3. BÖLÜM: ÇALIŞMALAR ÜZERİNE AÇIKLAMALAR
3.12. Sanayi Alanı
O Estado de Direito busca submeter todas as relações ao regime da lei. É da essência do sistema democrático, por outro lado, que as decisões fundamentais para a vida da sociedade sejam tomadas pelo Poder Legislativo, instituição fundamental do regime democrático representativo.
(Manual de Redação da Presidência da República, p. 77)
A Lei Maria da Penha é o pilar para a atuação do Juizado de Violência Doméstica e Familiar; por esse motivo, o presente capítulo faz uma análise da linguagem da lei visando questões hegemônicas e ideológicas. Conforme apresentado e discutido nos Capítulos II e III, busco no presente capítulo observar as possíveis mudanças, advindas da Lei Maria da Penha, considerando seus significados acionais, representacionais e identificacionais, já que a lei, parte essencial da prática jurídica, é um documento que possui como principal função estabelecer regras para comportamentos em sociedade.
4.1 – Relações da Lei Maria Penha
Como já citado no Capítulo I, a Lei Maria da Penha foi aprovada no dia 7 de agosto de 2006. O nome faz referência a Maria da Penha, mulher que sofreu duas tentativas de homicídio feitas por seu companheiro, que deixaram sequelas graves. Em 2001, após 18 anos da prática do crime, a Comissão Internacional de Direitos Humanos responsabilizou o Estado brasileiro por negligência e omissão em relação à violência doméstica e recomendou várias medidas em relação às políticas públicas do Estado para enfrentar o problema. Portanto, o nome da lei sugere uma tentativa de reparação da omissão do Estado.
Com a referida lei, surgem determinadas medidas que afetam diretamente as vítimas e seus agressores na prática de violência doméstica. Podemos citar como efeitos de mudança o fato de a vítima não poder mais ‘retirar a queixa’ contra seu agressor, fato comum, pois pesquisas na área da psicologia sugerem que as mulheres agredidas passam por um ‘ciclo de violência’ e quando chegam à fase ‘lua de mel’, há um perdão de ambas as partes pela agressão cometida.
Outro aspecto que cabe ressaltar é que, com a implantação da lei, os fóruns locais podem criar novos juizados especializados de atendimento a mulheres vítimas de violência doméstica, o que acelera o processo em seu trâmite de julgamento, uma vez que esse tipo de violência ocorre em ambiente familiar, demandando uma atuação rápida da justiça.
A lei apresenta avanços importantes no que tange ao conceito de violência. Na legislação, até 2004, não havia um termo específico para à violência contra a mulher. Basterd (2007) faz um histórico da intervenção estatal como forma de legislação quanto à violência contra mulheres. A autora comenta que, a partir da década de 1980, houve uma demanda por uma legislação que contemplasse a questão da igualdade, inclusive a de gênero.
Desde a década de 1970 registram-se debates e conferências a respeito da violência contra as mulheres. No Brasil, mudanças significativas para a figura feminina ocorrem a partir da década de 1980, como a criação das delegacias especializadas. Mas, somente a partir da década de 1990, com debates mundiais e nacionais, a questão da violência nos lares é mais debatida, com a promulgação de diversas leis que favorecem as mulheres.
Até 2004, o termo usado para referir-se à violência física contra mulheres era “lesão corporal”; além disso, não se considerava a violência psíquica, somente a violência moral nos crimes de calúnia ou difamação. Com a representação do problema por meio do conceito ‘violência doméstica’, é possível examinar vários tipos de violência que são cometidos no âmbito familiar, possibilitando uma especificidade maior.
A utilização do especificador ‘doméstica’ carrega uma conotação ideológica, já que determina o local em que questões de poder seriam causas da violência, ocultando a ação ou a vítima, fato que seria revelado com a utilização de ‘violência contra as mulheres’.
Além da tipificação dos crimes contra mulheres, as modificações significativas da lei são as de alguns artigos do Código Penal e um artigo da Lei de Execuções Penais, baseadas na Constituição Federal, que estabelecem pena para o crime de violência doméstica e familiar.
