciativas quanto à mensuração da sua população. Contudo, segundo Gil (2007, p. 57), a concretização desses esforços só foi possível no decorrer do Segundo Reinado, quando o aparelho administrativo e judiciário voltou para as mãos do governo imperial, diminuindo-se, assim, a autonomia das províncias, uma vez que as
estatísticas locais “[...] não tinham muitas chances de avanço, devido às precárias condições e
aos poucos recursos de que dispunha a maioria das regiões do país”.
Em 1852, apesar da tentativa de realização de um censo nacional mostrar-se frustrada, tal experiência serviu para trazer definitivamente, no âmbito do Ministério do Império a competência para organizar estatisticamente a população, por meio de diversos instrumentos
25 Ver em Nadalin (2004) e Marcílio (1977) sobre levantamentos populacionais do século XVI a XVIII, no Brasil.
estatais, criados26 a partir de então. Com a participação do Brasil no movimento internacional de Estatística e com o fim da Guerra do Paraguai, os esforços para tornar viável o plano de realização do Censo da população do Império passaram a ser mobilizados na esfera pública brasileira.
A iniciativa mais concreta para a viabilização do primeiro recenseamento nacional brasileiro deu-se a partir de 1870. Para condução dos trabalhos censitários, a Assembleia Geral do Império criou a Diretoria Geral de Estatística (DGE), através do Decreto nº 4.676, de 14 de janeiro de 1871, cuja atribuição seria coordenar os levantamentos estatísticos no país e realizar os censos populacionais decenais. Tais ações implementadas pela Diretoria, impulsionaram a execução do primeiro recenseamento brasileiro datado de 1872, considerado, por Marcílio (1977), como marco da fase estatística no Brasil.27 No entanto, esse movimento de recenseamento, no final do século XIX, não foi linear.
Após a finalização do primeiro censo, a Diretoria deixou de ser provida de condições mínimas de funcionamento, sendo desativada em outubro de 1879, pela Lei nº 2.940. Tal
desativação inviabilizou a realização do censo de 1880, interrompendo o fluxo dos censos decenais, como havia sido previsto anteriormente. Apesar de inúmeras tentativas de retomada efetiva dos trabalhos desenvolvidos pela Diretoria Geral de Estatísticas, a reabertura da repartição só veio a ocorrer em 1890.
Logo após a Proclamação da República, a Diretoria Geral de Estatística foi restaurada pelo Decreto nº 113-d, de 2 de janeiro de 1890 e, em seguida, deu-se início às atividades relativas ao novo levantamento da população, uma vez que a restauração da Diretoria teve como principal objetivo organizar os trabalhos censitários. Em 12 de abril de 1890 foi estabelecido um novo regulamento da repartição por meio do Decreto nº 331, o qual fixava que a Diretoria funcionaria em quatro seções,28 sendo a última destinada às atividades demográficas, censitárias e de registro civil.
A partir dessa normativa, a Diretoria elaborou um conjunto de modelos de boletins/mapas estatísticos que deveriam ser preenchidos, levando em conta as explicações
26 Ver em Botelho (1998, p. 40), sobre o Decreto nº 2.368, de 5 de março de 1.859 e o Decreto nº 4.154, de 13 de abril de 1868 que tratam da estatística do Império.
27 Marcílio (1977, p. 64) periodiza as fontes da natureza demográfica existentes no Brasil, como: fase pré- estatística – que corresponde ao início da colonização brasileira e se estende até a primeira metade do século XVIII; fase protoestatística – que tem início na segunda metade do século XVIII e termina com o primeiro recenseamento de 1872; fase estatística – com início a partir de 1872, momento em que os levantamentos censitários de toda a população nacional passam a ter objetivos exclusivamente demográficos e a serem realizados sistematicamente por serviços especializados do Governo.
28 As estatísticas relativas à instrução pública ficaram a cargo da 2ª seção, em conformidade com o decreto nº 113-d (GIL, 2007, p. 63-64; MACHADO, 2007, p. 68).
43 anexas ao Decreto nº659, de 12 de agosto de 1890, que ordenava sobre as instruções de como proceder durante o segundo recenseamento da população do Brasil – primeiro do período republicano – que, oficialmente ocorreu em 31 de dezembro de 1890. 29 Este recenseamento realizou-se, praticamente, nas mesmas bases daquele de 1872, mas foram guardadas diferenças entre si.
Segundo Botelho (1998, p. 60-61), no censo de 1890 “[...] as mudanças mais sensíveis
ocorreram na parte de execução”. Embora a paróquia continuasse a ser a área geográfica
mínima de referência, a laicização repentina do Estado, promovida pela Proclamação da República fez com que as comissões censitárias fossem preferencialmente presididas pelo subdelegado do distrito, sendo também compostas por mais três membros indicados pelos presidentes das mesmas.30
O início do levantamento populacional de 1890 deu-se com o envio dos modelos de boletins e das explicações pela Diretoria Geral às comissões censitárias instaladas nos estados brasileiros. Em seguida, os questionários deveriam ser entregues aos chefes de família ou do domicílio, quinze dias antes de 31 de dezembro. A partir dos dez dias posteriores ao designado para o recenseamento, os agentes censitários procederiam com o recolhimento, por domicílio, das listas e boletins distribuídos, tomando nota desse procedimento em caderneta, verificando o preenchimento dos mapas e corrigindo os erros identificados (DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA. Decreto 659, 1890).
