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Para Prado Junior (1973), o final do século XIX e o início do século XX marca o processo de larga expansão das forças produtivas no Brasil, esta força se deu grandemente pelo projeto republicano de economia através da industrialização. O aparecimento dos grandes centros urbanos também estimulou novos tipos de qualificações profissionais, esta se deu no campo da educação básica e profissional nas classes populares, como aponta Manfredi (2002).

Um dos principais marcos do ensino profissional no Brasil é quando o Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, através de Decreto, no ano de 1906, detém o poder sobre as políticas instituídas ao ensino profissional4. Em 1909, o Presidente da República Nilo Peçanha, inaugurou quatro escolas profissionais no Estado do Rio de Janeiro, e além destas, muitas outras foram instaladas pelo Brasil. Sobre a justificativa para a inauguração das escolas, Luiz Antônio Cunha apresenta a fala de Peçanha sobre o ensino Profissional:

“O ensino profissional é de vantagens ao progresso do Estado não só pelo que concerne ao desenvolvimento de suas indústrias, como por facilitar às classes menos favorecidas da fortuna ocupação remuneradora para sua atividade”.

Três anos depois na justificativa do decreto que criou as escolas de aprendizes artífices, Nilo Peçanha disse que:

“O aumento constante da população das cidades exige que se facilite às classes proletárias os meios de vencer as dificuldades sempre existentes da luta pela existência; para isso se torna necessário, não só habilitar os filhos dos desfavorecidos da fortuna com o indispensável preparo técnico e intelectual, como fazê-los adquirir hábitos de trabalho profícuo, que os afastará da ociosidade, escola do vício e do crime”. (1912) (CUNHA, 2005b, p. 18)

Mais uma vez se faz presente a ideia de Enguita (1989) em que a escola atua como agente da mudança cultural, isto é, de uma sociedade rural, agrícola, para uma sociedade urbana industrial; essa afirmação reforça sua tese de que a principal função da escola (técnica, profissional ou de ofícios) é o preparo dos sujeitos para o

4 Esta informação aparece veiculada a muitos trabalhos acadêmicos (artigos, monografias e dissertações) e sites, porém todos eles não fazem uso da citação tanto do Decreto, como da informação em si, sem dar crédito a nenhum autor. A procura pelo decreto foi feita pela busca de termos na homepage da Casa Civil: http://www4.planalto.gov.br/legislacao, porém o conteúdo referente ao ano não foi totalmente digitalizado, inviabilizando, desta forma, a comprovação do Decreto.

trabalho, que é absolutamente valorizado na sociedade capitalista. Diante do contexto, percebe-se que para a classe trabalhadora era oferecida uma educação com base no mundo do trabalho, em suma, na submissão à ordem social vigente; em contrapartida a educação da classe dominante se faz na possibilidade da ascensão aos níveis superiores da intelectualidade. De acordo com Saviani (2009) tal escola é dualista, uma rica em conteúdo destinada à classe dominante e outra pobre, destinada a classe dominada, de certa forma semelhante à educação grega.

De acordo com Cunha (2005b) outro grande marco no ensino profissional brasileiro é o acompanhamento do crescimento e diversificação da produção industrial-manufatureira do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, esta que foi uma das instituições pioneiras no ensino industrial. Neste período, instituições de ensino industrial surgiram amplamente por todo país, principalmente na Era Vargas. Destaco aqui o surgimento do SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, em 1942. Esta instituição inaugurada primeiramente na cidade de São Paulo deu corpo ao ensino industrial gerando boa parte da mão de obra no processo de industrialização de sua região metropolitana, posteriormente a rede se estendeu para vários outros centros.

Em 1961, pela primeira vez o ensino técnico aparece com dedicação especial em um documento oficial exclusivo à educação, na primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O ensino técnico é compreendido como educação de nível médio e é dividido em três modalidades: industrial, agrícola e comercial. Este nível de curso é dividido em dois ciclos, o ginasial (com duração de quatro anos) e o colegial (no mínimo 3 anos), isto é, o curso técnico era feito concomitantemente com as disciplinas básicas do ginásio (ensino fundamental ciclo II) e do colegial (ensino médio).

A relação com o trabalho também está explícita, principalmente com a possibilidade de criação de parcerias com entidades privadas para a criação de mão de obra. De acordo com o artigo 51 da Lei 4024 de 1961 (LDB):

As empresas industriais e comerciais são obrigadas a ministrar, em cooperação, aprendizagem de ofícios e técnicas de trabalho aos menores seus empregados, dentro das normas estabelecidas pelos diferentes sistemas de ensino (BRASIL, 2012).

Neste artigo da LDB de 1961, pode-se interpretar que a educação profissional tinha forte ligação com a atividade industrial, ou seja, havia legislação que amparasse o apoio da iniciativa privada dentro de instituições públicas com o intuito da formação da mão de obra.

Em trâmite político desde 1963, no ano de 1969, sob o regime autoritário da Ditadura Militar, é criado o Centro Estadual de Educação Tecnológica de São Paulo, que mais tarde passa a ser denominado “Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza” em homenagem ao professor Antônio Francisco de Paula Souza, fundador da escola politécnica da USP. Inicialmente, a instituição toma como frente o ensino superior no estado de São Paulo, especificamente com as FATEC’s. Mais tarde lhe é concedida a autorização para administrar a rede de escolas técnicas do Estado.

Esta breve leitura sobre alguns aspectos históricos do ensino técnico no Brasil, nos permite conhecer um pouco a forma que ele se estruturou, iniciando no Brasil imperial, tomando os moldes da educação segundo a burguesia francesa, e fazendo-se presente no Estado autoritário. Assim, a relação educação-trabalho que caracteriza a educação profissional pode – ou não - estar subordinada ao trabalho ideologizado pelas condições impostas pela burguesia.