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ELDEN ÇIKARILAN MADDİ DURAN VARLIKLARIN HALKA AÇIK

Uma outra questão importante a ser apresentada em se tratando da análise de casos de violência intrafamiliar é o tema da agressividade.

Na segunda parte do livro Privação e Delinquência, Winnicott (1984/1999, p.

89) inicia com dois artigos: o primeiro, “Agressão”, escrito em 1939, segue algumas

ideias de Melaine Klein, de que a elaboração dos impulsos destrutivos internos na criança se converte no desejo de reparar, de construir, de assumir responsabilidade e; o segundo, “Raízes da Agressão”, escrito em 1964, apresenta uma explicação mais original, dizendo que a agressividade, no começo da vida, é o movimento corporal do bebê e o estabelecimento de uma distinção entre o que é e o que não é o eu.

Segundo Roseana Garcia (2009, p. 64), Winnicott aborda quatro fontes de agressividade, no conjunto de sua obra. A primeira e talvez mais primitiva, por já ser experienciada na vida intrauterina, é a motilidade. A segunda é o impulso amoroso primitivo, tem sua origem na raiz instintual, mas para ser experimentado precisa da raiz motora, ou melhor, da motilidade. A terceira é a reação às invasões ambientais. E, por último, o autor fala da destrutividade sem raiva, que deriva da destrutividade inerente ao impulso amoroso primitivo, essa experiência possibilita ao bebê usar o objeto.

A motilidade experenciada na vida intrauterina possibilita ao feto ir descobrindo por meio de seus gestos espontâneos o ambiente, ao se deparar com as paredes do útero devido a um chute… Mesmo que o feto não esteja exposto diretamente à instabilidade ambiental, a descontinuidade e irregularidade vivida pela mãe é sentida pelo feto, que reage às intrusões ambientais. O feto pode se recuperar do incidente invasivo voltando para o isolamento. Mas se esse for o padrão de relacionamento mãe e feto, a experiência possibilitada é a de reação à intrusão ambiental e não a da motilidade espontânea, o que não contribui para o amadurecimento pessoal do feto. Já nesta época, pode-se perceber a importância do ambiente suficientemente bom.

Para a saúde do bebê, a motilidade precisa continuar a ser experenciada depois do nascimento. Conforme Winnicott (1950-55/2000, p. 296-8), uma parte desta motilidade é extenuada na experiência instintual, ou seja, na amamentação, mas outra parte precisa ser exercitada e, para senti-la é necessário que o ambiente promova a oposição à motilidade do bebê. Se o ambiente é suficientemente bom, todas essas experiências possibilitam a fusão da raiz motora com a instintual, favorecendo o sentimento de realidade da experiência.

Mas se, ao invés disso, o ambiente impõe ao bebê uma série de reações à intrusão? Nessa situação, Winnicott (1950-55/2000, p. 297) descreve dois padrões. Em um, a existência individual torna-se possível somente na quietude, a motilidade, aqui, é parte da experiência da reação à intrusão. No outro padrão, mais extremo, a falha ambiental é tamanha que “o ‘indivíduo’ desenvolve-se então mais como uma extensão da casca que como uma extensão do núcleo, ou seja, como uma extensão do ambiente invasor” (p. 297).

Para o autor, nesses dois exemplos, é somente por meio da intrusão ambiental que o potencial motor pode ser sentido, por isso a intrusão ambiental tem que ser uma constante. Mas, enquanto os indivíduos estiverem funcionando nesses padrões, não há possibilidade de saúde.

Ainda com relação à motilidade, esse movimentar que possibilita ao bebê uma satisfação do exercício muscular, Winnicott (1950-55/2000) o nomeia de “erotismo nos músculos” (p. 301), mas também enfatiza a diferença deste erotismo com o sentido nas zonas erógenas específicas, nestas zonas o prazer é mais instintual.

