A partir de Deffontaines, (1944), Abreu (1982 e 1984), Martins (2004) e das pesquisas de campo (entrevistas e questionários aplicados) que realizamos em Diamantina, podemos afirmar que, frente ao relativo isolamento e possuindo uma economia cuja base sempre esteve voltada para o autoconsumo, o diamante representou, até as últimas décadas do século XX, a base econômica da vida regional. Diamantina sempre contou com sua posição fundamental em relação ao norte e nordeste mineiro, como elemento de articulação dos municípios da Zona da Mata e do Sertão do Rio das Velhas, garantindo-lhe certo papel como centro comercial e de serviços na estrutura urbana regional, ao longo de sua história.
Logo, a mineração e as atividades que se desenvolveram paralelamente (analisadas ao longo do capítulo 3.1) foram o carro chefe do processo de produção e valorização do espaço em Diamantina até o fim do século XX, quando a legislação ambiental impediu a atividade do garimpo na região (contudo, a atividade prossegue na clandestinidade, dada a carência de emprego na região). Entre as décadas de 1930 e 1970, Diamantina tornou-se uma cidade de funcionários públicos, cujos serviços polarizavam a área compreendida entre os municípios de Curvelo, ao sul, e Araçaí, ao norte. Uma espécie de compensação pela não-industrialização e pela perda da posição como principal centro de redistribuição de mercadorias do Norte de Minas (MARTINS, 2004).
Entre as décadas de 1930 e 1970, a cidade aparece também como local de moradia de proprietários de terras minerais que nela gastavam a renda que auferiam de seus garimpos, e de milhares de funcionários públicos que, com seus salários regulares, movimentavam a venda de mercadorias e serviços, para cuja oferta havia uma pulverizada rede de pequenos estabelecimentos diversos, como aponta Martins (2004) e pudemos observar através de pesquisa de campo, tanto antigos mineradores como uma significativa rede comercial e de serviços. Em torno dessas camadas, parte da população sobrevive de atividades ligadas aos trabalhos domésticos, às indústrias artesanais, ao comércio ambulante e às ações de caridade. Ainda, outra parte da cidade organiza-se em torno do atendimento ao comércio atacadista que atende à região, cujos estabelecimentos não têm mais a dimensão nem as pretensões hegemônicas do passado, ocupando-se apenas com
o abastecimento de vendeiros que atuam nos distritos e nas pequenas cidades vizinhas a Diamantina, segundo Martins (2004).
Esse quadro vem mudando, gradativamente, nos últimos anos, devido às novas ações dirigidas ao centro histórico de Diamantina; considera-se a importância do seu patrimônio edificado para o desenvolvimento econômico local e regional por meio do turismo. Para Carsalade (2000), a cidade pode funcionar como indutora de desenvolvimento do Norte de Minas, considerando que o patrimônio cultural pode ser um atrativo de recursos de diversas fontes, com reflexos positivos para a população local, na concepção do autor.
É a partir da refuncionalização de seu patrimônio cultural104 que Diamantina embarca na fase que denominamos de cenarização progressiva. O processo que se desenrolou ao longo das fases que apresentamos é acelerado com sua inclusão na Lista do Patrimônio Mundial105, caracterizando, juntamente com a implementação do Programa
Monumenta (que analisaremos no capítulo seguinte), “eventos” que promovem o intenso processo de valorização do espaço urbano de Diamantina, agora projetada no cenário internacional e envolvida pela lógica da “indústria cultural” por meio do turismo.
O interesse à candidatura a Patrimônio Cultural da Humanidade partiu da Prefeitura que teve no IPHAN, no IEPHA/MG, na Fundação CEBRAC (Centro Brasileiro de Referência e Apoio Cultural) e no Ministério da Cultura o apoio no processo que durou de 1997 a 1999, quando a cidade foi incluída na Lista do Patrimônio Mundial.
Na época, foi apresentado um quadro geral da arquitetura do conjunto, ou seja, as condições materiais do centro histórico, juntamente com as condições socioeconômicas apresentadas por Diamantina. Dentro do zoneamento estabelecido no planejamento urbano de Diamantina, o centro histórico é considerado como uma ZPR (Zona de Proteção Rigorosa), de forma que foram estipulados para o mesmo alguns
104 Funções que se modificam, gradativamente, de acordo com as quatro fases apresentadas ao longo deste terceiro capítulo.
