2.1. Kişiler Arası İletişim
2.1.6. İletişimi Kolaylaştıran Etkenler
2.1.6.3. Empati
(...) o crescimento do ciberespaço resulta de um movimento internacional de jovens ávidos para experimentar, coletivamente, formas de comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas nos propõem. (...) estamos vivendo a abertura de um novo espaço de comunicação, e cabe apenas a nós explorar as potencialidades mais positivas deste espaço nos planos econômico, político, cultural e humano. (LÉVY, 1999: 11)
A citação de Pierre Lévy é bastante instigante para o debate que pretendemos travar neste sub-ítem, pois apresenta de forma clara e incisiva as potencialidades da Internet, serviço de consumo majoritário nas lan houses. Assim, arriscamos airmar que quase 100% dos acessos nas lan houses são também acessos à Internet, com exceção dos casos exclusivos de impressão, digitação entre outros.
Reletir então sobre as potencialidades da rede implica também problemati- zar as potencialidades das lan houses. Pretendemos assim, analisar não somente o que a lan house é, mas, sobretudo, o que esta pode vir a ser, discutindo os usos da tecnologia e buscando mapear suas dimensões de consumo e/ou emancipação.
Como mote de tal debate, destacamos a reportagem intitulada “Manual prático da revolução on-line”, publicada em agosto de 2009 na revista Super In- teressante88. Tal notícia, ao identiicar a rede como um espaço que tem a facilidade
de reunir pessoas com objetivos comuns, vislumbra neste espaço um potencial organizativo e de contestação, associado inclusive ao conceito de Revolução – que, de forma bastante sucinta, implica mudanças estruturais numa dada sociedade.
Utilizando como exemplo países chamados pelos editores de não democrá-
129
Juventudes na lan house: a experiência de (re)invenção de usos em duas favelas cariocas
ticos, como China e Irã, os enunciadores da reportagem destacam o potencial de denúncia da Internet, que, segundo eles, elabora fugas produtivas, mesmo quando se é alvo de censura. É interessante observar que em toda a reportagem os episó- dios de censura e restrição na rede são associados a China e Irã, construindo uma imagem, a nosso ver discutível, de democracia virtual no Brasil.
Ao focar as restrições de uso em países como China e Irã, constrói-se uma cenograia discursiva (MAINGUENEAU,2001) na qual consolida-se uma imagem de que somente nesses países existe uma política de regulamentação e restrições de usos da rede. Tal movimentação a nosso ver, silencia uma série de debates que atualmente estão sendo travados no Brasil no que tange ao marco civil da internet, bem como as questões políticas que permeiam este debate, indicando que também em nosso país, discussões acerca dos limites ou não da rede estão sendo travadas e são alvo de importantes polêmicas.
A reportagem oferece aos leitores um “passo a passo de como fazer seu pro- testo virtual dar certo”, elaborando dicas que, através de quatro caminhos distintos – youtube, twitter, lickr e Blog – constroem um luxograma das formas de luta na internet. É interessante observar que o entrevistado Alexandre Inagaki, consultor especialista em redes sociais, airma: “Os ‘manifestantes de sofá’ não atuam como a geração cara-pintada, que saiu de casa para protestar”.
Em nossa hipótese, a dicotomia construída por Inagaki indica um descon- forto com uma geração que supostamente não vai às ruas para lutar ou reivin- dicar, como se houvesse uma separação estanque entre protestos virtuais e reais. Um exemplo recente que poderia se contrapor a esta visão foi o levante social no Egito, organizado a partir do Facebook e outras redes sociais. Neste episódio, os manifestantes aturaram na rede e tomaram as ruas, demonstrando que o virtual não é necessariamente o oposto, tão pouco impeditivo do real, pelo contrário, que os dois podem se complementar no processo de mobilização social.