Para Winnicott (1988/1990), a raiz instintual também é uma das fontes de agressividade. Ele admite a “existência de uma agressividade primária e de um impulso destrutivo, que é indistinguível do amor instintivo, apropriado ao estágio muito precoce de desenvolvimento do bebê” (p. 99).

Essa destrutividade não deriva da raiva à frustração devido a algumas necessidades do bebê não terem sido atendidas. Winnicott (1950-55/2000, p. 302) diz que neste estágio em que o bebê não está integrado, não há intencionalidade na agressividade, por isso neste momento não tem como haver raiva à frustração. O autor acredita sim que exista uma raiva nesse período, mas sem intencionalidade. Diante disso, a destrutividade inerente ao impulso amoroso primitivo provém da tendência inata do bebê por continuar-a-ser e não de uma destruvidade intencional.

Nesse período, pré-concernimento, o bebê ainda não consegue perceber que o que ele destrói quando excitado é a mesma coisa que ele valoriza quando relaxado. “Seu amor excitado inclui um ataque imaginário ao corpo da mãe” (WINNICOTT, 1950- 55/2000, p. 290-1); percebe-se, aqui, um aspecto destrutivo contido no impulso do amor primitivo.

Nesse momento, o bebê vivencia seus impulsos de maneira dissociada, sendo afetuoso e agressivo com a mesma pessoa e não se sente responsável pelos seus atos. É importante que o bebê possa experienciar seus impulsos sem sofrer retaliação, pois essa experiência possibilita ao bebê desenvolver sua capacidade de amar e de descobrir um mundo que não é o seu, iniciando uma relação com objetos externos e integrando, paulatinamente, seus impulsos.

Winnicott (1964/1999, p. 104-5) também descreve como os impulsos agressivos podem se manifestar em diversas crianças. Por exemplo, uma criança ousada obtém satisfação desses impulsos por meio de manifestações abertas de agressão ou hostilidade; ela sente, vivencia e alivia seus impulsos. Já a criança tímida tende a procurar essa satisfação em outro lugar, a partir do seu mundo externo; com isso, fica apreensiva, esperando que algo aconteça; sente os impulsos, mas não os satisfaz.

O autor (1964/1999) apresenta outros exemplos, e diz que algumas crianças têm a tendência de ver “seus próprios impulsos agressivos controlados (reprimidos) na agressão de outros” (p. 105). Esse mecanismo pode evoluir de forma não saudável, pois a agressão do outro (suprimento persecutório) pode cessar, tendo que ser fornecido por ilusões. Dessa forma, algumas crianças podem ficar na expectativa de perseguição e se tornarem agressivas, para se defenderem dos ataques imaginados.

Outras crianças podem manter a agressividade “dentro delas”, tornam-se crianças tensas, sérias e excessivamente rígidas; seus impulsos diminuem e com eles sua capacidade criativa. Embora a criança perca parte de sua liberdade, ela ganha no desenvolvimento de seu autodomínio e na capacidade de respeitar os outros, o que é bastante saudável. Mas o que muitas vezes acontece também é que criança excessivamente rígida está sujeita a surtos periódicos de sentimentos e condutas agressivas; e isso não é bom para ninguém.

Uma outra forma de satisfazer os impulsos é por meio dos sonhos, por ser uma experiência efetiva e não apenas um exercício intelectual. Se o sonho incluir experiências excessivamente violentas, provavelmente, a criança acordará chorando e, neste momento, o apoio da mãe é fundamental para tranquilizá-la.

Como já foi dito, os impulsos, antes de se tornarem agressivos, são movimentos musculares, fundamentais no processo de distinção do eu e não-eu. Para que o bebê consiga distinguir eu do não-eu, é preciso ter um desenvolvimento bem-sucedido no estágio da dependência absoluta e da dependência relativa, que está relacionado com o processo de separação, o qual envolve a desilusão, o desmame, o início das funções mentais, o estágio da transicionalidade, o do uso do objeto e o estágio do EU SOU. Isso só acontecerá com uma desadaptação gradual da mãe com relação às necessidades do bebê (WINNICOTT, 1963/1990a, p. 83-4).

