3. HİLAFETİ DEVRİNDEN SONRAKİ GELİŞMELER VE HZ HASAN’IN SOYU
3.7. Ehl-i Sünnet’in Muaviye’yi Eleştirmemesinin Nedenleri
O luto pela morte de Francisco Ferdinando não transcorreu sem as devidas condolências. A comunidade austríaca da cidade externou o seu pesar pelo passamento do herdeiro do trono austro-húngaro com a celebração de uma missa, realizada na Igreja da paróquia São José (O INDEPENDENTE, 6 de julho de 1914, p. 2).
Os telegramas publicados nos periódicos da época, e transmitidos pelas agências de notícias internacionais26, deixavam a impressão de que havia sido feito um grande esforço conjunto para evitar consequências piores. Ao que transparece nas leituras, os países pareciam estar colaborando para a preservação da paz.
No início do mês de julho, por exemplo, o jornal O Diário noticiou o desdobramento do infeliz atentado. Através de sua sessão de notícias telegráficas sobre as questões estrangeiras, ele publicou:
Alemanha
[...]. BERLIM, 3. – O “Frankfurter Zeitung” desta capital, comentando a tragédia de Saravejo, aconselha a Áustria a evitar repressões contra à Servia (4 de julho, p. 6).
Por certo, o reinado de Guilherme II, que começara no início da década de 1890, fora marcado pelos seus arroubos de humor. A condução incisiva da diplomacia alemã, da qual era partícipe direto, era pouco afeita ao tato e bastante sensível a discordâncias. Ainda mais após a saída de Bismarck. Em pouco tempo, os seus atributos emocionais contribuíram para a venda de muito jornal e para tornar o público mundial apreensivo (TUCHMAN, 1990). Todavia, nesse momento não parecia ser o caso, pois a Alemanha não estava no centro das atenções. Antes de ficar claro que uma conclusão pacífica era definitivamente impossível, alguns informes do conflito austro-sérvio, publicados entre as notas telegráficas, transmitiam a ideia de que a tensão poderia se dissipar.
26 As agências de informações eram muito poucas no período em questão. Existiam quatro grandes: a inglesa
Reuters, a francesa Havas, a norte-americana Associated Press e a alemã Wolff, mas só as três europeias tinham porte internacional (MATTELART, 2000). A inglesa oferecia, principalmente, informações econômicas. No Brasil, a maioria dos informativos provinha da Havas. Até pouco antes da guerra de 1914, as três haviam entrado em acordo para dividir o mercado mundial, portanto, a América Latina era campo de atuação da Havas. Pelo que consta, os jornais de Porto Alegre possuíam a mesma fonte (RÜDIGER, 1998).
Paris, 27 – O gabinete francês, bem como o londrino, acolheu com grande satisfação a nota que a Alemanha enviou às potências, dizendo o desejo que o conflito, a ser travado, se restrinja, apenas à Áustria e à Sérvia, nele não se envolvendo outro qualquer país (O DIÁRIO, 29 de julho de 1914, p. 5).
No mesmo dia, uma nota vinda de Londres era publicada dando a entender a mesma impressão de confiança e tentando repassar tranquilidade em prol da estabilidade entre as potências continentais.
Londres, 27 – O jornal “Observer” diz reconhecer a justiça do procedimento da
Áustria, e declara que a “Tríplice Entente” não está na obrigação de defender a
Sérvia (O DIÁRIO. 29 de julho de 1914, p. 5).
Na realidade essas palavras provaram estar mais para o campo da retórica, integrantes do arsenal disponibilizado pelos Estados na sua preparação, do que real aspiração de paz. Embora as notas mostrassem uma demonstração de esforço e boa vontade, os planos de mobilização já estavam em andamento. Marcados pela metódica preocupação com o horário, pela tecnologia disponibilizada pelo transporte ferroviário, e frutos da genialidade dos integrantes dos Estados-Maiores, tais planos de mobilização não podiam suportar a pressão imposta pelos prognósticos quanto ao tempo necessário para o preparo em relação ao inimigo (KEEGAN, 2005). Portanto, ao findar o mês de julho, o perigo já podia ser pressentido. O
ceticismo tomava conta e a recriminação era dirigida ao conjunto dos regentes do “equilíbrio de poder”. Isso pode ser encontrado no editorial do jornal A Federação, sob a forma da
seguinte pergunta:
Quando mesmo, o que é pouco provável, as coisas houvessem de ficar por aí, que grossos caudais de ouro já se estão gastando só com as mobilizações de forças e trens de guerra colossais, ouro desviado da massa das operações de comércio e das indústrias, o que irá contribuir para tornar mais angustiosa a situação do proletariado? (A FEDERAÇÃO, 29 de julho de 1914, capa).
