A realização deste trabalho possibilitou-nos ratificarmos os estudos no campo da relação entre trabalho e educação, especificamente aquela que tem se voltado para a análise dos processos de adequação dos discursos e das práticas de formação profissional às demandas do mundo do trabalho. Aliás, desenvolvê-lo foi fundamental para melhor conhecermos as justificativas, finalidades e estratégias do sistema educacional brasileiro sob o capitalismo contemporâneo para se ajustar aos interesses da fração industrial da burguesia nacional. Ajuste que pode significar ora ações propositivas diretas de qualificação/requalificação técnica de mão-de-obra, ora ações direcionadas para “a habituação do trabalhador ao modo capitalista de produção” (BRAVERMAN, 1987, p. 124).
Ainda com Braverman, “a necessidade de ajustar o trabalhador ao trabalho em sua forma capitalista é permanente” e se torna uma tarefa para cuja realização a escola tem um papel histórico, algumas vezes desempenhado, de forma preponderante, mais em favor da formação da subjetividade ensejada pelas condições objetivas do trabalho do que determinado pela exigência técnica da própria atividade produtiva. Escola, aqui, em sentido restrito; as instituições formais de educação geral e profissional, dentre estas, a rede de educação profissional organizada e mantida pelos órgãos sindicais de representação empresarial como o SENAI.
Este trabalho também pretendeu desmistificar uma série de aspectos que permeiam os discursos, os documentos e planos tanto oficiais como os do SENAI, orientadores das ações de Educação Profissional.
Por essa razão, compreendemos que o debate teórico e ideológico sobre o papel da Educação Profissional deve expressar sua determinação social e, mais ainda, os movimentos de crítica e as mais variadas formas de resistência daqueles que não se identificam com as propostas voltadas para a adaptação das pessoas aos modelos estabelecidos pelos detentores do capital. Este trabalho se insere nessa perspectiva.
Ante de mais nada, com base em Silveira (2006), convém destacar que compreendemos também que esta tese de doutorado de modo algum se constitui em ponto final. O sentimento do caráter provisório do conhecimento permanece e deve ser cultivado também neste momento, em que precisamos dar continuidade aos diálogos, problematizações, reflexões sobre o conhecimento que foi produzido. Compreendemos, também, que este momento representa apenas um aporte sobre os questionamentos e objetivos que nos
conduziram inicialmente ao desenvolvimento da nossa investigação teórico-prática, bem como a possibilidade de tecer algumas considerações, as quais nos conduziram a outros questionamentos, abrindo conseqüentemente para o desenvolvimento de outras pesquisas, tendo em vista que muitas das questões suscitadas necessitam ser elucidadas. Constitui-se, na verdade, um momento de sistematização do conhecimento, idéias, inferências, que representam uma maior aproximação de uma problemática específica, qual seja, a das implicações que a concepção de formação adotada pelo SENAI/MA representa para a formação técnico-profissional de nível médio.
Buscamos desmistificar, como já antecipamos, uma série de aspectos presentes nos discursos oficiais e dos empresários a respeito dos cursos de formação técnico-profissional tanto nas suas determinações teóricas quanto na realidade vivenciada pelos alunos do Curso de Eletroeletrônica, que buscam a Educação Profissional, tendo como utopia uma formação que lhes possibilite ingressar no mundo do trabalho e ascender a outras oportunidades de qualificação profissional que consideram complementar a sua formação. Fazer esse percurso nos exigiu a definição de passos e etapas de trabalho, além de uma atitude de não absolutização do conhecimento, o que exigiu esforço sistemático e crítico, na tentativa de superar o que se manifestou de imediato como resposta aparente para atingir a sua essência.
Assim, do ponto de vista legal, constatamos que a reforma da educação profissional, considerados os aspectos técnico-pedagógicos, apresenta-se como um retrocesso quanto à intencionalidade de promover uma educação comprometida com os princípios de uma escola que desenvolva um processo formativo e que busque superar a dualidade histórica presente no sistema educacional brasileiro, dualidade essa que tem marcado a evolução histórica da educação profissional. E, nesse contexto, foi possível identificar que na medida em ocorreu a ampliação da presença do SENAI no contexto educacional brasileiro, em face do crescimento das demandas do setor produtivo, crescia também a sua influência no setor da formação profissional.
Buscamos analisar a concepção de formação técnico-profissional contemplada no projeto pedagógico para compreender o seu significado e suas articulações na disputa ideológica e hegemônica no campo da Educação Profissional, presentes na sociedade contemporânea. Nesse sentido, foi possível identificar, sobretudo, que a reforma implementada a partir da década de 1990 incorporou demandas advindas do setor produtivo, que foram contempladas no perfil técnico-profissional de nível médio, as quais foram oriundas do processo de (re)organização do trabalho industrial mundial e das formas e funções assumidas pelo Estado, tendo como pressupostos os postulados neoliberais.
