BÖLÜM 2: ENDÜSTRİYEL ATIK PORSELEN
2.3. Endüstriyel Porselen
Numa perspectiva clássica, de acordo com Zanten (2011), as políticas educacionais podem ser definidas como programas de ação governamental, estruturados a partir de valores e ideias, que se dirigem a públicos escolares e são implementados pela administração pública e pelos profissionais da educação.
É necessário destacar que, para além da definição clássica, as políticas públicas são influenciadas, tanto no seu processo de formulação quanto no de implantação, pelas forças antagônicas do poder que impera num determinado contexto histórico do modelo de produção capitalista. Portanto, a aplicação dessas políticas é um processo um tanto complexo, pois envolve tomada de decisões com vistas a atingir as finalidades de um determinado modelo de sociedade e conta com diferentes atores que intervêm nas deliberações.
No que tange à educação, de acordo com Zanten (2011), as decisões são tomadas em nome de valores universais com vistas à efetivação de pelo menos duas dimensões. A dimensão cognitiva, uma vez que se acredita que a emancipação individual e o progresso social dar-se-ão por meio do conhecimento. Ainda, a dimensão política, que envolve a atuação do Estado na materialização das normas e dos princípios de uma dada política educacional na vida dos indivíduos.
Desse modo, no cenário neoliberal, as políticas educacionais são concebidas como estratégias de encaminhamento de questões e demandas, em direção a uma maior eficácia das instituições educativas, com vistas a minimizar os impactos no sistema econômico. Vale destacar, portanto, que o neoliberalismo, fenômeno histórico, de natureza econômica e política, proposto a partir dos anos de 1980, representa outra lógica do Estado liberal capitalista, efetivada em nome da superação das crises geradas pelos modelos anteriores.
Diante da crise do capital instalada na década de 1970, os neoliberais encontram terreno fértil para implantarem um novo modelo de Estado, que consistiu na retomada e na atualização das teses clássicas do liberalismo dos séculos XVIII e XIX, as quais são reconhecidas na expressão corrente “menos Estado e mais mercado”.
Entre os precursores desse novo modelo destacam-se Ronald Reagan e Margareth Thatcher, que, no final da década de 1970 e início de 1980, assumem os governos, respectivamente, nos Estados Unidos e na Inglaterra. A atuação desses dois estadistas deu início ao longo processo de estruturação de uma hegemonia ideológica de caráter neoliberal. Vale lembrar que, embora os princípios neoliberais começassem a ser aplicados pelos governos, nos períodos mencionados, já o seu conteúdo programático foi amplamente discutido e arquitetado antes da década de 70 do século XX. Nesse sentido, merece ser feita uma breve retomada histórica do processo de engendramento dessa doutrina, bem como os seus principais marcos teóricos.
Friedrich Hayek (1899 – 1992) representa um dos expoentes na defesa dos princípios do neoliberalismo. Hayek e seus discípulos foram ferrenhos críticos das políticas intervencionistas keynesianas em nome do retorno aos princípios do mercado livre e autorregulado (BENTO, 2003; BEHRING; BOSCHETTI, 2006). Entre os seguidores de Hayek destaca-se o americano Milton Friedman, que também defende a liberdade como o fundamento essencial a todas as instituições e a vida humana de uma forma geral, sendo que ao Estado compete elevar ao máximo essa liberdade. Para esse teórico, as políticas sociais do Estado intervencionista extinguem a liberdade individual e anula a livre concorrência.
Apoiado nos pressupostos da liberdade dos indivíduos e das instituições, Friedman avança nas suas reflexões e assinala as relações entre a liberdade econômica e a liberdade política, lembrando que uma não pode existir sem a outra. Para ele, a liberdade política consiste na ausência de coerção sobre um indivíduo por parte do poder do Estado. Ao mercado, também livre, compete indicar com clareza as fronteiras entre o econômico e o político.
Na concepção de Friedman (1984), a regulação econômica e política devem ficar a cargo do mercado. O Estado, por sua vez, deve limitar-se a preservar a liberdade dos indivíduos, fazendo prevalecer a lei da ordem; assegurar a propriedade privada e institucionalizar regras que garantam as condições para o mercado se constituir. Essa liberdade propagada pelo neoliberalismo contribuiu para a aceitação de seus princípios, pois imprimia nas mentalidades elementos pseudodemocráticos e o sentimento de que a conquista de bens e direitos depende das escolhas e dos esforços individuais.
Associado a essa ideologia de liberdade, o neoliberalismo responsabiliza a intervenção estatal e as políticas públicas pela crise e as acusam de serem cerceadoras da livre escolha dos indivíduos, das instituições e do mercado.
