Foi nesta Ong do Pici, na periferia de Fortaleza que eu passei a trabalhar e conviver com os dois participantes dessa experiência negra que eu estou
chamando de Teatro do
Encantamento da Ancestralidade Africana: Gilvan de Souza & Jonas de Jesus. Conheci-os ainda quando estavam por ali na casa dos dezesseis anos. Quanta água de Oxum já banhou e revitalizou essa ponte. Sim porque até hoje eles ainda bebem dessa oferenda natural que os impulsiona nas navegações fazendo-os empunhar o barco da sobrevivência nas águas tranquilas e intranqüilas da vida. Água de Oxum porque igual a mim, neles também eu percebo que foi semente fecundada no útero de mãe ancestral. Eu fui percebendo que para eles teatro, já naquela primeira tarde de ardente iniciação, batia avexado na porta da significação da palavra vida. Até hoje esses dois não conseguiram se afastar muito dessa pulsão que os mantém vivo. Conseguiram colocar o teatro como o referencial pelo qual tudo vale à pena. Sabem que o teatro é como as trocas enriquecedoras de axé, nas quais, na dança dessa permuta, todas as partes ressignificam tudo que tem vida. Gilvan hoje cursa Artes Cênicas no IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará) e o Jonas empenha-se com dedicação para encarar o ENEM e entrar no curso de Artes Cênicas da UFC (Universidade Federal do Ceará). Ambos trabalham como educador social, o Gilvan na prefeitura e o Jonas na Ong Santo Dias.
Depois de algum tempo afastados, o último trabalho que fizemos juntos foi em 2003, pois a vida levava cada um de nós para um lado da sobrevivência (Gilvan foi bater na Bélgica, Jonas em Recife, e eu não mais trabalhando no SESC Fortaleza me embrenhava noutras ongs periferia adentro, quando não, era transformando aulas em cortejos de rua no interior do Ceará). Havia de ser assim, pois como diz o velho ditado africano “A força do Baobá está nas suas raízes”. Era o tempo sazonando as raízes de
um Baobá para nos fortalecer noutros. No final de 2008, eu agora cursando mestrado, os procurei e falei sobre a minha nova maneira de entender e produzir teatro. Imediatamente eles responderam sim. Falei da pesquisa para essa dissertação e, com muita satisfação, obtive da parte deles todas as respostas positivas. Na verdade não se tratava de uma maneira tão nova, pois desde 2004 o meu marco zero em teatro é a lei 10.639/2003, teatro pra mim é esse que foi nascendo ainda em uma memorável noite dos anos 70. Lembra do Benedito? Mesmo no Escuta o tesouro que lhes apresentei de Mateus e Catirina tem essa raiz; na paixão de Cristo havia um Rap com um arranjo marcante do Racionais MCs, para uma canção do Jorge Benjor “Jorge da Capadócia”, que traz além da presença do Racionais inicia com a saudação a Ogum. E falando em Cristo, o meu foi ninguém menos que Gilvan de Souza. Eram as raízes do Baobá em processo de fecundação. Ainda em 2004 trabalhei com o Jonas de Jesus na Ong IDEIAS, na Maraponga, mais uma periferia de Fortaleza, em um Projeto Social com a participação de adolescentes da CEASA. Cinco meses de Rap e Racionais toda manhã.
Após os acertos de datas e horários passamos a nos encontrar no GDFAM (Grupo de Desenvolvimento Familiar), uma Ong do Pici. O pessoal do GDFAM durante toda a realização da pesquisa sempre cumpriu com o que foi acordado entre eles e o Gilvan, que foi quem estabeleceu os contatos e sempre foi o responsável para pegar as chaves para viabilizar nossa entrada no espaço. Nossos encontros aconteciam sempre no sábado ou domingo (manhã: 08 às 12h ou tarde: das 14 às 18h). Logo quando iniciamos esses encontros nós ficávamos das 08 às 12h, havia um intervalo rápido de almoço num restaurante ali pertinho e reiniciávamos das 13 às 17h.
