B. Eğitimin Parasal Maliyeti
VI. EĞİTİM HİZMETİNİN MALİYETİ
A história de Primo Levi no campo, sob o comando dos alemães, durante a Segunda Guerra Mundial, e após a libertação, sob o comando russo, foi pontilhada de angústias, tensões, momentos nostálgicos e de sofrimento. Tanto em Monowitz como em Bogucice, Levi ficou doente, porém tivera o apoio e a solidariedade de amigos, mostrando que, mesmo no abismo, não se podia perder a esperança.
Levi sempre viveu no centro de um vulcão em erupção, inicialmente por ser judeu, tanto que projetou, em sua mente, a rejeição, a inferioridade, a submissão. A criança e o adolescente introspectivo, reprimido e, de certo modo, infeliz sempre esteve em contato com fatos tristes, com dores que eram praticamente impossíveis de ser assimiladas ou guardadas de modo integral na memória: a perda do pai, a ascen- são do nazismo, a fuga sem sucesso, a prisão, a ida para o campo de Auschwitz, o sofrimento contínuo por um ano, as viagens intermináveis pelo solo polonês e russo, sem destino, sem amanhã. O menino tímido guardou imagens da infância: da avó, dos amigos, do contato com o laboratório de química clandestino. Posteriormente, já a- dulto, o laboratório químico e humano que Levi observou foi em Auschwitz: viu uma
galeria humana desfilar sobre os seus olhos, atravessando ruas e becos escuros (que revelavam as dúvidas e as incertezas das personagens, que se encontravam na encru- zilhada entre o bem e o mal, entre o certo e o errado), com entradas subterrâneas (que revelavam a alma do ser humano) e curvas perigosas (pessoas que faziam qualquer coisa para se manter vivo no campo, não se preocupando em matar ou humilhar o Outro).
No campo, não havia uma demarcação precisa entre o humano e o inuma- no. Porém, Levi tinha certeza de que, para sobreviver, precisava manter, pelo menos, alguns traços de humanidade. E, mantendo os traços de humanidade, poderia fazer uma espécie de raio X das pessoas com quem convivia. Como existiam figuras de todas as classes, algumas despertaram repulsas, pelas atitudes e pelos comportamen- tos; outras se revelaram pela generosidade e nobreza de sentimentos. No transcorrer da experiência no campo de concentração, Primo Levi se viu como homem no seu limite e avaliou as pessoas que fizeram parte da sua descida à morte, sendo estas re- pudiadas, elogiadas ou acarinhadas no momento da rememoração. O convívio com tanta adversidade possibilitou um aprendizado sobre a vida, que talvez Primo Levi nunca imaginasse ter.
A escrita só foi possível porque ele encontrou no campo, cercado de arame farpado e guardas com metralhadoras, rostos anônimos, que lhe ensinaram a crer (ou descrer totalmente) no homem. Sabe-se que o escritor tinha dificuldade de se relacio- nar com as pessoas, desde a infância, e o confinamento serviu, então, como uma es- pécie de laboratório (tão comum na sua profissão), na qual ele pôde pesquisar ou o- lhar no seu microscópio interior o ser humano. Numa situação extrema, a cada mo- mento, era solicitado um desvendamento completo, pondo, às claras, as qualidades e as lacunas de outro modo refreadas, revelando a essência do ser humano. As réstias de luz tornavam-se esperança; e, no ambiente onde o homem se reduzia a um bicho, fermentavam traços de humanidade.
Ferdinando Camon462, na entrevista concedida por Levi, perguntou-lhe so- bre a experiência no campo, se havia a possibilidade de considerar o aprendizado e as amizades feitas ao longo do cárcere como um lado positivo, mesmo que às avessas. O lado negativo era notório, que trouxe a dor e o trauma. Sua dúvida residia na questão do trauma, da convivência com ele e se havia chances dele ter sido amenizado pelas amizades humanas ou, posteriormente, ter regredido, após o contato familiar. A res- posta de Levi foi contundente, pontuada por uma ironia leve:
Auschwitz não foi somente negativo para mim, ensinou-me muito. Acima de tudo, antes de Auschwitz, eu era um homem sem mulheres, depois encontrei aquela que se tornou minha esposa. Eu tinha muita necessidade de ser ouvido, e ela me ouvia mais do que os outros. Por isso, no bem e no mal, estou ligado a ela pela vida. Antes eu era um complexado, não sei porque: talvez porque era judeu. Era menospre- zado, enquanto judeu, por meus companheiros de escola: não apa-
nhava, não era insultado, mas desprezado. Depois do retorno de Auschwitz, eu tinha uma necessidade enorme de falar, encontrava aqui os meus velhos amigos e os enchia de histó- rias; lembro-me que eles diziam: “Que estranho! você continuou o mesmo de antes”. Acredito ter sofrido um amadurecimento, tendo ti- do a sorte de sobreviver. Porque não se trata de força, mas de sorte: não se pode vencer com as próprias forças um campo de concentra- ção.