Defensores do “Estado Mínimo”, os neoliberais creditam ao mercado a capacidade de regulação do capital e do trabalho e consideram as políticas públicas as principais responsáveis pela crise que perpassa as sociedades. A intervenção estatal estaria afetando o equilíbrio da ordem da ordem, tanto no plano econômico como no plano social e moral, na medida em que tende a desrespeitar os princípios da liberdade e da individualidade, valores básicos do ethos capitalista (AZEVEDO, 2004, p. 12).
A sofisticação do discurso neoliberal, evocando os princípios democráticos de preservação dos direitos e da liberdade dos cidadãos, se mostra como outra forma de convencimento para a conveniência do novo modelo econômico. Portanto, de acordo com Höfling (2001), os neoliberais agem a partir de uma tríade ideológica, uma vez que defendem enfaticamente as liberdades individuais, criticam a intervenção estatal e elogiam as virtudes reguladoras do mercado. Ideologicamente, o neoliberalismo propagava que era o Estado quem estava em crise e não o sistema capitalista. Dessa forma, os neoliberais encaminhavam normas e diretrizes orientando os governos a empreenderem a reforma dos Estados nacionais que consequentemente reergueria o mercado capitalista. Nessa mesma direção, Peroni (2003) afirma que
[...] mesmo os governos mais comprometidos com a lógica neoliberal não- intervencionista têm sido grandes interventores a favor do grande capital [...] que, ao mesmo tempo que se torna Estado mínimo para as políticas sociais e de distribuição de renda, configura-se como Estado máximo para o grande capital (p. 33).
As medidas aplicadas pelos governos neoliberais atingiram de forma mais profunda a área social, com cortes de gastos nesse segmento, recuo dos direitos sociais que passaram a ser substituídos por serviços de natureza assistencial, voltados para o auxílio à miséria.
As políticas sociais liberais, de cunho assistencialista, podem ter contribuído para tornar o mercado mais competitivo, combater o desemprego e a inflação e retomar o crescimento econômico; no entanto, faz-se necessário admitir que tais resultados foram pagos com o aumento da desigualdade social e da miséria, de forma especial nos países periféricos. Portanto, é preciso inverter o movimento proposto pelos neoliberais ou então garantir que ele ocorra de forma maximizada nos dois sentidos, proporcionando ao mesmo tempo crescimento social e econômico.
No que tange às políticas públicas de educação, essas sempre fizeram parte da agenda neoliberal por razões prioritariamente ideológicas. A escola representa um espaço favorável para a formação das massas em consonância com os princípios doutrinários do sistema neoliberal. Nesse sentido, o sistema educacional é condição indispensável para a reprodução das relações de produção, em face dos avanços das forças produtivas trazidas pelas inovações tecnológicas que exigem cada vez mais mão de obra qualificada e especializada.
No entanto, o neoliberalismo não defende a responsabilidade do Estado em relação à oferta de educação a todos os cidadãos. Contrariando os princípios democráticos do ensino público, universal, gratuito, de direito dos cidadãos e de dever do Estado em oferecê- lo, o neoliberalismo propõe que essa responsabilidade seja transferida para o setor privado, como forma de estimular a competição e o aquecimento do mercado pela busca de padrões de qualidade na oferta dos serviços educacionais.
De acordo com Azevedo (2004), o vírus do neoliberalismo não contagia as políticas educacionais com a mesma proporção com que atinge as outras políticas sociais. Isso por razões meramente ideológicas, pois é no espaço escolar que se formam os indivíduos em conformidade com a lógica do modelo econômico neoliberal, a partir de práticas curriculares devidamente arquitetados para tal fim. Assim, a educação é uma das funções permitidas ao
“Estado Guardião” e a ampliação da sua oferta é justificada pelos neoliberais como um dos fatores que concorre para a redução das desigualdades.
Entretanto, a autora destaca a necessidade de explicitar com mais clareza os parâmetros adotados pelo neoliberalismo em relação à oferta de cada nível de ensino: (i) educação básica – responsabilidade do governo, no entanto os poderes públicos devem dividir suas responsabilidades administrativas, e, se necessário, transferir para o setor privado; (ii) ensino profissionalizante – deve ser totalmente privatizado, dado que um melhor preparo profissional vai refletir, no futuro, em melhores salários; (iii) indivíduos talentosos, mas sem recursos – financiamento da formação mediante empréstimos públicos ou privados, assumindo os beneficiários a responsabilidade de pagar a dívida quando começarem a colher os frutos da valorização do seu capital humano.
Observa-se que esses ordenamentos neoliberais se fazem presentes também nas atuais políticas da educação superior, de forma especial no que se refere aos financiamentos realizados por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni), do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e das bolsas sociais concedidas pelas IES privadas em troca de isenção fiscal.
