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A primeira menção à posição do governo imperial frente ao conflito nos Estados Unidos da América aparece na Câmara dos Deputados apenas na sessão de 26 de julho de 1861, ou seja, três meses após a deflagração da Guerra, quando o deputado baiano João José de Oliveira Junqueira226 solicita à Mesa esclarecimentos sobre tal posicionamento. Ao fazer a sua interpelação, Junqueira tem três preocupações principais: se o governo brasileiro reconhecia aos Estados Confederados o direito beligerante; se, ao reconhecer esse direito, seria permitido nos portos do Brasil o armamento dos corsários com bandeira de qualquer dos beligerantes e a venda de presas; e se a política do governo seria de estrita neutralidade. Vale mencionar que, naquele momento, a neutralidade ainda não era oficial, e foi apenas em 3 de agosto daquele mesmo ano que a Câmara teve a oportunidade de discutir o assunto.

A Guerra Civil norte-americana tem como marco inicial o dia 12 de abril de 1861, quando as forças confederadas atacam o Forte Sumter em Charleston, no estado da Carolina do Sul. Um mês após a declaração de guerra, em maio de 1861, a Grã-Bretanha se posicionou como neutra em relação ao conflito, mas concedeu aos dois lados em disputa o caráter de beligerantes. França, Holanda, Espanha, Portugal, Bélgica e o Havaí declararam neutralidade apenas em agosto daquele ano, e o Brasil acompanhou esse posicionamento, enviando a todos os presidentes de província, por meio do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), uma circular contendo as diretrizes da neutralidade imperial.

No Relatório da Repartição dos Negócios Estrangeiros de 1861, apresentado à Assembleia Geral Legislativa, o ministro Benvenuto Augusto de Magalhães Taques reconhecia que à separação dos Estados do Sul seguia-se a constituição de um “governo independente do federal” e a guerra, e advertia sobre o bloqueio dos portos dos estados confederados. Não havia, contudo, nesta circular, nenhuma grande reflexão acerca da neutralidade ou sobre como o governo Imperial enxergava o conflito. Em realidade, no documento, o único posicionamento do ministro Taques é o de que o Brasil não poderia se colocar em posição de juiz do conflito:

99 Não eramos juizes das causas que rompêrão os laços que união os Estados Norte-Americanos. Meros espectadores desse grave acontecimento, só nos competia considera-lo sob o aspecto das relações internacionais.

Um dos primeiros cuidados do governo imperial foi recomendar aos agentes consulares do Brasil, estabelecidos nos Estados dissidentes, que não praticassem ato algum no exercício de suas funções que contrariasse aquela política.

Era de prever que a guerra se estendesse pelo mar, e aos nossos portos se recolhessem navios armados: convinha também providenciar sobre o procedimento que deviam, neste caso, ter as autoridades do império. Graves complicações poderiam sobrevir nas relações do Brasil com os referidos Estados, se não fossem prevenidas por instruções acertadas que definissem claramente os princípios que deviam ser observados na neutralidade que se havia prescrito o governo imperial em relação aos beligerantes227.

Assim, o governo imperial brasileiro se absteve de dar explicações mais amplas sobre a neutralidade, em um momento em que o conflito contava com vitórias e derrotas de ambos os lados, e não havia como definir se Norte ou Sul sairia definitivamente vencedor. A neutralidade foi o caminho tomado pelas maiores potências europeias, inclusive por aquelas que se viam mais prejudicadas pela crise que estava por vir na produção do algodão norte-americano. Ao assumir a mesma postura que os governos da Inglaterra e da França, o Imperador também se posicionava de forma independente e soberana no continente, sendo a única nação americana a se declarar neutra e se alinhar às grandes nações do mundo.

Para o Brasil, manter-se neutro garantia não apenas a segurança do país no âmbito da guerra marítima, mas também a possibilidade de negociação comercial posterior à batalha. A grande preocupação do governo, de acordo com a circular em análise, era justamente garantir segurança e neutralidade principalmente nas províncias costeiras que poderiam ser, e foram, envolvidas em episódios diplomáticos relacionados ao suporte, ao abastecimento e ao apoio aos navios dos estados beligerantes.

