Tal como outras instituições sócio-históricas, a universidade apresenta rebatimentos da sociabilidade capitalista em que está inserida. Muitos de seus desafios encontrados na contemporaneidade derivam, em grande escala, das medidas adotadas em torno das políticas públicas educacionais impetradas pelo Estado, ora tendentes à restrição, ora favoráveis à democratização deste nível de ensino. Nesta perspectiva,
Se há algo que parece universalmente aceito é o fato de que a instituição e a comunidade universitária são datadas e situadas. Desse modo, são condicionadas pela realidade na qual estão inseridas, a partir de injunções de todo tipo, desde econômicas, políticas, culturais, religiosas, até de pessoas e grupos responsáveis por sua gestão, e por sua vez, condicionam essa mesma realidade pelos impactos nela produzidos em função daquilo que nela se pensa e se faz [...] (WANDERLEY, 2005, p. 157).
Por sua essência, a universidade é por certo lugar de convivência de múltiplas cosmovisões e searas do conhecimento. E atualmente, se configura, de modo ainda mais enfático, enquanto espaço de convivência entre classes sociais, isto é, entre segmentos populacionais há tempos alijados do espaço universitário, que passaram a ter acesso e usufruto deste meio, em conjunto com outros sujeitos historicamente usuários deste nível de ensino. Neste sentido,
É papel da universidade, que contribui para a construção de uma sociedade democrática, expandir e democratizar o acesso ao ensino, garantindo a heterogeneidade e a diversificação de seus quadros. A ausência histórica de afro- brasileiros no ensino superior brasileiro revela, por exemplo, uma certa fragilidade da democracia no nosso país. (CASTRO, 2009, p. 248).
Destarte, há que se considerar que as universidades estão inseridas em sociedades nacionais, regionais e locais que possuem formações sócio-econômicas diferenciadas, isto é, com especificidades próprias atinentes ao seu processo de gênese e desenvolvimento em meio ao sistema capitalista, não sendo assim possível ajuizar uniformidades. Entretanto, é aceite o entendimento de que assume uma função dualista e contraditória, pois segundo Wanderley (2005, p. 157-158)
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Há um reconhecimento de que nos espaços universitários, se concretizam, ao mesmo tempo: as condições para a reprodução social do sistema socioeconômico-político- cultural envolvido [...] e as condições que propiciam a emergência de ações de resistência e de emancipação, pois neles convivem concepções e interesses conflitantes [...] a universidade em geral (incluindo todo o ensino superior) vem sendo afetada de modo crescente pelas mudanças em curso nas formações sociais capitalistas, condicionando de modo forte seus rumos e financiamento.
Desse modo, partindo do entendimento de que as universidades são espaços privilegiados, nos quais se produzem e se difundem conhecimentos, searas de diálogos e de convivência cada vez maior entre classes sociais, com a inserção progressiva de discentes provenientes de segmentos pauperizados no contexto de um projeto neodesenvolvimentista empreendido nos últimos anos, tais instituições devem, portanto, estar preparadas para o atendimento a este público, de modo a favorecer condições de permanência e êxito em seus cursos, com vistas a minorar situações desiguais entre estudantes provenientes de famílias pobres e aqueles que possuem melhores condições socioeconômicas, sob uma perspectiva equitativa.
Decerto, tal como podemos visualizar no processo de desenvolvimento do ensino superior brasileiro, sempre existiram discentes pobres que ousaram romper as barreiras elitistas das universidades públicas brasileiras, contudo, estes eram em número restrito, e as iniciativas de assistência estudantil a eles destinadas foram durante longo período de caráter pontuais, focalizadas, sem regulamentações próprias, dependentes da empatia de gestores e sob o custeio dos recursos próprios das universidades, isto é, com pouca ou nenhuma responsabilização do Estado para com a disponibilização de rubricas orçamentárias específicas para tal área.
Entretanto, a democratização do acesso ao ensino superior decorrentes das inúmeras transformações aqui expressas, possibilitou a inserção de parcela significativa de estudantes oriundos de camadas populares, que por sua vez, passaram a impor o Estado a dispor de políticas que viabilizassem a permanência destes nas instituições de ensino superior, fazendo com que a questão da assistência estudantil fosse inserida na agenda governamental, dada a diferença entre direito ao acesso e direito à permanência. Nesta perspectiva,
Um assunto fará parte de uma agenda governamental a partir do momento em que observa a relevância do mesmo no âmbito social[...] A agenda governamental diz respeito aos compromissos assumidos pelo governo, seus objetivos e interesses imediatos, suas prioridades ao lado de suas restrições. Falar em estabelecer uma agenda é falar em estabelecimento de prioridades. (PRADO; YARI, 2013, p. 2).