Após a coleta dos dados populacionais, os agentes deveriam entregar31 à respectiva comissão censitária de cada localidade recenseada, as listas ou mapas recolhidos e as cadernetas de sua seção, acompanhada de uma relação nominal das pessoas que haviam se recusado a preencher os dados. A comissão censitária de cada Estado deveria sistematizar os dados e enviá-los à Diretoria Geral para a totalização dos dados nacionais (DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA. Decreto 659, 1890).
Ao receber as informações das comissões censitárias, a Diretoria Geral de Estatística ficou encarregada de operacionalizar a totalização dos dados levantados, para composição do resultado final. E, para preencher as lacunas deixadas pelos Estados omissos, o órgão central trabalhava com base nas informações obtidas em documentos oficiais variados, conforme a
29
As instruções do decreto nº 659 de 1890, seguiram a mesma lógica das disposições da Lei nº 1.829, de 9 de setembro de 1871 e do Decreto nº 4.856, de 30 de dezembro do mesmo ano, no tocante à definição de família e domicílios especiais, bem como à estrutura organizacional, cronograma e penalidades legais.
30Esse quadro, no qual as comissões assumiriam a face de “funcionário público”, fez com que predominasse a desconfiança e até mesmo a resistência da população em relação aos trabalhos dos recenseadores.
31 Segundo o Decreto nº 659, de 1890, o prazo de entrega era de até quinze dias depois do designado para o recenseamento, ou seja, até 15 de janeiro do mesmo ano.
disponibilidade. Segundo Gil (2007, p. 71), copilava-se os dados extraídos de ofícios e/ou relatórios de governantes e outros órgãos das repartições públicas, nas quais constavam informações, ou ainda, repetiam-se os números de anos anteriores. No caso dos dados sobre a instrução pública, a Diretoria Geral de Estatísticas recorria aos mapas escolares, dentre outros documentos.
O resultado final do Censo de 1890 foi divulgado sob o título de Sinopse. E como o processamento dos dados enviados pelos diversos Estados brasileiros foi demorado, as publicações da Sinopse do Censo foram parceladas, iniciando em 1892 e concluídas em 189832 (DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA, 1898). Apesar dessa morosidade, a produção da estatística oficial se estabeleceu como um saber e poder a serviço da Nação para legitimar um diagnóstico das situações sobre as quais se deveria atuar.
O processo de mensuração e conhecimento da população, inscrito na elaboração e consolidação do Censo de 1890, permite observar a construção de mecanismos desenvolvidos pelo governo brasileiro para classificar a população e ajustá-la aos padrões de governamentalidade.33 Nesse sentido, as categorias estatísticas empregadas no levantamento da população podem ser entendidas como um dos instrumentos da técnica de governo, proveniente da arte de governar, capaz de indicar a força dos mecanismos acionados pelo governo para a classificação da população.
Longe de serem neutros e imparciais, os dados demográficos e estatísticos expressam, ainda hoje, posições e interesses, embutidos na maneira como são organizados os dados, nas categorias estabelecidas, na decisão do que incluir ou excluir no documento de divulgação dos dados. Isso porque na medida em que a estatística advoga uma objetividade dos dados coletados, estes passam a ser assumidos – na recepção das cifras e dos discursos que compõem os números – como traços da realidade ao produzirem formas de inteligibilidade do mundo e subsidiarem condições de existência daquilo que descrevem (GIL, 2007, p. 19).
Na estatística, as categorias emergem dos padrões de dados que, ao se entrelaçarem às grandezas estatísticas formam um sistema de razão estatística, como afirmam Popkewitz e Lindblad (2001, p. 120). Nesse sentido, as categorias estatísticas apresentam-se, com um aspecto central no que se refere às possibilidades de compreensão dos dados/números pelo governo, uma vez que expressam representações sociais. A análise dessas categorias
32Essa divulgação de resultados, “[...] afastando-se inteiramente do plano imaginado no começo do serviço, resumiu esta Diretoria em uma só de 446 páginas [...] quer seria publicado em mais 7 volumes” (DIRETORIA GERAL DE ESTATÍSTICA, 1898, p. ix).
33
Foucault (1984) assinala o século XVIII como momento em que a população emerge como finalidade e meio da arte de governar, passando a ser alvo de ações estatais. Tais ações se inscrevem no que Foucault denominou de governamentalidade.
45
pressupõe a compreensão de seu processo de produção e suas classificações, pois “[...] uma
vez fixadas – e amparadas pela legitimidade de um procedimento científico – não descrevem simplesmente o que se observa, mais que isso, elas criam uma realidade e orientam a
percepção sobre o real” (GIL, 2008, p. 9).
No presente estudo, a compreensão das categorias apresentadas dos quadros da população urbana de Cuiabá, datados de 1890, exigiu uma busca de parâmetros do Censo Nacional, por entender que os quadros da população cuiabana figuram com parte da coleta de dados do recenseamento daquele ano. Desse modo, tais parâmetros são observados, a seguir, tendo por base um conjunto de documentos que indica o processo de planejamento, execução e resultado do censo de 1890, na intenção de observar a tensão entre a definição de categorias censitárias nacionais e regionais.
1.4. A produção dos quadros nominativos de Cuiabá no interior da construção do Censo