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Na década de 50 surge no Japão uma nova filosofia de manufatura baseada na melhoria contínua dos processos e com foco no atendimento das necessidades dos clientes.

Esta filosofia idealizada por Taiichi Ohno, gerente da Toyota Motors Company, ficou mundialmente conhecida como Sistema TPS.

Segundo Nazareno (2003), nesse momento histórico a Toyota procurava remover as ineficiências entre as atividades de processamento, inspeção e transporte e posteriormente buscou reduzir a geração dos estoques intermediários e de produtos finais ao longo do seu processo produtivo, com o objetivo principal de reduzir seus custos operacionais.

Esse sistema consiste em um modelo de gestão centrado na qualidade, com foco na participação de todos, visando o sucesso em longo prazo, por meio da satisfação do cliente e da concessão de benefícios para todos os membros da organização e para a sociedade. Tem como objetivo central capacitar as organizações para responder com rapidez às constantes flutuações de demanda do mercado por intermádio do alcance efetivo das principais dimensões da competitividade: flexibilidade, custo, qualidade, atendimento e inovação, de forma contínua buscando a sustentabilidade da vantagem competitiva (GODINHO FILHO; FERNANDES, 2004; WOMACK; JONES; ROOS, 2004).

Monden (1984, p. 1) apud Ballestero-Alvarez (2010, p. 71) define a produção enxuta como “um método racional de fabricar produtos pela completa eliminação de elementos desnecessários à produção, com o propósito de reduzir custos.” Sua ideia básica consiste em “produzir os tipos de unidades necessárias no tempo necessário e na quantidade necessária”. Assim, faz-se necessário, inicialmente, identificar “o que” será produzido, de acordo com a necessidade do cliente, e “como” será produzido, ou seja, eliminando tudo o que não agrega valor no processo produtivo, sejam materiais, processos, ou até mesmo postos de trabalho.

Na visão de Godinho Filho e Fernandes (2004, p. 2), por sua vez, a produção enxuta pode ser entendida como:

Um modelo estratégico e integrado de gestão, direcionado a certas situações de mercado, que propõe auxiliar a empresa a alcançar determinados objetivos de desempenho (qualidade e produtividade); paradigmas esses compostos por uma série de princípios (idéias, fundamentos, regras que norteiam a empresa) e capacitadores (ferramentas, tecnologias e metodologias utilizadas).

Na Figura 1, são apresentadas as diferenças entre atividades que agregam valor, atividades que não agregam valor e as perdas ocasionadas no processo produtivo que devem ser minimizadas ao máximo para se alcançar um nível ótimo de produtividade e redução de custos, defendidas pela produção enxuta:

Figura 1 – Consumo do processo para produzir um bem

Fonte: Adaptada de Ballestero-Alvarez (2010, p. 75).

Para Azevedo, Barros Neto e Nunes (2010, p. 5), a produção enxuta consiste na “eliminação do desperdício em toda e qualquer área da produção, inclusive relações com clientes, desenho de produtos, rede de fornecedores e administração da fábrica”. A diferença básica entre a filosofia de gerenciamento tradicional e a lean production se evidencia principalmente no aspecto conceitual, indicando que os procedimentos lean sejam aplicados em todas as indústrias que produzem bens e serviços, enquanto que o modelo tradiconal está mais alinhado ás práticas tangíveis da manufatura propriamente ditas.

Na visão de Liker e Meier (2007, p. 38-39), “o resultado é um processo enxuto que proporciona alta qualidade aos clientes a um baixo custo, dentro do prazo e que permite que a Toyota seja compensada sem precisar manter enormes quantidades de estoque.”

Meirelles (2007, p. 82), por sua vez, defende que o Sistema de Produção Enxuta afastou-se das características da organização do trabalho da produção em massa de Ford, “sendo em grande parte responsável pela disseminação do trabalho em equipe, da flexibilidade da força de trabalho e da aproximação do trabalhador operacional aos assuntos relacionados à gestão”.

Agrega Valor

Não Agrega

Valor Perdas Consumido no Processo

+ + = Matéria-prima Operações transformadoras Estoques Esperas Inspeções Transportes (em excesso) Retrabalho Quebras Refugo Paradas de linha Movimentos desnecessários

De acordo com Ferreira (2004, p. 22):

A produção enxuta usa times de trabalhadores com várias habilidades em todos os níveis de organização, e usa máquinas altamente flexíveis e cada vez mais automatizadas para produzir grandes volumes de produtos em enorme variedade, com melhor aproveitamento dos recursos existentes, em quantidade suficiente. O produtor enxuto define seu objetivo na perfeição, produzindo sempre maiores benefícios e delegando, a cada trabalhador, uma parte da responsabilidade.