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Neste contexto, o Plano Nacional de Assistência Estudantil, documento a que nos referimos anteriormente e que foi elaborado pelo FONAPRACE, deu origem à Portaria Normativa do Ministério da Educação nº 39, de 12 de dezembro de 2007, que instituiu o Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), considerando a assistência estudantil enquanto mecanismo estratégico para o enfrentamento das desigualdades sociais e regionais, assim como de relevância para ampliação e democratização das condições de acesso e permanência de jovens na educação superior pública federal.
Nestes termos, o artigo 1º da referida portaria ministerial estabeleceu que o PNAES ficaria instituído no âmbito da Secretaria de Educação Superior (SESu), órgão vinculado ao MEC. O artigo seguinte, por sua vez, preconizou que o citado programa seria efetivado mediante ações de assistência estudantil articuladas às atividades de ensino, pesquisa e extensão e dispôs ainda que o PNAES seria direcionado para estudantes matriculados em cursos de graduação presenciais das IFES.
Ainda no parágrafo único do referido artigo, previu que suas ações seriam desenvolvidas nas áreas de moradia estudantil; alimentação; transporte; assistência à saúde; inclusão digital; cultura; esporte; creche, e apoio pedagógico. O artigo 3º, por sua vez, salientou que estas seriam executadas pelas Instituições Federais de Ensino Superior, considerando suas especificidades e demandas identificadas junto aos discentes.
O parágrafo 1º do supramencionado dispositivo afirmou ainda que as ações de assistência estudantil deveriam se balizar pela necessidade de “viabilizar a igualdade de oportunidades, contribuir para a melhoria do desempenho acadêmico e agir, preventivamente, nas situações de repetência e evasão decorrentes da insuficiência de condições financeiras. ” (BRASIL, 2007b, p. 1).Para o desenvolvimento de tais ações, o segundo parágrafo, por sua vez, assegurou que seriam destinados recursos orçamentários às instituições de ensino superior.
A portaria ministerial ainda estabeleceu em seu artigo 4º que a assistência estudantil atenderia a discentes matriculados em cursos de graduação presenciais das IFES, prioritariamente, selecionados mediante critérios socioeconômicos, sem, contudo, desconsiderar a autonomia universitária, que poderia fixar outros requisitos. Ademais, o parágrafo único deste artigo estabeleceu que as IFES deveriam definir mecanismos para o acompanhamento e avaliação do PNAES.
Entretanto, mesmo considerando a relevância da autonomia universitária, entendemos ser de suma importância o acompanhamento sistemático do Ministério da Educação e de outros órgãos de controle no que tange a utilização correta dos recursos executados, a fim de
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que não ocorram desvios às rubricas nem que sejam contemplados estudantes que não apresentem situações de vulnerabilidade socioeconômica.
Ademais, ainda no que tange a Portaria Ministerial nº 39/2007, o artigo 5º por sua vez, preconizou que as despesas do Programa Nacional de Assistência Estudantil seriam custeadas pelas dotações orçamentárias destinadas ao Ministério da Educação, respeitados os limites estipulados pela lei (BRASIL, 2007b). Por último, previu que o PNAES seria implementado a partir do ano subsequente, isto é, com vigência em 2008.
A portaria ministerial supra explanada serviu de base para o estabelecimento do decreto presidencial nº 7.234, datado de 19 de julho de 2010, o qual dispôs acerca do PNAES. Tal decreto ratificou alguns dos aspectos anteriormente preconizados, mas também trouxe novas disposições. Dentre os mecanismos confirmados destaca-se a sua execução do âmbito do MEC bem como a sua finalidade de ampliar as condições para permanência de jovens no Ensino Superior Público Federal devidamente matriculados em cursos presenciais de graduação. Já quanto aos seus objetivos, o artigo 2º do referido decreto especificou os seguintes
I- Democratizar as condições de permanência dos jovens na educação superior pública federal;
II- Minimizar os efeitos das desigualdades sociais e regionais na permanência e conclusão da educação superior;
III- Reduzir as taxas de retenção e evasão; e
IV- Contribuir para a promoção da inclusão social pela educação. (BRASIL, 2010, p. 1).