A experiência de nosso trabalho de campo em Acari e no Santa Marta nos deu exemplo concreto de que as duas esferas de protesto não se excluem. Como ilustração, apresentamos trechos de algumas postagens de blogs de ativistas destas favelas:
Sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
ACARI, SE CALA, CHORA, MAS AGE! São sementes do mal, futuros traicantes de Acari.
130 Pâmella Passos
Um jovem policial da CORE89apontando o fuzil para um grupo de cerca de
20 crianças com cerca de 8 anos de idade durante uma operação policial em Acari, no im de 2009.
Seu Ebís foi assassinado por policiais da CORE, a vista de vários passantes. Isso ocorreu por volta das 09:40h, no 05 de Dezembro de 2010, exatamente um mês depois de um grande encontro com Sr. Tim Carril, Anistia Internacional, e militantes de direitos humano, num ato que reuniu, cerca de 300 pessoas, na Quadra de Areia.
Depois deste grande ato, seguiu-se um pequeno período de um mês, de relativa paz, com algumas operações policiais, sem muitos problemas, o que manteve em nossos moradores a esperança de que ainal, nossa comunidade ordeira e paciica, teria, daqui pra frente, deinitivos dias de paz e tranquilidade. (...)
É com a certeza de que continuaremos pra sempre assim que coniamos a/os nossos moradores os seguintes telefones para encaminhamento de denúncias: De militantes de direitos humanos da comunidade: 9738 6529 ou 9746 7653.
De entidades e órgãos de direitos humanos que nos apóiam:
Comissão de Direitos Humanos de ALERJ: 2588 1602 e 2588 1555,direto. JUSTIÇA GLOBAL: 2544 2320 Rede de Comunidades e Movimentos Contra Violência:98099199 ou 9977 4916
Deley de Acari (Vanderley). Poeta, treinador de escolinhas de futebol, animador cultural e militante de direitos humanos.90
Sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Veja o vídeo da manifestação no morro santa marta. 1º parte.
Manifestação do grupo de debate do morro Santa Marta. Estamos reivindicando tudo que prometeram para o Santa Marta. Também queremos ver o projeto de urbanização que já teve várias modiicações...91
89 Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil do Rio de Janeiro.
90 Os fragmentos do texto foram retirados na íntegra do blog http://deleydeacari.blogspot.com
em 30/01/2010. Destacamos ainda que o autor ao falar em 05 de dezembro de 2010 refere-se ao ano anterior, 2009.
91 Os fragmentos do texto foram retirados na íntegra do blog http://visaodafavelabr.blogspot.
131
Juventudes na lan house: a experiência de (re)invenção de usos em duas favelas cariocas
Ambas as postagens convocam e apontam para manifestações ocorridas nestas comunidades, indicando que seus criadores não se restringem ao sofá, mas também estão nas ruas. Tais exemplos indicam também os diferentes usos da rede, apontando para um debate acerca da indústria cultural.
Buscando aprofundar esta discussão recorremos a Walter Benjamin (1994), em suas relexões acerca do cinema e da produção cultural como um todo, momento no qual o pensador alemão alimenta um rico debate com Adorno e Horkheimer, diferenciando-se destes no que tange às suas concepções acerca da cultura popular e da cultura de massas.
Ao identiicar uma dimensão de resistência através do cinema, Benjamin é categórico em airmar que tal dimensão somente será possível quando houver a libertação da exploração cinematográica pelo capitalismo, eliminando assim seu caráter contra-revolucionário. Podemos com isto pensar de que maneira as lan houses atuam como espaço de exploração e reprodução da lógica capitalista, minimizando ou mesmo silenciando sua dimensão libertadora.
Avançando nas leituras de Adorno e de Horkeheimer, Benjamin coloca um novo desaio para as esquerdas, qual seja: pensar as possibilidades de apropriação dos meios de comunicação de massas. Assim, a noção de indústria cultural origi- nalmente trazida por Horkeheimer e Adorno demanda novas leituras que partam de abordagens que vislumbrem as massas não como meros seres receptivos de um discurso dominante que os aliena, mas como sujeitos integrantes desse processo de comunicação e cultura.
