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No cenário brasileiro, o sistema de proteção social destinado a idosos tem seu marco na universalização da seguridade social, legitimada pela Constituição de 1988. O sistema de proteção que contempla a universalidade foi pioneiro na América Latina.
62 Encontram-se benefícios destinados às pessoas acima de 60 anos de idade desde o período imperial, mas pontuais. A título de exemplo temos a aposentadoria dos empregados dos Correios (Decreto 9.912-A, de 26 de março de 1888), atendimentos oferecidos pelas instituições de caridade, em caráter assistencial e propagadas, principalmente de cunho religioso, como as Santas Casas de Misericórdia.
Em linha mais corporativista, o assunto ganhou interesse após a Segunda Guerra Mundial, por meio dos profissionais da medicina e de outros de nível superior, simpatizantes ao tema, a partir da criação (em 1961) da Sociedade Brasileira de Geriatria (SBG), filiada à Associação Médica Brasileira. Em 1968 passou a se denominar Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), que até os anos de 1980 ficou conhecida por sua visão biológica da velhice.
Camarano e Pasinato (2004) destacam outras ações dirigidas ao segmento idoso na sociedade brasileira:
a) Serviço Social do Comércio, iniciado em 1963, que oferecia serviços de assistência social preocupados com o desamparo e a solidão entre os idosos; havia serviços apenas na modalidade asilar; b) A primeira iniciativa do governo federal foi em197448, em ações preventivas em centros sociais do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), e internação custodial dos aposentados e pensionistas do INPS a partir de 60 anos. A admissão em instituições era feita considerando o desgaste físico e mental dos idosos, insuficiência de recursos próprios e familiares e inexistência de família ou abandono por ela;
48 No contexto das conquistas sociais dos integrantes da terceira idade, somente a partir de 1973 passou o Brasil a preocupar-se efetivamente com o idoso. A Portaria nº 3286 (27/- 9/193) regulamentou a aposentaria por velhice, instituindo como beneficiário o segurado que contemplasse 65 anos ou mais de idade, se do sexo masculino, ou 60 ou mais, quando do sexo feminino, sendo as formas de proteção ampliadas pela Portaria nº 82 (04/07/1974), com uma mais ampla assistência, prestada direta e indiretamente em hospitais e ambulatórios. A norma considerou aspectos como o abandono do idoso por seus familiares, explicitando que as atividades deveriam ser programadas de acordo com as peculiaridades locais, enfatizando a importância do trabalho preventivo e propondo ações motivadoras para o apoio da comunidade.
63 c) Criação de dois tipos de benefícios não contributivos: aposentadorias para os trabalhadores rurais e renda mensal vitalícia49 (RMV) para os necessitados urbanos e rurais. A previdência rural era devida ao chefe do domicílio de mais de 65 anos que comprovasse ter trabalhado em atividades rurais. Em 1992, com a fusão dos regimes, as RMVs urbanas e rurais foram agrupadas. Em 1993, a partir da promulgação da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), foram criados benefícios assistenciais, extinguindo a RMV;
d) Elaboração da Política Social para Idoso: diretrizes básicas, editadas pelo Ministério da Previdência e Assistência Social – MPAS em 1976, baseadas nas conclusões de seminários regionais50 e nacional. Entre as propostas contidas no documento: implantação de sistema de mobilização comunitária, visando, dentre outros objetivos, à manutenção do idoso na família; criação de serviços médicos especializados para o idoso, incluindo atendimento domiciliar; formação de recursos humanos para o atendimento de idosos, dentre outras.
Segundo as autoras, as ações enunciadas para a população idosa revelam uma clientela vulnerável e dependente, ora pela família, ora pelo Estado. Embora as diretrizes dos documentos atuais prevejam ações que promovem manutenção da autonomia e independência – como no Plano de Madri –, as propostas elencadas se organizam como se fossem consumidores de recursos públicos, benefícios previdenciários e serviços de saúde.
O desafio a ser enfrentado é a formulação de políticas que contemplem condições dignas51 para a população ao longo de todos os ciclos da vida, evitando a elevação dos investimentos decorrentes das privações e fragilidades não resolvidas com o atendimento das
49As RMVs, criadas em 1974, foram as primeiras medidas de proteção do portador de deficiência e do idoso necessitado, e ocorreram no âmbito da política previdenciária.
50 São Paulo, Fortaleza e Belo Horizonte.
51 A garantia da dignidade inclui questões que asseguram à família uma convivência social de cidadania, educacional, humanitária, ambiental, com segurança pública, lazer, cultura, moradia esaneamento básico.
64 necessidades básicas (educação, saúde, moradia, lazer, esportes etc.) nas fases anteriores, mesmo reconhecendo que determinadas categorias precisam de políticas específicas.
Ainda que a classificação dos indivíduos em categorias geracionais ou faixas etárias proporcione a inclusão, por outro lado marginaliza e exclui, principalmente pela visão arbitrária determinada pelo ciclo de vida orgânico que não considera o curso de vida social. Para Pacheco Filho, essa visão está expressão no capitalismo.