Vale destacar que o reconhecimento de beligerância dos Estados do Sul (CSA) não implicava em entendê-los como iguais ao governo da União, inclusive em matéria de direito marítimo internacional: às embarcações de guerra do governo Federal dos Estados Unidos era orientado que “se prestassem todos os favores e atenções que dependessem

227 BRASIL. Relatório da Repartição dos Negócios Estrangeiros apresentado à Assemblea Geral

Legislativa na segunda Sessão da Decima Primeira Legislatura pelo respectivo Ministro e Secretário de Estado Conseheiro Benvenuto Augusto de Magalhães Taques. Rio de Janeiro: Typographya

100 do governo e das autoridades nacionais, salvo o fornecimento de artigos e munições de guerra”228. Além disso, o ministério habilitou os presidentes de províncias “a resolver as questões que sobreviesses de acordo com estas regras, que são as que prescreve o direito das gentes”229.

Vale reafirmar que, apesar de conceder o estado de beligerância aos Estados Confederados, o Brasil assumiu a postura de estrita neutralidade, agindo conforme os tratados internacionais, como se pode aferir da circular do Ministério dos Negócios Estrangeiros, reproduzida integralmente no presente trabalho:

CIRCULAR N. 1. Circular aos Presidentes de províncias.

Rio de Janeiro – Ministério dos negócios estrangeiros, 1 de agosto de 1861.

Illm. E Exm. Sr. – A luta que rompeu entre o governo federal dos Estados-Unidos Norte-Americanos, e alguns desses Estados que declararam constituir-se em confederação separada, pode trazer ao nosso país questões, para cuja solução, revela que V. Ex. esteja prevenido, e por este motivo recebi ordem de Sua Majestade o Imperador para declarar a V. Ex. que o governo imperial julga dever manter-se na mais estrita neutralidade durante a guerra, em que infelizmente se acham aqueles Estados, e para que esta neutralidade seja guardada, cumpre que se observem as determinações seguintes: Os Estados Confederados não têm existência reconhecida, mas havendo constituído de fato um governo distinto, não pode o governo imperial considerar como atos de pirataria os seus armamentos navais, nem recusar-lhes, com as necessárias restrições, o caráter de beligerantes que assumirão.

Os súditos brasileiros devem nesta conformidade abster-se de toda a participação e auxilio em favor de um dos beligerantes, e não poderão tomar parte em quaisquer atos, que possam ser considerados como hostis a uma das duas partes, e contrários aos deveres da neutralidade. A exportação de artigos bélicos dos portos do Império para os novos Estados Confederados fica absolutamente proibida, ou se pretenda fazê- la debaixo da bandeira brasileira, ou da de outra nação.

O mesmo comércio de contrabando de guerra deve ser vedado aos navios brasileiros, ainda que se destinem aos portos sujeitos ao governo da União Norte-Americana.

Nenhum navio com bandeira de um dos beligerantes, e que esteja empregado nesta guerra ou á ela se destine, poderá ser aprovisionado, esquipado ou armado nos portos do Império, não se compreendendo nesta proibição o fornecimento de vitualhas e provisões navais indispensáveis á continuação da viagem.

Não será permitido a navio algum de guerra ou corsário entrar e permanecer com presas nos nossos portos ou bahias mais de 24 horas,

228 BRASIL. Relatorio da Repartição dos Negocios Estrangeiros (...), p. 11. 229 Idem, Ibidem., p. 11.

101 salvo o caso de arribada forçada, e por nenhum modo lhes será permitido dispor das mesmas presas ou objetos delas provenientes. Na execução destas medidas, e na solução das questões que ocorrem, V. Ex. se guiará pelos princípios de direito internacional, tendo em consideração as instruções expedidas por este ministério em 18 de maio de 1854, guardado o pensamento da circular de 30 de julho de 1859, com relação aos Estados-Unidos em luta com os Estados Confederados, e comunicará ao governo imperial quaisquer dificuldades ou ocorrências extraordinárias que exijam novas instruções.

Reitero a V. Ex. as expressões de minha estima e distinta consideração. Benvenuto Augusto de Magalhães Taques230.