Diante do exposto, depreende-se que a educação superior deve, pois, ser analisada e compreendida a partir de um contexto social em que influencia e, também, é influenciada pelas questões históricas, a partir das mediações que ocorrem nas relações de produção econômica do capitalismo. Nessa mesma perspectiva, também são instituídas as políticas de avaliação que, seguindo as orientações neoliberais, têm dado ênfase à mensuração e ao controle de resultados, em detrimento da concepção formativa e emancipatória que objetiva a qualidade dos processos.
Vale destacar que nessa conjuntura situa-se o Sinaes, instituído em 2004 como uma política por meio da qual o Estado se propõe a garantir a qualidade na oferta da educação superior, como bem público e de direito de todo cidadão. No entanto, no processo de aplicação do Sinaes novas finalidades são imprimidas a essa política de avaliação, em consonância com interesses diversos, alterando, assim, as suas finalidades primeiras. Disso decorrem os antagonismos e os desvirtuamentos dessa política, influenciando, inclusive, os seus efeitos nas IES.
Se por um lado, o Estado, por meio do Sinaes, intenciona desenvolver uma avaliação formativa e processual, com vistas a induzir as IES a buscarem a qualidade dos seus processos, por outro, a atuação estatal tem se dado a partir de resultados mensurados por meio de exames pontuais e dos índices decorrentes destes. Essa forma de atuação do Estado tem
levado as IES a empreenderem arranjos estratégicos, com controle de insumos que lhes garantam os índices necessários para continuarem atuando no mercado. Para Afonso (2009), faz-se necessário que o Estado e as instituições definam se de fato a avaliação será utilizada apenas como instrumento de controle, ou, também, para a promoção do ser humano e das IES.
Vale destacar que os movimentos que perpassam as histórias das instituições privadas, campo-empírico deste estudo, estão circunscritos aos contextos do neoliberalismo. A vinculação dessas IES ao SEE/MG se deu no final da década de 1980, por força do texto da Constituição mineira de 1989. Os constituintes parecem ter encontrado no modelo neoliberal vigente, de descentralização do controle estatal, o respaldo necessário para tomar para a instância federada, por quase duas décadas, as funções de avaliação e regulação de IES privadas, constitucionalmente de direito do SFE.
Essa realidade das IES mineiras, eleitas para este estudo, é evidenciada pelo depoimento do coordenador de curso 1, da instituição A.
Eu vivi as três épocas aqui: antes da constituição mineira de 1989 em que a gente pertencia ao SFE, depois da Constituição de 1989 em que passamos para o SEE e a volta, em 2009, para o SFE, depois da ADI. Inclusive esse curso que eu coordeno foi reconhecido enquanto éramos ainda do Sistema Federal, antes da Constituição de 1989. Não sei se você tem conhecimento disso, mas antes nós pertencíamos ao Sistema Federal, e foi depois da Constituição de MG de 1989 que nós passamos a pertencer ao Sistema Estadual (CC1A, informação verbal).
O retorno das IEs mineiras para o SEE/MG, em 1989, pode ter decorrido, entre outros fatores, da ausência de dispositivos legais claros sobre as funções atinentes aos sistemas de ensino dos estados e ao SFE. O protagonismo de MG, de forma especial nas áreas da política e da educação, pode, também, ter movido as autoridades estaduais à iniciativa e cooptado o consentimento, ainda que velado, da União.
Por outro lado, observa-se que a instituição do Sinaes, prevendo a autoavaliação institucional e as avaliações externas, associando, ao mesmo, o controle do Estado com a autorregulação das IES, também atende às lógicas de descentralização previstas pelo neoliberalismo. Nessa perspectiva, a regulação do Estado fica, de certa forma, condicionada às ações da IES, como, por exemplo, o relatório anual produzido pela CPA, decorrente da autoavaliação institucional, que serve como um documento de referência para a atuação das comissões externas de avaliação in loco. Conforme explicitado anteriormente, disso decorre o
que Afonso (2001; 2009) denomina de regulação híbrida, que conjuga, ao mesmo tempo, o controle pelo Estado com estratégias de autonomia e de aurorregulação das IES.
O certo é que os prognósticos neoliberais que previam a redução das desigualdades pela via da escolaridade não têm se concretizado, uma vez que não são realizados os investimentos necessários para que as políticas educacionais se efetivem com a amplitude necessária no sentido de garantir uma formação acadêmica consistente e emancipadora.
Ademais, no atual cenário da educação superior, presencia-se o fortalecimento do segmento empresarial que vê a área educacional como um negócio rentável, preponderando, assim, a lógica do lucro em detrimento de investimentos nos processos acadêmicos.
1.5 Mercantilização da educação superior privada: estratégias do mercado e desafios