A proposta de análise da pesquisa dos autores se centra em três pontos: (i) o status dos referentes aos quais a anáfora se refere; (ii) os aspectos semânticos da expressão anafórica; (iii) a relação entre (i) e (ii). Nessa relação, os autores estipulam três tipos de anáforas complexas: as anáforas neutras e lexicais, que mantêm o status ontológico da sentença, e as anáforas complexas, que promovem a alteração do status ontológico.
É imprescindível que reflitamos sobre o caráter analítico da pesquisa em questão, o que nos levou a um estranhamento em se tratando do propósito dos autores de discutir as funções das anáforas complexas em textos. Esse objetivo implicaria uma análise que não seria centrada, necessariamente, na semântica das orações e nos aspectos semântico-lexicais dos lexemas empregados nos encapsulamentos, mas nos efeitos de sentido que o emprego dessas anafóricos causaria em uma escala maior. Por outro lado, as categorias estipuladas no trabalho em questão estão mais relacionadas à possível modificação do status ontológico das porções cotextuais a serem resumidas pelas anáforas, o que poderá ser percebido nas discussões a seguir:
•manutenção do status ontológico pelo emprego de anáforas neutras
Essa categoria abarca os anafóricos que não modificam o status ontológico da
sentença encapsulada. Por conta de uma “fraqueza semântica”, os autores associam esse tipo
de anáfora aos pronomes demonstrativos neutros. Como exemplo, podemos observar a
manutenção do tipo ontológico do tipo “evento” pelo emprego de uma anáfora neutra:
(28) Vários acionistas minoritários apresentaram uma declaração e anunciaram um desafio de cunho legal. Isso pode atrasar a inscrição no registro comercial16 (CONSTEN; KNEES; SCHWARZ-
FRIESEL, 2007, p. 88, tradução nossa, grifo dos autores).
Nesse exemplo, uma entidade de segunda ordem, isto é, a construção da ideia de um evento pela oração, não foi alterada pelo encapsulamento promovido pelo anafórico neutro
“isso”. É cabível considerar que a finalidade do emprego desse encapsulamento pelo uso de
uma anáfora neutra seja manter o referente (função temática) para fazer a progressão logo em seguida (com o rema), interligando as partes do texto sem oferecer nuances avaliativas ao objeto de discurso.
16 No texto fonte: “Several minor chairholders filed an objection and announced a legal challenge. This might delay the record in the commercial register”.
•manutenção do status ontológico pelo emprego de anáforas lexicais
A manutenção do status ontológico pelo uso de anáforas lexicais se dá quando o antecedente e a anáfora denotam a mesma coisa, o que ocorre em (29):
(29) E de repente estávamos em uma grande sala da liberdade na qual inconscientemente passamos a achar que a vida é infinita. Muitas vezes eu comparo este estado ao humor de alguém que foi libertado após um grande período na prisão17 (CONSTEN; KNEES; SCHWARZ-FRIESEL, 2007, p. 90, tradução
nossa, grifo dos autores).
No exemplo citado, a ideia de estado é mantida pelo emprego de uma anáfora complexa lexicalizada, a qual homologa o status ontológico denotado pela oração encapsulada, o que se deve à ocorrência do lexema “estado” como núcleo da anáfora complexa.
•modificação do status ontológico pelo emprego de anáforas complexas
Essa categoria se relaciona aos sintagmas nominais encapsuladores que modificam o
status ontológico por meio de um processo de não homologação, o que acarreta a criação de um novo tipo de objeto de discurso. Isso significa que, para os autores, essas anáforas não substanciam o referente que vinha sendo construído de forma difusa no texto, pois estabelecem, no modelo de mundo textual, um objeto de discurso novo, diferente do que estava em construção na progressão textual. Entretanto, os teóricos em questão não mencionam que há, inegavelmente, a recategorização do objeto de discurso, o que, inclusive, pode ser uma estratégia argumentativa, e que o percurso que compreende a sua elaboração está atrelado à progressão referencial no texto, como no exemplo seguinte:
(30) [No “Presseclub”, um fórum de discussão na TV:] Neste ano, as políticas feministas só foram discutidas duas vezes por conta de eventos como a conferências das mulheres das Nações Unidas e o notório caso de julgamento sobre o contingente de mulheres na Corte Europeia de Justiça. Quando a jornalista Charima Reinhardt criticou este estado na ocasião da discussão sobre a futura reunião de
mulheres das Nações Unidas em Pequim, o apresentador do “Presseclub” Fritz Pleitgen anunciou
algumas medidas [...]18 (CONSTEN; KNEES; SCHWARZ-FRIESEL, 2007, p. 91, tradução nossa, grifo
dos autores).
17No texto fonte: “All at once we were in a big room of freedom in which we unconsciously got the impression
that life is unlimited. I often compare this state with the mood of someone who got set free suddenly after a long
period of arrest”.
18No texto fonte: “[On “Presseclub”, a TV discussion forum:] This year feminist politics were only discussed
twice just because of special events like the UM women conference and the notorious judgement on the contingent of women by the European Court of Justice. When the journalist Charima Reinhardt criticized this state on the occasion of the discussion about the forthcoming UN women conference in Peking, “Presseclub”
Nessa amostra, a sentença encapsulada denota dois incidentes que se configuram em duas discussões. Por se relacionarem a certos atores e por serem limitados espacial e temporalmente a um dado lugar, bem como por apresentarem um começo e um fim, os autores defendem que isso os levaria a classificar ambos os incidentes como eventos. Todavia,
a anáfora “este estado” aponta para um referente muito mais abstrato e se direciona ao
desinteresse pelos direitos das mulheres na programação televisiva, o que leva o referente a um processo de abstração evocado pela anáfora complexa. Se analisarmos por outro ângulo, o
locutor poderia atribuir à porção encapsulada a ideia de “estado” para criticar a fixidez que
envolve a ausência de debates acerca das políticas feministas, o que equivaleria a uma estratégia argumentativa.
Nesse sentido, é cabível considerar que mesmo a priorização de um enfoque formal às ocorrências de anáforas encapsuladoras termina por revelar o valor de suas funções discursivas. No contexto de nossa pesquisa, levaremos em conta, a partir dessa reflexão teórica, que as anáforas neutras, cuja função seria garantir a manutenção do status ontológico do referente, são, na verdade, mecanismos eficientes que garantem a manutenção referencial e a progressão tópica. De igual modo, as anáforas lexicais que mantêm o status antológico do referente o fazem através da hipostasiação, recategorizando e homologando o referente que vinha sendo construído. Em se tratando das anáforas complexas que modificam o status
ontológico do referente, o seu emprego pode ser motivado, como foi exposto, como parte de uma estratégia argumentativa do locutor.