3. KENTSEL EKOLOJĠ
3.2 Ekosistem ile Simbiyotik ĠliĢkideki Kent ve Tasarımlanan Metabolizması
3.2.2 Endüstriyel ekosistem
Para refletir sobre o campo da dependência química como fonte de trabalho para quem está em recuperação, é necessário ter em mente a filosofia subjacente aos grupos de ajuda mútua, já que é neste contexto que o trabalho terapêutico de dependentes químicos com outros companheiros em tratamento para dependência química ocorre. Conforme evidenciado no capítulo anterior, os doze passos propostos pelos Alcoólicos Anônimos prevêem um aprendizado no decurso da recuperação. No processo de ajuda a outras pessoas, o dependente químico ajuda a si próprio, confirmando sua força, reduzindo o estigma a que está submetido e adquirindo um sentimento de valor pessoal (EDWARDS et al, 1999). O bem-estar proveniente do fato de prestar auxílio ao próximo foi uma das motivações emergentes entre o grupo pesquisado para atuar na área da dependência química. A troca afetiva envolvida no ato de ajudar parecia ser a principal motivação para o desejo de trabalhar nesta área:
“Me sinto realizada quando eu consigo ajudar alguém, dar uma palavra . (...) Tenho uma necessidade de ajudar o outro. Não sei se por culpa... Tanto tempo fiz o mal para os outros. Agora quero fazer o bem. Isto está muito forte em mim. As identificações; a idéia de que o meu problema é o do outro.” (Michele, 25 anos)
“Tive uma experiência muito boa com isso. Me sentia muito bem, fazendo uma coisa bacana, passando para as pessoas coisas valiosas. Senti uma coisa espiritual que me preencheu.” (Carlos, 36 anos)
“É fascinante ver a evolução do outro... Estou encontrando aqui uma satisfação, uma recompensa que não é financeira. É diferente de todos os outros trabalhos. Primariamente é mais investimento do que lucro. É novo para mim e é gostoso.” (Michele, 25 anos)
A fronteira tênue entre ajudar o próximo e ajudar a si próprio também se destacou nas falas emergentes. A expectativa de que o trabalho com dependência química os mantivesse constantemente em tratamento, já que permaneceriam em contato estreito com o problema que também enfrentam. Nesta perspectiva, o trabalho com dependência química é bastante circunstancial e se relaciona ao próprio tratamento:
“O benefício é o tratamento”. (Carlos, 36 anos)
“Acho que esse trabalho vai ser bom para mim, porque eu não consigo ficar sozinho.” (Guerreiro, 39 anos)
“Me interesso muito pela parte científica da dependência química. Primeiramente conhecer um pouco para mim mesmo, para eu entender o que eu tenho.” (Espanhol, 32 anos)
Neste caso, a mudança de status advinda do fato de se tornarem referência para os colegas recém-ingressos no tratamento e o bem-estar resultante desta mudança de posição e do novo papel social adquirido também pareceram favorecer o interesse por este campo de atuação.
Entre o grupo pesquisado, o desejo de trabalhar no campo da dependência química e o desejo de trabalhar no ambiente protegido da Casa por vezes se confundiam, sugerindo o receio de sair para o mundo e enfrentar os desafios outrora vivenciados (chefe, horários, demandas familiares, competição no mercado de trabalho):
“No momento, eu não me vejo em outra atividade. Nem morando fora daqui.” (Carlos, 36 anos)
“Sabe como eu me vejo aqui? Como aprendiz. Um aprendizado. Fazendo de tudo um pouco. Admiro a Pati, me espelho nela. Me vejo meio pupilo dela.” (Michele, 25 anos)
Para alguns, o trabalho com dependência química revelou-se, não uma escolha, mas uma obrigação, como se tivessem de se dedicar a ajudar outras pessoas com a mesma problemática, por já terem passado pela situação:
“Não me resta mais nada? Agora, só porque eu parei de usar drogas, eu tenho a obrigação de tirar outros disso. Só me resta isso? ‘Você tem a mensagem, agora é com você...’”. (Daniel, 34 anos)
Contudo, nem todos que cogitavam trabalhar neste campo, desejavam exercer funções terapêuticas. Alguns ali tinham plena noção do tipo de atividade que queriam desempenhar na Casa, em geral atividades relacionadas aos seus históricos profissionais (atividades administrativas, de vendas, de marketing):
“Eu não quero trabalhar diretamente com dependência química. Num primeiro momento não. (...) Igual o trabalho que o Dani tem, eu não quero. É muito bom, é muito legal, mas para ele. Não me vejo fazendo palestra... Mas na parte administrativa sim.” (Breno, 23 anos)