105 O procedimento de inscrição de um bem na lista do Patrimônio Mundial demanda duas fases distintas. Na primeira, o Estado interessado inventaria o bem cultural e aplica as medidas necessárias para sua proteção. Na segunda, a solicitação da inscrição do bem cultural é submetida ao exame e à deliberação do ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e Lugares de Interesse Artístico e Histórico), cujo comitê defere ou rejeita a proposta de inscrição do bem (Silva, 2003). No caso de Diamantina, foi proposta pelo governo federal por intermédio do Ministério das Relações Exteriores mediante dossiês encaminhados ao ICOMOS, instruídos com o nome do patrimônio e dos bens que o constituem, sua localização geográfica, as medidas de proteção e a justificativa de seu “valor universal excepcional”, como apontamos no segundo capítulo deste estudo.
critérios na determinação dos imóveis a serem cadastrados para a candidatura à Lista, que são eles: 1) construções do século XVIII e XIX; 2) o conjunto não estar descaracterizado radicalmente; 3) considerou-se o perímetro de tombamento federal, do IPHAN, ou seja, a paisagem mais antiga da cidade. (IPHAN, 1998).
Logo, esses critérios selecionados para a candidatura de Diamantina a Patrimônio Mundial serviram, posteriormente, como características fundamentais na busca de singularidades para o estabelecimento de uma renda para a cidade, em especial de uma “renda monopolista”, sobre a qual discute Harvey (2005). O autor, na tentativa de esclarecer como a “indústria cultural”, através dos processos contemporâneos de globalização econômica, se relaciona com as localidades e as formas culturais, busca subsídio no conceito de “renda monopolista” da economia política. Segundo Harvey, esse conceito pode propiciar interpretações valiosas sobre muitos dilemas práticos e pessoais resultantes do nexo entre globalização capitalista, desenvolvimentos político-econômicos locais e ampliação dos sentidos culturais e dos valores estéticos, como vem ocorrendo em Diamantina.
Toda renda se baseia no poder monopolista dos proprietários privados de determinadas porções do planeta. A renda monopolista surge porque os atores sociais podem aumentar seu fluxo de renda por muito tempo, em virtude do controle exclusivo sobre algum item direta ou indiretamente, comercializável, que é, em alguns aspectos, crucial, único, irreplicável. (HARVEY, 2005, p.222).
Assim, fica claro que para a renda monopolista se materializar, é preciso encontrar algum modo de conservar únicos e particulares as mercadorias ou os lugares, onde a vantagem monopolista se encontra numa economia mercantil e competitiva. A competição sempre tende para o monopólio ou oligopólio, pois a sobrevivência do mais apto, na guerra de todos contra todos, elimina os mais fracos (HARVEY, 2005).
O recente surto de globalização contribui na diminuição dos custos de transporte e com a redução das barreiras espaciais para o movimento de bens, capital, pessoas e informação (a implantação de um aeroporto em Diamantina, e o investimento em melhoria das estradas que a liga a cidades vizinhas e a Belo Horizonte, representa a diminuição dessas barreiras). No entanto, paradoxalmente, esses benefícios fazem por diminuir drasticamente a proteção monopolista conferida historicamente pelos altos custos
de transporte, comunicação e pela existência de grandes barreiras comerciais, no passado. Contudo, Harvey (2005) afirma que o capitalismo não pode existir sem esses poderes monopolistas, e busca meios de reuni-los. O centro histórico de Diamantina é o meio de reprodução dessa renda para os agentes, dada sua distinção num contexto mais amplo de cidades.
Logo, a ordem do dia é como reunir os poderes monopolistas numa situação em que foram muito reduzidas, quando não eliminadas, as proteções proporcionadas pelos assim chamados “monopólios naturais” do espaço e da localização, assim como as proteções políticas das fronteiras nacionais (HARVEY, 2005).
A centralidade da análise de Harvey (1980, 2005) para nossa pesquisa encontra-se na afirmação de que a idéia de cultura está cada vez mais enredada com as tentativas de reassegurar tal poder monopolista, exatamente porque as alegações de singularidade e autenticidade podem ser melhor articuladas enquanto “alegações culturais distintivas e irreplicáveis (...) as alegações monopolistas são tanto uma influência do discurso, como resultado do empenho enquanto reflexão a respeito das qualidades do produto.” (HARVEY, 2005, p. 228).