Uma coisa que eu faço questão de frisar é que até agora no final dos trabalhos nunca tive contratempo com assiduidade ou pontualidade, muito menos participação. Esses foram os três aspectos que em 2002 eu colocava para os adolescentes do Escuta, a fim de que uma oficina de iniciação teatral pudesse valer a pena. Lembro-me de que eu dizia muito que se agora era o teatro quem estava mostrando para os jovens o quanto esses três, talvez, pequenos detalhes: (assiduidade, pontualidade, participação) eram fundamentais para a oficina, a vida lhes diria o mesmo, muito embora os caminhos fossem múltiplos e outros sonhos e desejos pudessem lhes conduzir a outros rumos que não os teatrais.
Uma oficina de iniciação teatral não pode querer sobrepor a vida. A oficina é tão somente o momento encantado no qual um desejo vai fecundar ou uma passagem
revitalizante vai ser posta em evidência. Uma oficina com esses três pequenos detalhes e na manga, esse sim um grande achado: leituras, múltiplas, nelas incluso o saber que ensina do Candomblé Ketu-Nagô. Ta de bom tamanho para quem vai continuar amando o teatro. E para quem vai construir experiências outras, vai com a certeza de que teve a oportunidade de beber da água viva da vida, uma vez que para o Teatro do Encantamento da Ancestralidade Africana teatro é sinônimo de vida viva. Tal e qual a energia transformadora do axé. Sim, estávamos tod@s com saudades do beija-flor alentador, canta Eduardo:
A sabedoria é uma produção ancestral; um conhecimento coletivo! Ela brota da terra - da experiência dos antepassados, e nutre a vida comunitária, dela se nutrindo. A sabedoria é fruto de uma experiência coletiva e é tributária de uma cosmovisão, que no caso da africana, é telúrica, circular, integrativa, diversa e inclusiva. Foi essa sabedoria que atravessou o oceano junto com os negreiros. Foi ela que soube fazer do corpo e do mito referência da reconstrução da cultura africana em solo canarinho. Essa sabedoria é quem engendrou o Paradigma Exu e inaugurou uma Semiótica do Encantamento. Sendo produto de uma Filosofia da Ancestralidade essa sabedoria leva a uma Pedagogia do Baobá. (OLIVEIRA, 2007a, p.280).
E foi assim que Gilvan e Jonas ficaram encantados com essa experiência que enfatiza a possibilidade de se vivenciar uma oficina de iniciação teatral, agora totalmente assentada na cultura de matriz africana. Teatro a partir de uma visão que reconhece, valoriza, respeita e dialoga com a cultura tradicional africana a fim de tronar nossos corpos negros fonte de um fruto que apenas aguardava o adubo da terra materna para fecundar em profusão. Isso foi muito oportuno para as nossas vidas, creio eu, pois, em termos de conteúdo, nada de 2002 não nos satisfazia mais. Vejamos como o Gilvan se pronunciou:
Entendo com isso que discutimos durante todo esse tempo não só questões sociopolíticas (o racismo velado, a lei 10.639/03 como aparato jurídico em que se apoiar e a resistência à questão das cotas raciais e o acesso à Universidade por uma educação pública de mais qualidade), como ainda experimentei a sensação de conhecer mais sobre o Candomblé Ketu-Nagô, ritmos africanos e corporeidade africana. (Depoimento Gilvan de Souza, fev. 2010).