O bebê tem que atravessar o processo de desadaptação, que é o início do processo de desilusão, onde ele começa a compreender que não é ele que cria e produz (ilusão de onipotência) todas as coisas conforme sua necessidade, começando a perceber que o mundo existe independentemente de sua existência. Entretanto, o sentimento de que o mundo pode ser criado pessoalmente não desaparece; essa capacidade para ilusão possibilita o desenvolvimento da elaboração imaginativa e da atribuição de sentidos e significados ao mundo.

O desmame, segundo Dias (2003, p. 228-9), é um processo de desilusão bastante significativo. A mãe e/ou o bebê devem promover esse momento. Para que a mãe consiga efetuar o desmame é preciso que saiba lidar com sua agressividade, com seu sentimento de ódio, caso contrário será muito difícil efetuá-lo. Para o bebê superar esse processo, o funcionamento intelectual começa a agir e o bebê passa a usar seu intelecto e o esquema de prever acontecimentos fica cada vez mais apurado, por exemplo: se ouço barulho da mamãe na cozinha logo eu vou comer. Isso possibilita ao bebê utilizar- se de novos recursos internos para poder esperar e não ficar tão impaciente e excitado.

Para Winnicott (1963/1990a, p. 83-4), o gradual processo de separação possibilita ao bebê amadurecer, mas isso só acontece se houver confiança no ambiente em que vive. O fortalecimento dessa confiabilidade acontece quando se mantém aberta a possibilidade de retorno à dependência e ao mundo subjetivo. Essa necessidade de retorno se mantém ao longo da vida.

O estágio de transicionalidade foi pensado por Winnicott (1951/2000, p. 317) para designar o momento de transição que vai do mundo subjetivo concebido até o mundo objetivo percebido. E para que o bebê consiga realizar essa transição, é preciso que as tarefas nos estágios anteriores tenham sido bem-sucedidas.

Para Winnicott (1951/2000), o bebê vivencia os fenômenos da transicionalidade no que ele chama de região intermediária da experimentação, nesta há contribuição

tanto da realidade interna quanto da externa. É uma forma “manter as realidades interna e externa separadas, e ao mesmo tempo inter-relacionadas” (p. 318).

Esse estágio é caracterizado pelo apego que os bebês têm a um determinado objeto, chamado por Winnicott (1951/2000) de objeto transicional. Esse objeto tem a função de amparo por substituir a mãe, que está se separando do bebê.

Assim, esse objeto se torna indispensável, principalmente em momentos de tensão, inquietação como quando o bebê vai dormir ou quando fica longe da mãe. Por isso, o objeto não pode nem ser lavado muito menos substituído, pois dessa forma a

continuidade-de-ser do bebê seria interrompida, e também seu processo de

amadurecimento.

O fenômeno da transicionalidade possibilita a continuidade à ilusão de onipotência, constituindo o início da capacidade de simbolização e, subsequentemente, a capacidade de brincar e na vida adulta expressará essa capacidade no trabalho, na arte, na religião e na cultura.

A mãe suficientemente boa continua a ser fundamental para o amadurecimento saudável do bebê. Se até o momento a mãe possibilitou que o bebê se iludisse onipotentemente, sua tarefa, agora, é a de desiludir. Segundo Winnicott (1951/2000, p. 329), essa tarefa deve continuar a ser exercida tanto pelos pais como pelos professores por um longo tempo.

Se houve, então, a possibilidade de ilusão e de desilusão “o palco está armado para as frustrações que costumamos agrupar sob o termo ‘desmame’” (WINNICOTT, 1951/2000, p. 329).

