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Antes de abordar a dimensão mais importante do turismo de base, a participação popular e o empoderamento da comunidade, a pesquisa buscou analisar a relação do turismo com o meio ambiente do Batoque (vale salientar que foi esta preocupação que deu início ao movimento de defesa da praia, já que grande parte da comunidade depende de forma direta do ambiente). A questão ambiental é um fator positivo da Reserva Extrativista do Batoque, inclusive em comparação às outras comunidades que desenvolvem o turismo de base. A institucionalização de uma Unidade de Conservação representa uma garantia última de que aquele meio estará protegido de impactos negativos ou ao menos que estes impactos serão minimizados. As três unidades geoambientais encontradas na RESEX (VIDAL, 2006)

mar litorâneo, planície litorânea e tabuleiros pré-litorâneos

se encontram em bom estado de conservação.

Na planície litorânea, unidade mais impactada pela atividade turística (como definido e justificado no capítulo anterior, é a área onde as observações da pesquisa se deram de forma mais detalhada), há forte presença de barracas no pós-praia (a questão do tratamento dos resíduos causa preocupação devido à fragilidade ambiental da unidade) e também na praia (estas sofrem com o avanço do mar e com a dinâmica de sedimentos e deve ser alvo de uma melhor política de ordenamento do território), como pode ser visto na figura 21. A coleta de

resíduos sólidos provenientes das barracas é realizada, como em toda a comunidade, através de serviço público de coleta, embora as barracas mais afastadas, que se encontram próximas às dunas, não recebam o devido tratamento de seus resíduos. Já os resíduos líquidos, como um traço comum à maioria das comunidades litorâneas do Ceará, não recebem tratamento sanitário e são destinados a fossas rudimentares, como classifica o IBGE (2010). De acordo com a Associação de Moradores, a qualidade da água do mar é monitorada periodicamente e ainda não foram registrados traços de contaminação fora do normal, mesmo que os resíduos líquidos tenham uma capacidade ampliada de atingir o lençol freático em áreas de costa. A instalação de equipamentos turísticos no pós-praia também tem relativo impacto na dinâmica de materiais, já que ainda se situam em uma área de transição de material arenoso que sofre impacto da ação eólica.

Figura 21: Fragmentos de antigas construções e novas barracas construídas no pós-praia.

Fonte: acervo do autor (2014).

Ainda na planície litorânea, entre a faixa de praia e os tabuleiros, situam-se as unidades de maior representatividade da RESEX: as dunas. Vidal (2006) classifica as dunas do Batoque como tendo características peculiares, sendo a maior parte classificadas como dunas semifixas por possuírem características pertencentes às outras duas classificações (móvel e fixa). O impacto produzido pela atividade turística sobre estas áreas ainda é baixo. Talvez as trilhas (que seguem por sobre o campo de dunas até o riacho Boa Vista, limite Leste da Reserva, ou em direção ao riacho do Marisco, limite Oeste) promovam erosão moderada por ocorrerem em baixa escala e em períodos espaçados no tempo. O maior impacto sobre o

campo de dunas registrado durante a pesquisa foi mesmo a questão das moradias próximas às dunas móveis, como visto na figura 22 (nesta área, como reflexo da influência da especulação imobiliária, a maioria das residências encontradas é de veranistas). As dunas também são compactadas por se tornarem trajeto de passeios de bugue e outros veículos

off road

, em

grande parte proveniente do Complexo Turístico do Porto das Dunas ou mesmo de trilhas

organizadas por particulares. Um ordenamento do fluxo destes “visitantes” também se faz

necessário, já que mesmo a legislação impede o livre tráfego desses veículos dentro da Reserva.

Figura 22: Casa de veraneio construída por sobre o campo de dunas.

Fonte: acervo do autor (2014).

A lagoa do Batoque (figura 23), talvez o maior recurso turístico da Reserva, além de patrimônio histórico e cultural, também não recebe maiores impactos negativos advindos da atividade turística. Caracterizada como uma lagoa interdunar perene (VIDAL, 2006) e situada na planície flúvio-lacustre, a lagoa sofreu pressões devido ao crescimento do número de moradias em seu entorno (a especulação imobiliária agiu também sobre este ecossistema) e de atividades de lazer ali realizadas. Após a diminuição gradativa da pressão em torno da lagoa, foi incentivada

a construção de “fossas verdes”

em processo conduzido pela Associação de Moradores, concluindo a completa recuperação da lagoa. De acordo com relato dos representantes do ICMBio (em entrevista), o projeto de recuperação contou com recursos do Programa Petrobras Ambiental e construiu 80 canteiros biossépticos (as chamadas fossas verdes) nas residências e estabelecimentos situados próximos à lagoa, o que impediu a contaminação através dos resíduos líquidos que antes tinham destino inadequado. Em relação

aos resíduos sólidos que afetavam a lagoa, houve um processo de conscientização, principalmente dos visitantes, que minimizou os impactos dali gerados, embora um número ainda relevante de lixo possa ser encontrado no entorno do ecossistema.

Figura 23: Lagoa do Batoque.

Fonte: acervo do autor (2014).

Em relação aos tabuleiros pré-litorâneos, representam a unidade mais preservada da Reserva, com a presença de uma vegetação característica (vegetação de tabuleiro) em excelentes condições de desenvolvimento, por exemplo. Na realidade, os tabuleiros recebem poucas atividades antrópicas em suas áreas. Apenas algumas culturas agrícolas que são realizadas em zonas próximas, como as vazantes, e algumas poucas residências podem ser percebidas. Paradoxalmente, a pavimentação da estrada que liga à Pindoretama, tão almejada por alguns moradores, é que pode trazer maior impacto para esta unidade (e seria o contato mais profundo do turismo com os tabuleiros). Devido à importância dos tabuleiros (mesmo perfazendo menos de 1% da Reserva, são importantes devido às inter-relações com as outras unidades geoambientais e as trocas de matéria e energia), deve-se ter um estudo aprofundado sobre os impactos negativos que serão originados pela pavimentação da estrada.