Um sistema é um conjunto de elementos heterogêneos (materiais ou não), de distintas escalas, que estão relacionados entre si, com uma organização interna que intenta estrategicamente adaptar-se a complexidade do contexto e que constitui um todo que não é explicável pela mera soma de suas partes. Cada parte do sistema está em função de outra; não existem elementos isolados (MONTANER, 2008, p. 11).
Podemos entender os sistemas como compostos por elementos que devem funcionar de determinada maneira regularmente, absorvendo e completando as funções uns dos outros (DUARTE, F., 2002, p. 19).
O sistema pode ser definido como um grupo de componentes e partes interrelacionados e interdependentes, que formam a unidade complexa do todo e regem o seu funcionamento. Os sistemas fechados são convenientemente associados ao objeto moderno, determinista e previsível em sua essência e pouco favorável a uma adequação com o meio ambiente e com os fatores exógenos que a influenciam, sem aptidão para conduzir processos de crescimento e mudança. Os sistemas abertos, por sua vez, apresentam uma forte interação com o meio, adaptando-se e reorganizando-se a partir de forças externas e eventos, reconstruindo a estabilidade do todo a partir da alteração dos componentes ou das partes que estão interrelacionadas. Os sistemas arquitetônicos abertos são plenamente influenciados por fatores ambientais, tecnológicos, simbólicos e socioeconômicos.
Bruna (2002, p. 60) reconhece as vantagens do ciclo aberto, uma vez que a industrialização de componentes e elementos voltados ao mercado permite uma grande variedade de combinações, satisfazendo uma larga escala de necessidades funcionais e estéticas. Segundo Crosby12 (1965, apud BRUNA,
2002), as características básicas do sistema aberto, que permitem a obtenção de um sistema flexível adequado à complexidade da vida social e urbana contemporânea, podem ser definidas por peças que sejam:
Substituíveis por outras de diferentes origens; intercambiáveis, isto é, possam assumir diferentes posições dentro de uma mesma obra; combináveis entre si formando conjuntos maiores (aditividade dos termos), e que por sua vez sejam permutáveis por uma peça maior ou por um número de peças menores (CROSBY, 1965, apud BRUNA, 2002, p. 63).
Segundo Mahfuz (1995, p. 38), o todo arquitetônico apresenta uma organização hierárquica composta por partes organizadas conforme algum princípio estrutural, obrigatoriamente relacionado ao contexto social em que se insere. Diante dessa estruturação espacial, o objeto arquitetônico constituído a partir de sistemas construtivos abertos apresenta componentes construtivos com funções próprias/ específicas, aptos a responder conforme eventos exógenos, com articulações estabelecidas em busca de um equilíbrio físico, sem imposições.
Um edifício, especialmente se for habitação, não pode se limitar a uma única função, pois é cenário da vida humana, e esta é multiforme. A função de um edifício habitacional e a função de cada uma das habitações que a compõem é múltipla, não que o edifício tenha de servir a vários fins diferentes (embora também este caso seja possível), mas porque, tendo embora uma só finalidade, a casa tem de ser feita de maneira que corresponda àquelas necessidades do homem que até podem estar expressamente previstas no destino do edifício todo, ou de uma de suas habitações, mas que são indispensáveis a quem nelas vive precisamente porque é um ser humano multifacético (MUKAROVSKY13, 1997 apud PULS, 2006, p.
535).
Nessa perspectiva, a imposição de uma condição unifuncional e definitiva conduz à crise do objeto, comprometendo a liberdade do uso e a possibilidade de atualização de sua função.
A residência que se propõe usualmente é um conjunto de espaços exatamente definidos por uma função marcada; geralmente os espaços exteriores são anedóticos; o mobiliário é mais ou menos integrado; as superfícies, as funções e as instalações mais ou menos racionalizadas. Sejamos lúcidos: vivemos um pouco presos e a contragosto (DRUOT; LACATON; VASSAL, 2007, p. 34).
Mesquita (2000) aborda a flexibilidade habitacional a partir das possibilidades de modificação ao longo da vida útil da residência e outros tipos de
modificações possíveis, abordadas consecutivamente através de duas categorias: Flexibilidade de Uso e Habitação Polivalente.