O artigo 3º, por sua vez, reiterou que as ações de assistência estudantil devem estar vinculadas às três dimensões do fazer acadêmico, isto é, ao ensino, pesquisa e a extensão. Contudo, além das anteriormente dispostas na portaria ministerial nº 39/2007 (BRASIL, 2007b) acrescentou o dispositivo que diz respeito ao acesso, participação e aprendizagem de discentes com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento bem como altas habilidades e superdotação.
A citada legislação ainda previu que tais ações devem abranger igualmente aos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, no que couber, e considerando as suas especificidades e demandas provenientes de seu corpo discente. Além disso, preconizou que os critérios e a metodologia para a seleção dos alunos de graduação a serem beneficiados seriam estabelecidas pelas próprias Instituições Federais de Ensino Superior.
Entretanto, mesmo respeitando a autonomia universitária, o decreto indicou em seu artigo 5º que seriam prioritariamente atendidos no âmbito do PNAES os estudantes egressos
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da rede pública de educação básica ou com renda bruta familiar per capita de até um salário mínimo e meio, sem prejuízo das demais disposições fixadas pelas respectivas IFES, ou seja, dos requisitos estabelecidos para a percepção da assistência estudantil bem como dos mecanismos de acompanhamento e avaliação do programa.
O artigo 6º, por seu turno, indicou que o Ministério da Educação teria acesso a todas as informações relativas a implementação do PNAES, solicitadas às IFES. Já os dispositivos subsequentes confirmam as indicações anteriormente sinalizadas na portaria ministerial nº 39/2007 do MEC de que os recursos destinados ao PNAES seriam repassados às IFES para a implantação das ações previstas e que seu financiamento correria por conta das dotações orçamentárias anualmente direcionadas ao Ministério da Educação, respeitada a vigente legislação.
Nesse ínterim, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES), solicitou nova pesquisa ao Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (FONAPRACE), através da qual foi possível traçar um panorama das condições socioeconômicos dos discentes das IFES. Tal estudo, divulgado em 2011, apontou dados relevantes e reiterou a necessidade de ampliação de recursos financeiros para a área.
Segundo este relatório, a expansão quantitativa de Instituições Federais de Ensino Superior provocada pelo REUNI garantiu a ampliação da oferta de vagas, chegando a 187 mil estudantes no ano de 2010. À época da pesquisa, cerca de 43,7% dos (as) discentes pertenciam as classes C, D e E, dado que indica que quase a metade dos (as) estudantes das Universidades Federais pertenciam às camadas populares.
Neste sentido, as transformações ocorridas nas políticas de ingresso ao ensino superior público brasileiro, que oportunizaram a democratização deste nível de instrução, insurgiram profícuos debates no interior das IFES, em meio às instâncias representativas de gestores, no movimento estudantil e no corpo técnico-administrativo em educação, constituído sobremaneira, por assistentes sociais, psicólogos, pedagogos, dentre outros profissionais, responsáveis pela implementação de tais programas e auxílios estudantis. Neste contexto de expansão da educação superior,
[..] o REUNI foi criado e para garanti-lo tem-se o PNAES que, reiterando-se é destinado a auxiliar estudantes matriculados em cursos de graduação presencial de instituições federais de ensino superior, oferecendo subsídios para permanência de alunos de baixa renda nos cursos de graduação, com o intuito de diminuir a desigualdade social e possibilitar a democratização na educação superior. Esse plano pretende incorporar as demais propostas do Ministério da Educação (MEC), visando
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a expansão da oferta de vagas, garantia de qualidade, inclusão social e redução da repetência e da evasão. (PRADO, YARI, 2013, p. 9).
Destarte, não é de hoje que a obtenção de um grau superior está diretamente vinculada às oportunidades de maior ascensão social. Contudo, quando nos referimos a estudantes provenientes de famílias pobres e extremamente pobres, o acesso ao ensino superior é ainda mais significativo, tendo em vista que parcela significativa de seus componentes familiares possuem baixo nível de escolaridade, não sendo escassos os relatos de que tais jovens são os primeiros a acessarem este nível de ensino na família.