Este foi o aprendizado do cárcere: em meio às trevas, à decomposição e ao sufocamento da vida, brotava uma flor; e, parafraseando Carlos Drummond de An- drade, ela era feia, sem cor e suas pétalas, a princípio, não queriam abrir-se. Entretan- to, ela iludiu os SS, os kapos, os russos e rompeu o asfalto. “É feia. Mas furou o as- falto, o tédio, o nojo e o ódio” 463. A flor, que germinou em meio à barbárie, rompeu os arames farpados, a dor, expandiu-se no tempo e não deixou que a memória coleti- va se apagasse. As pétalas abriram-se e iluminaram novas perspectivas e, mesmo a-
462 CAMON, F. Conversazione con Primo Levi. Trad. Maria Franca Zucarello. Parma: Ugo Guanda Editore, 1997.
http://www.filologia.org.br/anais/anais_iicnlf57.html Acesso em 28 de setembro de 2008.
mareladas ou corroídas pelo “bicho-tempo”, guardavam a lembrança e a possibilidade de se reavaliar a História.
Primo Levi venceu o tempo, sobreviveu, mas o seu questionamento interi- or, como apontou Thomson 464 sempre o rodeou como uma sombra escura, nebulosa: por que eu e não outro? Levi sobreviveu, enquanto tantos outros morreram; a vida, para Levi, tornou-se uma vergonha, um peso e uma dor. Os nós do tapete chamado vida não puderem ser desfeitos, visto que a carga era muito pesada: ser sobrevivente era viver sentindo-se morto. As amizades foram importantes, assim como a volta ao lar, a tentativa de retomada da vida, da felicidade, sobretudo após o nascimento dos filhos. Levi amadureceu e tentou seguir o curso que a vida lhe indicava, deixando a correnteza do rio levar, sem saber aonde ela poderia chegar.
E, nesse curso da vida de Levi, pode-se incluir, nos questionamentos, frag- mentos de uma canção da banda Cidade Negra e o filme A Vida é bela, de Roberto Benigni. A música Girassol é bastante instigante e remete à esperança:
(...)
verdade prova que o tempo é o senhor dos dois destinos, dos dois destinos já que pra ser homem tem que ter
a grandeza de um menino, de um menino no coração de quem faz a guerra
nascerá uma flor amarela como um girassol
como um girassol
como um girassol amarelo, amarelo
A humanidade seria recuperada, no momento em que brotasse o amor e a paz no coração de quem fez ou faz a guerra. O menino simbolizava a pureza, a ino- cência; e o girassol amarelo, a esperança. Com isso, o mundo seria mais feliz e hu-
mano. Mas, no coração de Levi, não brotava um girassol, a flor feia, negra que rom- pia, no asfalto cinzento, atormentava-o.
Maria Franca Zuccarello465 recuperou, no seu ensaio: A literatura de Levi e o cinema de Benigni: vida e morte nos campos de concentração nazistas, trechos de entrevistas de Benigni, no qual ele apontava que o caminho era a esperança, simboli- zada pela criança/menino do seu filme: “(...) porque a vida é bela, e também no hor- ror há o germe da esperança, há algo que resiste a tudo, a qualquer destruição”.
O duplo – vida e morte – não pode ser visto como um jogo, igual ao que a personagem Guido estabeleceu com o seu filho Giosué. Ele usou a sua imaginação, para que o menino, apaixonado por tanques de guerra, acreditasse estar participando de uma grande brincadeira, com o intuito de protegê-lo do terror e da violência que dominava o país. O ato do pai em si foi bonito. Entretanto, a Shoah não pode ser transformada em comédia ou brincadeira pueril. A Shoah foi negra, deve ser lembra- da para que, no futuro, o girassol possa florescer, se a humanidade se voltar para o bem.
Primo Levi lutou, tentou vencer o trauma e apontar caminhos em direção ao girassol amarelo, à esperança: suas obras são os girassóis amarelos, são a esperan- ça. No entanto, ele, como ser humano, não conseguiu suportar a dor e a culpa de ter saído vivo do Lager, enquanto “os bons” morreram. Sobreviveram quase sempre os piores, os colaboradores da “zona cinzenta”, os espiões, e Levi, mesmo não tendo li- gação com esse grupo e praticado apenas pequenos furtos para sobreviver, não se a- chava digno do dom da vida. Por isso, vivia em uma busca eterna por respostas e jus- tificativas perante os seus olhos e o dos Outros. Levi, como sobrevivente, sentiu ver- gonha de suas atitudes e da sua transformação. No campo, a transformação era viver a sua vida e tolerar a morte alheia. Levi preferiu a morte, e como disse Sartre 466, a
465 ZUCCARELLO, M. F. A Literatura de Levi e o cinema de Benigni: vida e morte nos campos de concentração nazistas.
Disponível em: http://www.letras.ufrj.br/ciencialit/encontro.htm acesso em 29 de agosto de 2008.
morte era a nadificação do ser, a aniquilação das possibilidades e a vitória definitiva dos Outros sobre o eu interior e exterior.
O italiano Mario Barenghi467, em seu ensaio A memória da ofensa, concluiu que era impossível ser a mesma pessoa aquém do arame farpado. As cercas do Lager também demarcaram uma fronteira interna no sujeito, um limite entre a humanidade e a desumanidade. Então, como encontrar o Paraíso em algum lugar, depois de ter des- cido até o mais profundo dos Infernos? Ou depois de ter perdido o seu nome, a sua raiz, o seu corpo e a sua alma? O sobrevivente perdeu tudo o que um homem podia perder. Será que, depois de tudo isso, seria possível afirmar que a vida ainda era bela. Tudo são incógnitas.