O excerto a seguir fez parte do momento em que todos os participantes da atividade estavam fora da sala de aula, conversando sobre o que acreditavam ser cidadania. Como descrito acima, foram formados grupos com três integrantes para
essa discussão. Na cena abaixo TY, A, T e E discutem com PP sobre o assunto, até a ocasião em que o assunto muda para maneiras de falar.
Turnos Análise
(362) TY: pronto terminamo/... ((TY se refere ao que escreveu em um caderno sobre cidadania))
Abertura de turno com estabelecimento de contato
(363) TY: eu leio... o que é? respeitar os idosos... o direito do trabalhador e da
cidadania... Colocação de ponto de vista
(364) A: do cidadão... Tomada de turno com correção da palavra
(365) TY: do trabalhador é que o salário sempre está atrasado... mais baixo... o transporte público é que não tem muitos lugares pra/ ( ) ... solução: ajudar as pessoas a jogar lixo no lixo... respeitar os mais velhos e levar os salários dos trabalhadores...
Retomada de turno com explicação
(366) PP: tem muita coisa ainda pra dizer... apreciação negativa, conforme o uso dos Asserção conclusiva, marcada por uma advérbios muito e ainda.
(367) TY: a gente que coisô/... Tentativa de explicação (368) T: eu ajudei... Tomada de turno com valorização (369) PP: ela falou: “- A gente coisô.” que que
é coisô? Espelhamento com pedido de esclarecimento
(370) E: é coisa nordestina...ó eu chamo meu
pai de painho e minha mãe de mãinha... Réplica elaborada com exemplificação (371) T: eu nasci em São Paulo e quando eu
comecei a falar mamãe eu falei mamãece eu disse mamãezinha aí depois meu pai veio e eu falei papaizinho...
(373) E: tem gente que chama de
mãinha...né? Retomada de turno com pergunta de sim/não
(374) PP: em Salvador não fala meu rei? quando você vai falar com alguém você não fala: “- Ô meu rei?”
Pergunta de sim/não com tentativa de explicação
(375) E: eu sempre falo...
Réplica simples
(376) PP: cada lugar tem um jeito de falar... até mesmo em São Paulo tem gente que fala de um jeito tem gente que fala de outro... tem... quem mora em Osasco fala de outro...
Concordância com ponto de vista
Esta troca de turnos teve duração de cerca de quinze minutos e ocorreu no corredor da sala em que fazíamos as atividades, com os participantes organizados em grupos. Nesse tempo, todos tiveram momentos em que se misturaram para conversar sobre outros assuntos não determinados por LI, nem por PP. Os sujeitos presentes neste excerto tiveram papéis que se alternaram entre oradores e ouvintes. O objetivo nos primeiros minutos foi atingir a vontade dos outros interlocutores, porém quando a conversa se iniciou sem ter sido solicitada nenhuma tarefa, houve o estabelecimento de diálogos na busca do verossímil. O conteúdo temático constituiu-se de diversas propostas sobre o mundo de cada sujeito.
O excerto 2 da aula 9 foi iniciado pelo estabelecimento de contato de TY com os sujeitos envolvidos na conversa (A, E, PP e T) por meio de sua definição sobre cidadania. Durante a leitura sobre o que escreveu, no turno (363) “eu leio... o que é? respeitar os idosos... o direito do trabalhador e da cidadania...”, TY teve seu turno interrompido por A, que a corrigiu; porém, a aluna TY deu continuidade à sua observação no turno (365) “do trabalhador é que o salário sempre está atrasado... mais baixo... o transporte público é que não tem muitos lugares pra/ ( ) ... solução: ajudar as pessoas a jogar lixo no lixo... respeitar os mais velhos e elevar os salários dos trabalhadores...”, não se importando com a intervenção feita.
Por se tratar de uma adolescente, TY vive guiada pelas suas necessidades artificiais, ou seja, seus interesses. Com isso, seu desenvolvimento psíquico apresenta mudanças de conduta, estimulando e aumentando a impulsividade do sentimento (VYGOTSKY, 1931-33/2006). Portanto, ao não se interessar pela colocação de A, TY faz valer seus interesses, parecendo ignorar a colega.
Já no turno (366) “tem muita coisa ainda pra dizer...” PP projetou uma avaliação negativa, desanimadora, evidenciando que o esforço que TY fez para escrever seu texto não havia sido valorizado, então a aluna esclareceu, com orgulho, que ela e E haviam produzido o texto dizendo “a gente que coisô”, no turno (367). Essa tentativa de explicação abriu caminho para que os participantes da atividade iniciassem uma conversa informal, sem atrelamento ao assunto da aula. PP chamou, então, a atenção sobre a maneira como a aluna falou e perguntou, no turno (369) “que que é coisô?”, como pedido de esclarecimento e espaço para que os sujeitos se engajassem nesse outro assunto.
PP buscou relacionar a particularidade social, isto é, a maneira como falam TY e E, a fim de propiciar aos alunos o reconhecimento entre os diferentes – nos turnos (374) “em Salvador não fala meu rei? quando você vai falar com alguém você não fala: “- Ô meu rei?” e (376) “cada lugar tem um jeito de falar... até mesmo em São Paulo tem gente que fala de um jeito tem gente que fala de outro... tem... quem mora em Osasco fala de outro...”. Tal postura promove o reconhecimento do “outro”, para o diálogo entre os distintos grupos sociais e culturais.
A perspectiva multicultural é especificada, por Candau (2008), como a promoção deliberada da inter-relação entre diferentes grupos culturais presentes em uma determinada sociedade. Concebe as culturas em contínuo processo de elaboração, de construção e reconstrução, além de vivenciar o processo de hibridização cultural intenso e mobilizador da construção de identidades abertas, em construção permanente, o que supõe que as culturas não são “puras”. A hibridização cultural é um elemento importante para se levar em consideração na dinâmica dos diferentes grupos socioculturais. Existe, também, como característica dessa perspectiva, a consciência dos mecanismos de poder que permeiam as relações culturais.
Num ambiente multicultural, a gestão argumentativa é trabalhada sob uma perspectiva dialógica-enunciativa, pois tem papel sócio-cognitivo-afetivo intenso (LIBERALI, 2013).
Essas relações estão construídas na história e, portanto, estão atravessadas por questões de poder, por relações fortemente hierarquizadas, marcadas pelo preconceito e discriminação de determinados grupos.