A nossa primeira pergunta de pesquisa faz referência ao impacto da escrita colaborativa sobre a capacidade de noticing de estruturas sintáticas. Buscamos verificar se os participantes do grupo experimental, que praticaram a escrita colaborativa mediada pelo GD durante 11 semanas, passariam a perceber mais erros sintáticos na L2, uma vez que foram expostos a uma prática sistemática de co-escrita, recebendo mais input dos colegas coautores.
Comparamos os resultados do grupo experimental com os resultados do grupo controle, cujos participantes não praticaram a escrita colaborativa nem online nem presencialmente. Resultados positivos do grupo experimental revelariam os benefícios da intervenção pedagógica com o GD em relação a uma aula exclusivamente presencial, e evidenciariam que a introdução de práticas de escrita colaborativa no processo de aprendizagem de L2 pode levar ao desenvolvimento do aprendiz.
Na comparação entre dois grupos, é possível observar diferenças nos números antes do tratamento estatístico; porém, só podemos afirmar que há uma diferença real quando o tratamento estatístico é aplicado (DÖRNYEI, 2007). Por esta razão, utilizamos o teste Wilcoxon do SPSS para comparar os dois sets de pontuação e verificar se houve uma diferença significativa entre o pré e o pós-teste de noticing dos dois grupos de participantes.
Isto posto, trazemos primeiramente os resultados do teste Wilcoxon que compara o pré e o pós-teste de noticing do grupo experimental, ou seja, a capacidade de noticing dos participantes antes e depois das 11 semanas escrevendo FF colaborativamente com o GD.
65 Como é possível observar na Tabela 1, o resultado do teste não foi estatisticamente significativo (0,06>0,05)33, além de ter revelado um direcionamento contrário ao esperado. Ainda, os números apresentados na Tabela 2 mostram que, ao contrário do previsto, a média do grupo experimental caiu 0,12 pontos, o que indica que os participantes passaram a perceber menos erros sintáticos do pré-teste para o pós-teste.
Test Statisticsa
EXPposNOTICING - EXPpreNOTICING
Z -1,820b
Asymp. Sig. (2-tailed) ,069
a. Wilcoxon Signed Ranks Test b. Based on positive ranks.
Tabela 1: Resultado do teste Wilcoxon de noticing do grupo experimental
Descriptive Statistics
N Minimum Maximum Mean Std. Deviation
EXPpreNOTICING 17 ,00 ,78 ,3900 ,26995
EXPposNOTICING 17 ,00 ,68 ,2747 ,22913
Valid N (listwise) 17
Tabela 2: Estatísticas descritivas do noticing do grupo experimental
Ainda que o resultado do noticing do grupo experimental tenha ido de encontro ao esperado, vale compará-lo ao desenvolvimento desta variável pelo grupo controle, em busca de uma possível explicação. A Tabela 3 exibe os resultados do teste Wilcoxon do grupo controle, que, assim como o resultado do grupo experimental, não atingiu significância estatística.
Test Statisticsa
CONposNOTICING - CONpreNOTICING
Z -,333b
Asymp. Sig. (2-tailed) ,739
a. Wilcoxon Signed Ranks Test b. Based on positive ranks.
Tabela 3: Resultado do teste Wilcoxon de noticing do grupo controle
A Tabela 4 mostra que a média de pontos do grupo controle aumentou do pré para o pós-teste, o que significa que os participantes passaram a perceber mais erros sintáticos nos textos em L2 que leram e analisaram. Considerando que esses participantes demonstravam baixa proficiência oral em L2 quando os encontramos para o pré-teste no início do semestre acadêmico 2014.1, o pequeno aumento na média pode ser resultado de um primeiro contato mais aprofundado com aspectos formais da língua, em contraste com o nível de proficiência
66 oral mais elevado demonstrado pelos participantes do grupo experimental durante os encontros presenciais que tivemos com eles.
Descriptive Statistics
N Minimum Maximum Mean Std. Deviation
CONpreNOTICING 9 ,00 ,21 ,0511 ,06900
CONposNOTICING 9 ,00 ,42 ,0578 ,13755
Valid N (listwise) 9
Tabela 4: Estatísticas descritivas do noticing do grupo controle
Em uma tentativa de explicar a falta de impacto da escrita colaborativa sobre a capacidade de noticing dos participantes, contrariando o que havíamos antecipado, podemos atribuir este resultado ao modelo de teste adotado para a medição da variável. Protocolos orais se tornaram comuns em estudos que investigam construtos cognitivos como o noticing, apoiados pela ideia de que somente a capacidade de reportar verbalmente denota consciência (GODFROID; SCHMIDTKE, 2013).
Contudo, apoiar o estudo exclusivamente nos resultados de protocolos orais pode gerar um problema na análise, se ponderarmos que não reportar não necessariamente significa não ter consciência de algo. Participantes com baixos escores podem, na verdade, ter um baixo nível de consciência, o que os leva a não incluir determinados pontos na verbalização (GODFROID; SCHMIDTKE, 2013).
A aplicação de protocolos orais também traz à tona a discussão sobre reatividade
(GODFROID; SCHMIDTKE, 2013). A verbalização online (i.e., realizada
concomitantemente à análise textual) poderia alterar o processamento cognitivo dos indivíduos e gerar resultados diferentes (GODFROID; SCHMIDTKE, 2013; LEOW, 2013).
Para Godfroid e Schmidtke (2013), para obter resultados mais consistentes o ideal é triangular a verbalização (o protocolo oral) com dados do eye-tracking. Desta forma é possível obter um registro mais confiável do processamento cognitivo dos participantes, considerando que o movimento dos olhos é constante durante todo o processamento, ao contrário das verbalizações. Por exemplo, o participante pode simplesmente não verbalizar um erro sintático ao se deparar com ele, o que lhe daria um ponto a menos no escore total. O eye-tracking, todavia, registra o foco dos olhos do participante durante a leitura, indicando que ele percebeu um erro sintático em determinado ponto do texto, apesar de não tê-lo verbalizado.
67 Também podemos argumentar que a produção de um gênero literário, como é o caso do FF, tenha impactado negativamente a capacidade de noticing. As regras de composição das narrativas FF não focavam aspectos formais. Pelo contrário, focavam nos aspectos discursivos da narrativa, para lhe atribuir mais impacto. Ou seja, no decorrer das 11 semanas em que produziram FF colaborativamente, os participantes estavam focados em outros aspectos (discursivos) das narrativas; não desenvolveram de fato a capacidade de detecção de erros relacionados a aspectos formais da L2, o que se refletiu na performance no pós-teste.
Uma vez analisados os resultados dos testes de noticing, na próxima seção trazemos os resultados da comparação dos sets de pontuação do grupo experimental em relação às variáveis acurácia gramatical e densidade lexical.
4.2 A ESCRITA COLABORATIVA E O DESENVOLVIMENTO DA ACURÁCIA GRAMATICAL E DENSIDADE LEXICAL
Nesta seção apresentamos os resultados do teste Wilcoxon das variáveis acurácia gramatical e densidade lexical. Nosso objetivo foi verificar se a escrita colaborativa em L2 impactaria a produção textual dos participantes no tocante ao número de erros gramaticais e substituições lexicais.