1.2 Problem
2.1.4 Aile tutumu
2.1.4.3 Ebeveyn (anne-baba) tutumları
Disponível em: <http://ieceblog.blogspot.com.br/2010/04/estavamos-olhando-as-fotos-ai-vimos.html>. Acessado em: 30 de junho de 2013.
O Fragmento 1 escolhido para análise é referente à postagem do dia 26/04/2010. Ela ocorreu em comum acordo quando a turminha do GRA decidiu postar, no Ieceblog, notícias sobre o torneio de futebol organizado pelo GRJP (Grupo de Responsabilidade de Jogos e Parque). Julgou-se necessário, então, atribuir esse tipo de postagem à seção Ieceblog Notícias. O torneio esportivo na escola se torna uma atividade bem empolgante para os alunos do Ensino Fundamental II e conta com a participação de professores e de alguns funcionários de apoio. Meninos e meninas, envolvidos com o esporte nacional, todos tornam-se jogadores ou torcedores na hora do intervalo.
Com o propósito de noticiar o que acontecia na escola nesse momento esportivo e também auxiliar os outros GRs para anunciar seus eventos, a matéria de cunho jornalístico, supostamente, daria cobertura sobre os jogos e os seus resultados. Entretanto, o foco saiu do campo de futebol e se voltou para a imagem de uma foto tirada, por parte dos alunos do GRA, com a máquina digital da escola. Cabe ressaltar que os alunos do GRA de 2010, diferente dos outros anos, eram, excepcionalmente, todos alunos do 5º ano. Um grupinho muito unido, empolgante e divertido. Apesar da enorme inexperiência com blogs, a ansiedade para aprender e trabalhar estava muito presente e é justamente com eles que surge o Ieceblog Notícias.
Cabe lembrar que boa parte do que se produz, no momento do encontro semanal com o GRA, é postado na hora. O que o aluno produz no horário destinado ao funcionamento do GRA é de imediato publicado. O fragmento em questão é um exemplo de prática em que o aluno produz e publica em tempo real, o que será percebido em boa parte dos fragmentos a serem analisados nesta pequisa.
Segundo Lemos (2010), na cibercultura, constroem-se novos sentidos sociais e confirmam-se os antigos, nada é puramente novo, o que se torna novidade é a perspectiva democrática da informação que se processa em alta velocidade e por meio de múltiplos recursos. Nesse ambiente, revela-se um aluno ativo, aquele que busca a informação e precisa reatualizá-la segundo seu ponto de vista para, assim, se transformar em autor. Mesmo que em tempo real, nada garante que as reações ao que foi postado tenham que ser imediatas ou impensadas pela urgência do livre. Mas, quando se trata de alunos tão jovens, é bom saber que isto pode se suceder.
No que diz respeito à imagem da postagem, ela não é neutra. Assim como o texto escrito, a imagem é texto e é discurso, portanto, produz efeitos de sentido. A princípio, a imagem retrata um senhor em cima do telhado, o que não parece ter nada a ver com futebol ou notícia, pois o jogo que acontece não se vê exposto. O que se enxerga nessa imagem é um
senhor que ficou em pé parado para assistir, do alto da casa vizinha à escola, as finais do torneio entre alunos, o que se transformará em alvo da discussão gerada pela postagem.
Segundo Souza (2003), a imagem é signo. Dessa forma, é concebida como linguagem, a qual suscita diferentes olhares sobre o mundo, em suas partes e particularidades, por meio de narrativas figuradas, trazendo à superfície as várias camadas de significados que se transformam em verbo (pensamento, escrita ou fala). Significar a imagem é reconstruir o texto que ela contém, por meio dos conceitos que o homem constrói acerca do mundo.
A primeira categoria identificada nessa postagem diz respeito às marcas do humor e do deboche, percebidos na escolha da imagem e no tom da notícia. Os enunciados recaíram sobre o deboche, como se fosse um Big Brother21, marcado pela exposição do outro diante da possibilidade do autor de direcionar o dito orientado ao outro. Portanto, atentando-se à intencionalidade do locutor, o discurso acolhe o show e não segue a demanda do título da seção anunciada, uma notícia. O que se percebe é que o vínculo orgânico entre a linguagem usada e a atividade humana, no ato de noticiar, transforma o enunciado em uma espécie de piada, pois o que autor quer mesmo é contagiar o leitor com o riso, como é possível distinguir abaixo:
Estávamos olhando as fotos, aí vimos "ESSA COISA AEW ". Então, a gente queria compartilhar com vocês "UHSAUSAUSUASU', o vovô tosco, olhando o torneio de tutoria no dia da final querendo ser o juiz do jogo. Quem já viu uma coisa dessas?
