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Este componente é o que mais se aproxima da estratégia de supervisão clínico-institucional, implementada em anos anteriores pela CGMAD. Teve sua implementação iniciada no ano de 2016, após a finalização das etapas de intercâmbio e das oficinas de integração do processo de trabalho. Em alguns municípios esse processo é concomitante com a realização das ações previstas no plano de educação permanente.

Para este componente, a CGMAD elaborou um instrutivo para apresentação de projetos e para a indicação de profissionais responsáveis por sua implementação, direcionado apenas aos municípios participantes do PPF.

Entende-se como Engrenagens da Educação Permanente o processo de formação e qualificação da equipe de trabalhadores da RAPS e Redes Intersetoriais. Esse processo se traduz na dedicação de tempo na organização das Redes para discussão e estudo de Projetos Terapêuticos Singulares – PTS, propostas de atuação dos pontos de atenção, articulações com o território e dos processos de trabalho, considerando as dimensões da gestão e da clínica na perspectiva institucional e intersetorial fortalecendo o itinerário do usuário no território e, sobretudo, fomentando e apoiando o desenvolvimento e transferência de tecnologias inovadoras entre serviço- comunidade-usuário84 (p.1).

O componente de Engrenagens da Educação Permanente se aproxima da iniciativa de supervisão clínico-institucional, porém com algumas reformulações em relação especialmente à forma de repasse do financiamento para realização do projeto e ao perfil do profissional indicado para sua implementação. Essas alterações aconteceram a partir do entendimento, pela CGMAD, de que a forma de repasse financeiro e o método de seleção de projetos e supervisores não eram satisfatórios e acarretavam a inviabilização da execução das ações. Essa reformulação visou superar desafios identificados a partir das experiências já implantadas no país, como: i) a sustentabilidade dos projetos após a finalização do financiamento pelo MS; ii) a contratação e o pagamento dos profissionais dedicados à realização do projeto; iii) regularidade dos encontros/reuniões; iv) prestação de contas e v) alinhamento das ações e diretrizes do projeto84.

Para a realização desta etapa, o instrutivo previu a indicação de um profissional, denominado de Ativador de Redes, que tem por função desencadear e estimular os processos de educação permanente e as reflexões das equipes locais sobre suas práticas, por meio de reuniões conjuntas e rodas de conversas temáticas84.

O instrutivo definiu, ainda, que o ativador poderia ser um profissional da equipe local ou um profissional externo ao município, porém residente na mesma Região de Saúde do município para o qual foi indicado. No documento recomendou-se que os ativadores sejam eleitos pelo coletivo de trabalhadores da RAPS local, tenham passado pelo intercâmbio, tenham perfil de multiplicador e possuam experiência profissional na área de saúde mental e/ou saúde coletiva, com atuação em ações e serviços do SUS.

proposta levou em consideração a formação e/ou experiência comprovada na área de saúde mental, álcool e outras drogas por parte do ativador indicado, especialmente na linha de ação desenvolvida pelo respectivo município no âmbito do PPF.

É atribuição dos ativadores de redes: i) estimular a construção de uma linha de cuidado que atravesse todos os pontos de atenção e dispositivos da rede de saúde e rede intersetorial; ii) construir e fortalecer as estratégias de acolhimento, ampliação do acesso e flexibilização da porta de entrada aos serviços da Rede; iii) estimular a atenção às situações de crise em todos serviços, com acompanhamento corresponsabilizado durante as internações, caso necessárias; iv) criar estratégias de busca ativa; v) facilitar a construção de estratégias para a inserção social, familiar, laboral, educativa e cultural dos usuários; vi) fortalecer a atuação da Rede para o desenvolvimento da linha de ação do Projeto.

Com o objetivo de alinhar as ações a serem realizadas, os ativadores de redes teriam um encontro mensal para orientação com Tutores, que são profissionais com expertise nas linhas de formação do PPF, indicados pela CGMAD.

Para cada um dos 15 módulos, foi designado um tutor, cuja tarefa consiste em:

(…)auxiliar os ativadores de redes no desenvolvimento do componente de Engrenagens da Educação Permanente, a partir das demandas dos módulos de formação e das linhas de ação do Projeto Percursos Formativos da RAPS, auxiliando a qualificação e alinhamento da atuação dos(as) ativadores(as) de redes nos territórios84 (p.4).

