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3.3.1. Ekonomi Modu
Além das teorias de Maingueneau, utilizamos, no decorrer da pesquisa, algumas categorias propostas por Nelson Barros da Costa (2001) tais como gestos enunciativos, identidade externa, interna e posicional. Recorremos ainda ao conceito de identidade na visão do teórico Stuart Hall, além de uma breve revisitada no conceito de canção, sob a ótica de Luiz Tatit.
3.6.1 Gestos enunciativos
No que tange ao termo enunciação, tanto Charaudeau e Maingueneau (2004), no Dicionário de Análise do Discurso, quanto Flores e Teixeira (2005) na obra Introdução à Linguística da Enunciação, atribuem a Charles Bally a introdução mais sistemática desse conceito na terminologia linguística. Ressalte-se, ainda, que é também consenso entre as obras citadas afirmar que é com Benveniste que um ponto de vista sobre a enunciação parece tomar corpo na linguística.
A partir da teoria enunciativa proposta por Benveniste, os estudos sobre a enunciação trouxeram para o rol das discussões linguísticas o sujeito, tido como personagem secundário pela linguística saussuriana. Ao se considerar a noção de subjetividade, outras começaram a emergir, como o dialogismo e a intertextualidade e as noções de sentido e de contexto, que possibilitaram uma nova forma de pensar a relação língua/linguagem.
Uma das maiores contribuições de Benveniste foi recolocar a questão da enunciação e da subjetividade. Segundo esse linguista francês, a subjetividade é entendida como ―[...] a capacidade do locutor para se propor como ‗sujeito‘‖ (BENVENISTE, 1989, p.288). Essa proposição como sujeito tem como condição a linguagem. ―É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito; porque só a linguagem fundamenta na realidade, na sua realidade que é a do ser, o conceito de ego‖. (BENVENISTE, 1989, p.288). Assim sendo, essa propriedade da subjetividade é determinada pela pessoa e o seu status linguístico.
Além de Benveniste, Bakhtin também teve grande contribuição para que as novas teorias sobre o discurso, de cunho enunciativo, considerassem alguns conceitos antes ignorados pela abordagem estruturalista, tais como: a constituição do enunciado em face de sua enunciação, a figura dos interlocutores em ação, a
cena enunciativa e os jogos ou ―lances‖ do processo interacional. Enfim, surge uma nova perspectiva pragmática da linguagem que leva em conta também outros códigos além do verbal – o não verbal, por exemplo –, que realça a importância da relação forma/sentido.
Ressaltando que originalmente as questões relativas à enunciação estariam vinculadas à análise dos fatos de língua, Charaudeau e Maingueneau (2004, p.193) afirmam que: ―A reflexão sobre a enunciação pôs em evidência a dimensão reflexiva da atividade linguística: o enunciado só faz referência ao mundo na medida em que reflete o ato de enunciação que o sustenta‖.
Destacam ainda o valor ilocutório do enunciado que residiria exatamente no fato de ele ―mostrar‖ as pessoas e o tempo nele inscritos através de sua ancoragem na situação de enunciação. A partir desse problema mais geral a que se procuraria responder com uma perspectiva enunciativa, os referidos autores vão propondo distinções na definição de enunciação.
Em primeiro lugar, observam a enunciação variando entre uma concepção linguística e outra discursiva. De um ponto de vista estritamente linguístico, a enunciação é concebida como ―[...] o conjunto de atos que o sujeito falante efetua para construir, no enunciado, um conjunto de representações comunicáveis‖ (RELPRED, apud CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 194). Já em termos discursivos, a enunciação é compreendida como acontecimento que se ancora num dado contexto, articula intrinsecamente práticas de linguagem e produção do social.
Nesses termos, o que interessa não são as operações de um sujeito falante em um ato individual de realização da linguagem, mas as possibilidades de emergência histórica de certas práticas de linguagem associadas a produções sociais e suas múltiplas formas de apreensão. Assim, de um ponto de vista discursivo, estudam-se não os modos de que um sujeito da enunciação se utiliza para se propor na linguagem, mas os modos de inscrição histórico-social das práticas de linguagem.
