• Sonuç bulunamadı

4. BULGULAR

4.1. Araştırmaya İlişkin Bulgular

4.1.2. Dönüşümü Tetikleyen Unsurlar

Para Arendt (1993a), embora não seja habitual para o filósofo desenvolver interesse pela atividade política, pode-se perceber, no entanto, que o pensamento político contemporâneo e alguns momentos da tradição reconhecem neste âmbito autênticos problemas filosóficos. A autora, em VE, elucida que a circunstância de retirada do âmbito do agir é, historicamente, a mais antiga condição postulada para a vida do espírito, em seu aspecto reflexivo. Acerca de tal retirada, a autora esclarece: “Em sua forma original, funda-se na descoberta de que somente o espectador, e nunca o ator, pode conhecer e compreender o que quer que se ofereça como espetáculo.” (ARENDT, 2008a, p.111).

Todavia, os acontecimentos políticos do novo mundo [grifo da autora], em especial, os eventos e sequelas ocasionados pelas duas grandes guerras, suscitaram novos padrões de entendimento, tendo em vista a perturbação do pensamento pelas novas experiências que modificaram o cotidiano.

Segundo Arendt, visto que o homem não se realiza inteiramente em sua capacidade de reproduzir a sua existência biológica, nem manifesta plenamente a sua humanidade fora do espaço comum, sua realização figura-se numa instância que implica algum tipo de ação política. Repensar uma política para o “novo mundo” sugere não apenas a revisão de

categorias de pensamento e a criação de novas, mas também a reavaliação da qualidade da ação política, para que ela possa dar sustentabilidade a novas circunstâncias que emergiram. Desse modo, enfraquece a dicotomia entre pensar e agir, mesmo porque o “homem de pensamento” não pode mais recorrer a padrões universais para explicar as experiências com novas características e com implicações políticas diferenciadas.

Daí Arendt salientar também que “a filosofia se demonstrou mais preparada, e os filósofos, mais dispostos do que outrora a reconhecer a importância das ocorrências políticas.” (ARENDT, 2008c, p.446). Nessa perspectiva, resta, de agora em diante, ao filósofo, “deixar a sua torre de cristal” e exercer sua capacidade judicativa diante dos apelos atuais da existência. Arendt aponta, a partir disso, que:

O abandono da posição de “homem sábio” pelo próprio filósofo talvez seja politicamente o resultado mais importante e fértil do novo interesse filosófico pela política. A rejeição da pretensão à sabedoria abre caminho para um exame do domínio político em seu conjunto, à luz das experiências humanas elementares nesse domínio, e, implicitamente, descarta conceitos e juízos tradicionais que têm suas raízes em formas completamente distintas da experiência. (ARENDT, 1993a, p.77).

Dessa forma, a inclinação dos homens de pensamento em direção à realidade concreta teria sido decisiva. Ademais, percebe-se que esse debate sobre a construção de um novo pensamento político para um novo tempo torna-se um embargo difícil de ser dissolvido, mesmo porque toda tentativa de conciliar pensamento e ação não teria apagado a origem trágica desta tentativa, ou seja, a condenação do sábio filósofo pela polis grega. Assim, Sylvie Courtine-Denamy indica que:

Essa nova política da amizade, da qual o mundo novo está à espera, requer então homens novos, capazes de pensar o que fazemos, de se agarrar ao concreto, pois cabe a eles a árdua missão de se situar nesse entre-tempo determinado pelas coisas que não são mais e por aquelas que não são ainda. A emergência desses homens novos pressupõe uma educação e mesmo “a mais alta forma de educação” que lhes permita aceder à “arte política verdadeira”, aquela [educação] que permita a um homem não apenas obedecer a leis, mas também fazê-las. (COURTINE-DENAMY 2004, p.155).

