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Para uma entidade que tem interesse em se tornar organização social e gerenciar um hospital é necessário cumprir com os requisitos da lei. Confira como foi o procedimento descrito por uma OSS:

Em 2008 o superintendente da Unidade Pe. Niversindo Antonio Cherubim, investiu enviando ofício para a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo para a Cruzada Bandeirante São Camilo ser reconhecida como Organização Social para receber, em gestão, Unidades de Saúde. Podendo, então prestar atendimento assistencial gratuito à comunidade carente, sendo com o orçamento da SES – SP. A Secretaria Estadual de Saúde (SES) respondeu ao ofício que para ser reconhecida como Organização Social, a Unidade deveria reformar seu Estatuto Social e introduzir a formação de um Conselho de Administração formado por 10 membros, sendo 5 do seu quadro de sócios, 4 da comunidade com ilibado desempenho ético e profissional e 1 representando os trabalhadores. O Conselho seria deliberativo e teria autoridade para reformar o Regulamento da Unidade, bem como aprovar o Orçamento-Programa e o Balanço Econômico. Após reformar o

Regulamento Social e formar o Conselho os membros da Cruzada Bandeirante estavam preparados para receber as Unidades de Assistência a Saúde (CRUZADA BANDEIRANTE SÃO CAMILO, 201279).

Este relato legitima as informações dispostas na lei e também pela SES sobre a necessidade de qualificação como Organização Social e os trâmites para fazê-lo, inclusive revisão de estatuto e reestruturação (ou criação) do Conselho Administrativo.

Nasce do gabinete do secretário de saúde a resolução e indicação de publicação no Diário Oficial da Convocação Pública80, momento em que informa a disponibilidade de uma unidade de saúde a ser gerida por uma entidade que já seja qualificada como organização social e convida as interessadas a manifestarem-se. Observe a parte inicial do documento modelo81:

O Secretário da Saúde, em cumprimento ao disposto na Lei Complementar nº 846, de 04.06.1998, em especial o § 3º do mencionado Diploma Legal, resolve:

Artigo 1º - Realizar a presente Convocação Pública das entidades privadas sem fins lucrativos, que já possuam qualificação como Organização Social de Saúde, nos termos da Lei Complementar nº 846, de 4 de junho de 1998, para que, na hipótese de comprovado interesse em celebrar Contrato de Gestão com a Secretaria de Estado da Saúde para Gerenciar o HOSPITAL DA CESP - Porto Primavera, manifestem, por escrito, seu intento junto ao Titular da Pasta, no prazo máximo de 05 (cinco) dias a contar da publicação desta Resolução (DIÁRIO OFICIAL ESTADO DE SÃO PAULO, Nº 170 – DOE de 07/09/07 –p.22).

Assinalada a intenção da OSS em gerenciar o hospital, ela tem o prazo de cinco dias úteis para apresentar um ‗plano operacional‘ em que conste: a) Discriminação dos serviços de assistência à saúde a serem oferecidos à população; b) Cronograma de implantação dos referidos serviços; c) Sistemática econômico-financeira da gestão. Ainda na convocação, apresenta-se um modelo do contrato de gestão para fornecer subsídios às interessadas.

Sob tais aspectos, segue o processo de seleção. Este é crucial, pois a ‗escolhida‘ será a responsável, nos próximos cinco anos, pela gestão do hospital determinado. Por tal motivo, entende-se necessária a publicação como exemplo da decisão do secretário de saúde, que também é feito pelo Diário Oficial:

Processo: 001/0500/000191/2008 –

79 Correspondência recebida por email em 18 jun. 2012, em Anexo B como ―Hospital Geral de Carapicuíba‖. 80 Confira no Anexo C um modelo da Convocação Pública.

81 Esta publicação também está disponível no site da SES. Para conferir: http://www.saude.sp.gov.br/resources/ses/legislacao/2007/setembro/informe-eletronico-de-legislacao-em-saude- n-170-10.09.07/legislacaoestadual/resolucaossn296de06.09.07.pdf Acesso em: 05 abr. 2013.

Interessado: Coord. de Gestão de Contratos de Serviços de Saúde Assunto: Contrato de Gestão Hosp. Reg. de São José do Rio Preto

Ciente de todo o protocolado, acolho a análise e o parecer emitido pela Coordenadoria de Gestão de Contratos de Serviços de Saúde referente à proposta para gerenciamento do Hospital Estadual de São José do Rio Preto, nos termos da Convocação Pública realizada através da Resolução SS - 183, de 04 de dezembro de 2008.

Considerando terem sido atendidos os requisitos legais que regem a matéria e a manifestação da Coordenadoria de Gestão de Contratos de Serviços de Saúde;

Considerando que apenas a OSS Associação Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus se manifestou como interessada e apresentou Plano Operacional consistente para a gestão do hospital objeto da convocação supramencionada, em tempo hábil e na formatação requerida.