De um total de 418 imóveis inventariados para a inclusão na Lista, 140 são do século XVIII, a maior parte restante, do século XIX. Na época, foi constatado, de acordo com critérios do IPHAN, que 30% do conjunto apresentavam-se preservados com materiais e estética originais, 40% apresentou apenas a fachada conservada e 30% dos imóveis foram considerados descaracterizados. De acordo com a Proposta de Inscrição, a população colaborou demasiadamente, abrindo suas casas e prestando todas as informações possíveis para a efetivação do inventário.106
Interessante observar que 3 em cada 10 construções possuem dois ou três pavimentos; 1 em cada 4 construções possuem dois pavimentos; de forma que a maioria
106 Impressiona-nos a disponibilidade e a hospitalidade do diamantinense. Por ocasião de nossas pesquisas de campo, em todos os contatos estabelecidos fomos muito bem recebidos e orientados, a ponto de oferecerem pouso e alimentação a um forasteiro; hospitalidade que não se assemelhou em Tiradentes, muito menos em São João Del Rei, por ocasião de nossas pesquisas anteriores. Saint-Hilaire (1974, p. 40), no início do século XIX, parece ter tido a mesma sensação que a nossa e comenta sobre o tratamento recebido quando do acidente que sofreu. “À minha chegada a Tijuco encontrei os principais moradores do lugar reunidos na casa em que me hospedei, e recebi as provas do mais tocante interesse. Essas provas continuaram durante todo o tempo em que estive sob tratamento e jamais falarei de Tijuco sem um sentimento de profundo reconhecimento. A população inteira tomou parte no acidente que sofri; pessoas mesmo que eu nunca vira vinham pedir notícias ao meu tropeiro e testemunhavam-lhe satisfação quando ficavam sabendo que haviam exagerado muito as conseqüências de minha queda (...) Durante minha estada no Distrito dos Diamantes deles recebi todas as delicadezas imagináveis; enquanto estive doente fui tratado como se estivesse na minha casa paterna, tantas foram as provas de carinho e amizade que recebi”.
dos edifícios é térrea. Apesar de a paisagem urbana ser caracterizada pela horizontalidade, onde a altimetria varia em pontos especiais como praças, largos e algumas esquinas, impressiona a quantidade de sobrados e o ordenamento do espaço urbano colonial de Diamantina (urbanística analisada no capítulo 3.1.4), características que se somam à sua localização em uma encosta de topografia demasiadamente acidentada; o que a dá uma ambiência diferenciada em relação a Ouro Preto, São João Del Rei, Tiradentes, Sabará e Santa Luzia, por exemplo, cidades da zona do ouro, como vimos no capítulo 3.1, o que a dá notoriedade na antiga zona dos diamantes.
Como a incessante busca do lucro impõe a procura ou estabelecimento de critérios de especialidade, singularidade, originalidade e autenticidade nos lugares, buscou-se na irreplicabilidade da forma urbana e na história de Diamantina as justificativas para sua inclusão na Lista.107 A análise mostra-nos que se não for possível estabelecer a singularidade pelo apelo à tradição, ou pela descrição direta de alguma característica local, outros modos de distinção deverão ser “criados” para se estabelecer alegações e discursos que estabeleçam o aumento da renda e a distinção do lugar. Nesse sentido, tem grande relevo o papel da mídia na dinamização da “indústria cultural” para o desenvolvimento do turismo na cidade.
Ainda de acordo com a Proposta de Inscrição de Diamantina como Patrimônio Cultural da Humanidade, fica evidente a função comercial e de serviços que representa o centro histórico, a “área mais nobre e tradicional da cidade”. Há uma distribuição desigual do comércio/serviços , sobretudo próximo às igrejas. É corrente a reclamação sobre o trânsito e a barulheira no centro histórico, carência de limpeza pública, opções de lazer e assistência de saúde, considerações que faremos nos capítulos seguintes com maior ênfase.