A produção enxuta exige um programa constante de aperfeiçoamento dos processos para aumentar a eficiência e reduzir os custos com desperdícios, sejam estes de tempo, em materiais, força de trabalho ou financeiros (FERREIRA, 2004). Atualmente a Toyota é caracterizada como benchmarking da indústria automobilística e “esteve na vanguarda das empresas que desenvolveram sistemas de ferramentas enxutas para a produção” (RITZMAN; KRAJEWSKI; MALHOTRA, 2009, p. 287).

O livro “A máquina que mudou o mundo” introduziu o conceito de produção enxuta (lean production), e desde então tem sido uma das referências mais citadas pelos estudiosos da gestão de operações na última década (HOLWEG, 2007). Este livro é baseado em um dos maiores estudos realizado na indústria automotiva mundial, o International Motor Vehicle Program (IMVP, em português, Programa Internacional de Veículos Automotores) do Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), com um investimento total de cinco milhões de dólares, realizado num período de cinco anos e abrangendo 14 países.

Segundo Womack, Jones e Roos (2004, p.3):

A produção enxuta é “enxuta” por utilizar menores quantidades de tudo em comparação com a produção em massa: metade do esforço dos operários na fábrica, metade do espaço para fabricação, metade do investimento em ferramentas, metade de horas de planejamento para desenvolver novos produtos em metade do tempo. Requer também bem menos da metade dos estoques atuais no local de fabricação, além de resultar em bem menos defeitos e produzir uma maior e sempre crescente variedade de produtos.

Holweg (2007) investiga a evolução da pesquisa do IMPV na concepção do conceito de lean production, tendo como foco principal a forma como esse programa influenciou a promoção mundial desse conceito. Baseado em uma série de entrevistas com especialistas e na compilação de pesquisas realizadas no período de 1930 a 2005, o artigo apresenta a evolução histórica e a disseminação da visão lean.

Do ponto de vista da prática de produção, o Just in Time é fundamental para o conceito de lean production, porque impulsiona o uso de controles visuais da fábrica, as atividades de melhoria contínua e intensifica a delegação de responsabilidades. A partir de uma visão teórica, a utilização do fluxo de Just in Time é também importante para o conceito de produção enxuta, porque agrega valor ao serviço com a utilização de lotes econômicos e um fluxo de processo mais eficiente (COONEY, 2002).

Pesquisando sobre o assunto, Melton (2005, p.662) identifica algumas ferramentas como sendo igualmente fundamentais no desenvolvimento de uma produção enxuta eficiente que são:

a) Kanban – gestão a vista, para dar suporte ao fluxo de “puxar” produto por

intermédio do processo de fabricação conforme as necessidades dos clientes; b) 5 S's – programa simplificado de gestão da qualidade, que consiste na

implementação de um conjunto de atividades visando melhorar a limpeza, a organização e a apresentação pessoal dos colaboradores com o objetivo de iniciar as práticas de melhoria contínua na organização;

c) Controle Visual – método de medição de desempenho no “chão de fábrica”,

de forma ilustrada que aplica o conceito de propriedade dos processos de trabalho realizados pelo operador;

d) Poka-yoke – “dispositivo a prova de erros”, ferramentas projetadas para impossibilitar o operador de realizar uma atividade de forma errada;

e) SMED (Single Minute Exchange of Dies – “troca rápida de matrizes”) –

técnica para a redução de troca de ferramentas em um processo.

Ballestero-Alvarez (2010, p. 71-72) identifica três conceitos fundamentais para o sucesso da produção enxuta e defende que estes devem ser considerados como “submetas para assegurar o êxito do método”. São eles:

a) Controle de quantidade – identifica a capacidade que o sistema apresenta

para se adaptar às oscilações diárias e mensais de demanda em termos de quantidade e variedade;

b) Qualidade assegurada – cada processo será alimentado apenas com unidades

c) Respeito às pessoas – deve ser enaltecido e cultivado, pois é quem faz do

método da produção enxuta algo vivo dinâmico e flexível.

A sustentabilidade da vantagem competitiva é defendida por Porter (1989) para garantir que o desempenho acima da média alcançado por uma estratégia frente aos concorrentes, seja aplicado de forma contínua nas empresas, de modo que esse resultado possa se mostrar diante das alterações de mercado. Assim, faz-se necessária a atualização constante da estratégia de redução de custos desenvolvida pela produção enxuta, como forma de a organização se destacar junto aos concorrentes e com isso, obter maiores resultados financeiros, garantindo a sustentabilidade da vantagem competitiva desenvolvida a partir da implantação desta filosofia industrial.

Dennis (2008) defende que para um melhor entendimento da filosofia lean, é importante abordar de forma estruturada a visão dos pilares que sustentam o conceito do modelo japonês de produção desenvolvido na Toyota.

