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Não obstante o clima de suspeita contra o intelectual e o cientista, fruto do desenvolvimento e uso das bombas atômicas, ícones do ―avanço‖ técnico do século XX, do qual trataremos em seguida, os anos 1950 também foram um período de grande desenvolvimento em áreas como a medicina153, a cibernética, as telecomunicações154, entre outras.
De longe, a obra que mais representa uma visão positiva dos desenvolvimentos da ciência como melhoria da qualidade de vida, ou seja, seu aspecto utópico, é ―Invasores do espaço interior‖. Nos romances, as vantagens da técnica parecem ser eclipsadas pelos
153 Cf. texto de Barrett, Jim. ―Back to the 50‘s‖. Disponível em: http://www.uthscsa.edu/mission/fall94/fifties.htm. Acessado em 25-11-2008.
154Mindell, D., Segal, J., Gerovitch, S. ―From Communications Engineering to Communications Science‖. In:
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problemas que ela traz. Como no exemplo que demos anteriormente sobre a cena na qual o Abade Zerchi e o autoescriba ―lutam‖155, mostra-se a necessidade de existência de máquinas que mediem as comunicações, mas o fato de ela estar com defeito parece passar para segundo plano, a melhora na qualidade material de existência, ou seja, o fato de se comunicar sem a língua ser um empecilho.
Similarmente, há um elogio à tecnologia em Mercadores do espaço, num momento específico já quase no fechamento do romance, no qual é exatamente a tecnologia que possibilita aos Conservas que se reúnam e utilizem o foguete para emigrar para Vênus. Certamente, a melhora na vida das pessoas, livres do controle da Terra, da publicidade, dos meios predatórios de obter produtos, ou seja, as consequências de tal melhora estão ausentes do romance e só viriam a se configurar (de forma ainda problematizada) na continuação The
Merchants‟ War (1984).
Saia do meu céu! traz inovações bélicas, telecomunicacionais (satélites) e de
transportes (foguetes tripulados). Não fica claro se outras inovações tecnológicas, como computadores, telefones, lasers foram desenvolvidos. As outras formas de desenvolvimento técnico fazem parte do que chamamos de o paradigma ausente – estão suprimidas do texto. Temos o desenvolvimento dos ―assuntos sérios‖, como as ciências sociais, citados por Margent em conversa com Aidregh, porém, pouco se vislumbra desses desenvolvimentos, colocados em segundo plano; cita-se a telepatia, mas pouca importância é dada a ela. Voltaremos a essa diferença de visões de mundo no sub-capítulo a seguir.
Porém, é apenas na segunda parte de ―Invasores‖ que temos a configuração da melhoria da qualidade de vida através da ciência, mediante o fato de que ela está desatrelada à estrutura das corporações e do controle militar:
a ciência começou a se imiscuir em tudo o que fazíamos, não deixando quase nada para a contingência. Até mesmo em viagens espaciais vemos a nova ciência calcular as condições extraterrestres com tal acuidade que um passageiro pode decolar em um foguete para um planeta inexplorado com tanta preocupação quanto teria numa viagem de avião de Nova York a Paris. (IEI, 154)
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Não houve apenas melhoria nos meios de transporte. Mais relevante foi o ato de que a educação e a medicina eliminavam doenças mentais e físicas, tornando possível adiar a morte, não apenas pela prevenção, mas pela reparação física:
‗Agora não há uma só criança no pré-escolar que não tenha aprendido cientificamente tudo que se pode aprender a respeito do assunto. Qualquer satisfação que ele é capaz de ter com sexo quando ele crescer, nunca pode ter a mesma intensidade do que quando ele era experimentado com um delicioso senso de pecado.