Não podemos desconsiderar que as tentativas de acumulação (no nosso entender a campanha para a inscrição de Diamantina na Lista do Patrimônio Mundial teve como primeiro objetivo o desenvolvimento do turismo, não a busca de um instrumento de
107 Conforme nosso capítulo 2, os critérios adotados pela UNESCO para a inclusão de Diamantina na Lista do Patrimônio Mundial foram: critério (ii) - testemunhar uma influência considerável, durante um período dado ou em uma área cultural determinada, sobre o desenvolvimento da arquitetura ou da tecnologia, das artes monumentais, do planejamento das cidades ou da criação de paisagens; critério (iv) - representar um exemplo excepcional de um tipo de construção ou de conjunto arquitetônico, ou tecnológico, ou paisagem ilustrativa de um ou mais períodos significativos da história humana.
salvaguarda do patrimônio cultural) constroem e destroem, dialeticamente, o desenvolvimento social e a tradição cultural local.108 Há o interesse atual tanto na
inovação cultural do lugar como na ressurreição e invenção de tradições locais, com o propósito de dinamizar a atividade turística.109
Se as alegações de singularidade, autenticidade, particularidade e especialidade sustentam a capacidade de conquistar rendas monopolistas, então sobre que melhor terreno é possível fazer tais alegações do que no campo dos artefatos e das práticas culturais historicamente constituídas, assim como no das características ambientais especiais (incluindo, é claro,
os ambientes sociais e culturais construídos)? (HARVEY, 2005, p. 232,
grifo nosso).
É interessante notar que a Proposta de Inscrição considerou que a principal atividade econômica de Diamantina no momento de sua elaboração, em 1998, era o garimpo (que se encontrava em declínio), seguido da agricultura de subsistência, de forma que o turismo não foi visto como aspiração prioritária da população (é bom notar que, naquele momento, o turismo já se encontrava em desenvolvimento), o que contraria os dados colhidos por nós nas atividades de campo, onde a população mostrou-se favorável ao desenvolvimento do turismo em Diamantina (identificamos – como veremos com detalhes na última parte da pesquisa – em campo, que o aparente [novos fluxos na cidade] torna-se o principal fator de transformação do imaginário do residente, que não compreende as contradições inerentes à própria reprodução do capitalismo e transformação socioespacial de Diamantina).
Outra questão a ser observada é que com o declínio da mineração no século XIX, a cidade pouco cresceu; a partir da década de 1950, aparecem manchas fora do sítio original; o Bom Jesus, Vila Operária, Fátima e Presidente.
Logo, como instrumento de preservação, a Proposta de Inscrição pontuou as zonas de proteção, a saber:
108 O investimento na área central da cidade em contraposição à periferia, a manutenção de edifícios específicos do centro histórico em detrimento ao conjunto, através do Programa Monumenta, as ações particularistas e mercantis do mesmo em prejuízo da coletividade, o estabelecimento de eventos voltados, sobretudo, para o desenvolvimento turístico – como, por exemplo, as Vesperatas que acontecem duas ou três vezes ao mês, de março a outubro e seu famoso carnaval – que se sobrepõem a eventos tradicionais como os religiosos, que se desintegram no imaginário do residente, representam essa dialética, espacialmente.
• Zona de Proteção Rigorosa (ZPR) – entendida a partir do perímetro de tombamento feito pelo IPHAN em 1938, limitando o adensamento da ocupação.
• Zona de Proteção (Entorno da ZPR) – limitando altura das edificações e disposição de cores que não desconfigure o centro • Zona de Proteção Paisagística (ZPP) – visa preservar a paisagem
formada pela mancha urbana em conformação com a paisagem natural, formada em 4 pontos e grande área relativa
• Zona de Contenção de Ocupação de Encosta (ZCO) – controle emergencial da ocupação da vertente da Serra de Santo Antônio, visível da encosta onde está a cidade.
A partir da Proposta de Inscrição, foi elaborado, em 1999, o Plano Diretor de Diamantina, como última etapa da campanha iniciada em 1997 pela elevação da cidade a Patrimônio Mundial.
O Plano Diretor estabeleceu-se como um documento fundamental de orientação do poder público e da iniciativa privada. Consta como seus objetivos: 1) garantir as funções sociais da cidade e a propriedade imobiliária urbana; 2) melhorar a qualidade de vida dos habitantes, indicando áreas que devem receber especial atenção do município, minimizando desigualdades na distribuição dos equipamentos e serviços urbanos110; 3) garantir a preservação do Patrimônio Arquitetônico e Urbanístico através de
restrições à construção dentro das áreas oferecidas à UNESCO para Patrimônio Cultural da Humanidade e tombada pelo IPHAN, e da regulamentação de uso e ocupação fora desta área111; 4) conter a expansão da área ocupada de forma desordenada e imprópria,
buscando alternativas para a ocupação indesejada.112
O Plano Diretor de 1999 previa diretrizes de proteção do patrimônio cultural e da memória que simboliza, priorizando o conjunto, a ambiência e os bens isolados,
110 Esse objetivo traçado em 1999 não está sendo alcançado, ao contrário, agrava-se sobremaneira, em Diamantina, decorridos 9 anos. A periferia de Diamantina clama por melhores condições de vida, de acordo com nossos questionários.
