3. GEREÇ ve YÖNTEM
3.2 Verilerin toplanmas
3.2.2 Elektrokardiyografik ölçümler
A retrospectiva histórica da construção das periferias brasileiras começa com a constatação de que o Brasil reflete, em seu território, inúmeras condições advindas da relação com a metrópole europeia. O modo como as terras brasileiras foram tomadas e distribuídas resultou em uma ocupação desigual, que prevalece desde o período colonial (séculos XVI ao XIX) até os dias atuais.
Há um elo entre o passado e o presente na formação dos espaços urbanos no país, que foram modificados e transformados a partir de acontecimentos históricos ligados à escravidão. Ao final do século XIX, com a abolição do trabalho escravo no Brasil, os negros que trabalhavam no campo começaram a migrar para a cidade. Junto a isso, imigrantes europeus chegaram ao Brasil para trabalhar nas indústrias que surgiam, o que aumentou o contingente populacional nos centros urbanos e, consequentemente, a demanda por moradia, trabalho e serviços (MARICATTO, 1997).
Segundo MARICATTO (1997) essa conjuntura, com problemas relacionados à falta de moradias e ao trabalho assalariado era, até então, inédita, e levou os governos a financiarem a construção de habitações coletivas. Por essas razões, o novo poder republicano
realizou uma reforma urbana no Rio de Janeiro no início do século XX onde foram demolidos inúmeros prédios, ocasionando a expulsão de muitas famílias pobres de suas moradias, e culminando na formação dos primeiros subúrbios e favelas. A partir desses acontecimentos as periferias, as favelas e bairros pobres passaram por transformações, intervenções políticas e, ainda hoje, são espaços urbanos segregados e permeados pela violência (MARICATTO, 1997).
A Lei de Terras nº 601 do ano de 1850 foi fator determinante para essa mudança no cenário brasileiro. Nessa época, ao determinar que as terras apenas poderiam ser obtidas através da compra, impediu que os trabalhadores pobres adquirissem terras (BRASIL, 1850). A partir da promulgação da lei, o valor comercial é atribuído a frações do território brasileiro. E após o aperfeiçoamento das normas que regeriam essa nova modalidade de bens, forma-se o mercado imobiliário no país. Além do poder aquisitivo muito restrito ou inexistente, a propriedade legal também passou a ter exigências normativas que afastaram a população pobre do mercado imobiliário formal (REIS, 1994 apud MARICATTO, 1997).
Note-se que o patrimonialismo fomentou, durante muito tempo, o poder político no Brasil. As elites políticas brasileiras foram consolidadas através da estrutura de um regime político oligárquico e carente de articulações com as classes subalternas. Essa estrutura política e social foi abalada pela proclamação da República Federativa, que substituiu o regime monárquico. Inicia-se assim um período de modernização e industrialização do país, embora a economia tenha continuado nas mãos dos grandes proprietários de terras e produtores de café, situação que perdurou até a crise de 1929 (ADORNO, 2002; MYNAIO, 2006).
Já na década de 1940, durante a crise habitacional foi criada a Fundação da Casa Popular (FCP), uma das estratégias pioneiras de políticas habitacionais para população de baixa renda, que também reunia interesses políticos e empresariais. Como a Segunda Guerra Mundial provocou o encarecimento dos materiais importados para construção civil e os capitais excedentes, nesse período, contribuíram para a especulação imobiliária, a população mais pobre se via incapacitada de adquirir um imóvel. Existia um embate nítido entre a indústria privada de construção de moradias destinadas para as classes mais abastadas e a necessidade de habitações para a população carente que se situava fora desse mercado (MELLO, 1990).
Segundo Feltran (2007), outro período de destaque para compreender a construção das periferias e seus impactos políticos foi o período da ditadura militar. A ditadura militar
delimitava fronteiras entre grupos que deveriam ser banidos e grupos que eram legitimados para a convivência pública. O Estado cuidava de manter essa fronteira sempre presente e reprimir os grupos que o desagradassem, o que impedia a pluralidade da representação social. Os grupos constituídos nas periferias urbanas emergiram nesse contexto histórico, e reivindicavam melhorias sociais. Os movimentos sociais, que se formaram a partir dessas iniciativas, acabaram retratando uma realidade social em que as relações sociais ainda não estavam consolidadas no horizonte da cidadania. Esse espaço, onde tais segmentos da população puderam expressar publicamente seus interesses e expor suas identidades, permitiu o reconhecimento daquilo que Feltran aponta, na expressão de Habermas, como sendo a “contraesfera pública”. A partir de então são criadas possibilidades de uma construção democrática inovada (AVRITZER, 1994; FELTRAN, 2007).