Além disso, a destinação de metade das vagas à inserção de estudantes cotistas, também em cursos tradicionalmente tidos de maior remuneração e prestígio social, tais como Medicina, Direito e Engenharias, até então amplamente galgados por discentes advindos de famílias mais economicamente abastadas, contribuiu, sobremaneira, para modificar o elitismo historicamente vigente sobre essas graduações, e possibilitar a inclusão, por meio de ações afirmativas que visam a equidade, de segmentos populacionais que não dispunham de condições de ensino igualitárias para a concorrência das mesmas nas configurações anteriormente existentes.
Neste sentido, há que se considerar as representações sociais que a conquista do diploma de grau superior implica, posto que a ele sempre esteve vinculado o ideário de mobilidade social, isto é, seu poder de significar a possibilidade de rompimento com o ciclo vicioso da pobreza e da exclusão social, bem como oportunizar maiores condições de inserção no mercado de trabalho, assim como também promover melhorias no que tange ao crescimento de seu poder aquisitivo, tal como esclarece Conceição e Cunha (2012, p. 121)
O desejo das famílias pobres de que seus filhos façam um curso superior parte da concepção, muito presente no senso comum, de que essa formação e a aquisição do diploma universitário possibilitam ascender não somente a um novo status ou posição social, mas funcionam também como importante estratégia de acesso ao mundo profissional, oferecendo a possibilidade de empregos mais bem remunerados e mais bem posicionados na sociedade.
Nesta perspectiva, entendendo a Educação como política social estruturante, que pode possibilitar mudanças significativas na estratificação social, a assistência estudantil passa a ser compreendida como estratégia para a inclusão social através da política educacional. Suas ações estão, portanto, diretamente direcionadas para que os discentes em situação de vulnerabilidade socioeconômica disponham de condições equitativas para a permanência nas IES e obtenham uma formação acadêmica qualificada e satisfatória.
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Desse modo, os programas e auxílios de assistência estudantil intentam ainda que os (as) estudantes por ele contemplados possam se dedicar aos estudos, sem ter de necessariamente recorrer ao mercado de trabalho para afiançar a sua estadia no meio universitário. Assim, intervindo sob múltiplos condicionantes que se apresentam nas demandas cotidianamente apresentadas pelos (as) discentes, os programas de assistência estudantil buscam minorar suas condições de vulnerabilidade.
Tais demandas são, por muitas vezes, de ordem financeira, as quais vão desde dificuldades para aquisição do material acadêmico solicitado para o desenvolvimento das disciplinas até a ausência dos recursos necessários para a frequência regular às aulas, tal como indica Castro (2009). Isso denota, em grande medida, estudantes provenientes de famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza.
Contudo, para além da questão da precariedade da renda, decorrentes de situações de desemprego, subemprego ou trabalhos informais, outras demandas podem ser igualmente visualizadas, tais como precário acesso às políticas sociais, fragilização ou o rompimento de vínculos familiares, o uso abusivo de álcool e/ou outras substâncias psicoativas, vivência de violência, bem como de problemáticas relacionadas à saúde dos estudantes, quer sejam de natureza física ou psicossocial.
Neste sentido, o conceito de vulnerabilidade tem sido amplamente adotado pelas políticas públicas e programas sociais na contemporaneidade. No que concerne ao PNAES, este estabelece um recorte monetário no corpo de seu texto, que considera famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica aquelas que detenham, preferencialmente, renda bruta familiar per capita de um salário mínimo e meio por pessoa. Entendemos que apesar do referido programa, apesar de trazer uma concepção limitada de vulnerabilidade, avança no sentido de possuir um público alvo bem mais amplo que a grande maioria das políticas sociais hoje implementadas em termos de perfil socioeconômico.
Já no que diz respeito ao conceito de vulnerabilidade para a Política de Assistência Social, principal política pública responsável pelo enfrentamento de manifestações da questão social, sobretudo, no que diz respeito ao atendimento e acompanhamento de famílias em situação de vulnerabilidade, identificamos a seguinte contribuição elaborada por Bronzo (2009, p. 175)
O suposto básico é que a vulnerabilidade tem como fatores determinantes a estrutura de oportunidades - expressão que identifica o conjunto de recursos, bens e serviços, programas, benefícios colocados à disposição de públicos com diferentes níveis e tipos de vulnerabilidade - e a dimensão psicossocial.