No estágio da transicionalidade o indivíduo se relaciona com o objeto externo como entidade projetiva diferentemente do que ocorre no estágio seguinte do uso do objeto, em que o bebê se relaciona com o objeto como se ele fosse algo externo, separado de si, como uma coisa em si mesma.

A expulsão do objeto de seu mundo subjetivo é chamada por Winnicott (1968/1994) de destruição do objeto. Essa destruição é necessária para o amadurecimento do bebê.

Não há raiva nesse impulso de destruição, Winnicott (1968/1994) usa o termo destruição “[…] não por causa do impulso do bebê de destruir, mas por causa do risco de o objeto não sobreviver” (p. 176).

O bebê tem um impulso para destruir o objeto e ele precisa experimentá-lo, mas só poderá fazê-lo se tiver a segurança de que objeto sobreviverá ao seu impulso. A

permanência do objeto transformará o impulso do bebê na capacidade de usar o objeto objetivo não mais como subjetivo, além de transformar esse impulso na capacidade de amar e na capacidade de destruir os objetos em sua fantasia inconsciente.

Essa fase é importante para que o indivíduo passe da fase de se relacionar com objetos subjetivos para a fase de usar objetos objetivos. No processo terapêutico é importante que essa diferença possa ser percebida, pois a relação terapêutica e sua intervenção assumem formas completamente diferentes nos dois casos. No primeiro, o cerne do distúrbio do paciente é a psicose e, no segundo, a neurose (WINNICOTT, 1968/1994, p. 172).

O indivíduo que conseguiu amadurecer a ponto de usar o objeto conseguiu se integrar como um Eu unitário e desenvolveu condições para realizar a tarefa de integração da vida instintual, que acontece no estágio do concernimento.

Winnicott (1963/1999b, p. 114-6) diz que nesse estágio o bebê começa a se preocupar, pois passa a perceber que a sua impulsividade tanto agressiva quanto amorosa pertence a uma só pessoa, e também que a mãe que amamenta e a mãe que cuida, ou seja, a mãe-objeto e a mãe-ambiente é a mesma pessoa. A partir daí, começa a surgir um sentimento de culpa e de responsabilidade com relação à destrutividade que é inerente à impulsividade instintual.

Como o bebê passa a se tornar uma pessoa inteira, ele também começa a se relacionar com pessoas inteiras; por exemplo, antes ele percebia duas mães: a mãe- objeto e a mãe-ambiente. Agora, passa a perceber que a mãe que ele mordia é a mesma que o acariciava, alimentava e socorria, gerando no bebê um sentimento de culpa e uma necessidade de reparação. “É a isto que se denomina “A Posição Depressiva no Desenvolvimento Emocional” (WINNICOTT, 1988/1990, p. 89).

Essa é a tarefa de integração da instintualidade, que contém tanto gestos agressivos quanto amorosos, é a passagem da pré-ambivalência para a ambivalência, é a integração de ambos no si-mesmo.

Dessa forma, “[…] em circunstâncias saudáveis, quando o bebê atingiu o estágio necessário no desenvolvimento pessoal, surge uma nova fusão” (WINNICOTT, 1963/1990c, p. 73). Nesse momento, o bebê que está minimamente integrado, ou seja, já distingue o eu e o não-eu, para continuar um processo de desenvolvimento saudável precisaria experienciar o que Winnicott (1963/1990c) denominou de círculo benigno.

Esse círculo compreende da relação mãe-bebê, onde o bebê fantasia a destruição do corpo da mãe, sente culpa e busca reparar sua ação. Se o bebê pôde experimentar

esse momento terá maiores possibilidades de integração dos seus instintos pelo self, desenvolvendo a capacidade de envolvimento, de sentimento de culpa, bem como aperfeiçoar a capacidade de distinção entre fantasia e realidade. “Sentimento de culpa é angústia vinculada ao conceito de ambivalência, e implica um grau de integração no ego individual que permite a retenção da imago do objeto bom, ao lado da ideia de sua destruição” (WINNICOTT, 1963/1999b, p. 111).