Percorrendo essa lógica, abordamos os pressupostos que orientaram a elaboração do projeto pedagógico da Unidade Operacional Professor Raimundo Franco Teixeira (U.O.P.R.F.T.) e do Curso de Eletroeletrônica que, particularmente, possibilitou-nos compreender quais as disputas e os embates que permearam a priorização desse modelo na área da Educação, localizando-o no campo e no espaço que o determinaram, para, então, perceber que a concepção de formação técnico-profissional, as prioridades contempladas no perfil profissional e o uso da noção de competências não se constituem em novidade; trata-se do modo consolidado historicamente de a educação vir a reboque dos interesses políticos e econômicos. Foi essa compreensão que balizou a análise do modelo de formação adotado e possibilitou penetrar na essência dos discursos oficiais que o apresentam como sendo a grande mudança nas práticas consideradas conservadoras e obsoletas. Esse modelo é analisado como a expressão, no campo educativo, da hegemonia e do conjunto de ideologias que comandam as relações sociais no contexto atual, relações essas a partir das quais é estabelecido o conjunto de valores, normas e estratégias de atuação que perpassam as políticas educacionais, efetivadas em estratégias curriculares que têm implicações diretas no conteúdo e na gestão da formação profissional.
Foi a partir desse reconhecimento que abordamos os pressupostos orientadores do projeto pedagógico do curso de formação técnico-profissional, particularmente os relativos aos aspectos pedagógicos.
Além de apontar os limites da perspectiva que aposta na possibilidade de construir um projeto de educação que atenda aos interesses dos trabalhadores, mediante a negociação com as elites dominantes. Criticamos também o caráter determinista presente em análises desenvolvidas por importantes educadores, que apontam a necessidade de elevação generalizada da qualificação dos trabalhadores como condição para o desenvolvimento da sociedade capitalista.
É claro que reconhecemos que os avanços das forças produtivas apresentam aspectos positivos. Entretanto, reconhecemos também a necessidade de denunciar o revigoramento das forças conservadoras e o seu movimento de contra-reação às potencialidades de rearticulação do trabalho manual e intelectual. Foram esses aspectos que também procuramos demonstrar quando analisamos as propostas do empresariado para a educação no país, que, articuladas às diretrizes dos grandes organismos financeiros internacionais, pretendem implementar a redução do papel do Estado, advogando o favorecimento do setor no controle e gerenciamento dos recursos públicos destinados à educação.
Não obstante o discurso empresarial advogar à necessidade da educação promover as múltiplas potencialidades humanas como elemento viabilizador do desenvolvimento das múltiplas necessidades humanas ou para a realização integral do homem, o que constamos na realidade é que a expectativa fundamental da proposta educacional dos empresários é a instrumentalização do trabalhador para adequar-se às novas exigências de competividade/lucratividade das empresas, para adequar-se às novas regras do mercado ou para gerir seu próprio empreendimento, aceitando como fato consumado a extinção ou mutação de postos de trabalho bem como as garantias sociais historicamente conquistadas. Portanto, o discurso em favor da superação do puro adestramento e de uma formação que não dispensa e, sim, valoriza a formação escolar de base geral é, a nosso ver, uma falácia. Para Menezes (2001), esse discurso deve ser entendido como defesa de uma educação escolar mínima, isto é, da educação básica. Essa constatação nos permitiu destacar o papel que a educação assume sempre vinculada à necessidade do empresariado de formação de uma nova mentalidade que possibilite aos trabalhadores o reconhecimento e a aceitação de um novo relacionamento entre capital e trabalho. Assim, a definição de um novo perfil do trabalhador está intimamente relacionada à necessidade de firmar atitudes e valores que sensibilizem os trabalhadores para colaborarem com os objetivos da empresa.
É nesse sentido que se situa o desenvolvimento de um conjunto de competências gerais e específicas, as quais devem ser devidamente comprovadas e validadas para que os sujeitos possam ter condições de enfrentamento do mercado de trabalho, cuja característica central é a competitividade. Esse é um discurso que propala a empregabilidade como sendo a capacidade de aumentar competências reconhecidas pelos processos de inserção e manutenção do emprego. Desse aspecto, decorre, sem dúvida, maior competição entre os indivíduos.
Contra esse discurso é que nos posicionamos, criticando a proposta de organização dos cursos de nível técnico, cuja concepção de formação privilegia domínios de conhecimentos e informações que habilitem o egresso para o desempenho competente no contexto produtivo, isto é, para a submissão às relações capitalistas de trabalho. A nosso ver, faz-se necessário contrapormo-nos a tal discurso e articularmos propostas formativas que contemplem o atendimento das necessidades e interesses dos alunos, valorizando esforços coletivos, no seio do espaço escolar, que tentam reorientar as prioridades estabelecidas no projeto-pedagógico e as propostas curriculares dos cursos destinados à formação profissional do trabalhador.