Ao continuar a sua manifestação, o articulista mostrou toda sua incredulidade com relação à capacidade das grandes potências em acionar dispositivos para superar o problema. O tom sarcástico empregado foi uma crítica à condução que se realizava em nome da paz.
Indiretamente, também é possível fazer uma outra relação a partir da mensagem. Apesar de não ser uma referência explícita – até porque, nesse aspecto, o governo Borges de Medeiros foi contido nas alusões (PINTO, 1986) – do ideário positivista, há indícios do mesmo. O jornal do governo contestou a capacidade dos governos europeus de harmonizar os interesses de patrões e empregados, uma das pedras angulares da filosofia de Augusto Comte, e que o governo do estado do Rio Grande do Sul buscara desenvolver.
A recriminação continuou até o seu final. Assim vê-se, quando ele afirma que:
Com que eloquentíssimo olhar de ironia, as grandes torres do monumental palácio da Paz em Haia não estarão vendo toda esta negação das filantrópicas doutrinas ali pronunciadas nos últimos Congressos, entre corbelhas de flores, torrentes de luz e de champanhe!? (A FEDERAÇÃO, 29 de julho de 1914, capa).
Acontece que Haia27 havia sido uma tentativa de criar uma corte internacional para arbitrar as rusgas entre os Estados. Parte de seu fracasso, como lembra John Keegan (2005), se deveu a seu caráter voluntário de adesão, pois ninguém se sentia moralmente obrigado a integrá-la. Em diferentes momentos de crise, como no Marrocos (1905 e em 1911), envolvendo Alemanha e França, e nas guerras balcânicas (1912), as questões foram tratadas mediante ameaças e não através do diálogo. Para a paz, em nenhum dos momentos, invocou- se as ideias da Conferência de Haia.
Aquilo que se passava em Porto Alegre, na mesma direção e sentido, repercutia algo que se tem concluído atualmente, quando tratam dos paises beligerantes. David Fromkin (2005) explica que, diferentemente da opinião consagrada no pós-guerra, os indivíduos comuns estavam longe de serem criatura ingênuas, totalmente arrebatadas pelo sentimento de euforia em virtude do progresso material da civilização ocidental. Os mesmos, ao que parece, tinham referências do mundo no qual habitavam. Ao invés da plena alienação, havia uma
percepção de que “a Europa era presa de uma corrida armamentista sem precedentes [...] [e
que] os Estados-maiores trocavam ideias constantemente, não sobre se haveria ou não guerra,
mas quando e onde seria” (FROMKIN, 2005, p. 289). Igualmente, aqui em Porto Alegre, do
outro lado do Atlântico, discutia-se com apreensão a conduta política dos Estados europeus, sem demonstrações de confiança numa capacidade superior de julgamento das mentes de grandes líderes progressistas ocidentais, mas com ceticismo e desconfiança, como mostrou o texto do articulista anteriormente visto.
27
Sobre as discussões ocorridas em Haia e a participação brasileira, ver: BARBOSA, 1932. Realizadas em 1899 e 1907, foram de fundamental importância para aqueles que aspiravam um futuro no qual os Estados pudessem ter as suas pretensões expansionistas freadas. Nelas, ocorreram os primeiros tratados e leis de guerra internacionais. Barbara Tuchman (1990) afirma que existia um clamor vindo de determinados setores organizados que pediam que os Estados se reunissem para decidir questões importantes sob forma de arbitramento, ao invés da simples guerra. Além disso, a mesma autora atribui tal ímpeto à crença de que o progresso material deveria ser acompanhado de um progresso nos costumes seguidos nesses grandes Estados europeus, em virtude dos muitos anos inspirados pelo otimismo de décadas sem a ocorrência de guerras. Segundo ela, os Estados poderosos aderiram à mesma com ceticismo, mais interessados em obter reconhecimentos rápidos, que a força das armas daria com um pouco mais de tempo, do que para promover uma paz duradoura ou tratar igualmente os Estados mais fracos.