E pense também no que está acontecendo com a morte. Cada ano esta ficando mais e mais difícil morrer. Sei disso por experiência própria. Com injeções moleculares que eles nos aplicam, meus tecidos celulares se recusam a desgastar. Posso verdadeiramente dizer que não me sinto nem um dia mais velho do que cinquenta anos atrás quando tinha meus cento e poucos. Os germes mais virulentos estrebucham sob o abraço forte de moléculas renovadas, uma união que causa nada mais do que saúde. E acidentes, estes raramente acontecem. Mas quando acontecem, qualquer órgão no corpo pode, caso danificado demais para ser curado, ser trocado.‘ (IEI, 155)
Porém, o conto não retoma um dos problemas apresentados na primeira parte, em sua segunda parte, ou seja, não revela a possibilidade técnica utópica dele. Segundo o narrador, havia uma dificuldade no que dizia respeito à questão do trabalho: sua relação com as máquinas. Segundo ele,
quando os robôs começaram a deslocar o trabalho humano para fora das indústrias, a maioria de nós, sinto dizer, estávamos em desvantagem em saber o que fazer com todo o tempo disponível. Na verdade, a situação ficou tão séria que o anúncio de uma nova redução no tempo do dia de trabalho para empregados da Super- Corporação de veículos provocou uma reação tão violenta que havia rumores de greve para exigir mais horas (IEI, 141)
Não fica óbvio se, após a grande mudança, os robôs continuaram a realizar o trabalho, de forma a permitir uma emancipação do homem do trabalho e do mundo da necessidade. Tanto que esse episódio remete a vários aspectos da questão, como aos problemas neo-ludistas156 das primeiras décadas do século vinte: experimentou-se um certo ressentimento contra a máquina que tirava os trabalhadores de seus postos e os deixava incapazes de vender sua força de trabalho e, assim, conseguir obter os meios de subsistir e consumir, a tal ponto que a greve – instrumento criado e utilizado para exigir a condições de
156 Aqui a palavra ludista deve ser tratada de modo problematizado: desde o início da revolução industrial, há
uma relação de amor/ódio, desejo/ressentimento do homem para com a máquina . Uma valiosa reflexão e historização do conceito podem ser encontradas em Pynchon, Thomas. ―Is it O.K. to be a Luddite?‖ Disponível em: http://www.themodernword.com/pynchon/pynchon_essays_luddite.html. Acessado em: 15/09/09.
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trabalho mais humanas, como a diminuição do número abusivo de horas de trabalho – tem valência invertida e vira um instrumento para exigir mais horas.
Esse debate era um tema muito caro aos estudiosos da época. Marcuse, por exemplo, defende o uso das máquinas já que ―a racionalização e a mecanização do trabalho tendem a reduzir o quantum de energia instintiva canalizada para a labuta (o trabalho alienado), assim libertando energia para a consecução de objetivos fixados pelo livre jogo das faculdades individuais‖157. Nesse momento, o excedente de tempo e energia poderia ser usado de forma a conceder às pessoas maneiras de criar, pensar e se relacionar. Esse tipo de argumento já pode ser encontrado no próprio Marx. Porém, o pensador não é ingênuo a ponto de apenas celebrar a possibilidade utópica presente na tecnologia. Baseando-se na observação dos processos da civilização, ele conclui que ―quanto mais perto se encontra a possibilidade real de emancipar o indivíduo das restrições outrora justificadas pela escassez e imaturidade, tanto maior é a necessidade de manutenção e dinamização dessas restrições, para que a ordem estabelecida de dominação não se dissolva‖158.
Dessa forma, ainda que a possibilidade melhorativa da ciência existisse e fosse expressada, nos tratados sociológicos e nos objetos artísticos, para não dizer na vida cotidiana como um todo – pelos eletrodomésticos, por exemplo –, a força política e ideológica que a mantinha dentro de certos limites e usadas para certos propósitos era hegemônica. A ideologia afeta os cientistas do mesmo modo que age sobre todas as outras pessoas, exercendo pressão para que se conformem. Além disso, em certas situações (como na Alemanha nazista), os ideais que se afirmavam não tinham um embasamento científico e a ciência ―tinha que ser distorcida para proporcionar um [suposto embasamento] ‖159.
Não é sem propósito que ―Invasores‖ é o texto que mais claramente referencia os desenvolvimentos de uma ciência desatrelada dos interesses militares, posto que é o texto mais utópico dentre os que foram selecionados. Mesmo Saia do meu céu!, cujo enredo aparentemente termina de uma forma pacífica, só o faz mediante uma mistificação generalizada e através da ameaça.
157 Marcuse, Eros e Civilização, op. cit., p. 94. 158 Idem.
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Assim, chegamos ao outro extremo desse binômio: a visão da ciência com o perigo de destruição e coerção. Temos, nessa categoria, diversas materializações de modos de representar nos romances e no conto: a mais pungente e que aparece em todos os objetos, tendo pesos diferentes em cada um deles é a bomba atômica.