Ou mesmo, a possibilidade de escolher, dentre as diversas atividades existentes no campo da dependência química, quais exercer ou não:
“Eu não acredito em remoção. Eu parei de usar a droga, cara! Eu não preciso ficar tomando soco na cara. Pára! (...) E aí fica esquisito, porque eu to indo lá ganhar uma grana, e não é isso!” (Daniel. 34 anos)
Um dos participantes, que trabalhava como técnico de enfermagem em um hospital, decidiu fazer a graduação em Psicologia, no decorrer de seu tratamento, motivado a trabalhar na área da dependência química. Até onde soubemos, chegou a iniciar esta formação, no ano de 2009. É deste paciente a seguinte fala, em que aponta o valor de sua experiência pessoal como dependente químico:
“Quem passou por isso tem uma experiência prática, vivencial, que um profissional não tem.” (Espanhol, 32 anos)
A fala de Daniel também aponta nesta direção, enfatizando, sobretudo, as possibilidades de mudança e de estabilização da doença:
“O que eu procuro passar para eles é que tem jeito. Tem jeito sabe?” (Daniel, 34 anos)
Se retomarmos brevemente a história de vida de Daniel, compreendemos a importância e a força destas palavras. À época da pesquisa, Daniel estava abstinente de crack havia quatro anos e era o braço direito de Patrícia, na coordenação clínica da Casa, atuando como uma referência terapêutica importante aos demais pacientes-moradores. Sua história de vida, contudo, havia sido marcada por momentos bastante críticos, incluindo
alguns meses de moradia na rua, a prisão no sistema carcerário por sete anos e o grave adoecimento por tuberculose, decorrente do consumo de crack e das condições precárias relacionadas à moradia nas ruas.
As indiscriminações presentes neste campo de trabalho também emergiram nas discussões sobre este tema, evidenciando a inexistência de contratos de trabalho regulamentando condições salariais, horário de trabalho, folgas semanais, férias. Tal ausência, contudo, era compreendida pelos técnicos-moradores da Casa como decorrente de suas dificuldades pessoais, evidenciando uma dificuldade relacionada ao ganho pelo exercício desta atividade de trabalho, conforme expresso nas diversas falas de Daniel:
“Às vezes, eu acho que ganhando não vou ter o mesmo empenho.”
“Só consegui cobrar o coordenador da outra clínica porque ia sair.”
“Eu fico meio assim de pedir pra Pati [dinheiro], e aí eu vou pedir pra minha mãe.”
Subjacente a este fato parecia estar a crença de que a atividade por eles desempenhada não se tratava de uma atividade profissional – passível, portanto, de remuneração e regulamentação trabalhista – mas de uma atividade relacionada ao próprio tratamento. Neste registro, o crescimento pessoal possibilitado pelo trabalho terapêutico com os outros pacientes-moradores parecia representar, por si só, o ganho necessário.
Contudo, em diversos momentos este equilíbrio aparente era quebrado pelas queixas e dificuldades por eles claramente mencionadas e diretamente relacionadas ao exercício cotidiano desta atividade, sem pausas ou discriminações. As queixas emergentes sobre este tema referiam-se tanto ao trabalho na Casa, quanto a experiências anteriores de trabalho, em outras comunidades terapêuticas:
“Quando eu falo com alguém de fora, eu pareço que saio um pouco. É meio como uma janela. (...) Me sinto muito bem [quando volta para casa aos finais de semana]. Isso me dá um gás tremendo. Faz muita diferença. (...) É sufocante. O negócio é sufocante.” (Breno, 23 anos)
“No sábado, eu me vi completamente perdido aqui. Ele estava completamente agressivo, confuso. (...) Pensei: ‘daqui a pouco o cara vai embora [referindo-se a outro técnico], o outro também vai embora...’ E eu me senti responsável.” (Carlos, 36 anos)
– “Como terminou a monitoria lá?” – perguntei a Carlos, referindo-me ao trabalho que ele exercera em outra clínica, onde permanecera por quatro meses.
– “Na verdade, virou uma confusão lá. Todo mundo recaiu. O dono recaiu. Eu fiquei sozinho lá um tempo. Não deu certo. O lugar fechou. Eu comecei a conhecer tudo e já me atribuíram um monte de coisas.” (Carlos)
“Tem muito diz que me diz aqui. No domingo eu fiquei mal. Fiquei insatisfeito. Já me vi julgador... Aí eu disparei meu julgamento.” (Carlos, 36 anos)