O Código Penal foi instituído no País em 1940, por meio do Decreto-Lei nº 2.848, tendo por lei de introdução o Decreto-Lei nº 3.914, de 1941, em que são estipuladas as penas para crimes e infrações penais. Por meio do Código, o juiz pode tomar decisões coercitivas no sentido de detenção de pessoas, estando em seu conteúdo as possibilidades de aplicações de tais penas.
Como nem todo crime está previsto no Código Penal, podendo existir crimes criados dependendo do que aconteça a seu tempo, estipulou-se que o Código Penal seria promulgado por meio de um Decreto-Lei, podendo existir modificações e acréscimos por meio de outras
leis. A Lei Maria da Penha ao tipificar os crimes de violência doméstica e familiar traz modificações que complementam o Código Penal.
Já a Lei de Execuções Penais apresenta em seu art. 1º, que “a execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado”. A alteração feita pela Lei Maria da Penha inclui a condução do agressor a programas de recuperação e reeducação, permitindo seu tratamento psicológico.
A Lei Maria da Penha é o pilar para as discussões judiciais em relação à questão da violência doméstica. Portanto, justifica-se uma análise mais específica da linguagem, em que se buscam indícios de uma possível mudança social no texto legal.
Cabe ressaltar que somente a análise de um texto específico não é suficiente para investigar mudanças sociais, conforme discussão nos Capítulos II e III, mas por meio da observação de como o gênero social é apresentado em uma lei que gera uma ação estatal, é possível investigar mudanças em relação à problemática da violência contra as mulheres.
4.2 – A Lei Maria da Penha como gênero discursivo: uma forma de ação
Segundo Castells (trad. 2006), a legislação é afetada pelo patriarcalismo. Considerando que a legislação é um mecanismo de imposição e que contribui para modificar determinadas ações, pode-se considerar que a imposição da referida lei faz parte de uma legitimação dos movimentos sociais feministas, pois pode propiciar uma futura mudança de comportamento por parte da figura masculina situada na sociedade de origem patriarcal.
Para Fairclough (2003), quando analisamos gêneros discursivos, estamos investigando as ações e interações sociais nos eventos sociais e o texto como interação, pois gêneros discursivos propiciam ações particulares e determinam efeitos sociais. Na referida obra, há uma reflexão a respeito dos gêneros discursivos como mecanismos de ação e suas relações com discursos e estilos. Os gêneros discursivos são formas de ação por meio de textos, apresentando discursos (formas de representação) e estilos (formas de identificação).
Tomando os conceitos da teoria social de Giddens, Fairclough usa o termo ‘desencaixe’ na classificação de gêneros discursivos. Para Fairclough, há três tipos de gêneros: os ‘pré- gêneros’, os gêneros ‘desencaixados’ e os ‘situados’. As três categorias obedecem a uma
curva decrescente de abstração, em que gêneros mais abstratos, os ‘pré-gêneros’, e os menos abstratos, os ‘situados’, fazem parte de uma ‘rede de prática’ particular.
No caso específico da Lei Maria da Penha, tem-se um gênero situado com valor coercitivo, que é promulgado por uma imposição de comissões que foram designadas para o debate do tema em âmbito internacional. Anteriormente, a lei coercitiva era o código penal, que ainda é utilizado no caso de lesões corporais.
A questão dos gêneros discursivos no discurso jurídico já foi examinado por Correia (2005), que analisa a estrutura desses gêneros. A estrutura básica de um texto legal, segundo o Manual de Redação da Presidência da República, é: parte, livro, título, capítulo, seção, subseção, artigo, parágrafo, inciso, alínea e item. Nessa estrutura, o texto principal, onde estão as ideias a serem desenvolvidas, está nos artigos.
Apesar de as ideias centrais estarem desenvolvidas nos artigos, a ordem estabelecida nos títulos também pode sugerir uma hierarquia que privilegia determinada forma de representação. A Lei Maria da Penha apresenta em sua estrutura, apenas títulos, capítulos, seções e subseções, da seguinte forma:
Quadro 9 - Estrutura de títulos da Lei nº 11.340/06 TÍTULO I
DISPOSIÇÕES PRELIMINARES TÍTULO II
DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER
CAPÍTULO I