2.2. Đlköğretime Öğretmen Yetiştirme Tarihine Kısa Bir Bakış
2.2.4. Eğitim Fakülteleri
2.2.4.1. Eğitim Fakültelerinde 1982-1997 Arasındaki Gelişmeler
Figura 33 - Programa Serra – 10 de outubro de 2010 – Tempo: 10’16” – 10’59”
Mulher: “Dilma, cá entre nós, de mulher pra mulher: que papelão cê (sic) fez no primeiro turno, hein? Todo mundo viu, qualquer coisinha ocê (sic) corria chamar o Lula. Dilma, faz tanto tempo que nós, mulheres, já somos independentes, temos a nossa própria opinião, andamos com as nossas próprias pernas. É, mas eu tô vendo que cê (sic) chamou o Lula de novo. E pra quê? Pra olhar 16 anos pra trás e por defeito no governo Fernando Henrique. Cá entre nós, Dilma, se o seu governo arrumou alguma coisa, não fez mais que a obrigação, certo? E se, em oito anos, não arrumou, pega muito mal cê (sic) vir por defeito agora, concorda? Bem, Dilma, pensa nisso... e fica com Deus, tá?
O elemento imagético do enunciado deixa ver uma mulher sentada em um sofá dentro de um ambiente cenográfico que se assemelha a uma sala de estar. Trata-se de alguém que se endereça à candidata Dilma Roussef a partir de um lugar de conforto e de intimidade: o próprio lar. Essa associação de intimidade coloca a mulher – anônima – que se dirige à candidata como ocupante de um lugar intercambiável, passível de ser ocupado por qualquer mulher ou qualquer eleitora que se dirija à candidata a partir de seu próprio lugar de conforto: o sofá localizado em frente à televisão. Igualmente, a posição do corpo da mulher projeta-a a uma conversa com a televisão, como se ela se
dirigisse ao aparelho televisivo para falar com Dilma. Corporalidade generalizada, sem
nome, mas com identidade: quem fala é a mulher brasileira eleitora.
O caráter íntimo da conversa é verbalizado por dois elementos: o primeiro, o vocativo Dilma, valendo-se do primeiro nome da candidata123; o segundo, a expressão
“de mulher pra mulher”, que retoma o slogan da rede de lojas Marisa, conhecida por ser especializada em roupas, acessórios e roupas íntimas unicamente femininas e que, levando o nome de uma mulher, vende a imagem de alguém que entende intimamente o universo feminino. Além de intimidade, esse mesmo slogan caracteriza que se trata de uma conversa feminina: só outra mulher estaria autorizada/legitimada a entabular uma conversa íntima com a candidata Dilma – portanto, o candidato José Serra estaria excluído da cena e do assunto da conversa.
O assunto da conversa recupera paradigmas de leitura que, a partir de 2009 – ano em que o nome de Dilma Roussef é oficializado como candidata da campanha para as eleições de 2010 –, emergem do apoio do então presidente Lula à candidata da mesma coligação, como Dilma será amparada por Lula no governo; Dilma não vai
governar, quem governará será Lula; Dilma é a chave para o terceiro mandato de Lula; etc. Tais paradigmas de leitura reforçam a imagem da fragilidade da mulher que
deve ser amparada pela virilidade masculina contrastada com a imagem que a própria candidata apresenta: a de uma mulher forte, com capacidade para liderar o país. É como se, por trás da mulher forte que se apresenta em campanha, escondesse-se uma mulher frágil, que é submissa a uma figura masculina.
É a partir deste paradigma de leitura que se constrói a indignação com a qual a mulher se dirige à candidata e profere seu julgamento: “que papelão...”, “...qualquer coisinha ocê (sic) corria chamar o Lula.”
