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1.4. ŞİDDET İLE İLGİLİ KURAMSAL AÇIKLAMALAR 1 İçgüdü Kuramları

1.5.4. Ekonomik Şiddet

Depois de mais de uma década de árduo trabalho diplomático e de administração interna luso-americana para consolidar os interesses imperiais portugueses de demarcação dos territórios limítrofes com o Império espanhol nos domínios da América, a incerteza no futuro tornou a influenciar os gabinetes da Corte de Lisboa. Toda a disposição demonstrada pelos negociadores de Madri na formulação do Tratado de Limites de 1750, a qual consolidou incontestáveis benefícios para o Império português, passou por uma guinada acentuada e imprevista para os lusitanos, por conta do duplo falecimento da Rainha de Espanha, D. Bárbara de Bragança (1758), e do próprio Rei D. Fernando VI (1759), seu marido, considerados os grandes defensores da paz com Portugal e os viabilizadores da política territorial que levaria ao estabelecimento do Tratado de Madri. A antiga sombra da guerra entre as nações ibéricas, separadas pelo filete de luz que tinha iluminado as suas relações políticas entre 1746 e 1758, novamente se agigantou e cobriu a correlação de interesses luso- espanhóis, quando trouxe à baila da cena política as velhas e agora revigoradas hostilidades entre as duas Monarquias, endurecidas desde o término da União Ibérica (1580-1640).

Sem mais demora, os dirigentes da Monarquia portuguesa passaram a trabalhar com a hipótese de um conflito iminente com a Espanha. A subida ao trono do novo monarca Carlos III, aliada à sua disposição de reerguer o Império espanhol à custa da quebra da política de neutralidade diplomática diante das questões externas, passou a ser uma preocupação a mais para os secretários de Estado de Lisboa, cujos esforços estavam sendo direcionados, em grande medida, para a execução do processo de ocupação territorial dos confins americanos situados nas bacias dos rios Amazonas, Negro, Guaporé, Paraguai e Uruguai. Às mudanças estruturais de caráter administrativo e fiscal impostas correspondiam a maior complexidade em lidar com os grandes problemas que também iam emergindo da criação de novas vilas e lugares, principalmente oriundos da inserção vertical do poder temporal da Monarquia por sobre as configurações políticas, econômicas e sociais existentes nas aldeias missionárias e nas povoações leigas do vale do rio Amazonas.

A situação, que já se apresentava como complicada com a razoável colaboração da Corte de Madri, passou a ficar ainda mais preocupante com o franco envolvimento da

Espanha na conjuntura beligerante que então grassava sobre o mundo da época: o conflito entre a França e a Grã-Bretanha, que ficou conhecido como a Guerra dos Sete Anos (1756- 1763). Essa contenda expôs simultaneamente a magnitude do conflito moderno setecentista, travado em diversos pontos da Europa e América, em uma “era da força” francamente marcada por conflitos intermitentes entre as Monarquias europeias, cuja disputa se concentrou inicialmente na concorrência sobre a soberania dos territórios do Canadá e Acádia, nos quais estavam concentrados importantes rotas de comércio entre a parte norte da América e a Europa, para se alastrar para espaços e mares dos dois lados do Atlântico. As Cortes de Paris, Madri, Nápoles e Parma selaram o terceiro “Pacto da Família” (1761), pelo qual a aliança belicista foi baseada no princípio dinástico do parentesco entre os monarcas da linhagem dos Bourbons. Perante esse pacto, Portugal, que no início manteve uma postura de neutralidade diplomática diante do quadro internacional, acabou por alinhar-se à coligação capitaneada pela Grã-Bretanha - na qual também estavam presentes como aliados a Prússia, a Áustria e a Rússia -, para fazer frente à entrada da Espanha no conflito e resguardar minimamente os seus domínios no eixo atlântico de uma possível investida bélica dos vizinhos, nos ermos espaços situados nos e entre os extremos das bacias do Amazonas, Mato Grosso e Rio da Prata.1