Presente em Um cântico para Leibowitz desde o princípio, potencialmente na figura do abrigo anti-radiação, segue na figura dos mal-nascidos, cuja existência já é uma espécie de estigma da bomba ou fruto de sua ação.
Logo no terceiro parágrafo do primeiro capítulo, em Fiat Homo, temos a sensação de estranhamento, na figura de São Raul, o Ciclope, padroeiro dos Mal-nascidos. Em um parêntese, o narrador explica que os mal-nascidos são aqueles ―monstros‖ que quando nasciam vivos ―pela lei da Igreja ou da Natureza, tinha de viver e ser ajudado a atingir a maturidade‖ (CL, 13).
Essa classe social atravessará toda a narrativa, como forma simbólica de memória do que havia acontecido por motivo do dilúvio de fogo. A primeira informação que temos da sociedade, recriada ficcionalmente por Miller, é que existe uma classe de seres que são isolados e temidos e que existe uma regulamentação: a lei da Igreja. Não são nada mais que os mutantes resultantes da radiação, que sobreviveram, mas não sem uma punição. São eles que carregam o estigma dos fatos que aconteceram 600 anos antes e transmitem este estigma de geração para geração. Por ser a Igreja a única que deseja protegê-los, são conhecidas como ―filhos do Papa‖, através deles, a tentativa da Igreja em manter viva a memória do passado.
Na parte final (Fiat Voluntas Tua), a bomba aparece como uma entidade material, construída e nessa parte se desenvolve uma discussão dos seus aspectos éticos. A bomba é, por assim dizer, uma das protagonistas da história.
Mesmo com o passar dos séculos, com a presença dos mal-nascidos, representados nas figuras da bicéfala Sra. Grales/Rachel e do Irmão Joshua. A primeira é uma lavradora de tomates, que vende o excedente à abadia, e que deseja ser integrada à sociedade, sob a lei do batismo:
– Recusou-se a batizar Raquel? – Foi o que ele fez, o tolo.
– A senhora está falando de um padre, Sra. Grales, ele não é um tolo, pois conheço-o (sic) bem. Deve ter suas razões para recusar. Se não concorda com o que ele disse,
114 vá falar com outra pessoa qualquer, mas não com um monge. Fale com o arcipreste em Santa Maisie, por exemplo.
– Sim, também já fiz isso. – A Sra. Grales lançou-se numa narrativa, que parecia ser longa (...)
[Joshua pergunta após sua saída] Mas quem é Raquel? Por que não querem batizar a criança? É filha desta mulher?
O abade sorriu sem vontade. – É o que diz a Sra. Grales. Mas não se sabe bem se Raquel é filha dela, irmão, ou apenas uma excrescência no seu ombro.
– Raquel! Aquela outra cabeça? (CL, 248-9)
Não fica claro o motivo da negativa do padre Selo, mas implicitamente e pela reação do Irmão Joshua, notamos que os mal-nascidos ainda são discriminados, tal como no começo da narrativa, quando são ladrões ou assassinos. Buscando integrá-los ao sistema, existem as operações cirúrgicas que apagam suas origens. Sobre este mesmo Joshua, temos que ―sua própria mão tinha uma cicatriz minúscula onde, na sua infância, lhes haviam extirpado um sexto dedo‖ (CL, 239).
A cena final do romance, das bombas explodindo, descrita com tanta perfeição parece trazer para o leitor a sensação nefasta sentida por aqueles que não puderam viver a realidade de bombas explodindo suas cidades, mas desconfiavam que o ―controle‖ afirmada pelas autoridades do átomo, não trazia segurança e sim, ―medo e desconfiança‖160.
As armas atômicas também são motivadoras da ação em Saia do meu céu!, o estado de guerra e o perigo de uma aniquilação mútua rondam grande parte do romance e servem de mote para o contato, que em vez de ser uma oportunidade de troca de conhecimentos e cultura, de reconhecimento mútuo, é uma tentativa desesperada de evitar a destruição.
