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Outra justificativa para a extinção do HD relaciona-se ao processo de Reforma no RN. O fato de funcionar dentro das instalações de hospital psiquiátrico, no caso[,] anexo ao HJM, contrariava os preceitos defendidos pela própria Política Nacional de Saúde Mental,

A tal Reforma Psiquiátrica acabou sendo uma justificativa para o fim dos novos projetos (Col. 2).

[...] discutiu-se que o hospital-dia não deveria estar funcionando nas dependências de um hospital psiquiátrico. Não fazia parte da Política Nacional de Saúde Mental, do Ministério da Saúde (Col. 4).

[...] o fato de encontrar-se instalado dentro do Hospital João Machado, e não era permitido atender pacientes nesse mesmo espaço. Por mais que tentássemos

justificar que era um anexo, e os nossos pacientes não tinham contato com os pacientes do Hospital João Machado (Col. 8).

Essa ideia era também defendida pelo grupo de ideólogos anteriormente referidos, pois acreditavam que os serviços intermediários em saúde mental, tipo hospital-dia, localizados dentro de uma estrutura hospitalar psiquiátrica geral influenciariam na terapêutica e assistência oferecidas aos usuários com transtornos mentais e comportamentais. Muito embora, considera-se que o HD vinha tendo bons resultados no trabalho desenvolvido.

O hospital psiquiátrico pode perfeitamente dispor em suas instalações físicas de um hospital-dia ou ambulatório (Col. 6).

Uma justificativa dada quando questionávamos o porquê do fechamento do hospital- dia era o fato de encontrar-se instalado dentro do Hospital João Machado, e não era permitido atender pacientes nesse mesmo espaço (Col. 8).

O fato, por exemplo, de um hospital-dia funcionar no conjunto de uma unidade hospitalar não minimiza a sua validade terapêutica, porque você imagine se esse hospital-dia que vinha dando certo na sua prática fosse ampliado para outras partes ou ampliado na sua forma assistencial para um maior número de pacientes do próprio hospital, mas não chegou a esse momento, até porque foi extinto (Col. 11).

A política de expansão do CAPS no estado acabou favorecendo a extinção do hospital, quando se pregava que: “teria que ser CAPS ou NAPS. Daí agente questionou por que não poderia se tornar um CAPS” (Col. 11). Na contramão dessa justificativa, reforça-se que, durante quase dez anos de funcionamento, o HD prestou atendimento aos portadores de transtornos mentais, com uma média de 1.800 atendimentos efetuados (SESAP, 2006). Nessa modalidade de acompanhamento, os indivíduos são encorajados a retornarem ao convívio social (família, amigos e comunidade) o mais breve possível.

Cabe reforçar que essas três vertentes definidas pelos colaboradores ao resgatarem o processo de extinção do HD reflete diretamente o pensamento e o sentimento de todo o trajeto desse serviço naquela época. Percebe-se, de antemão, a influência e vontade política de representantes da gestão pública, seja em nível estadual, até mesmo municipal, na tomada das decisões na área de saúde (MINISTÉRIO PÚBLICO 2006).

Nesse contexto, emerge uma discussão complexa sobre a lógica de reorganização dos serviços no campo da assistência em saúde mental, dados os elementos que a envolvem, sejam eles políticos, éticos, culturais ou sociais. E, diante das demandas existentes, faz-se necessário que os serviços atentem para a dinâmica do território onde estão inseridos, pois ela

deve nortear as ações a serem elaboradas na atenção em saúde (TONINI; MARASCHIN; KANTORSKI, 2008).

Ressalta-se que o conceito de território deve ser entendido de maneira ampla, não apenas como delimitação de um determinado espaço geográfico estático. Essa visão foi compartilhada e defendida pelo próprio Milton Santos (2002), quando criticou a geografia descritiva e propôs um conceito que engloba as características físicas de uma área, como também os aspectos da dinâmica social, as marcas produzidas pelo homem nesse espaço. Partindo-se dessa definição considera-se o território como objeto dinâmico, vivo de inter- relações (YASUI, 2010).

Pensar na concepção de território em saúde mental significa “aprender a olhar para o território buscando ver e usar os recursos que sempre lá estiveram, ou seja, toda a complexidade da rede de relações e trocas que se pode efetuar com o entorno” (YASUI, 2010, p.4). Nesta tessitura de relações entre sujeitos dotados de subjetividade e confluência de sentimentos, como dor, angústia, sofrimento, a rede de cuidados em saúde mental opera e projeta os serviços e estratégias comunitárias voltados à ressocialização dos portadores de transtornos mentais e comportamentais no seio de suas famílias (TONINI; MARASCHIN; KANTORSKI, 2008).

Destarte, numa audiência pública foi definida uma série propostas assumidas pela gestão estadual no campo da atenção psicossocial, mencionadas no subeixo a seguir.

4.3.4 Dos compromissos assumidos pela gestão após as audiências públicas

No período anterior ao fechamento do HDEN aconteceram várias audiências públicas com a Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde de Natal, onde, na pauta, discutia-se sobre a extinção desse serviço. Numa delas, ano de 2006, estiveram presentes a Coordenadora Estadual de Saúde Mental, a Promotora de Justiça, a então Coordenadora do HDEN, representantes do Sindicato de Saúde e das instituições de ensino que participavam no serviço.

Mesmo diante dos argumentos defendidos pela representante do HDEN, decidiu-se pelo fechamento do hospital, estipulando-se o prazo de 30 dias para encaminhar os pacientes para outros serviços da rede municipal de Natal. Partindo dessa decisão, referiu-se que, com o

apoio da Coordenação Municipal de Saúde Mental, os pacientes antes atendidos no HDEN passariam a receber atendimento na Policlínica da Ribeira2.

Participamos de audiências públicas [...] tive o apoio do SINDSAÚDE, dos professores que utilizavam o hospital-dia como local de estágio e formação de alunos. Mas, foram incisivos, bateram o martelo e deram trinta dias para fechar o hospital e encaminhar os pacientes para outros serviços, numa decisão autoritária, sem chances reivindicações (Col. 7).

A Coordenação reconhece os bons resultados do serviço hospital-dia, mas não se adequa às responsabilidades estaduais em saúde mental [...] se estabeleceu um compromisso entre a Coordenação Estadual e Municipal de Saúde Mental para incorporação desses pacientes na rede básica [...] com a alta os pacientes serão atendidos na Policlínica da Ribeira. A Coordenação reitera que está assegurado a assistência aos vinte e cinco pacientes do hospital-dia, especialmente no Ambulatório da Policlínica da Ribeira (MINISTÉRIO PÚBLICO, 2006).

No que se refere à gestão municipal de Natal, projetou-se para o ano de 2007 a ampliação do quantitativo de CAPS instalados, a criação de uma residência terapêutica, além disso, passaria a se responsabilizar pelo atendimento realizado no ambulatório do HJM.

[...] dentro do Município de Natal existe uma política de ampliação de CAPS [...], previsão para abertura ainda em 2007 de uma residência terapêutica e dois CAPS III e o II leste, que passarão para III [...] Natal vai assumir o ambulatório de Saúde Mental do João Machado também em 2007 (MINISTÉRIO PÚBLICO, 2006).

Partindo desses principais compromissos e projeções feitas após a extinção do hospital-dia, sentiu-se a necessidade de caracterizar, de modo geral, a situação sociopolítica imediata deflagrada naquele momento.

Belgede Elektronik ticaret (sayfa 153-159)

Benzer Belgeler