Toda essa situação fazia perigar o projeto de expansão territorial do Império português sobre as regiões fronteiriças das subunidades do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso, Cuiabá e Rio Grande de São Pedro. Longe de esse sentimento ter sido produto da mera abstração ou de uma improvável conspiração, o envolvimento da Espanha na aliança bourbônica capitaneada pela Corte de Luís XV ocasionou, pelo menos, uma consequência concreta para os domínios ibero-americanos: o cancelamento do Tratado de Madri pelo Tratado d’El Pardo, também em 1761. Apesar da alegação formal da anulação ter sido fruto das discordâncias de parte a parte nos trabalhos dos demarcadores, não há como não considerar o fato de que

1 O século XVIII praticamente inteiro foi o século das guerras entre as principais Monarquias e Impérios europeus. Entre 1701 e 1790, diversos conflitos marcaram profundamente o ambiente político e econômico mundial, intercalados por curtos períodos de paz motivados por tréguas em virtude da exaustão dos recursos materiais e humanos. Em destaque, seguem os conflitos de maior envergadura: Guerra de Sucessão Espanhola (1701-1714), Guerra de Sucessão Polonesa (1733-1735), Guerra da Orelha de Jenkings (1739), Guerra de Sucessão Austríaca (1740-1748), Guerra dos Sete Anos (1756-1763), Guerra Russo-Turquesa (1768-1774), Guerra de Independência Americana (1775-1783), Guerra de Sucessão Bavária (1778-1779), Segunda Guerra Russo-Turquesa (1787-1790) e Guerra Turco-Austríaca (1788-1790). Armstrong STARKEY. War in the age of

the Enlightenment, 1700-1789. Westport, Connecticut: Praeger, 2003, p. 1-33. Conferir ainda: Jean

CHAGNIOT. Guerre et société a l’époque moderne. Paris: Presses Universitaires de France, 2001. David PARROTT. The business of war: military enterprise and military revolution in Early Modern Europe. Cambridge; New York: Cambridge University Press, 2012. John K. THORNTON. Warfare in Altlantic Africa,

1500-1800. London: UCL Press, 1999. Richard HARDING. Seapower and Naval Warfare, 1650-1830. London:

UCL Press, 1999. Jeremy BLACK. Warfare in the Eighteenth Century. London: Cassel, 1999. Jan GLETE.

Warfare at Sea: maritime conflicts and the transformation of Europe, 1500-1650. London: Routledge, 2000.

Philippe CONTAMINE. War and competition between states. Oxford; New York: Oxford University Press, 2000.

Portugal e Espanha já operavam as suas políticas imperiais a partir de seus posicionamentos antagônicos no jogo de alianças da Guerra dos Sete Anos. Jogo esse que demonstrava ser amplamente desvantajoso para ambas as monarquias, por serem potências de segunda grandeza no cenário internacional da época, cuja dependência econômica e militar era assumidamente inconteste tanto para os áulicos do Conselho Ultramarino da Corte de D. José I, como para os integrantes do Conselho de Índias da Corte de Carlos III.

O problema mais imediato do avanço dessa turbulência beligerante sobre o Império português estava no fato de que o eixo atlântico de territórios e rotas comerciais entrava definitivamente no centro das hostilidades entre as nações imperiais europeias. Em caso de capitulação de uma ou outra potência de primeira grandeza envolvida, parecia pouco crível que a parte vitoriosa não procuraria aumentar o seu espaço de influência no interior do continente americano através de novas anexações terrestres, fluviais e marítimas, retiradas dos domínios imperiais dos derrotados, ou dos próprios aliados, dado que todos orbitavam como Estados consideravelmente dependentes, econômica e militarmente, da Grã-Bretanha e da França. Essa desconfiança se encontrava relativamente bem enraizada nas diversas políticas desenvolvidas pelo Império português a partir de 1759, tendo ficado cada vez mais forte de 1762 para adiante, quando tinha sido descoberto um plano de invasão do território peninsular lusitano por tropas coligadas de França e Espanha, ao mesmo tempo em que os britânicos visualizavam boas oportunidades de forçarem uma brecha comercial na região do rio da Prata através do apoio militar à manutenção da presença dos portugueses na Colônia do Sacramento, na guerra que mais vez se armava com os espanhóis, a partir da ocupação militar da região do Rio Grande e da ilha de Santa Catarina capitaneada pelo Governador de Buenos Aires, D. Pedro Cevallos, em 1762.