A repercussão desse processo gerou visibilidade para esses movimentos sociais de caráter popular, que até então eram impedidos pela ditadura militar. Estabelecia-se assim uma articulação entre Estado e movimentos sociais, que demarcou uma estratégia de democratização política, além de conferir aos movimentos populares créditos na construção da democracia brasileira. Após vinte anos de vigência dessa configuração social, outros caminhos expõem a desigualdade social e a contradição com o Estado de direito. Conforme explana Feltran:
Ao contrário do aprofundamento da democracia às relações sociais, o período democrático recente foi marcado pela explosão da violência e aumento do desemprego estrutural, especialmente nos grandes centros urbanos, onde a sociabilidade pública sofreu restrição importante. Os movimentos populares sentiram na pele esta contradição. Como atores políticos instituídos, estes movimentos tiveram ambientes públicos cada vez mais estáveis para atuar. Conforme o tempo passava, os marcos legais se tornavam mais progressistas, os canais de relação com o Estado mais numerosos e melhor instituídos, e apareciam possibilidades reais de participação efetiva na formulação de políticas públicas setoriais. Como organizações sociais das periferias urbanas, entretanto, estes mesmos movimentos passaram a conviver com a instabilidade de um tecido social cada vez mais inseguro, tanto pelas novas formas de trabalho, cada vez menos afeitas a garantir direitos, quanto pela explosão da violência, que apareceu cada vez mais próxima dos cotidianos (FELTRAN, 2007, p. 5).
A população da periferia era nomeada como perigosa e marginalizada, o que exemplifica algumas das divergências provenientes de lugares distintos de análise. Essas populações das periferias trabalhadoras, a partir do seu ganho no cenário político, passam a impulsionar a sociedade para novas compreensões a seu respeito, o que repercutiu em análises acadêmicas sobre disputas de poder político. Assim, para a realização de estudos sobre o
cenário político da época, passou a ser necessário estudar as periferias. Tal condição levou antropólogos, sociólogos e cientistas políticos a darem atenção especial a esses territórios nas cidades. A análise do momento político foi inevitável: justiça social e democracia foram temas que imperaram no estudo das periferias. Dessa forma a construção da democracia deveria se pautar pela inclusão das periferias e suas demandas nas agendas políticas fundadas na igualdade social. Apesar disso, essas alternativas foram retiradas do debate público, ou não tiveram o merecido comprometimento governamental (FELTRAN, 2008).
Desde então, o país apresentou um considerável crescimento urbano que ainda perdura. As regiões pobres exibiram um aumento relativo, sendo que as periferias das metrópoles evidenciaram um crescimento maior do que os núcleos centrais. Ao longo do século XX, a “suburbanização” foi intensificada e ressaltou as diferenças entre o centro e a periferia. Esse processo contribuiu para tornar ainda mais expressivo o distanciamento entre esses espaços sociais. O centro foi constituído como local onde a demanda de serviços públicos e privados seria intensa, e as atividades que atingem essa localidade seriam valorizadas (MARICATO, 1997, 2000; SPOSITO, 2004).
E a periferia ficou situada no contraponto dessa realidade. A nosso ver, o ponto crucial para a compreensão dessa estruturação em retrospectiva histórica é que existe uma profunda relação entre homicídios e bairros onde os índices de educação, renda familiar, condições de moradia e saúde são baixos. O que novamente justifica o interesse em explorar o debate sobre a violência urbana, preponderantemente nesses territórios (MARICATO, 1997, 2000; SPOSITO, 2004; ROLNICK, 2010).
A periferia também é atingida pela lógica do mercado, tornando-se alvo de uma desvalorização objetiva e simbólica pela ausência de serviços que demandariam a mesma qualidade dos que são encontrados nas regiões centrais das cidades. A verticalização das cidades pode ser considerada um dos primeiros movimentos relevantes que corresponderam aos interesses imobiliários nas cidades médias, como Araraquara, e produziu mudanças nos espaços de convivência social (SPOSITO, 2004; TELLES, 2010).
Dadas as relações de poder e dominação vigentes, o cenário social e político brasileiro manteve uma constante desigualdade social, embora seja destacável que o crime e a violência sejam mais intensificados nos territórios onde vivem as populações mais pobres. Conforme já mencionado, essa é uma das razões pelas quais não se pode tomar essa realidade como a causalidade da violência urbana e seu crescimento exponencial nos últimos tempos. Trata-se de uma análise que, ao abrigar uma multiplicidade de fatos, supera a questão da pobreza em si
e se detém nesse contexto histórico que reproduz conflitos e injustiças (ADORNO, 2002; MYNAIO, 2006). A pesquisa de campo e as entrevistas realizadas junto a moradoras do bairro são esclarecedoras dessa lógica.