Esta mudança na direção do pensamento76, na avaliação de Arendt, desvelou-se não só pela revisão da capacidade de compreender e julgar, mas também pela atitude de resistência

76 Cf. COURTINE-DENAMY, Sylvie. O cuidado com o mundo: diálogos entre Hannah Arendt e alguns de seus contemporâneos. Trad. Maria Juliana Gambogi Teixeira. Belo Horizonte: UFMG, 2004. SylvieCourtine- Denamy assinala que “[...] ‘a rebelião do filósofo’ contra a filosofia é tão antiga quanto a história da filosofia e

face à decadência da política e, consequentemente, pela necessidade de responder ao apelo de cuidado com a durabilidade do mundo. Tal situação é fácil de ser percebida, sobretudo, pelos filósofos existencialistas franceses que, segundo a autora, buscaram no pensamento político sentidos para os impasses filosóficos. Na opinião de Arendt (1993a), eles resistem a soluções simples, bem como a qualquer conformação a teorias filosóficas cristalizadas. Arendt, no ensaio intitulado O existencialismo francês, de fevereiro de 1946, esclarece:

Os existencialistas franceses, mesmo com vastas diferenças entre si, estão unidos em duas linhas principais de revolta: primeiro, o vigoroso repúdio do que chamam de

l’esprit de sérieux [espírito de seriedade]; e, segundo, a irada recusa de aceitar o

mundo enquanto tal como o meio natural e predestinado do homem. (ARENDT, 2008c, p. 218).

Após demarcar o interesse de pensadores franceses e alemães pela política, no contexto filosófico europeu do século XX, Hannah Arendt destaca que é Kant quem, dentre os pensadores modernos da Alemanha, representa uma contribuição significativa para essa aproximação do filósofo com a política. Como já assinalado, contudo, a autora reforça que Kant não construiu uma filosofia política em sentido estrito, nem tampouco buscou conhecimentos e mecanismos técnicos para a administração da vida social e do Estado. Como mencionado e como veremos mais detalhadamente neste capítulo, são os preceitos do juízo de gosto kantiano que permitem aos homens a capacidade de julgar e de se organizar politicamente.

Em Kant, Arendt acredita ter encontrado um juízo aprimorado que não se limita por mecanismos determinados a priori. Em consequência disso, sugere a possibilidade de novas formas de pensar, de perceber, de deliberar e, sobretudo, de agir sobre o mundo. Sônia Maria Schio esclarece melhor sobre o assunto afirmando que:

O sentimento de beleza, que gera prazer no gosto, não é uma necessidade, mas uma possibilidade presente ao humano, pertencente a ele pelas faculdades da sensibilidade, da razão, do entendimento e da imaginação, em especial. O juízo de gosto pode se manifestar a qualquer momento, apesar dos múltiplos fatores dispersos na vida social que visam a que ele não aflore. (SCHIO, 2008, p.120).

da metafísica ocidental, a novidade do existencialismo está na concretização de que ‘o espírito humano tendo cessado de cumprir, por razões misteriosas, a funda que lhe é própria’, problemas, ao menos ‘de viver com eles, sem tornar-se, nos termos de Sartre, um cafajeste, um hipócrita’.” (2004, p.135).

Na releitura de Arendt, a faculdade de julgar kantiana sugere o interesse dos espectadores quanto à experiência das relações político-sociais através da via da comunicabilidade, ou, mais precisamente, do ajuizamento. Daí Arendt enfatizar a prioridade do juízo do espectador em relação ao juízo do ator: Enquanto o ator, na condição de envolvido, não pode buscar significação numa perspectiva mais ampla, o espectador, por não possuir nenhuma intencionalidade específica relativa ao agir, apresenta condições que permitem emitir um juízo imparcial, uma vez que a sua posição é denotada pela exterioridade face ao evento.

Acerca desse ponto, Celso Lafer lembra essa concepção de Arendt de que os espectadores, mesmo dotados de algumas características próprias do ator, “não se retiram do mundo das aparências como o filósofo no pensar, mas, ao contrário, constituem, pela sua pluralidade e pelo seu inter-relacionamento, o mundo das aparências.” (LAFER, 2003, p.102). Essa perspectiva atestada por Arendt sobre o pensar kantiano, como ressalva Lafer, revela um compromisso implícito do homem para com a preservação da pluralidade humana e um peso de cunho político. É o próprio Kant quem, antes de Arendt, atentou-se para a necessidade de alargar-se o espectro do debate público como fundamento do exercício das faculdades espirituais do homem.