O núcleo central do debate deste capítulo está justamente na mensuração das repercussões desse jogo político internacional nas políticas desenvolvidas pelos encarregados da Monarquia portuguesa particularmente para o Estado do Grão-Pará e Maranhão, assim como os territórios integrados ao extremo ocidente do rio Amazonas, como era o caso da Capitania do Mato Grosso. Todos os movimentos bélicos produzidos pelas nações em conflito na “Guerra Fantástica” afetaram diretamente os planos ultramarinos dos encarregados das políticas imperiais portuguesas, levando-os a influir diretamente nas transformações administrativas, sociais e fiscais iniciadas nos domínios luso-americanos a partir de 1748. Mais uma vez, partimos do princípio de que as políticas desenvolvidas pela Corte de Lisboa nesse momento estavam diretamente atreladas às relações de força dispostas no mundo da época, no qual o eixo atlântico de produção e comercialização de riquezas passou a ser alvo

da cobiça de múltiplas entidades imperiais dispostas a tomá-las pela guerra localizada nas fronteiras. Para os efeitos deste texto, consideraremos os domínios ibero-americanos dos rios Amazonas, Negro, Madeira, Mamoré e Guaporé, que estiveram novamente articulados na imaginação política lusitana, como o miolo de onde procuraremos discutir essa complicada conjuntura mundial.

Desse modo, a estratégia de salvaguarda dos territórios imperiais americanos remetia a cada vez maior inserção da burocracia lusitana no controle do espaço e dos habitantes da bacia do rio Amazonas, região essa imaginada e administrada como uma grande fronteira do Império português. Esse procedimento, que se caracterizava pela expansão da malha burocrática, militar e fiscal sobre os quadrantes do Estado do Grão-Pará acabava por gerar ainda mais descontentamentos e práticas de desobediências às leis e às autoridades constituídas, através da ampliação das práticas de contrabando no interior e para além das fronteiras. Na conjuntura de guerra e de “paz armada” do fim da década de 1750 e em praticamente toda a década de 1760, a população das povoações teve que conviver com um controle ainda mais severo de suas atividades produtivas, de coleta e de comércio, o que aumentava as insatisfações locais com a administração imperial, gerando uma continuidade que se estenderia até o processo de independência brasileira.

O período da discussão tem início em 1756, quando as primeiras notícias da deflagração da guerra franco-britânica chegaram ao conhecimento das autoridades do Estado do Grão-Pará e Maranhão, e se estende até o ano de 1772, no qual os planejamentos e ações imperiais portuguesas ainda se encontravam sob o influxo do referido conflito. Apesar de a Guerra dos Sete anos ter cessado em 1763, quando as potências beligerantes estabeleceram os seus acordos no Tratado de Paris, na prática a tensão oriunda das pesadas sanções impostas pela vitoriosa Grã-Bretanha às Monarquias bourbônicas do “Pacto da Família” continuou a afetar diretamente a conjuntura de paz, sobretudo entre portugueses e espanhóis e suas partes americanas. Esse clima de inquietude esteve relativamente presente nos espaços contíguos ao rio Amazonas e seus tributários, cuja boa administração passou a ter relação com os agressivos acontecimentos no Mato Grosso e na região das Guianas. As fronteiras continuavam presentes nas reflexões e atitudes políticas dos lusitanos da península e d’além mar, através das quais poderia advir a ruína de todo o esforço de ocupação da maior parte da América portuguesa.

2.1- Sob a nebulosa da guerra

A tomada de consciência sobre a possibilidade do conflito estabelecido entre os Impérios francês e britânico influenciar a Monarquia portuguesa e os seus domínios ultramarinos foi gradativa. Em 1755, as novas que chegavam da Península Ibérica ao Estado do Grão-Pará e Maranhão, geralmente através da correspondência oficial, passaram a tratar pontualmente do cenário geopolítico vivenciado na Europa, mais como informe de praxe, para o melhor gerenciamento administrativo e fiscal dos domínios de ultramar, do que propriamente como elemento de reflexão sobre as consequências do conflito para o Império e suas conquistas d’além-mar. O centro das atenções continuava mesmo a ser a execução da delimitação dos confins ibero-americanos constantes no Tratado de Madri nas fronteiras ocidentais do Império, principalmente sobre as manobras jesuíticas e espanholas na parte sul do mundo luso-americano, no qual a eclosão da “guerra guaranítica” e as dificuldades do trabalho da comissão lusitana, capitaneada pelo Governador do Rio de Janeiro Gomes Freire de Andrade, compunham um quadro preocupante.2