O lugar que se enquadram na categoria de adulto é o de dominação. O dos que se enquadram nas categorias de criança e de adolescente é o dos dominados (...) e o lugar dos que se enquadram na categoria de velho é o dos que perderam a condição de dominação. (2002; p. 81)
A imagem de perda da venda da força e da capacidade de trabalho se apresenta automaticamente na estrutura capitalista. Recentemente, passou a aparecer a revalorização do mercado para o “velho” cidadão consumidor, não mais de benefícios compensatórios, mas de mercadorias e serviços que geram lucro ao capital.
A promulgação da Constituição Federal de 1988 incorporou a temática da velhice como agenda de política pública, sintetizando em alguns de seus dispositivos as recomendações do Plano Internacional de Ação para o Envelhecimento de Madri, do qual o Brasil é signatário.
Reserva artigos para assegurar proteção ao idoso, atribuindo responsabilidade à família, ao Estado, à sociedade e ao próprio indivíduo. A responsabilização da família encontra-se no capítulo que trata da Família, da Criança, do Adolescente, do Jovem e do Idoso. O Artigo 22952 reza sobre a reciprocidade de cuidados entre pais e filhos. O Artigo 230 compartilha o dever com a tríade família, sociedade e Estado para garantir o direito à vida53, apesar de ressalvar a preferência dos cuidados com a família e a
52
Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade.
53
Direto assegurado ainda no Artigo 5º, porém se referindo aos brasileiros e aos estrangeiros, como se os idosos não estivessem incluídos nesse rol.
65 idade para acesso de benefícios, como o transporte coletivo assegurado a partir dos 65 anos de idade.
Apesar de a legislação preconizar a preferência pelo ambiente familiar para os cuidados aos idosos, esse lócus social nem sempre se demonstra seguro. Condições de dependências, exigências de mudanças de hábitos ou readaptações às novas reconfigurações familiares, associadas aos limites de recursos materiais, à sobrecarga em ofertar cuidados tendem a diminuir ou deteriorar as relações interpessoais no interior da família (SOUZA et. al., 2004).
No Capítulo da Seguridade Social, a saúde é universal, sem referências à classificação etária; a assistência social assegura, no Artigo 203, de forma não contributiva e prestada a quem necessitar; entre os objetivos prevê no inciso I - a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice. Quanto à previdência social é de responsabilidade do próprio indivíduo, pois o usufruto depende de contribuição antecipada, em que profere o Artigo 201 o caráter contributivo em cobertura de eventos de doença, invalidez, morte e idade avançada.
A partir desses destaques e considerando outros normativos que sucedem à regra legal que prevê, entre as prioridades, o embarque do idoso no sistema de transporte coletivo, ainda são escassas as ações que incentive as pessoas a iniciar o planejamento de seu projeto de vida e que guie os ciclos, inclusive o da velhice, a partir do momento em que assume a maioridade, com questões que vão desde a acessibilidade com o uso dos espaços físicos que as rodeiam até os incentivos de proporcionar relações sociais gratificantes.
A Constituição foi proclamada em um momento que coincidiu com o percurso de abertura política do país, após duas décadas de regime ditatorial. A transição de efetivação da democracia percorreu um caminho lento, pois as propostas formuladas nos planos político, cultural, econômico e social foram alimentadas pela noção de que o crescimento econômico resolverá os problemas sociais.
No decorrer da década de 1990, os dispositivos constitucionais começaram a ser regulamentados, a exemplo do Sistema Único de Saúde e da organização da assistência social, com destaque à aprovação da Política
66 Nacional do Idoso, influenciada pelos debates internacionais sobre a questão da velhice.
A aprovação da Política Nacional do Idoso (PNI), pela Lei nº 8.842/1994, representou o reconhecimento da velhice no campo das políticas públicas, seguindo as mesmas diretrizes em priorizar a matricialidade familiar. Assegurou ainda um espaço democrático para apreciar a execução dessa política, o que se concretizou oito anos depois, a partir do Decreto nº 4227/2002, que criou o Conselho Nacional dos Direitos do Idoso - CNDI.
A proposta dos conselhos de direitos assegurada na Constituição e ratificada na PNI apresenta-se como espaço público e um dos mecanismos para concretizar os canais de participação. Neles está prevista a formação e participação nos diferentes níveis federativos – federal, estadual e municipal -, com paridade nas representações entre Estado e sociedade civil, para formular, coordenar, fiscalizar, monitorar e avaliar a política do idoso.
Um ano após a criação do CNDI, foi aprovado o Estatuto do Idoso - Lei nº 10.741/2003 -, que tramitou durante sete anos no Congresso Nacional. Destaca-se novamente a contribuição da AME para impulsionar a aprovação do Estatuto elaborado a partir das recomendações contidas no Plano de Ação Internacional do Envelhecimento. De acordo com Otsuka (2008), a Assembleia Mundial do Envelhecimento
é considerada marco inicial para o estabelecimento de uma agenda internacional de políticas públicas para pessoas idosas [...] primeiro Fórum intergovernamental, centrado na questão no envelhecimento populacional (p.57).
2.1.3 Delineando um Sistema de Garantia de Direitos da Pessoa