A perfeição mais excelente é somente alcançada pelo tempo que passa. Nos nossos encontros que tiveram o formato de oficina de teatro, nós utilizamos os mais variados recursos (jogos dramáticos & exercícios poéticos, som, imagem, textos, internet, audições musicais, análises e discussões de idéias), para trazer para junto dos
brincantes (Gilvan – Jonas), como estávamos pensando sobre a possibilidade de uma formação teatral que apontasse, mostrasse, fundasse uma didática, um jeito negro de falar sobre teatro com pessoas afrodescendentes e demais interessados(as). Era o tempo passando e a gente se envolvendo com a temática da Ancestralidade Africana, na perspectiva de Eduardo Oliveira, Cunha Júnior e outros autores(as) aqui já mencionados(as), através das leituras e dos jogos criados com suporte nesses teóricos que fomos paulatinamente constatando essa afirmação que quer pensar na cultura de matriz africana como pilastra de sustentação para o Teatro do Encantamento da Ancestralidade Africana. Lembro de um exercício simples, mas que funcionou de forma renovada, pois tanto o Gilvan quanto o Jonas também haviam sido subjugados ao cárcere da muralha grega. O jogo diz assim:
O que está no seu corpo que pode lhe possibilitar SENTIR sua ORIGEM e DESTINO? • CANTE sua resposta
• DANCE sua resposta • GESTUALIZE sua resposta
Nosso último encontro de 2009 foi no dia 17 e dezembro, das 15 às 18h, em uma sala do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará), na Avenida Treze de Maio, 2081 - Benfica – Fortaleza – (http://www.ifce.edu.br), que nos foi possibilitada através de uma parceria entre a nossa pesquisa e o referido Instituto, sobretudo porque o Gilvan cursa Artes Cênicas neste local e, mais uma vez, foi quem articulou essa parceria. Neste dia realizamos o seguinte jogo: sempre baseados na idéia de jogos cooperativos, deitados de olhos fechados, embalados na canção que era um ‘Ponto de Oxum’, eles deveriam focalizar a parte do corpo que mais se identificam com as marcas de sua história de vida. Após esse momento eles deveriam desenhar o que haviam imaginado. Continuando deveriam falar de seus desenhos entre si. E finalizando, os dois, vão conectar as histórias desenhadas. Buscar links de interseção, encruzilhadas de semelhanças. Em seguida eles deveriam procurar estabelecer relações entre essas marcas e o tema Teatro do Encantamento da Ancestralidade Africana, ou melhor: estabelecer relações entre essas marcas e desejo de sua história de vida com o que eles imaginam que poderia vir a ser o Teatro do Encantamento da Ancestralidade Africana. De tudo que nós vivenciamos até agora, de que forma você pensa e/ou sente o
(T.E.A.) interagindo com sua história de vida? Eis a resposta do Jonas de Jesus:
O exercício trouxe para mim a visualização de algo maior, como as dificuldades enfrentadas por ser pobre e morador de periferia e ser afrodescendente, quer dizer, ser dono de uma herança de injustiças, maus tratos, forçados a ter outra educação, costumes, religião, como também trouxe a visualização de uma inconsciente identificação prematura de algo que mais tarde (agora), eu iria ter ao me reconhecer e me legitimar como afrodescendente. Outra reflexão que me trouxe o exercício foi a de que ao conectar uma história na outra podemos ver que o barco é o mesmo, as histórias não diferem muito, a não ser de lugar e espaço, mas as questões são as mesmas, as dificuldades e as opressões são exatamente vindas do mesmo lado manipulador, e quando nos juntamos e vemos nossas histórias parecidas e vemos que também somos uma minoria que se reconhece e se afirma como negro dentro de uma população com grande quantidade pobre, podemos nos unir e brigar juntos e dizer que estamos em busca de um bem muito mais comum que é a qualidade de vida, de respeito, de dignidade e de reconhecimento. (Depoimento Jonas de Jesus – Em: 17.12.2009).
4.5. C@NTANDO A HISTÓRIA DE ALGUNS BRINQUEDOS
Vale lembrar que antes de iniciarmos qualquer trabalho prático, os participantes Gilvan e Jonas acordaram comigo que não haveria nenhum problema de os nossos jogos serem fotografados e filmados, assim como, desde o inicio dos nossos acordos eles sabiam que o trabalho teria uma publicação de acesso livre. A cada encontro eu sempre dizia: estou fotografando vocês ou então estou filmando vocês, ou ainda estou gravando o depoimento de vocês.