Na visão do Governador Mendonça Furtado, a guerra detonada na sul do continente americano pelos regulares da Companhia com os índios da nação Tape constituía uma realidade bastante diferente daquela vislumbrada para as demarcações do extremo-norte. Ao invés de um movimento armado, como acontecia no sul, a associação entre os padres jesuítas e os indígenas no extremo norte era sub-reptícia e oculta, porém não menos efetiva e prejudicial aos negócios do Império. À espera da comissão espanhola no Arraial de Mariuá (depois elevado à Vila de Barcelos) desde dezembro de 1754,3 o mandatário do Estado recebia a exposição do cenário internacional marcado pela Guerra dos Sete Anos com alguma incredulidade, sem atinar com as possibilidades de os sertões do rio Amazonas e o próprio trabalho de demarcação dos limites com a Espanha serem envolvidos no conflito. Como expressou em carta ao irmão Carvalho e Melo, o Governador Mendonça Furtado vaticinava que “a guerra dos franceses com os ingleses, como nos deixam, não nos prejudicará, e

2Ofício do Governador e Capitão-General do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, para o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, Sebastião José de Carvalho e Melo, sobre as atitudes do comissário castelhano e do governador de Buenos Aires contra o general Gomes Freire de Andrade, e ainda, a guerra declarada entre franceses e ingleses. Arraial de Mariuá, 22/11/1755. Documentos Avulsos do Conselho Ultramarino - Capitania do Pará. AHU_ACL_CU_013, Cx. 39, D. 3690. PRDH.

3Carta do Governador e Capitão-General do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, ao Bispo do Pará, D. Frei Miguel de Bulhões e Sousa, dando-lhe notícia da viagem e acusando o recebimento de suas cartas sobre assuntos administrativos. Mariuá, 04/01/1755. Apud MENDONÇA, A

enquanto elles se quebram as cabeças húns dos outros, espero Deos que nos concervemos em forma [e] que tiremos daquella discordia as felicidades que a Paz traz consigo”.4

Menos de um ano e meio depois, o panorama parecia ficar mais nebuloso e pouco previsível. Uma carta enviada pelo Vice Provincial da Companhia de Jesus para o Regular Antônio José da Vila de Borba, a Nova, colocou outra vez em relevo a situação diplomática vivenciada na península, na qual uma mobilização militar espanhola estaria sendo organizada na cidade de Badajoz, na fronteira da Espanha com o Reino, onde estariam aquartelados cerca de vinte regimentos. Tal movimentação inspirava a ideia de que estaria sendo armada uma invasão sobre Portugal peninsular, que, no conteúdo da correspondência, estava relacionada à instrução dada pela Corte de Paris para que o embaixador francês se retirasse imediatamente de Lisboa, por conta da presumida manutenção da aliança sub-reptícia entre portugueses e ingleses na Europa, o que provocou a mesma atitude portuguesa sobre o seu embaixador na capital francesa. Essa situação não traria bons presságios para o Império português, pois “os coraçoens estão como de pedra”. A guerra avizinhava-se perigosamente, e cada vez parecia mais convicta era a ideia de que “Portugal não será salvo dos Franceses”. Em caso de capitulação da sede imperial, o jesuíta avaliava que “não faltará que ver a América como parte que lhe poderá dar mais lucro e proveito”.5

A julgar pela péssima reputação que a Companhia de Jesus angariava diante das autoridades em toda a América portuguesa, e, mormente no Estado do Grão-Pará e Maranhão, por causa da oposição realizada pelos padres ao processo de demarcação dos limites ibero- americanos de 1754 em diante, as informações contidas na curiosa carta tinham um lastro de veracidade. Não se sabia bem, entretanto, que envolvimento teriam os regulares jesuítas nos acontecimentos vivenciados em Portugal peninsular, pois, segundo investigação do Governador Mendonça Furtado, a fonte seria um padre jesuíta enviado ocultamente à cidade do Porto para tratar dos negócios da Companhia, o que o inspirava a pensar que alguma aliança entre os jesuítas e os franceses poderia deflagrar o caos nos domínios luso-

4Ofício do Governador e Capitão-General do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, para o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, Sebastião José de Carvalho e Melo, sobre as atitudes do comissário castelhano e do governador de Buenos Aires contra o general Gomes Freire de Andrade, e ainda, a guerra declarada entre franceses e ingleses. Arraial de Mariuá, 22/11/1755. Documentos Avulsos do Conselho Ultramarino - Capitania do Pará. AHU_ACL_CU_013, Cx. 39, D. 3690. PRDH.