Por mais desconhecida que pudesse ser, e distante que pudesse estar dos acontecimentos europeus, Porto Alegre podia acompanhar em detalhes os fatos que se desenrolavam por lá. Os periódicos traziam as principais medidas anunciadas. Além disso, havia opiniões enfáticas sobre os acontecimentos. É o exemplo do texto a seguir, extraído do mesmo jornal. Tendo conhecido bem claramente os principais acontecimentos das últimas décadas, que afetaram a diplomacia do centro da Europa, o escritor emitiu a sua opinião a respeito das complicações que poderiam ocorrer no caso da deflagração de uma guerra.
Extrema, a posição agora assumida por esse veterano das monarquias europeias, Francisco José I, declarando guerra à Servia num momento de crise geral, de tensões diplomáticas e, sobretudo, de raças e predomínios em atritos. [...].
Anuncia-se [...] que a Áustria desaparecerá em breve, fragmentada. O atentado de Saravejo é para muitos o apressamento dessa esperada ruína, pela abrupta supressão de um braço forte que ainda viesse a continuar por algum tempo a tradição da monarquia austríaca, da qual o octogenário soberano seria o apogeu do brilho na tenaz resistência da idade.
Golpe a golpe, o solapamento aproximava-se, pois seu fim trágico. E talvez, compreendendo que chegava a hora, sendo impossível contemporizar com ela, sob pena de perda das últimas energias salvadoras, foi que Francisco José lançou o terrível gesto que apela para a sorte das armas, em “última ratio”.
Nem pode ser outra a razão de tais meios violentos no critério de um imperante que, desde 1848, assiste, na estrutura de meio século, aos grandes acontecimentos do Velho Mundo, sentindo soprar sobre sua coroa os ventos de tantas revoluções, vendo as configurações dos mapas, abaladas de ano para ano, despedindo-se, como derradeiro que resta, de muitos monarcas à beira do túmulo, batido de revezes em sua própria família e em sua própria nacionalidade, estremecendo a ideia de seu próximo termo mortal que será também o de seu país.
[...]. Se, porventura, outros títulos lhe careçam no papel da política internacional, para sobre ele refletir-se a simpatia de povos estranhos à raça que encarna, pelo menos não se lhe negará o peso da responsabilidade atual, no momento preciso em que, por seu intermédio, a Áustria assume a consciência do perigo de sua existência e procura o justo meio para conjurá-lo, embora de modo tremendo e capital (O DIÁRIO, 28 de julho de 1914, p. 2).
O tom grave que marcou a sinistra – hoje, reconhecidamente lúcida – previsão evidenciava a possibilidade de uma catástrofe no horizonte. Uma apurada perspectiva vislumbrou a importância das convulsões internas que não poderiam ser asfixiadas por muito mais tempo, e que ameaçavam o cambaleante império dos Habsburgos. Apesar de alarmista, a observação não foi feita com arroubos ou apelos desesperados. Ao contrário, havia uma aguçada análise das circunstâncias em disputa, mostrando um conhecimento dos antecedentes históricos que envolviam a região. E, o que também é importante salientar, ratifica a grande responsabilidade do império multinacional nos acontecimentos.
Muito polêmico, o mês de julho de 1914 foi alvo de vasta investigação. O trabalho de Emil Ludwig (1931) é um entre outros muitos realizados, como foi mostrado por A. J. P. Taylor (1979). Atualmente, o trabalho mais relevante sobre o assunto foi realizado por David
Fromkin (2005). Neles, fica evidenciada a participação de vários países como protagonistas do início da guerra, que foi fruto de uma complexa rede diplomática afetada pela mistura de sentimentos de lealdades dinásticas e nacionais. Essa responsabilidade compartilhada mostra que a questão jamais esteve restrita à rivalidade austro-sérvia. Nela, coube um papel importante à Alemanha, que avalizou a ação impositiva da sua grande aliada, mas nada disso era de conhecimento público, logo, não era criticada. Até a invasão belga, nenhuma responsabilidade maior foi depositada sobre seus ombros e, em nenhum momento, atribuiu-se a ela a culpa pela deflagração dos combates.