111 Observamos uma maior atenção destinada ao centro histórico em relação aos demais bairros ou Zonas de Preservação da cidade.
112 Talvez essa ocupação desordenada seja mais indesejada pelos agentes sociais (que não vêem outra saída para sua sobrevivência, a não ser a ocupação de terrenos desocupados do espaço urbano) que a fizeram do que pelos responsável pelo planejamento urbano de Diamantina.
protegendo os elementos paisagísticos e permitindo a visualização do panorama e a manutenção da paisagem em que estão inseridos. O Plano Diretor também priorizou disciplinar usos de comunicações visuais para resgate da paisagem urbana. Sobre as diretrizes do sistema viário e de transportes, frisou a garantia de condições de preservação do centro histórico com medidas disciplinadoras quanto à circulação dos veículos de grandes dimensões e peso, bem como redução dos veículos de passeio pela área tombada. Isso não vem ocorrendo na cidade (foto 18). Não podemos esquecer que o trânsito intenso nos núcleos urbanos tombados constitui-se em um dos mais graves problemas que assolam o patrimônio edificado.
Foto 18 – O centro histórico de Diamantina ainda apresenta um intenso fluxo de veículos leves e pesados, o que caracteriza uma das grandes problemáticas que impactuam as cidades
históricas no Brasil. Foto do autor / jan. 07.
A valorização do centro histórico de Diamantina mostra que o que é colocado em jogo é o poder do “capital simbólico coletivo” (HARVEY, 2005), a “valorização” da excepcionalidade, dos marcos de distinção e da autenticidade vinculados a lugares dotados de um poder de atração importante em relação aos fluxos de capital de modo
mais geral. Esse “capital simbólico coletivo” vinculado a nomes e lugares especiais, como Diamantina, uma cidade estrategicamente alcançada pelo turismo via “indústria cultural”, torna-se preponderante ao conferir à cidade vantagens econômicas em relação a outras. A globalização atual e a mundialização dos lugares favorecem o desenvolvimento desse processo.
Segundo Harvey (2005), a ascensão de uma cidade num sistema internacional de cidades requer uma firme acumulação tanto de “capital simbólico” como de marcos de distinção. Baseia-se o desenvolvimento desses atributos em bombardeios de imagens e “valorização” da história, da tradição e da cultura local, onde o marketing, a respeito de realizações artísticas relacionadas a esses valores, presta um apoio necessário à formulação desse processo. É nesse sentido que se estabelece uma avalanche de publicações, exibições e eventos culturais que subsidiam a atração do capital e valorizam o espaço (caso do atual carnaval e das Vesperatas, em Diamantina113). Vemos, assim, a
cultura e a economia convergirem, correndo uma na direção da outra, dando a impressão de que a nova centralidade da cultura é econômica e a velha centralidade da economia tornou-se cultural (ARANTES, 2005).
Posicionamo-nos com Thompson (1995), para quem os produtos da “industria cultural” não são determinados por suas características intrínsecas como uma forma artística, mas pela lógica corporativa da produção de mercadorias e seu valor de troca, como é o caso das Vesperatas de Diamantina, que representam um novo produto atrativo de fluxos diversos e não um evento cultural para a comunidade local. A “indústria cultural” vende seu produto sem, contudo, entregá-lo ao consumidor, esse tem um encontro efêmero com a dita “cultura” singular ou “bem cultural” especial. Acreditamos que a idéia de Harvey (2005) sobre a “alegação de singularidades” para a distinção de um lugar, se dá através das imagens e representações emitidas por formas simbólicas que podem ou não ser fonte de reflexão, “objeto de identificação ou um referencial de interpretação” (THOMPSON, 1995, p. 136).
113 Vesperatas são as exibições de bandas de música a partir das sacadas dos sobrados coloniais. Acontecem de março a