Reletir acerca da lan house como um espaço de cultura e educação atua no sentido de pensar/intervir nas apropriações possíveis das Tecnologias de Informação e Comunicação. Para tal, é necessário compreender a atual apropriação destes meios pela cultura de massas, ou ainda, por práticas de consumo, e sua possível alteração para um espaço que potencialize práticas emancipacionistas.
Reservando especial atenção aos debates acerca da cultura de massas e aos meios utilizados por ela, as relexões benjaminianas nos remetem às ideias de Mikhail Bakhtin (2008) em suas formulações acerca da potencialidade da cultura popular. Analisando o contexto da Idade Média, Bakhtin percebe elementos de contestação/ oposição à cultura erudita através de manifestações da cultura popular. Compreender tal manifestação em nossa hipótese implica também compreender a constante apropriação da cultura popular pelo discurso conservador e contra- revolucionário.
Ainda que constatando a impossibilidade de debater com a devida consis- tência as categorias de cultura popular e cultura de massas no breve espaço deste capítulo, julgamos pertinente tecer alguns comentários sobre tal temática e, para
132 Pâmella Passos
isso, recorremos às relexões de Martín-Barbero que, ao falar da retomada do estudo sobre o popular, airma:
[...] Além das modas — que a sua maneira falam também do que mascaram, no que, em última análise, se apóiam secretamente — a vigência recuperada pelo popular nos estudos históricos, nas investigações sobre a cultura e sobre a comunicação alternativa, ou no campo da cultura política e das políticas culturais, marca uma forte inlexão, uma baliza nova no debate e alguns des- locamentos importantes.
[...] No conjunto, o que começa a se produzir é um descentramento do conceito mesmo de cultura, tanto em seu eixo e universo semântico como no pragmático, e um re-desenho vai desempenhar um papel importante o reencontro com o pensamento de Gramsci, que, acima das modas teóricas e dos ciclos políticos, alcança atualmente uma vigência que tinha sido isolada ou ignorada durante longos anos. (MARTÍN-BARBERO, 2006: 98-99)
Partimos assim de uma perspectiva que compreende a cultura não como algo abstrato, mas em sua relação com as visões de mundo de uma determinada sociedade e dos grupos sociais que as produzem e difundem. Nesse sentido, no qual o centro do debate passa a ser as mediações e não exclusivamente o meio, destacamos outros aspectos do valioso trabalho de Martín-Barbero (2006). Em
Dos meios às mediações, Martín-Barbero faz um minucioso e consistente trabalho
de debate conceitual entre autores e vertentes que se debruçaram sobre questões como: povo, cultura, folclore, indústria cultural dentre outros.
Para o autor, a cultura é vista como um espaço não somente de manipulação, mas também de conlito capaz de transformar em meio de libertação as diferentes expressões ou práticas culturais. Assim, os meios são analisados através de suas mediações, ou, ainda, através de seus usos políticos.
Propondo uma leitura que não mais anule a dimensão contra-hegemônica dos meios de comunicação de massa, Martín-Barbero retoma Benjamin para se contrapor ao pessimismo cultural, que somente vislumbra tais meios, como máqui- na/técnica a serviço do capitalismo, percebendo o espectador como mero receptor passivo, e não como um interlocutor ou um co-enunciador.
Em nossa pesquisa investigamos como os funcionamentos atuais das lan houses servem ou não de mediação para um determinado projeto de sociedade, mas sem perder a perspectiva de que esta é apenas uma apropriação, e não uma essência, deste espaço.Assim, as lan houses se airmam como um espaço multi-
133
Juventudes na lan house: a experiência de (re)invenção de usos em duas favelas cariocas
propósito que não possui um uso em essência, mas sim diversas potencialidades a partir de seus usos e apropriações.