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Bronzo (2009) ainda lembra, que famílias em situação de pobreza - isto é, que detenham renda abaixo de um dado perfil monetário, podem apresentar situações de vulnerabilidade social. No entanto, outras famílias podem apresentar situações de vulnerabilidade sem necessariamente serem pobres, ou seja, mesmo que não possuam renda compatível para serem inseridas na condição de pobreza. Já para o Ministério do Trabalho e Emprego (BRASIL, 2007c, p. 12) “[...] a vulnerabilidade identificaria a fragilidade do vínculo social antes de sua ruptura”. A vulnerabilidade estaria, portanto, diretamente vinculada a maior propensão à exposição de riscos sociais.
Entretanto, invariavelmente, não há como debater acerca da vulnerabilidade socioeconômica desconsiderando as concepções de pobreza que permeiam as políticas públicas. Siqueira (2013, p. 199) adverte que uma visão “desenvolvimentista” tende a ver a pobreza enquanto uma “[...] fase ou ‘distorção’ do sistema capitalista, passível de solução”, em que a pobreza é encarada numa perspectiva de transitoriedade, em razão de um parco desenvolvimento ou de crises econômicas dos países. No âmbito de uma perspectiva neodesenvolvimentista, por sua vez, a autora informa as proposições de Amartya Sen, que tem ganhado espaço em organismos multilaterais como o Banco Mundial, em suas propostas de políticas para Estados Nacionais em desenvolvimento.
Amartya Sen pensa a pobreza não apenas como um baixo nível de renda (ou pobreza absoluta), não sendo mensurável apenas pelo nível da renda, mas como a privação
de capacidades básicas que envolve acessos a bens e serviços, inclusive por isso lhe
é atribuída a formulação de pobreza na sua multidimensionalidade. [...] A “questão
social” e as suas expressões, para o autor, estão bem longe da discussão da
acumulação capitalista e da apropriação privada da riqueza produzida. A concepção de desigualdade do autor vincula-se à desigualdade de oportunidades e da privação de necessidades básicas. A desigualdade é pensada individualmente, centrada no indivíduo e na ausência das condições básicas de sua existência (acesso à saúde, educação, saneamento básico, alimentos etc.) [...]. (SIQUEIRA, 2013, p. 124).
Assim sendo, a visão “multidimensional” da pobreza proposta por Sen, avança ao passo que não a limita a patamares puramente monetários, os quais durante muitos anos, obtiveram primazia na definição dos aspectos relativos à formulação, implementação e avaliação de políticas públicas e programas de caráter social, bem como de seus públicos- alvo. Entretanto, não podemos perder de vista, que tal proposta não encontra na pobreza a outra face da acumulação capitalista. A perspectiva marxista entende-a, portanto, enquanto um fenômeno estrutural, inerente ao modo de produção desse sistema.
Desse modo, se de um lado existem os detentores dos meios de produção, de outro há uma classe que detém apenas sua força de trabalho a ser vendida. Assim, sendo a riqueza
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socialmente produzida, sua socialização não o é, ao passo que, apropriada por uma pequena quantidade de indivíduos, pertencentes à classe burguesa, relega a uma profunda pauperização a classe trabalhadora. Neste sentido, “[...] a pobreza não é um resquício de sociedades pré- capitalistas, ou um produto de um insuficiente desenvolvimento. Ela é produto necessário do MPC. ” (SIQUEIRA, 2013, p. 164). Ademais, a autora complementa “Assim, a pobreza não é um aspecto residual, transitório do capitalismo, é estrutural e resultado do seu próprio desenvolvimento. O capitalismo gera acumulação, por um lado, e pobreza por outro; jamais eliminaria nem um nem outro. ” (SIQUEIRA, 2013, p. 164).
Achamos, igualmente, oportuno destacar as considerações de Houtrart (2016, p. 15) no que diz respeito ao fenômeno da pobreza e da miséria, o qual afirma que, mesmo sempre tendo existido, desde épocas escravocratas e servis, no seio do sistema capitalista, tais fenômenos apresentam novas configurações, advindas da relação capital x trabalho. Vejamos suas contribuições
Na realidade, o fenômeno da pobreza e sua face mais extrema, a miséria, sempre marcaram a humanidade, mas pode-se considerar que é no capitalismo que suas