A fala humana é consequência de uma intricada articulação através de processos cognitivos entre o cérebro, a laringe, as cordas vocais e a língua. É possível pensar-se que os elementos, adaptações e mutações necessários para seu surgimento tenham aparecido lentamente ao longo da evolução dos hominídeos. Lieberman (1995, p. 9) supõe que:
As estruturas e os mecanismos neurais de controle necessários para a produção dos complexos padrões da fala humana parecem ter se
desenvolvido apenas nos últimos 1,6 milhões de anos, mais ou menos. A anatomia comparada de primatas vivos e de hominídeos fósseis sugere que a evolução do trato vocal supralaringeal humano provavelmente começou nas primeiras populações africanas do Homo erectus e não se completou até o aparecimento dos humanos totalmente modernos.
O aparecimento do osso hioide foi uma dessas adaptações anatômicas funda- mentais para a fala: O hioide é um pequeno osso em forma de U que segura e permite a articulação da língua.
Quando falamos, o hióide, entre outras coisas, dá toda a sustentação física para que a região laringofaríngica possa sustentar-se e com isso as pregas vocais possam exercer suas funções vibratórias; ao mesmo tempo a língua, ancorada pela sua musculatura extrínseca pode realizar os inúmeros movi- mentos auxiliares na fonoarticulação (MACEDO, 2006, editorial II, pp. 0-0).
Além do hioide se desenvolveu mais, também à mesma época, o nervo hipo- glosso, que controla os movimentos da língua (PI NA, 1999). Havendo todo esse apara- to fisiológico e cognitivo, a formação da fala e das palavras talvez tenha se desenvolvido da mesma forma que se desenvolve hoje em dia em cada ser humano que se inicia na odisseia da comunicação e das interações socioculturais, acionadas pela linguagem. Es- timulada por experiência apropriada e contínua, a faculdade da fala teria possibilitado a criação de uma gramática, propulsora da geração de sentenças com propriedades for- mais e semânticas; auxiliando na formação de novas sinapses e na expansão das capaci-
dades cognitivas humanas.
“Há um refinado sincronismo entre como o cérebro se desenvolve e o que modela seu crescimento e maturação. É evidente desde a primeira infância que a estrutura e as conexões do cérebro são realmente esculpidas por nume- rosas influências ambientais e biológicas. Como o centro do pensamento, emoção, planos de ação e auto-regulação da mente e do corpo, o cérebro passa por um longo processo de crescimento, que de fato dura a vida inteira”40(ESLINGER, 2005, p. digital sem nº).
Pode ter havido um momento em que imagem e palavra se constituíssem num único elemento comunicativo. Além do uso dos sons, também essas imagens/palavras seriam utilizadas
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Traduçaõ do texto: “There is an exquisite synchrony between how the brain develops and what shapes its growth and maturation. It is evident from early infancy that the structure and connections of the brain are indeed sculpted by a number of environmental and biological influences. As the center for thought, emotion, actions-plans and self-regulation of mind and body, the brain undergoes a slow protracted growth process that actually is life-long” (ESLINGER. 2005).
na descrição do entorno de nossos ancestrais pré-históricos. Na imagem representada na figura 41 pode-se perceber a descrição gráfica de uma capivara, de seu tamanho e, proporcionalmente, o de sua cria. Percebemos também a sua velocidade através do ângulo formado pelas patas em relação ao corpo: quanto maior o ângulo interno tanto maior seria a velocidade. Isso explicitaria que seria exigida durante a caçada, do caça- dor pré-escrita, uma série de capacidades, como o poder correr a determinadas veloci- dades para poder abater o animal; além do fato de a imagem revelar que a cria acom- panha a mãe e, portanto, seria, se o caçador saísse vitorioso da empreitada, um valor agregado à caça.
[Os] hominídeos desenvolveram processos de reconhecimento de padrões, classificação em categorias e interpretação ordenada do mundo. Processos esses que, ao mesmo tempo em que estabelecem a base de uma linguagem, necessitam de um mecanismo de transmissão e compreensão de mensagens mais longas e complexas que caracterizam a própria linguagem. A utilização de sinais necessitava da proximidade entre os indivíduos, entre eles e entre o objeto discutido. Apenas uma linguagem oral (e depois escrita) permitia transmitir mensagens que não tivessem correspondência com a realidade percebida através dos sentidos (sentimentos, desejos e outros pensamentos abstratos). A partir daí o grupo humano pode passar a se beneficiar das ex- periências de um individuo e o indivíduo das experiências alheias. O desen- volvimento da fala e das tradições orais foi fundamental para a natureza adi- tiva do conhecimento humano e para a formação da cultura (REBELO, 2007, p. digital 1/1).
Poder-se-ia criar um som (uma “protopalavra”?) para representar a imagem ou suas partes, isto é: A imagem representa um fato, uma coisa, um processo ou um fe- nômeno. A palavra poderia designar não a coisa em si, mas sim, a sua imagem repre- sentativa. Ao fazê-lo o tempo para se dizer o fato representado seria muito menor do que o tempo necessário para representá-lo imageticamente. A palavra criada nomearia não só o fenômeno, mas sim, esse fenômeno mais todo o conjunto de ações e proces- sos relativos a ele. Com essa somatória a imagem poderia, então, ser a catalisadora de uma produção oral semântica. Assim, até por uma questão de economia de tempo e facilidade de produção, a fala teria se superposto à representação imagética na comu- nicação, revelando-se mais direta, curta e de menor grau de ambiguidade na denomi- nação das coisas e nas interações durante as relações sociais. Haveria, e é assim ainda, em conjunto com a economia, a capacidade que a oralidade dá ao indivíduo de exter-
nar pensamentos abstratos, a imaginação, os sentimentos, a religiosidade, de forma mais direta e menos sujeita a interpretações incorretas.