123 Cf. GARCIA, 2010.
O julgamento indignado se fortalece porque está associado ao imaginário social que envolve o discurso sobre a identidade feminina moderna: o de que as mulheres não
são mais o sexo frágil, são independentes e podem competir com os homens com
igualdade de direitos. Porém, a expressão “...qualquer coisinha ocê (sic) corria chamar o Lula.” opacifica os complementos da oração: o substantivo coisinha não explicita o(s) motivo(s) políticos que originam o(s) pedido(s) de ajuda ao presidente e provoca o um deslocamento do âmbito discursivo em que se instaura os efeitos de sentido ligados à indignação. Não se trata mais do âmbito político, mas sim, do âmbito doméstico e/ou pessoal. Nesse sentido do estabelecimento de uma conversa íntima, o sujeito a quem se endereça a conversa – a candidata Dilma Roussef – é destituído de sua posição de sujeito político e instituído em uma posição inferiorizada, excluída até da identidade representativa do grupo feminino/feminista, já que a submissão à figura masculina instaura um paradigma de leitura incompatível com a identidade moderna da mulher ocidental/brasileira. Isso desqualifica o indivíduo político enquanto sujeito capaz de governar o país, o que coloca em circulação efeitos calcados em outro paradigma de leitura da época, que promovia sentidos ligados à falta de experiência de liderança de governo da candidata: ela nunca liderou nenhum governo, ela não conseguirá liderar o
país sem Lula no comando.
Os efeitos de sentido de âmbito pessoal são reiterados, ainda, com a expressão “E pra quê? Pra olhar 16 anos pra trás e por defeito no governo Fernando Henrique”, endereçada como crítica indignada da personagem à candidata. O comportamento político habitual das campanhas políticas de criticar o adversário em sua atuação enquanto líder governamental é construído como conduta reprovável (mantém-se o julgamento do papelão) de uma mulher moderna, mas que ainda não conquistou sua independência pessoal frente ao grupo masculino. A expressão por
defeito no fio do discurso é utilizada de maneira informal, pessoal, quando seria
substituível pelo verbo criticar, vocábulo talvez mais utilizado em uma discussão de âmbito político, mantém a construção da indignação no campo doméstico/pessoal, afastada do âmbito político. Assim, os efeitos de sentido ligados à indignação também desqualificam o indivíduo no âmbito político e no âmbito pessoal, porque além de retirarem-no de seu lugar enquanto candidato e colocarem-no em um lugar inferiorizado, também o desqualificam neste lugar em que o colocam.
No fim da intervenção oral da mulher que se endereça à candidata, um cumprimento na expressão “... e fica com Deus, tá?” deixa entrever um novo
julgamento e uma demonstração de ironia: a expressão do cumprimento faz emergir um paradigma de leitura que veio sendo construído desde 2007 sobre a posição da candidata Dilma em relação à questão da crença em Deus.
"Eu me equilibro nessa questão. Será que há? Será que não há? Eu me
equilibro nela". DILMA ROUSSEFF
ministra da Casa Civil, sobre acreditar ou não em Deus, durante sabatina na Folha em 4.out.07 (FOLHA DE S. PAULO, 14 de
novembro de 2008. Disponível em
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1411200818.htm , acesso em 26 jun 2013).
O julgamento se dá por conta da emergência do paradigma de leitura da
descrença em Deus, compreendido como falta de um valor moral requerido
socialmente. Afirmando sua crença, ao proferir o verbo, a mulher reforça a imperfeição
moral do sujeito e ironiza a questão ao mudar sua expressão facial e deixar visível um
semblante que insinua um sorriso, fazer uma pausa antes da expressão e encerrar sua fala com um “tá?” em tom interrogativo.
Todos os elementos ajudam a construir um discurso que se atém ao universo feminino e que seria, a partir da corporeidade da mulher, representativo de toda a sociedade feminina, indignada com a imagem de um indivíduo que deveria dar corpo ao paradigma de leitura ao redor da figura da mulher moderna brasileira, mas não o faz. A mulher política desaparece da cena.
O que se pode observar com relação ao funcionamento do tema da indignação no discurso político eleitoral televisivo brasileiro é que ele assume várias facetas, com várias estratégias para suscitar tal sentimento. O fio condutor que parece perpassar todas as ocorrências analisadas parece ser um paradigma de leitura que poderia ser sintetizado pela expressão “a verdade causa indignação”. Esse paradigma de leitura estaria construído sob um imaginário social que estabelece canais de indignação compactuados pelos telespectadores-cidadãos-eleitores: a situação do país vai mal – e isso causa indignação; o indivíduo político esconde seu passado corrupto – e isso causa indignação; o indivíduo político não compete de modo justo na campanha – e isso causa indignação. Assim, o tema da indignação pode ser suscitado a partir de várias outras emoções suscitadas pelo enunciado televisivo, funcionando por superposições e
justaposições, encadeamentos e mudanças que dão força aos efeitos de verdade da mensagem política, facilitada pelo formato e pela configuração da narrativa televisiva, que permite o jogo do dizer/mostrar a verdade que se dá em efeito.