Em Home, o desenvolvimento da Ciência e da racionalização atingia um ponto muito semelhante ao desenvolvimento atingido pelo capitalismo tardio no ocidente nos anos 1950. A época de Aidregh distancia-se da era pré-mecânica – temos o navio turbinado, o avião, o foguete, satélites e televisões –, opondo-se a uma prática anterior no qual havia certa ―combinação de ousadia, [engenharia], e pura superstição.‖ (SMC, 14)
Porém, o ponto alto de tal desenvolvimento tecnológico foi o desenvolvimento de bombas, ordenadas pelas próprias autoridades, como admite Aidregh a Margent: ―a maioria
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das armas que constitui essa ameaça [a Rathe] foram fabricadas por ordem minha‖. (SMC, 82)
Paralelamente, em Rathe, ocorria o processo inverso. Devido às condições internas, como a ausência de metais (principalmente os metais pesados), água e terras aráveis, nenhuma ciência física foi aperfeiçoada. Desenvolvem-se, por conseguinte, as ciências do espírito. Margent explica:
Assim, à medida que nossa civilização envelhecia, tendemos a nos concentrar nas humanidades – nas artes, na ética, na comunhão dos espíritos, nas ciências sociais. Sob influência desses estudos eliminamos nossas noções primitivas, desenvolvemos uma linguagem comum, reduzimos o governo ao mínimo essencial, eliminamos o crime, e de um modo geral nos desembaraçamos de uma quantidade de problemas, o que nos permitiu que nos dedicássemos a assuntos sérios. (SMC, 84)
Imaginamos, então, que Rathe seja uma Utopia, um planeta cuja raça elevou-se a outro tipo de sistema-mundo, onde o Iluminismo mantém sua concepção filosófica de auto- consciência, sem permitir o florescimento do individualismo e da competitividade.
Contudo, eventualmente, os Ratheanos puderam desenvolver certa quantidade de tecnologia material. Começando com os rádios, incluindo a televisão e os satélites, que como soubemos, nos dois primeiros capítulos (antes do contato físico direto), estes eram os meios de comunicação interplanetários, assim como tinham função de exercer a defesa. Além disso, tinham paridade, ou mesmo superioridade armamentista. Dominavam a energia nuclear, como bombas de fissão. Mas, seguindo a própria lógica não-bélica de Rathe, estes dispositivos foram feitos com objetivo de serem defesas, contra um possível ataque de Home. São frutos de uma vontade que só passou a ter existência depois da descoberta do Outro. Em Rathe, a concepção de guerra não havia existido até o contato. Na verdade, ela foi motivada pelo sentimento de preservação e como consequência é vista como um atraso:
foi durante a liquidação dos Medani. Aquele crime nos horrorizou, e, contudo nada podíamos fazer exceto ficar irremediavelmente de lado enquanto ele era cometido. Lentamente nos veio a convicção de que a nossa vez também chegaria; e que, pondo de lado nossas próprias convicções, deveríamos preparar algum meio de defesa contra vocês.
Vocês não vão me compreender quando disser que a época que se seguiu foi como uma orgia, mas não me ocorre compará-la a qualquer outra coisa. (SMC, 85)
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Assim, apesar de aparentemente mais desenvolvidos moralmente, eles também projetam por sua vez certa imagem de um Outro que buscará sua aniquilação, ainda que este modelo não seja o modelo que rege as relações sociais de Rathe. Por que tal atitude estaria presente nos ratheanos? Se eles estavam em harmonia com a natureza e com seus semelhantes, por que este instinto também passou a permear seu pensamento? A personagem já se questiona neste ponto: ―como é possível cultivar um senso ético enquanto se está simultaneamente fabricando bombas de fissão?‖ (SMC, 86)
O mesmo se repete e ―Invasores do espaço interior‖, onde a bomba não poderia estar ausente do relato histórico que o narrador faz do seu passado (os anos 1950), focando no tipo de jogo político que mantinha a pesquisa ativa e a produção crescente, mas o uso controlado:
Enquanto os dois lados jogavam esse jogo com uma seriedade letal e montavam enormes estoques dos mais devastadores explosivos, havia certo acordo de cavalheiros de não arremessar sobre os outros, ao menos como último recurso. Se nós tivéssemos que soltar nos nossos adversários qualquer coisa que nossos cientistas haviam tirado da cartola, logo não haveria mais nenhum adversário, o que nos deixaria numa situação embaraçosa de contar com uma defesa e ninguém contra os quais nos defendermos. (IEI, 139)
De forma irônica, o narrador coloca a questão ética como um arranjo prático. Assim como diria Hobsbawm, ao nomear um dos capítulos de A Era dos Extremos, os cientistas eram mágicos ou feiticeiros, que podiam tirar das suas cartolas os artifícios mais aterrorizantes.