Os municípios deveriam, ainda, encaminhar projeto para o desenvolvimento do componente de Engrenagens da Educação Permanente, contemplando reuniões regulares quinzenais e rodas de EP. Segundo o instrutivo, os projetos deveriam: i) estar em consonância com os princípios do SUS e com as diretrizes da PNSM; ii) propor ações para o fortalecimento e qualificação das redes de atenção em saúde; iii) contribuir com a qualificação da atuação dos profissionais dos serviços de saúde mental e da rede intersetorial; iv) ser articulados com o PEP desenvolvido pelo município; v) fomentar e apoiar o desenvolvimento de tecnologias inovadoras no campo; vi) fortalecer a articulação com o controle social e a rede de proteção social.

O financiamento desta etapa aconteceu de maneira diferenciada das anteriormente descritas. Não houve repasses realizados pelo MS aos municípios participantes. Através de uma parceria com a Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruzh, o MS estabeleceu o valor mensal de R$ 1.500,00

(mil e quinhentos reais) para pagamento direto aos ativadores e R$ 2.000,00 (dois mil reais) para pagamento direto aos tutores. Além disso, os custos relativos ao deslocamento, alimentação e acomodação para os encontros mensais entre tutores e ativadores também foram financiados por meio dessa parceria.

O componente de Engrenagens da Educação Permanente, quarta fase do PPF, teve início em fevereiro de 2016, com finalização prevista para os meses de novembro e dezembro do mesmo ano, tendo duração total de dez meses.

Considerando todo o escopo do PPF, em suas quatro etapas, o Projeto previu a realização de intercâmbio entre experiências com participação de cerca de 1.600 profissionais; 82 oficinas de integração do processo de trabalho em 82 municípios, contemplando cerca de 4.500 pessoas entre usuários, familiares, trabalhadores e gestores de diferentes serviços; o desenvolvimento e implementação de 96 planos de educação permanente e a execução do componente de engrenagens da Educação Permanente em 92 municípios60,67.

Convém salientar que o PPF relaciona-se com PNEPS por meio de sua proposta de aprendizagem colaborativa e significativa, que busca produzir sentido para o trabalho cotidiano nos serviços de saúde mental e propõe que a transformação das práticas profissionais seja baseada na reflexão crítica sobre as práticas reais21,61

Se, de um lado, a incorporação de novos padrões de compreensão dos fenômenos e o desenvolvimento de novas atitudes para a ação neste cenário de mudanças dependem de deslocamentos emocionais, desterritorializações e reterritorializações, (GUATARRI; ROLNIK, 1986), por outro lado, o processo de aprendizagem passa pela mobilização de recursos emocionais e corporais, para recompor novas racionalidades que permitam articular ações concretas para a mudança.

Desta forma, a mobilização de recursos emocionais na aprendizagem em prática de trabalho, aliada às reflexões coletivas em grupo, permite nascer uma disposição à mudança. Isto é, neste projeto significa aprender sobre a história da Reforma Psiquiátrica dentro de um contexto de práticas inclusivas, associadas à perspectiva de direitos e conquistas da cidadania. Este formato de aprendizagem é fundamental para a elaboração de novas estratégias de atuação, uma vez que funciona como disparador de questionamentos e aglutinador de propostas e soluções que são dinâmicas e contingentes, de acordo com o movimento das redes61 (p.31-32). Nesse contexto, o Projeto fomenta e favorece as problematizações e reflexões coletivas e individuais sobre a atuação dos trabalhadores e sobre os paradigmas em saúde mental, tendo como eixo central a superação do paradigma asilar e tem como potência trazer novos sentidos às equipes que encontram na colaboração e no espaço do encontro a possibilidade para

serviço a conflitos entre a equipe, além da reavaliação dos impasses no processo de trabalho. Entende-se, assim, o Projeto como coparticipante na transformação das instituições60,61. O PPF aqui descrito é o objeto desta pesquisa, que propõe uma análise exploratória desta estratégia, sob a perspectiva da AP, ao procurar identificar se o projeto foi capaz de incidir positivamente no processo de trabalho, bem como apontar as principais mudanças no identificadas pelos participantes, além de suas principais potencialidades e desafios.

O próximo capítulo dedicar-se-á ao percurso metodológico adotado para a análise aqui proposta.

Notas de fim do capítulo:

fInicialmente, as redes receptoras foram chamadas de redes preceptoras, ocorrendo a alteração da denominação

ao longo do projeto, partindo-se do entendimento de que os profissionais destas redes também estariam em processo de formação.

gAs redes visitantes foram inicialmente denominadas de redes em formação, e como as redes receptoras, também

sofreram alteração da sua denominação ao longo do projeto.

hFiocruz é uma fundação ligada ao MS, que tem como compromisso produzir, disseminar e compartilhar

Benzer Belgeler