A partir dos estudos realizados pelo Japanese Management Association (1989), Denis (2008) resume o conceito dos pilares da produção lean, conforme apresentado na Figura 2:

Figura 2 – A casa da produção lean

Fonte: Adaptada de Dennis (2008, p. 37).

Foco principal no Cliente:

Maior qualidade possível, menor custo possível, lead time mais curto através da eliminação constante de desperdício.

Just in Time Jidoka

Padronização Estabilidade Envolvimento: Membros da equipe flexíveis e motivados em busca da melhoria contínua

A base do sistema lean consiste na estabilidade do sistema e na padronização dos processos em que as paredes são a entrega de peças e produtos Just in Time (no momento em que são solicitadas) e o Jidoka (automação inteligente, consistindo no desenvolvimento de processos com alta competência e alto índice de contenção de falhas), o processo em que o operador da linha tem a competência de parar a linha de produção quando for detectada alguma anormalidade, desencadeando assim, um esforço conjunto para identificar a causa raiz do problema e executar a sua resolução imediata (FERREIRA, 2004).

O telhado, ou seja, a meta deste sistema é o foco que a produção enxuta tem no cliente, entregando-lhe o maior nível de qualidade possível ao menor custo. E a parte central do sistema consiste no envolvimento de todos os membros da equipe, com o intuito de que desenvolvam suas atividades da melhor maneira possível (DENNIS, 2008).

Iyer, Seshadri e Vasher (2010) ainda defendem o heijunka (ou nivelamento) como uma técnica desenvolvida pela Toyota para evitar o congestionamento da cadeia de suprimentos e o acúmulo des estoques, se utilizando de uma programação mais eficiente, no qual os pedidos de produção são nivelados de acordo com a necessidade do mercado consumidor, por meio de uma previsão de demanda flexível, reduzindo o volume dos estoques e aumentando a frequência dos abastecimentos pelos forncedores.

Segundo Iyer, Seshadri e Vasher (2010, p. 87) “O heijunka desempenha um papel vital nas operações da cadeia de suprimentos da Toyota. Ele uniformiza o fluxo de peças dos fornecedores às unidades de montagem e também serve para nivelar o fluxo de veículos destas para as concessionárias.”

Meirelles (2007) considera ainda que o desenvolvimento e a capacitação dos recursos humanos, o comprometimento dos trabalhadores e da alta gerência e a disseminação da “mentalidade enxuta” em todos os níveis da organização são práticas essenciais da produção enxuta.

Nazareno (2003) destaca que o objetivo da Produção Enxuta consiste em “permitir respostas rápidas aos clientes, através da flexibilidade do mix e volume, produzindo produtos de qualidade a baixo custo de produção”. É ainda uma forma de tornar o trabalho

mais satisfatório, oferecendo feedback imediato sobre os esforços para transformar desperdício em valor, criando novas atividades em nome da eficiência, com o principal objetivo de eliminar os desperdícios.

Segundo Melton (2005, p. 662) “Lean é uma revolução que não se dá apenas sobre o uso de ferramentas, ou mudando alguns passos em nossos processos de fabricação, mas sim sobre a mudança completa de nossos negócios.”

Cooney (2002) realizou uma revisão na literatura para demonstrar que o sistema de produção enxuta pode ser aplicado universalmente nas organizações, defendendo que suas práticas podem ser adotadas e adaptadas para as indústrias modernas, com o objetivo de agregar valor ao processo produtivo.

Defensores da produção enxuta como Jones (1992 apud COONEY, 2002, p. 1132), destacam cinco elementos da organização no sistema Lean, que são:

1. A delegação de responsabilidades para os trabalhadores da linha de frente da operação;

2. Sua organização em equipes de trabalho;

3. Envolvimento dos trabalhadores na melhoria contínua; 4. O uso de controles visuais fábrica (gestão a vista);

5. O uso do JIT para reduzir os estoques em processo e eliminar o desperdício.

Dentre esses elementos, os desperdícios merecem atenção e podem ser caracterizados como todo e qualquer recurso gasto, além do mínimo necessário, para produzir bens ou serviços. No processo de manufatura a redução deste desperdício caracteriza-se pela redução significativa dos custos de produção (FERREIRA, 2004).

Na visão de Coelho et al. (2008, p. 3), a produção enxuta tem por objetivo “a busca pela eliminação sistemática dos desperdícios, considerando-se tudo aquilo que não agrega valor às atividades no processo de produção”. Essa redução de desperdícios deve se configurar também na redução dos impactos ambientais ocasionados pelo processo produtivo, como estratégia para se alcançar um melhor desempenho ambiental e atendendo assim às necessidades quanto à adequação da empresa às novas exigências por práticas ambientalmente corretas demandadas pelo mercado consumidor atual.