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3. KENTSEL EKOLOJĠ

3.2 Ekosistem ile Simbiyotik ĠliĢkideki Kent ve Tasarımlanan Metabolizması

3.2.3 Endüstriyel ekosistem ve biomimesis bağlantısı

6. PÓS-CAMPO (desfechos conhecidos)

Os desdobramentos ocorridos com os participantes do estudo, nos meses seguintes ao fechamento da Casa, foram acessados a partir de contatos telefônicos e por e-mail estabelecidos com dois dos participantes do estudo, Daniel e Espanhol. Tais contatos foram realizados de maneira espontânea por eles, para “dar notícias”. Segundo contaram, foram os únicos que conseguiram permanecer em abstinência nos meses posteriores ao fechamento da Casa. Segue um breve resumo destes contatos.

Os contatos com Daniel

Em início de fevereiro de 2009, Daniel me liga para contar que estava trabalhando em um ambulatório na zona leste de São Paulo e morando na casa da mãe, junto com seu filho. Estava feliz. Trabalhando bastante e satisfeito por poder inovar em seu trabalho. “Vem conhecer o ambulatório!” Foi novamente o seu convite, tal como nos primeiros contatos estabelecidos com a Casa.

Neste telefonema, Daniel me conta com orgulho sobre o quanto estava satisfeito com o novo trabalho e com as condições em que o estava desempenhando. Tinha liberdade para conceber e conduzir os grupos da maneira como desejasse, além de horários de trabalho e dias de folga estabelecidos. Estava procurando uma casa para alugar, próximo ao seu trabalho, onde pudesse morar com o filho.

Desde o fechamento da Casa, Daniel manteve contato regular com os antigos pacientes- moradores. Segundo contou-me neste telefonema, a grande maioria não havia dado sequência a nenhum tratamento para dependência química. Simplesmente haviam retornado à casa dos familiares e tentavam levar a vida adiante. Este foi o caso de Fernando, que continuou trabalhando no açougue da família e permanecia em abstinência. Já Michele, Breno, Cristina, Noronha, Guerreiro e Jeferson haviam recaído no uso das drogas. Destes, alguns voltaram a buscar tratamento, com ocorreu com Michele e Breno, que novamente haviam se internado em uma comunidade terapêutica. Outros, contudo, haviam “sucumbido ao uso”, chegando a passar dias fora de casa, sem qualquer contato com familiares e amigos, apenas mergulhado no consumo de crack ou cocaína. Este processo aconteceu com Guerreiro e, meses depois, viria a acontecer a Carlos.

Vale destacar que a recaída de Carlos, diferentemente do contexto de recaída dos demais colegas, não aconteceu em condições adversas de vida. Estava, ao contrário, em uma fase próspera de sua vida: vinha se destacando profissionalmente; estava morando com a namorada, com quem se relacionava desde o período da Casa; e havia estreitado o contato com os familiares. Tais conquistas, contudo, em sua trajetória clínica, representavam justamente situações de risco para recair no consumo de crack. Sobretudo o sucesso profissional. Diante da demanda e do destaque no trabalho, deixava de prestar atenção em si mesmo, em suas demandas e necessidades. Embora tivesse plena consciência deste funcionamento, novamente não conseguiu evitá-lo, ao manter desassistida a sua condição de dependência química. Aqui me refiro não apenas aos cuidados especializados, mas à frequência aos grupos de ajuda mútua, qualquer cuidado que o ajudasse a se manter atento às armadilhas da dependência, diante da roda viva do cotidiano.

Mesmo após o fechamento da Casa, Daniel manteve-se referência para os antigos pacientes-moradores e seus familiares, encaminhando-os para novos tratamentos e ajudando no ‘resgate’ dos que haviam sumido em dado momento, como Carlos e Guerreiro. Daniel contou-me ainda que Patrícia também havia começado a trabalhar neste ambulatório. Estava retomando a atividade de trabalho aos poucos, e repensando os últimos episódios que haviam acontecido na Casa.

Os contatos com Espanhol

Desde fim de Novembro de 2008, quando terminou o trabalho de campo, recebi por email contatos de Espanhol, enviando-me textos por ele escritos, ou apenas dando notícias sobre como estava. Apesar das dificuldades da vida cotidiana, mantinha-se bem, em abstinência do uso de drogas. Dera sequência ao tratamento para dependência química, passando a frequentar um ambulatório público. Voltara a trabalhar e estava procurando também manter uma rotina de lazer. Contava com orgulho sobre filmes que vira no cinema, shows e consertos a que assistira no período. Estava bem, mas não era sem uma boa dose de esforço e de trabalho pessoal, como fazia questão de enfatizar nas mensagens.

Em Maio de 2009, recebo um e-mail em que me conta que todos da Casa, à exceção de Daniel e ele próprio, haviam recaído. Soube desta notícia cinco meses após o fechamento da Casa. Não sei precisar em que momento as recaídas aconteceram. Mas

certamente haviam aumentado progressivamente: alguns haviam recaído logo em seqüência ao fechamento da Casa, ainda em Dezembro; outros haviam conseguido se segurar por um tempo maior. Fato era que, cinco meses depois do fechamento da organização, praticamente todos haviam recaído, inclusive alguns que, à época do tratamento, vinham ganhando estabilidade em suas vidas: trabalhando, namorando, retomando um convívio harmônico com a família.

Na ocasião deste contato, Espanhol comenta sobre o desafio que vinha enfrentando para manter seu compromisso com o novo estilo de vida escolhido, sem a mediação do uso de drogas. Para dar conta desta empreita, enfatiza a relevância de vivenciar sentimentos bons, como o amor:

São sentimentos como esse que tentam me transformar em algo melhor. Apesar de alguns revezes que passei na vida, ainda esqueço que o mundo é um pouco maior do que um palmo à frente do meu nariz e o amor me faz doar um pouco do meu lado bom ao próximo.” (Espanhol, 32 anos)

Dias depois deste email, Espanhol me telefona para contar sobre o suicídio de um dos colegas da Casa, Lídio, que havia participado do início da pesquisa. Em meados de Agosto de 2008, após uma recaída no uso de cocaína, seguida de um importante quadro de depressão, Lídio havia interrompido seu tratamento na Casa e retornado ao seu Estado de origem. Mais uma vez, nesta rápida conversa por telefone, Espanhol reitera o seu esforço em se manter no caminho que escolhera, deixando claro o quanto os desafios que vinha enfrentando fora da Casa ultrapassavam em muito o manter-se em abstinência. Tratava-se de dar conta de enfrentar os fatos e sentimentos inerentes à vida. Não à vida de um ‘dependente químico em recuperação’, mas à vida de qualquer pessoa que se proponha a habitá-la integralmente. Neste contato, Espanhol escancara a dureza de seu bastidor existencial e, novamente, reitera a importância do amor como aliado no combate à luta diária:

“Você não tem idéia do quanto a foice passa perto em certos momentos... Mas eu continuo me virando. E esse é um sentimento que ajuda.” (Espanhol, 32 anos)

Benzer Belgeler