O mesmo teor pode ser observado em um texto publicado dias mais tarde. Nele sobressai a erudição, bem como, a análise lúcida das circunstâncias a envolverem o caso. Juntamente à narrativa jornalística, deve-se observar, uma apurada compreensão do rebuscado contexto e da trama diplomática do processo.
Sir Edward Grey, ao anunciar, perante a Câmara Inglesa, que a intervenção da Rússia em defesa da Servia trará, como consequência, o início da maior das catástrofes que jamais assolaram a Europa, pôs em claro, aos olhos do mundo civilizado, a situação moral dos países modernos que politicamente, se encontram, ainda hoje, como ao tempo de Machiavel.
[...]. Dir-se-ia, em tão rápido momento, ter já falhado a Esperança... Nem outra é a impressão que se tem, por entre o contraditório e o inesperado da diplomacia
europeia, oscilante entre os interesses d‟ouro e de sangue que pesam sobre os pratos da Tríplice Aliança e da “Entente” tríplice.
São os próprios homens de Estado, os mediadores supremos, aqueles que mais
vistosamente arquitetam sobre a ingenuidade popular, os palácios d‟Aladdino de um
ideal futuro, surgidos ao súbito prestígio dessa lâmpada maravilhosa que é a ideia de paz universal: são eles os primeiros a evocar, do alto da sua cadeira ministerial, com o laconismo versicular da Bíblia, a visão espantosa do possível desastre...
Dum gesto, pois, da Rússia dependem presentemente a sorte da Europa e a marcha triunfal do progresso humano. [...].
Toda a Europa, entretanto, parece ter na face, voltada para o país de Pouchkine, o terror estático da espera. Um sinal de mobilização geral, por parte do governo militar do Czar – e a Alemanha, em pé de guerra, correrá em auxílio da Áustria, chamando às fileiras a Itália, para glória da Aliança. Irão fazer-lhe frente a Inglaterra e a França, a Inglaterra das hegemonias e a França da tragédia de Sedan... E sir Edward Grey terá realizada a catástrofe da sua profecia.
Mas a Rússia não fará, não tem o direito de fazer o gesto supremo...
Debaixo da brutalidade do cossaco palpita o grande ideal da humanidade que a raça, esmagada e sofredora como nenhuma, alimenta e colima. Ela se deixará ficar à paz de uma solução contemporizadora porque, do caso contrário, será como sempre, a vítima sacrificada de si mesma.
Protelará para o mais tarde possível, o grande gesto da conflagração internacional, dessa catástrofe que é talvez necessário por que não; chegou ainda a hora de repouso para as máquinas de Krupp e existem ainda algumas bandeiras a vingar... (O DIÁRIO, 1 de agosto de 1914, capa).
Essa é uma visão muito mais globalizada do que a anteriormente exposta, uma vez que compreende a disputa do ponto de vista das alianças em jogo. Os partícipes mais importantes foram citados, mas, a despeito disso, a obrigação maior parecia recair sobre a Rússia, muito
mais do que sobre qualquer outro. Austríacos ou russos, o fato é que a Alemanha ainda não estava sob os holofotes.
Nesse momento da publicação, as piores previsões foram anunciadas com impressionante clareza. O conflito armado entre a Áustria-Hungria e a Sérvia se estenderia em seguida, passando a abarcar as demais disputas. Uma correlação possibilitada pelo conjunto de alianças envolvidas, que exigiam reciprocidade dos seus integrantes. A partir da ameaçadora movimentação russa em direção à fronteira austríaca, o resto seria questão de tempo.
Agora, do conjunto dos excertos destacados é possível fazer algumas observações pertinentes. Para início, o mais evidente é que, entre os Estados europeus protagonistas, todos os possíveis interessados nos acontecimentos foram citados, para além dos dois diretamente envolvidos. A responsabilidade pelos acontecimentos futuros não recaía exclusivamente sobre
um. Não houve “aquele” que tenha sido formalmente considerado culpado, embora fosse
lembrada a delicada posição em que se encontravam os austríacos e os russos.