Por tudo isso, declaro que a OSS Associação Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus será a gestora do Hospital Estadual de São José do Rio Preto, mediante Contrato de Gestão a ser firmado com esta Secretaria de Estado da Saúde, desenvolvendo as seguintes atividades: Atendimento Médico Ambulatorial, Serviço de Apoio Diagnóstico - SADT, Serviço Social, Nutrição, Psicologia, Enfermagem e Pequenas Cirurgias (DIARIO OFICIAL ESTADO DE SÃO PAULO, Nº 239 – DOE de 18/12/08 –p. 42).

Dois aspectos são merecedores de atenção. Inicialmente, a decisão unilateral de escolha pelo Secretário de Saúde por determinada OSS. Todavia é possível constatar que há um parecer emitido pela Coordenadoria de Gestão de Contratos de Serviços de Saúde - CGCSS que pode - ou não - influenciar a escolha da OSS. Esta mesma coordenadoria responde pelas avaliações dos contratos (ao qual deve ser submetido mensalmente relatório de prestação de contas), pelos regulamentos de compra de materiais hospitalares (publicados em portarias), normas gerais para contratação de obras e serviços, entre outros (coordenar as atividades relacionadas à contratação de serviços de saúde). Assim, a coordenadoria torna-se o responsável pelas ações das OSS, por consequência, tem conhecimento das ocorrências da OSS e seus respectivos hospitais mantidos. Sobre a coordenadoria, será melhor abordada posteriormente.

O secretário, ao deliberar por uma OSS, sabe que arcará com as decorrências dela. Ao mesmo tempo, a obtenção de elementos que dê subsídios para sua escolha não se torna de alto custo, observada que a sua origem é dentro da própria secretaria. Abre-se também questionamento sobre o papel da coordenadoria nas decisões do secretário, o qual será abordado em seguida.

O outro aspecto para o qual se chama a atenção é a manifestação de apenas uma OSS pelo pleito do hospital. Poderia passar despercebido, mas despertou a atenção

quando, em evento no ABC Paulista envolvendo as OSS82, um dos integrantes do painel - representante de OSS - afirmou que as reuniões entre as organizações sociais eram muito importantes, pois definiam objetivos e estratégias em conjunto que seriam utilizados para alcançá-los junto à secretaria. A ressalva já fora observada anteriormente por Carneiro Junior (2002, p. 219), ao indicar que ―as OSS eram levadas a se organizarem para negociar assuntos de seus interesses, assemelhando-se aos prestadores privados do SUS‖. Portanto, é plausível que entre elas ocorra um consenso do espaço ocupado por cada entidade. Faz-se necessário relembrar que, além dos hospitais, as OSS também gerenciam ambulatórios e outras unidades de saúde, inclusive Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde. Para encerrar esta parte, dispõe-se a narrativa das OSS sobre o processo de escolha, em sua concepção:

A primeira Unidade que a SES ofereceu foi o Hospital Geral de Carapicuíba, na região da grande São Paulo, assumido pela Cruzada Bandeirante São Camilo - OSS em primeiro de janeiro, de dois mil e nove. Construído há dez anos. O hospital estava bastante sucateado devido à falta de investimentos da antiga gestão em infraestrutura, tecnologia e equipamentos. Tinha capacidade para 245 leitos e um quadro de 1.167 profissionais (assistencial, apoio e administrativo) e 230 profissionais médicos. O interesse maior da Cruzada Bandeirante São Camilo – OSS em assumir o hospital foi poder transformá-lo em hospital-escola para a faculdade de medicina e outras da área da saúde da União Social Camiliana poder formar profissionais competentes, éticos, humanos e qualificados (CRUZADA BANDEIRANTE SÃO CAMILO, 2012).

Para outro representante das entidades, ao ser questionado por que se qualificaram como OSS, afirmou: ―as entidades são assediadas para serem OSS. É interesse do governo que elas façam o gerenciamento dos hospitais‖ (REPRESENTANTE SECONCI, 2012). Esta afirmação é avigorada pelo Padre Cherubim (2011, p. 484): ―também em 2008, após numerosas investidas neste sentido por parte da Secretaria da Saúde do Estado de S. Paulo, preparei ofício a ser entregue a mesma‖. A aceitação da Cruzada Bandeirante para receber unidades de saúde ‗em gestão‘ tinha como prerrogativa a gratuidade dos atendimentos e o orçamento da secretaria.

A escolha da OSS não ocorre por interposição de licitação, procedimento comum da administração pública, como aferido pela pesquisa. Os pretextos que envolvem a ação são muito mais subjetivos do que públicos.

82 Evento intitulado 3º Ciclo de Palestras RD Ideias Saúde no ABC - desafios e oportunidades, ocorrido em 11 de maio de 2012 na Fundação do ABC, do qual a pesquisadora participou.

Benzer Belgeler