(Retirado do Fragmento 1)
Com a intenção voltada ao riso do leitor, os alunos do GRA se projetam para o horizonte alheio, no território do interlocutor, numa expectativa de receber um discurso do outro em consonância, como forma de adesão – um retorno linear em sinal de concordância. Todavia, na arena do debate, a harmonia esperada se desfaz, o autor perde o controle, o sujeito dialógico aparece das relações de sentido, resultando na tomada da posição axiológica em conflito (BAKHTIN, 2010) que modifica o sentido suposto ou esperado.
O olhar sobre cada resposta (responsável), mesmo que venha a ser apenas um “kkkkkk”, uma representação gráfica do riso, como aparece em alguns comentários, pode ser percebido como um localizador inicial do movimento axiológico em construção. À medida em que cada comentário novo aparece, o peso sobre o riso vai perdendo posição para o enfraquecimento
21 Alusão ao programa televisivo de grande audiência que expõe os participantes no cotidiano (Reallity
Show), trata-se também do livro do escritor George Orwell, uma ficção que retrata uma sociedade em que todas
as pessoas estão sob constante vigilância das autoridades, sendo constantemente lembradas pela frase propaganda
axiológico da força centrípeta em ação. A tendência se dirige à crítica sobre o discurso carregado de preconceito, caracterizando a força centrífuga em combate. Tudo isto ocorre dentro do elo comunicativo dos discursos circulantes, carregados de atitudes responsivas, isto é, em forma de ato.
No Fragmento 1, que também será chamado de F1, a discordância baliza a ação do pensamento participativo mediado pela alteridade, no entrelaçamento de interação dos pensamentos que dialogam entre si (GERALDI, 2004). Assim, o sujeito dialógico constitui-se na linguagem em relações de sentido, resultante da responsividade (da tomada de posição axiológica de sentido). O sujeito que enuncia emite ideias, valores de outros que perpassam pela sua subjetividade e sempre são parcialmente significados. Aqui podemos identificar a emergência de outra categoria de análise: a busca pela adequação a partir da alteridade.
A coisificação do sujeito (um operário em forma de “coisa”) – a ser visto no enunciado carregado de valores – aparece em caixa alta na linguagem virtual dos jovens para evidenciar o dito em forma de grito, assim como será, também, observado em evidência no Fragmento 3. O tom de deboche é reforçado pela risada (escandalosa) que aparece como vem exposto a seguir:
ESSA COISA AEW, "UHSAUSAUSUASU’
(Retirado do Fragmento 1)
Como é possível perceber, o espetáculo não está mais no jogo de futebol com seus jogadores e sim na “coisa” situada nas redes sociais. Isso quer dizer que o foco sai do campo e vai para o sujeito socialmente apagado e de menor valia – “o vovo tosco”, como se vê no fragmento analisado.
Por outro viés, há de se compreender que a linguagem do blog segue muitas vezes o modelo oral, com o grau de informalidade e representado por uma escrita idiossincrática e icônica. Segundo Araújo (2007), o blog oferece um ambiente propício para a interação verbal, pois traz a possibilidade de articulação entre as linguagens oral e escrita, na relação de produção de sentido que fortalece as trocas dialógicas-axiológicas dos enunciados entre os sujeitos.
Nesse enfoque, essa manifestação de linguagem não deve ser ignorada pela escola, ficando alheia à realidade múltipla dos usos linguísticos (MARCUSCHI, 2010). O flagrante de um trabalhador sendo pego em cima do telhado, curioso com o jogo da escola, ao julgo de alguns alunos do GRA, gerou sentidos a serem questionados. Seguindo a ordem das categorias elencadas, analisaremos a postagem sob o critério da cumplicidade de sentido entre
linguagem imagética e linguagem verbal. A primeira manifestação de valor detectada foi direcionada ao termo “vovô”, na qual se revela a relação existente entre a imagem do senhor em cima do telhado e o tom áspero do comentário a seguir, conforme pode ser observado através das escolhas lexicais que o constituem:
o vovô tosco, olhando o torneio de tutoria no dia da final querendo ser o juiz do jogo. Quem já viu uma coisa dessa?