Naquilo que concerne à Alemanha, ela ainda não aparecia sendo citada como responsável pelas hostilidades, é bom que se diga, e nem se depositava nela a
responsabilidade direta pela paz. Nesse aspecto, como mostra as passagens d‟O Diário, dos
dias 4 e 29 de julho, sua lembrança parecia remeter no máximo à função de fiadora das negociações. A mudança de atitude frente a ela se iniciou, gradativamente, após a ocupação da Bélgica, mas não de maneira completa e sectária (como será mostrado no capítulo 2).
Até O Independente corroborou para a prevalência de uma visão branda sobre a Alemanha. Esse jornal não deu atenção aos desdobramentos da morte, como posteriormente deu à guerra, restringindo-se a referir a eclosão dos combates entre sérvios e austríacos (27 de julho de 1914, p.2). Quando abordou a questão, assim como os demais periódicos, ele revelou preocupação diante das alianças em jogo, mostrando especial receio em relação ao ímpeto insuflado pelos russos aos sérvios (29 de julho de 1914, capa). Com relação à Alemanha, a perspectiva não poderia ser mais positiva, deixando entrever que este seria o país mais interessado na preservação da paz.
O imperador Guilherme II, da Alemanha, palestrou secretamente em Estocolmo, com o presidente da França. Diz-se que nesta conferência o estadista alemão propôs a Poincaré a neutralidade da tríplice aliança e da tríplice entente, no caso de luta armada entre a Áustria e a Sérvia.
Sabe-se, positivamente, que a Alemanha propôs que se mantivesse a paz no resto da Europa, caso rebentar a guerra entre a Áustria e a Sérvia.
A atitude simpática de Guilherme II é gabada em todos os círculos europeus (O INDEPENDENTE, 29 de julho de 1914, p. 2).
Paz que, ao observarmos as afirmações anteriormente feitas, aparece como uma esperança, embora sob certo ceticismo quando referida, pois, a sobrevivência dela não era plenamente crível. A capacidade de organizar uma ação conjunta de Estados, em nome da convivência pacífica, era considerada questionável. Ficava latente nos jornais a impressão de que os interesses particulares preponderavam sobre os coletivos. Ou seja, a paz não se coadunaria com a diplomacia, sendo que, esta última aparecia descrita com sarcasmo. Destaca-se o grau de ceticismo com relação à diplomacia, ilustrado pelo exemplo da incapacidade para manter viva a expectativa pacifista, renovada com as reuniões de Haia, como mostrou A Federação de 29 de julho. Por seu turno, com o mesmo propósito, manifestando igual descrença, O Diário, de 1º de agosto, enunciou que a violência não poderia ser contida pelos estadistas, que estavam usando a paz apenas como retórica. Essa, somente poderia ser possível, de fato, a partir do bom senso daqueles que sairiam diretamente prejudicados.
Em decorrência da não eleição de um culpado, prevaleceu, no primeiro momento, uma cobertura voltada para a perspectiva global na qual o conflito se inseria. Sem a preocupação de expor com veemência as falhas de um Estado específico, a análise foi marcada pela coerência. Sendo a guerra um fato iminente, ela parecia estar resultando de uma sucessão de fatores em jogo. Entre esses fatores se destacou a existência conhecida de alianças militares.
Havia, entretanto, um fator a pesar negativamente contra a Alemanha, quando analisada da perspectiva brasileira. No caso, isso seria lembrado no momento oportuno, e utilizado para ajudar a difundir a defesa da causa dos Aliados, ou, da Tríplice Entente. Acontece que os imigrantes oriundos da região central da Europa, onde hoje se encontra a Alemanha, desfrutavam de pouco prestígio entre alguns dos escritores mais importantes do Brasil. Os mesmos chegaram a observar as características culturais dos imigrantes germânicos para concluírem que elas seriam inalteráveis, independentes do local do mundo em que se encontrassem. No que pese a repercussão da guerra, dentre os países nela envolvidos, a Alemanha era aquele cujo povo, já de antemão, despertava menor simpatia.
Para compreender a situação, é necessário investigar o assentamento do povo germânico no país. Tanto no Brasil quanto no Rio Grande do Sul, a entrada dos imigrantes dessa etnia foi
marcada por atribulações. Observemos, portanto, alguns dos fatores que antecederam o estranhamento abertamente manifestado durante a guerra de 1914 a 1918.