Apesar da adoção da neutralidade, em pouco tempo o Brasil já se viu envolvido em um incidente diplomático relacionado às embarcações que chegavam nos portos nacionais. O episódio do navio Sumter231, bem como, em 1863, o do navio Alabama232,

provocou um clima nada ameno entre o governo brasileiro e o representante de Washington no Brasil, J. W. Webb. Diante destes conflitos diplomáticos, em 1863 o governo imperial emitiu uma nova circular direcionada aos presidentes de província, que ressaltava a importância de estes se atentarem às orientações relativas à neutralidade brasileira frente ao conflito ao norte do continente.

No relatório do Ministério de Negócios Estrangeiros de 1863, o Ministro afirma que, diante dos problemas concernentes ao questionamento da neutralidade brasileira, o governo imperial reafirmava seu posicionamento, ao mesmo tempo em que assegurava ter “sentimentos de especial consideração, devidos exclusivamente ao governo federal dos Estados Unidos como único governo reconhecido e legitimo”233.

Apesar disso, as relações amigáveis entre os dois países foram exaltadas em diversas correspondências diplomáticas, tanto por parte do governo brasileiro, quanto pelo governo da União (governo Federal). Mesmo quando o General Webb e o MNE

230 BRASIL. Relatorio da Repartição dos Negocios Estrangeiros (...).

231 Por ter ocorrido após o encerramento das atividades legislativas de 1861, os parlamentares brasileiros

debatem o ocorrido apenas nos Anais de 1862. Retornaremos, portanto, a este ponto.

232 De acordo com circular do MNE em 1863, ressaltando as condições de asilo e abastecimento dos navios

beligerantes, o vapor Alabama foi proibido de ser recebido em qualquer porto do Império por ter violado manifestamente a neutralidade brasileira, infringindo as disposições da circular de 1861. De acordo com o governo imperial, este navio tornou a ilha Rasa base de suas operações, conduziu presas e saiu a fazer outras, bem como mandou queimar presas.

233 BRASIL. Relatorio da Repartição dos Negocios Estrangeiros apresentado à Assemblea Geral

Legislativa na segunda Sessão da Decima Primeira Legislatura pelo respectivo Minsitro e Secretário de Estado Marquez de Abrantes, 1863, p. 2. Disponível para consulta em: http://www-

102 trocaram duras notas, o governo de Washington parece ter feito questão de amenizar os sentimentos do seu enviado ao Brasil, no intuito de não interromper as relações diplomáticas e comerciais entre os dois países. Webb chega a se queixar ao Secretário de Estado dos EUA, William Seward, por exemplo, sobre a demora do MNE em responder à sua nota, afirmando ser uma afronta do governo brasileiro. Seward, por sua vez, tenta apaziguar a situação, afirmando que não se devia exagerar a demora do Ministério em respondê-lo, uma vez que as razões para a amizade e o bom entendimento entre os dois países eram óbvias, e que o Imperador dava provas francas desta convicção234.

Em setembro de 1861 um episódio muito interessante teria ocorrido em Washington, e é narrado por Marcelo Raffaelli através da análise das correspondências diplomáticas. O Imperador D. Pedro II teria sido sondado para atuar como mediador do conflito nos Estados Unidos. As condições em que essa ideia aparece são curiosas, pois demonstram o papel que exercia o Brasil no contexto norte-americano e a recusa em aceitar a interferência europeia em uma situação tão importante para o continente. O convite teria sido feito indiretamente em Washington, onde se encontraram o Príncipe de Joinville, cunhado de D. Pedro II, o representante brasileiro Miguel Maria Lisboa e o secretário de Estado da União, William Seward. Esse último teria se dirigido ao Príncipe e agradecido a proposta da França de mediar o conflito entre Norte e Sul. No entanto, como um país republicano e americano, não seria aceitável a intervenção europeia no conflito. E teria complementado: “se o Imperador do Brasil oferecesse mediar para restabelecer a União, teríamos muito prazer em aceitar a sua mediação”235.

Miguel Maria Lisboa repassou ao Ministério essas informações, afirmando que seria um trabalho honroso para o país terminar a luta que abalava o mundo inteiro. O governo imperial, no entanto, recusou o convite, afirmando não ter as condições para animar o desenvolvimento de tão generosa ideia, já que não havia ainda “pesado as consequências de uma mediação por sua parte naquele intuito, nem considerado os meios por que ela poderia ser levada a efeito com bom êxito”236.