(Retirado do Fragmento 1)
Em seu teor ideológico, a postagem, carregada de valores que não se encaixam aos ideais inclusivos da esfera institucional, fugiu ao crivo dos adultos responsáveis. O que emerge no tom da brincadeira jovem é a voz do desestimo, do poder do mais favorecido sobre o menos privilegiado, a revelação de um preconceito existente, que, por vezes, não se quer enxergar ou, muitas vezes, se consegue abafar – uma excelente temática para ser cuidada no ambiente escolar.
Os comentários auxiliaram nesse sentido, pois o que surgiu trouxe ao Ieceblog várias manifestações por parte dos seus interlocutores, nem sempre as esperadas pela turma do GRA. O tempo ocorrido entre postagem e comentários durou cerca de duas a três semanas, e poucos foram aqueles que comungaram com o posicionamento do GRA. Alguns “kkkkkkkk” e outros discursos que surgiram reforçaram o deboche e o preconceito, porém o que prevaleceu mesmo foi a crítica contrária ao que a turma do GRA postou:
“vovô tosco” que respeito hein? achei horrível a legenda. Seria melhor
pensar antes de escrever legendas ofensivas no seu blog, ainda mais se tratando de uma escola...
(Retirado do Fragmento 1)
O posicionamento inesperado, no contra fluxo da intenção do locutor, não ocorreu somente via blog, foi tema de discussão em outros segmentos da escola. Diante da percepção do preconceito, o GRA teve que repensar a proposta do ridículo, de exposição do outro, e se desculpar perante a Assembleia dos alunos do Ensino Fundamental II. A reparação também veio em forma de texto coletivo exposto logo abaixo:
gra disse... Olá anônimo
Que bom perceber a sua sensibilidade para o comentário” vovô tosco”.
deixou a desejar. É isso aí, todo mundo desliza, e é preciso de gente como
você, para que as pessoas não se deixem levar pelo “engraçado” sem
passar pelo senso crítico. Vamos refazer o comentário. Obrigada pela sua não omissão, pena que você está no anonimato.
(Retirado do Fragmento 1)
O texto postado pelo GRA no corpo dos comentários vem marcado, ressaltando a categoria de busca pela adequação a partir da alteridade, o que se revela a partir das desculpas e justificativas, entrando como reparação para a cadeia contínua dos enunciados, o que se deduz que a polêmica, por mais que pareça assunto encerrado, nunca deixará de retornar para a arena do debate. Quanto à promessa de refazer o comentário, julgou-se não ser correto modificá-lo, pois, a partir de sua alteração, a discussão preciosa perderia o seu sentido original. Sobre a inadequação da postagem, para os adultos responsáveis do Ieceblog e para os outros adultos que compõem o corpo técnico da escola, ficou o aprendizado: em se tratando de um trabalho de produção do aluno que requeira maior velocidade, liberdade e exposição imediata ao público, o controle sobre o que será postado deve ser dobrado, considerando o local de produção do discurso, a instituição escolar. Isso nem sempre ocorreu e nem sempre garantiu o total ajuste.
O que se pode concluir é que a linguagem vista sob o enfoque da interação de maneira ativa e dialógica torna-se como que penetrada de intenções (BAKHTIN, 2006). As palavras (nunca soltas) vistas como enunciados perdem a sua inocência, evocam uma tendência, um partido, valores, um sujeito, uma esfera, um momento específico em dada situação e momento, portanto, só se realizam através do gênero discursivo.
Na visão atual do ensino da Língua Portuguesa, ressalta-se, nesta investigação, a procura pelas práticas sociais na perspectiva dos multiletramentos, voltadas ao uso dos gêneros discursivos a fim de ampliar a competência do aluno para o exercício mais fluente e interessante da leitura, da fala e da escrita, defende-se de que “a escola não deve ter outra pretensão senão chegar aos usos sociais da língua, na forma em que ela acontece no dia-a-dia da vida das pessoas” (ANTUNES, 2003; p. 108). Desse modo, avalia-se que o evento de letramento em questão, produzir postagens para o Ieceblog, influenciou as aprendizagens dos alunos do GRA quando os encaminhamentos que foram surgindo por meio da linguagem e com a linguagem trouxeram amplas funções desempenhadas por meio da linguagem em uso na construção do sujeito operante na sociedade.
Nesse vem e vai de ocorrências por meio da linguagem carregada de valores sociais, é possível entender a língua como “opinião plurilíngue concreta sobre o mundo” (BAKHTIN, 2010; p.100).