Em um outro nível, isso se conecta a um aspecto da ideologia daquela época. Na década de 1950, os soviéticos resolveram tomar certas decisões que eram contraditórias: havia forte propaganda contra o ocidente. Ao mesmo tempo, as relações de comércio com o mundo capitalista foram intensificadas, principalmente como modo de ―exercer pressão no Ocidente para relaxar o controle estratégico ao comércio‖161. Após a morte de Stalin, em 1953, Malenkov reafirmava uma ―competição pacífica ou co-existencial‖ com os capitalistas, ou seja, o prosseguimento do intercâmbio entre o Leste e Oeste, desde que fosse lucrativo para eles. Entretanto, fatores como a dificuldade de encontrar no ocidente escoamento de produção e sendo os padrões de exportação tão instáveis, percebia-se que a necessidade ou dependência
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não era multilateral. ―Desde o começo, [a Guerra Fria] foi uma guerra de desiguais‖, diz Hobsbawm162.
Percebia-se que a ―cooperação amigável‖, não sendo apenas um cessar-fogo ou uma contenção bélica, havia levado apenas a atitudes regionais, com pouco efeito em escala global. Uma minoria percebia que a Rússia tinha um objetivo bem distinto:
devemos reconhecer que não temos nenhuma ligação com os assuntos políticos da Europa Oriental, como a Rússia não tem nenhuma ligação com os assuntos políticos dos Estados Unidos, América Latina e Europa Ocidental... Gostemos ou não, a Rússia tentará socializar sua esfera de influência assim como tentamos democratizar a nossa...163
Assim, o que o narrador de ―Invasores‖ não menciona, mas deixa implícito, é que as bombas não apenas acabariam com os adversários, como também poderiam acabar com potenciais consumidores, impedindo a possibilidades de expansão do mercado.
Mercadores do espaço, em contrapartida, não oferece muitos exemplos das armas
nucleares, provavelmente por contar com um sistema político-econômico unilateral. Assim, há apenas uma menção rápida do elemento radioativo tório (às páginas 58-9) e em seu uso militar e energético – que acaba se configurando como a única menção desse uso pacífico do potencial atômico.
Ainda que o perigo atômico não configure um dos elementos de desagregação humana em Mercadores do espaço, é nesse livro que os outros problemas que ameaçam a existência têm maior importância. A questão da superpopulação, como ilustração, é tema recorrente em romances de ficção científica, estando presente em Mercadores do espaço e pouco explorado (ainda que vislumbrado) nos outros objetos, projetando a escassez de espaço e recursos, sendo necessárias diversas medidas para que a vida continue possível, e o romance é lócus para a discussão de tais alternativas.
Em Um cântico para Leibowitz, mais precisamente em Fiat Voluntas Tua, há duas entrevistas com o ministro de Defesa do Atlântico, única voz de autoridade política apresentada, nas quais ele é perguntado sobre a maternidade:
Uma repórter: - O senhor é favorável à maternidade, Lorde Ragelle?
162 Hobsbawm, p.247
118 Ministro da Defesa: - Oponho-me fortemente a ela, minha senhora, pois exerce uma influência maligna na juventude, especialmente nos jovens recrutas. Os serviços militares teriam soldados excelentes se não fossem corrompidos por essa ideia. (...)
Uma repórter: - Como está hoje sua opinião habitual sobre a maternidade, Lorde Ragelle?
Ministro da Defesa: - Espero que a maternidade pense de mim o mesmo que penso dela.
Uma repórter: - É bem o que o senhor merece. (CL, 227, 242)
Com ironia, ele se opõe fortemente a ela, sinalizando para um possível excedente de pessoas no mundo e o desenvolvimento de práticas governamentais para controle de natalidade. Ainda que possamos inferir tais atitudes, poucos são os elementos para que configure esse novum na narrativa.
Já Mercadores do espaço apropria e, de certa forma, inverte a teoria de Thomas Malthus. Segundo esse economista e demógrafo, havia um potencial para que as populações crescessem mais rápido que os suprimentos de alimentos, causando então um problema de abastecimento. Já no romance, a lógica é de quanto maior o índice de natalidade, melhor para as vendas, para a expansão do capital, ou seja, em vez de tentar controlar os índices de