Voltando à análise dos Anais da Câmara dos Deputados, nota-se que somente após a declaração de neutralidade do Brasil, em agosto de 1861, os posicionamentos em relação ao conflito foram debatidos. Só então, na sessão do dia 03 daquele mês, o já

234RAFFAELLI, Marcelo. A Monarquia & a República (...), p. 105. 235 Idem, Ibidem., pp.107-108.

236 Despacho Conf., Seção Central, 7/11/1861. AHI235/03/01. Apud. RAFFAELLI, Marcelo. A

103 referido primeiro pedido de esclarecimento sobre a postura do Império frente ao conflito, feito em julho de 1861 pelo deputado João José de Oliveira Junqueira237, foi respondido. O parlamentar pronuncia uma extensa fala sobre o conflito nos Estados Unidos, criticando a Câmara por não se dedicar mais aos assuntos de importância internacional, como o fazia o parlamento inglês, por exemplo.

Lamentando a Guerra e preocupado com as bases da neutralidade brasileira, Junqueira tece importantes comentários:

No momento, Sr. Presidente, em que uma deplorável cisão se estabelece entre os Estados da União-Americana, no momento em que a grande obra da unidade da poderosa república sofre golpes tão profundos, surgem para todos os povos civilizados importantes questões que cumpre resolver com prontidão. A Câmara sabe que logo após a eleição do presidente Lincoln, um grande movimento separatista se operou nos Estados do Sul em virtude de divergências na questão da escravidão. Este movimento tem ido por diante, e hoje existe de fato uma confederação dos Estados do Sul com o seu presidente, e a sua capital, em Montogomery.

Não é meu proposito emitir agora aqui juízo algum de valor acerca da justiça dessa separação: é meu dever apenas lamentar que os Estados- Unidos da América do Norte, tendo nascido sob os gloriosos auspícios das simpatias do mundo, tendo vivido uma vida de honroso trabalho e portentosa indústria, tendo coberto os mares com as brilhantes estrelas do seu pavilhão, tendo abrigado essas imensas populações emigrantes, que procuravam um país que lhes garantisse a liberdade e conforto, senão a riqueza, deem hoje esse espetáculo contristador238.

Desta fala é possível apreender algumas questões fundamentais que terão seguimento no debate na Câmara. Primeiramente, ressalta-se como na fala do parlamentar os Estados Unidos são descritos como um baluarte da república e da liberdade, “nascido sob as simpatias do mundo”. O deputado caracteriza a Guerra como um “grande movimento separatista”, mas não usa os termos “guerra civil” ou “secessão”. Apesar disso, Junqueira aponta que as causas do conflito estariam atreladas à escravidão, questão que será fundamental para a situação do Brasil quando, em meio à Guerra, o presidente Abraham Lincoln declara a emancipação dos escravos em territórios confederados, a famosa Emancipation Proclamation.

237 João José de Oliveira Junqueira, deputado do Brasil pela província da Bahia, magistrado. Foi também

ministro da guerra, presidente de Província e senador.

104 Também é fundamental a maneira como Junqueira, lamentando ainda o estado de guerra nos EUA, atrela o secessionismo norte-americano a um contexto mais amplo, afirmando que, infelizmente, ao contrário da Europa, onde, “essas questões de rivalidades e autonomias tendem a desaparecer, quando a Itália vê raiar seu belo dia de renascimento, apareçam lutas fratricidas deste lado do Atlântico”239.

Essa fala vai além, e é particularmente instigante na medida em que o parlamentar pela província da Bahia demonstra compreender os acontecimentos a partir de uma perspectiva em que a formação de Estados nacionais unificados e centralizados seria algo a ser atingido, algo desejável. Essa ideia está em consonância com a análise feita pelo historiador norte-americano David M. Potter sobre o papel fundamental da Guerra de Secessão na consolidação, no século XIX, de um nacionalismo atrelado ao liberalismo. Potter argumenta que o triunfo do nacionalismo, ao final do século XIX e início do XX, obscureceu o fato de que, no período da Guerra Civil, estas duas tendências pareciam fadadas ao fracasso, especialmente na Europa, após as incursões liberais e nacionalistas de 1830 e 1848, fortemente reprimidas pelos poderios dos impérios e da Igreja Católica. Neste sentido, o conflito norte-americano, mais do que qualquer outro evento na Europa, teria conseguido fundir as duas maiores forças do século em um modelo de nação para o restante do mundo240.