Ao integrar os instintos no self o bebê torna-se capaz de “[…] separar o que é bom e o que é mau no interior do self. Surge então um estado interno de grande complexidade” (WINNICOTT, 1988/1990, p. 90-1). É claro que a expressão desse novo arranjo se dá na criança por meio de sentimentos e ideias inconscientes, mas pelo fato de ter experienciado o círculo benigno, o indivíduo acredita na sua capacidade de construir e de suportar a culpa, “[…] e assim torna-se livre para o amor instintivo” (WINNICOTT, 1988/1990, p. 90).

O bebê passa, então, a experimentar a ambivalência em fantasia. A pele demarca o limite do que está do lado de dentro e do lado de fora. A realidade psíquica interna passa a ser sentida pelo bebê como sua, além da capacidade de se envolver e de assumir responsabilidade pelos próprios impulsos. Esse processo de amadurecimento irá possibilitar a criança brincar e, posteriormente, ao adulto, trabalhar.

Mas, por outro lado, a criança pode não ter tido a experiência do círculo benigno e segundo Winnicott (1988/1990) “[…] não é possível a um ser humano suportar a destrutividade que está na base dos relacionamentos humanos, ou seja, do amor instintivo, exceto por meio de um desenvolvimento gradual associado às experiências de reparação e restituição” (p. 93).

Dessa forma, Winnicott (1988/1990) aponta para o desenvolvimento de diversas dificuldades que surgem da ausência dessa experiência, por exemplo, a capacidade de amar será inibida; o sentimento de tranquilidade conquistado com a possibilidade de reparação não poderá ser alcançado; a capacidade para brincar (e trabalhar) construtivamente também ficará comprometida e; devido aos instintos não serem integrados pelo self, serão sentidos de forma muito confusa e defensivamente pode ocorrer a dissociação desses instintos no self.

A falha nesse processo leva à organização de vários tipos de defesa. Winnicott (1950-55/2000, p. 293) comenta sobre como algumas crianças se organizaram depois de uma falha nesse processo do desenvolvimento. Por exemplo, a criança que concentra o que é bom no mundo interno e projeta para fora o que é ruim, tornando-se

patologicamente introvertida. Geralmente, quando essa criança volta a se relacionar com o mundo externo, que para ela está cheio de perseguidores, torna-se nesse momento agressiva.

Winnicott (1950-55/2000) apresenta três outros exemplos interessantes, principalmente, na compreensão da dinâmica das famílias abusivas.

No primeiro exemplo, Winnicott (1950-55/2000, p. 293-4) fala de uma criança que presencia uma briga entre os pais num momento em que ela está inteiramente concentrada em outra coisa. Como consequência, no interior da criança passa a existir o momento dos seus pais brigando e para controlar o que foi internalizado, a criança passa a dirigir grande parte de sua energia para isso, mas nos momentos em que o conteúdo internalizado toma poder, “[…] a criança comporta-se como se estivesse possuída pelos pais que brigam. Ela age de modo compulsivamente agressivo, desagradável, irracional, delirante” (p. 294). Ainda nessa situação, a criança também pode provocar brigas constantes com as pessoas do seu mundo externo, arranjando o mundo externo como projeção do que internalizou de ruim (briga dos pais).

No segundo exemplo, Winnicott (1950-55/2000, p. 294) diz que a criança pode querer preservar no seu mundo interno o que é benigno e expulsar ou eliminar o que é maligno. Dessa forma, a criança pode tentar expulsar algo que é maligno dando pontapés, cuspindo, emitindo gases etc… E como forma de eliminar o maligno pode tentar se suicidar.