5 Conferir: Cópia da Carta do Vice-Provincial da Companhia de Jesus, João Antonio Pinto da Silva, para o Capitão da Vila de Borba, a Nova, Diogo Antonio de Castro. Canal, 23/04/1757. Anexo ao Ofício do Governador e Capitão-General do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, para o Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Tomé Joaquim da Costa Corte Real, sobre a viagem suspeita do padre João Ferreira à cidade do Porto, enviado pelo padre visitador Francisco de Toledo. Barcelos, 04/07/1758. Documentos Avulsos do Conselho Ultramarino - Capitania do Rio Negro. AHU_ACL_CU_020, Cx. 1, D. 51. PRDH.

americanos, pois os maquiavélicos frades poderiam “aqui espalhar semilhantes novas, ou talvez, que as queira antecipar, originadas de algum conclave, que tenham feito entre si [jesuítas e franceses]”.6Mais uma vez, a conclusão a que se chegava era a de que não se podia mais alargar o extermínio de todos os padres das aldeias e povoações do Estado, pois o nível de periculosidade representado por eles era alto em todos os aspectos,7 como bem expunha um panfleto político produzido em Portugal e espalhado por toda a Europa, a Relação

Abreviada da Republica que os Religiosos Jesuítas das Províncias de Portugal e Hespanha Estabeleceram nos Dominios Ultramarinos das Duas Monarquias, e da Guerra que N’elles tem Movido e Sustentado contra os Exércitos Hespanhoes e Portugueses. Publicada em 1757

e de autoria desconhecida, mas atribuída ao ministro Carvalho e Melo, as cercas de 20 mil cópias da Relação Abreviada foram utilizadas para difundir no Velho Mundo, principalmente em Roma, a justificativa para o expurgo dos regulares da Companhia de Jesus de todo o Império português.8

A imagem da Monarquia lusitana acochada pela pressão externa das grandes potências militares, que se digladiavam na Guerra dos Sete Anos pelo controle das possessões e rotas atlânticas de comércio, parecia bem mais realista do que as impressões oficiais de pouco tempo antes. Entre uma e outra visão do conflito entre França e Grã-Bretanha construída no extremo norte da América portuguesa estava o progressivo esgarçamento da política de neutralidade lusitana no conjunto das manobras da guerra em curso. A pouca importância dada a uma proposta francesa de assinatura de um Tratado de Comércio com Portugal em 1758, a livre autorização da entrada de embarcações de guerra britânicas na região do Algarve e a falta de atitude do governo português sobre um ataque armado inglês a uma nau comercial francesa na entrada marítima de Viana do Castelo, na Província do Minho, em 1759, abriram um tempo de alerta para a Corte de Lisboa diante da acusação francesa de que a política de neutralidade portuguesa, já havia muito, era letra morta.9 Contudo, a prova mais cabal da

6Ofício do Governador e Capitão-General do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, para o Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Tomé Joaquim da Costa Corte Real, sobre a viagem suspeita do padre João Ferreira à cidade do Porto, enviado pelo padre visitador Francisco de Toledo. Barcelos, 04/07/1758. Documentos Avulsos do Conselho Ultramarino - Capitania do Rio Negro. AHU_ACL_CU_020, Cx. 1, D. 51. PRDH.

7Ibidem.

8A íntegra desse documento encontra-se em: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo 4, Rio de Janeiro, Imprensa Americana L. P. da Costa, 1842, p. 265-294. Checar igualmente a análise de: MONTEIRO, D. José: na sombra de Pombal, op. cit., p. 119-131.

9 Uma boa informação sobre esses três incidentes está em: SANTARÉM, Quadro elementar das Relações