Em seguida, no mesmo verbete, Charaudeau e Maingueneau (2004) distinguem uma versão restrita e outra ampla de enunciação, fazendo referência a Kerbrat-Orecchioni (1980). Tal distinção implica perceber, de um lado, certos estudos que se pautam pelas marcas do sujeito da enunciação no enunciado (pronomes, desinências verbais, certos advérbios, etc), que comporiam a versão
restrita dos estudos enunciativos e, de outro, na versão ampla, os diferentes modos
de inscrição do contexto no enunciado. Para os autores citados, essa distinção atravessa uma outra, aquela que oporia uma versão fraca a uma forte da enunciação. Incluem-se na versão dita fraca os estudos atribuídos a uma linguística dos fenômenos de enunciação, a saber, a preocupação que se restringe ao emprego de certas marcas que remeteriam à situação. Já entre os estudos que comporiam uma versão forte da enunciação estariam aqueles que partilhariam da idéia de que uma concepção enunciativa da linguagem consiste em sustentar que é na enunciação – e não em realidades abstratas pré-construídas como a língua ou a proposição – que se constituem essencialmente as determinações da linguagem humana (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 194).
Nesse sentido, dizer algo parece inseparável do gesto que consiste em mostrar que se diz. Isso se manifesta através dos embreadores7; qualquer
enunciado tem marcas da pessoa e de tempo que refletem sua enunciação, coloca- se mostrando o ato que o faz surgir.
Articulando a enunciação e a ação não-verbal, Costa (2001, p.128), partindo da hipótese de uma intersemiótica constitutiva da comunicação humana, propõe a categoria de gestos enunciativos, definida por ele como sendo os atos de organização das enunciações em um suporte, que poderíamos definir como ―[...] o ato complexo de mobilizar múltiplas competências semióticas (inclusive a verbal) no sentido de realizar intentos expressivos, comunicativos e interativos‖.
Sendo de natureza plurissemiótica e coletiva, a enunciação lítero-musical faz com que esses gestos abarquem atos de diferentes naturezas, tais como a seleção das canções, sua disposição sequencial no disco, a temática, a escolha dos músicos e cantores participantes, os arranjos, a criação do lay out das capas e do encarte etc. cada um desses elementos envolvendo, por sua vez, múltiplas decisões.
Dessa forma, cada prática discursiva irá pressupor gestos enunciativos típicos. A prática discursiva das canções, como as toadas que aqui serão
7 Também chamados de dêiticos, em português a categoria dos embreadores recobre particularmente
os pronomes pessoais de primeira e segunda pessoas e os possessivos correspondentes (meu, teu...), um grande número de designações demonstrativas (este + Nome; isto...), de advérbios e locuções adverbiais locativas (aqui, à esquerda...) e temporais (amanhã, daqui a dois dias...), as categorias do presente, do passado e do futuro (o que não se deve confundir com os paradigmas de conjugação: pretérito perfeito, presente, imperfeito...). (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 183).
analisadas, por exemplo, implica gestos como a ―composição‖, a ―interpretação‖, a ―apresentação‖, cada um deles sugerindo diversos atos semióticos. ―Compor‖, por exemplo, inclui os atos de ―versejar‖, ―musicar‖ (ou ―melodizar‖), ―cantar‖, ―tocar‖ etc. (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004).
Os gestos enunciativos podem anunciar (ou denunciar) a adesão a uma proposta estética e a elaboração de um archéion. Como exemplifica Costa (2011, p. 340), para os intérpretes a escolha das canções nunca é aleatória, pois geralmente representa uma inscrição em uma memória discursiva ou a fundação de uma proposta estética que se pretende inovadora, ou ambas as coisas.
O autor ainda ressalta o fato de que alguns empresários pessoais e/ou gravadoras que publicam a obra discográfica possam interferir nessa escolha e que os limites dessa interferência dependem de fatores complexos que estão ligados, dentre outras coisas, ao status do autor na comunidade discursiva, contudo salienta apenas que, apesar de todas as injunções, em última instância, cabe ao autor aceitar ou não essas interferências, decisão que, qualquer que seja ela, pode resultar em ônus ou em bônus para sua carreira.
Como podemos perceber, o ato individual de enunciação encontra-se incorporado a um amplo contexto, em que as relações intrínsecas entre o linguístico e o social são reveladas. Assim, a linguagem não pode mais ser estudada sem que se leve em consideração a sociedade na qual está inserida, pois os processos que a constituem são essencialmente histórico-sociais, ou seja, o estudo da linguagem não pode ser desvinculado de suas condições de produção.