1. Flexibilidade de Uso:
Flexibilidade Inicial (modificações na fase de projeto) ou de Planta (Soluções diferenciadas de planta oferecidas pelo empreendedor);
Flexibilidade Permanente ou Contínua (adaptação dos espaços da residência em virtude das soluções construtivas, envolvendo desde modificações dos espaços internos até a expansão dos limites da edificação);
2. Moradia Polivalente: Configurada essencialmente pela propriedade de alteração de usos e funções dos espaços.
Agregação de Funções (compatibilidade de usos no mesmo espaço); Ampliabilidade (Habitual em residências unifamiliares). No caso de
habitações coletivas, as soluções exógenas mais recorrentes demonstram a adição de corpos em coberturas e varandas, e internamente o acréscimo de cômodos quando há volume residual ou amplitude vertical e até mesmo ampliação a partir da agregação de outras unidades;
Adaptabilidade (Propriedade da multifuncionalidade, que favorece a alteração de usos, a simultaneidade de usos e a reformulação de layouts interiores a partir de critérios pessoais);
Flexibilidade (Reformulação do espaço interno, envolvendo os processos construtivos e manipulando componentes);
Os edifícios são tradicionalmente constituídos por pilares, lajes, telhados, paredes exteriores, paredes interiores, portas, janelas, varandas, escadas e outros artigos. Cada uma dessas partes é composta por inúmeros produtos e materiais menores. Na verdade, todas essas peças são “componentes” que, juntos, formam o todo, em outras palavras, o edifício que, por sua vez, desempenha uma função generosa de agir como um intermediário à ação humana. Embora cada parte desempenhe uma função relevante dentro do
sistema edifício, a função de apoio estrutural que garante a integridade do edifício é propriedade exclusiva dos componentes que têm a função de suportar toda a carga (KNAACK; MEIJS, 2009, p. 11). A função estrutural caracteriza-se como um subsistema macro, assim como a função vedação vertical - cuja função é compartimentar os ambientes e promover arranjos e atividades - pertence a outro subsistema que se desdobra em vedações externas (painéis de fachada, alvenaria em bloco cerâmico, cortina de vidro, etc.) e vedações interiores (alvenaria em bloco cerâmico, gesso acartonado, divisórias em madeira, e etc.). Em resumo, estrutura, vedações, esquadrias, instalações e coberturas são subsistemas que se articulam e organizam o edifício em sua totalidade.
A definição de três grupos distintos na organização dos sistemas construtivos abertos, revela a importância de cada subsistema e suas peculiaridades, na constituição de soluções que contribuem para efetivar a flexibilidade construtiva. Cada subsistema - definido por estrutura, vedações e instalações - composto a partir de componentes e materiais que privilegiam processos de montagem, é apresentado por Mesquita (2000) com a identificação de parâmetros de flexibilidade sintetizados a seguir:
1. Estrutura – Permitir o acréscimo de sobrecarga; O espaçamento de vigas e pilares deve ser amplo; Evitar alvenarias estruturais que impossibilitam abertura de vãos; Predileção por sistemas pré-fabricados ou pré-moldados; Dissociação dos demais subsistemas construtivos – vedações e instalações;
2. Vedações – Soluções de vedação interna e externa a partir de componentes leves, de pouca espessura, alta transportabilidade, fácil instalação e manutenção, independente dos demais subsistemas. Preferência por fachadas contínuas; divisórias leves; painéis operacionais, armários móveis, painéis pivotantes; tetos em forros modulares, divisíveis e leves; pisos de fácil aplicação, montagem e desmontagem de componentes – pisos elevados, laminados, vinílicos; revestimentos com pisos e paredes já acabados.
3. Instalações – A principal diretriz é a dissociação das instalações da estrutura e das vedações; preferência pela concentração dos serviços em blocos; adoção de kits de serviços pré-fabricados e tubulações flexíveis; instalações de cabeamento estruturado e pré-cablagem. O percurso das instalações deve priorizar trajetórias sob pisos flutuantes e acima dos forros falsos e rebaixados.