Outro autor que menciona a importância da emergência de um novo tipo de nacionalismo foi Thomas Bender. O historiador afirma que nesse período circulava no mundo atlântico uma nova noção de nacionalismo, que compreendia os Estados nacionais a partir de uma ideia de homogeneidade. Nessa visão de nação, não haveria, portanto, lugar para uma confederação dividida, porém equilibrada, mas apenas para uma nação unificada: ou completamente livre, ou completamente escravista241. No mesmo caminho, Enrico Dal Lago ressalta o fato de que a Guerra de Secessão deva ser compreendida dentro de um contexto especifico, entre 1848 e 1870, período no qual teria se desdobrado uma clássica era de construção nacional na Europa, com o surgimento de diversos movimentos nacionalistas através do continente242. Trata-se da ideia anteriormente mencionada, de que este nacionalismo liberal do século XIX foi acima de tudo

239 ACD, Sessão de 03/08/1861, TOMO 4, 1861, p. 49

240 POTTER, David M. The South and the sectional conflict (…), p. 290 241 BENDER, Thomas. A nation among nations (…), p. 118.

242 LAGO, Enrico Dal. The American Civil War, Emancipation, and Nation-Building: a comparative

perspective. In: TOMICH, Dale (org.). The politics of the second slavery. Albany: State University of New York Press, 2016, p. 229.

105 internacional, em escopo e propósitos, e as suas ideias fluíam, alimentando movimentos e revoluções através do Atlântico e pela Europa243.

Portanto, a menção à Itália como um exemplo neste universo de formação dos Estados nacionais era clara para os deputados brasileiros, e havia sido tema de discussão na Câmara em junho de 1861, refletindo posicionamentos bastante diversos quanto ao caráter positivo dos acontecimentos na península. Ao se referirem ao país em processo de unificação, os parlamentares também transpareceram parte do que entendiam como unidade nacional e o “direito de revolução”244. O liberal mineiro Teófilo Ottoni, por exemplo, usou o exemplo italiano para tecer elogios aos sistemas representativos europeus. A Itália, particularmente, ao incorporar as ideias liberais, estaria levando progresso à península e a sua “a gloriosa unificação” é retratada como um feito que deveria ser reconhecido pelo governo brasileiro.

Na mesma linha está a fala do deputado Felix Xavier da Cunha, que saiu em defesa do movimento de unificação italiano afirmando que as influências sobre o Brasil não eram e nem poderiam ser ruins, pois se tratava de um povo heroico:

(...) e que ressurge regenerando das cinzas da opressão. Na Europa são os soberanos que estão à testa do movimento (...) Todos os homens amantes das instituições livres, das ideias generosas e humanitárias, todos os homens que confiam nos destinos da liberdade, que tem as suas vistas voltadas para o lado da Itália (...).245

Respondendo aos comentários positivos de Ottoni, o deputado Joaquim Pinto de Campos246 afirma que, na realidade, o reino italiano se formava “sob furacões”. Já o parlamentar Zacarias de Góis tece observação mais dura, alegando que a nação italiana se forjava sob tronos legítimos despedaçados, mas que, “conforme acha-se escrito em livros que não mentem, não há de jamais prevalecer contra a barca de S. Pedro, e aquele liberalismo ameaça-a” 247.

243 DOYLE, Don H. Nations divided (…), p.22

244 Entre julho e setembro de 1861 muitas falas foram realizadas em torno de temas como o alcance do

Poder Moderador, a intervenção do Estado nas eleições, o direito de revolução, soberania do povo. As falas foram muitas vezes descoladas dos temas principais das sessões, e repreendidas pelos próprios deputados ou mesmo pelo presidente da sessão, afirmando que não se tratava do momento de fazer tais discussões.