No terceiro exemplo, Winnicott (1950-55/2000, p. 294) aponta o humor depressivo como consequência do controle total do tipo repressivo da criança sobre os impulsos no seu mundo interno. Ao gerar um estado intolerável internamente a criança pode apresentar um quadro maníaco complementar, ou seja, um estado de vivacidade toma conta e impulsiona a criança que se torna agressiva mesmo sem uma causa aparente. Esse estado é diferente da defesa maníaca, que é a negação da depressão por uma atividade exagerada e artificial.

No decorrer do estágio do concernimento, a criança normalmente apresenta um estado deprimido, diminuindo a vivacidade dos seus impulsos internamente, pois está num processo de fusão dos impulsos agressivos e amorosos em seu self unitário. Desta

forma, as pessoas que alcançaram o estágio do concernimento e desenvolveram a capacidade para sentir tristeza e para reagir à perda de maneira organizada, são as pessoas que desenvolveram a capacidade para deprimir-se, que segundo Winnicott

(1963/1989) é uma conquista do amadurecimento. O autor denomina esse tipo de depressão de reativa simples.

Mas quando a integração dos impulsos não foi bem-sucedida e sua vivacidade ameaça a existência do mundo interno, o indivíduo pode desenvolver uma depressão do tipo patológico. Dessa forma, a depressão é um conceito muito amplo de distúrbios mentais, que vão desde o extremo da normalidade – que implica maturidade no indivíduo e um grau de integração do self – até o outro extremo, a depressão esquizoide, quadro clínico que se assemelha à esquizofrenia.

Outras formas de defesa também podem se organizar, por exemplo, a paranoia. Neste caso, os instintos agressivos/destrutivos são tão ameaçadores ao mundo interno, que o indivíduo os projeta para o mundo externo, e a consequência, é um estado delirante (WINNICOTT, 1988/1990).

Winnicott (1988/1990) acredita que nesse caso “[…] as mudanças profundas necessárias surgem através da liberação do sadismo oral reprimido. Isto só pode ser feito através de um tratamento psicanalítico pessoal e intensivo” (p. 105).

A defesa maníaca também é uma das tentativas dos indivíduos de lidar com o estado de espírito deprimido. Neste caso, há uma negação da depressão e a consequência é o exagero da vivacidade. Aqui a capacidade para se deprimir se encontra ameaçada, ou seja, a possibilidade de experienciar a integração dos instintos pelo self é evitada e, consequentemente, o processo do amadurecimento que surge a partir dessa experiência não se concretiza.

A neurose obsessiva também pode se estruturar quando esse processo de integração dos impulsos não acontece. Os impulsos geram no indivíduo uma confusão tamanha que ele sente a necessidade de organizar e controlar o mundo externo para aliviar a tensão de sua desorganização interna. “[…] o mecanismo de defesa obsessivo eclode em crianças com dificuldades de se defrontar com seus impulsos agressivos/destrutivos, que foram patologicamente separados dos impulsos amorosos originários e são vividos em oposição a eles. Isso, em função de um rígido treinamento moral” (NAFFAH, 2008, p. 30).

Nos casos mais graves, a neurose obsessiva “[…] pode mascarar uma dimensão psicótica da personalidade, em geral, de tipo melancólica. Nesse caso, a neurose

funciona como uma primeira capa que, quando desmanchada faz eclodir um núcleo psicótico, de maior gravidade” (NAFFAH, 2008, p. 30).

Se não houve a fusão dos impulsos agressivos e amorosos no percurso natural do desenvolvimento, o indivíduo pode, de forma secundária, tentar fundi-los, por meio da erotização dos impulsos agressivos, “na saúde é mais correto dizer que a motilidade funde-se ao erótico” (WINNICOTT, 1950-55/2000, p. 299). Essa fusão é uma das raízes da tendência sádica compulsiva, que pode se transformar em masoquismo; segundo Winnicott, o desenvolvimento do sadismo ou do masoquismo está relacionado com o comportamento sádico ou masoquista do primeiro parceiro do indivíduo.