4. ARAġTIRMA SONUÇLARI VE TARTIġMA
4.5. Duyusal Analiz
Ao buscar responder às demandas em torno da ampliação dos canais democráticos de participação social, a Constituição de criou mecanismos institucionais que permitiram o envolvimento direto dos atores sociais tanto no processo de decisão – por meio da introdução de princípios da democracia direta – como de controle das ações do Estado JACCOUD, , p. . Vários trechos do discurso de Ulisses Guimarães enfatizam a intenção dos constituintes de ampliar a atuação dos atores sociais:
O povo passou a ter a iniciativa de leis. Mais do que isso, o povo é o superlegislador, habilitado a rejeitar, pelo referendo, projetos aprovados pelo Parlamento. ... A vida pública brasileira será também fiscalizada pelos cidadãos. Do Presidente da República ao Prefeito, do Senador ao Vereador ULISSES GUIMARÃES, discurso proferido na sessão de promulgação da Constituição Federal de .
Por meio da garantia da participação de variados atores na deliberação das políticas públicas, a Constituição Federal procurou valorizar a participação social atribuindo‐lhe um caráter de proteção e legitimação dos direitos sociais. Com efeito, no título VIII da Constituição Federal, que discorre sobre a Ordem Social, os artigos , , e versam sobre a participação social no processo de deliberação das políticas públicas:
Compete ao Poder Público, nos termos da lei, organizar a seguridade social, com base nos seguintes objetivos: ... VIII – caráter democrático, descentralizado da administração, mediante gestão quadripartite, com participação dos trabalhadores, dos empregadores, dos aposentados e do Governo nos órgãos colegiados CF, Da Ordem Social, artigo , parágrafo único .
As ações governamentais na área da assistência social serão realizadas com recursos do orçamento da seguridade social, previstos no art. , além de outras fontes, e organizadas com base nas seguintes diretrizes: ... II ‐ participação da população, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis. CF, Da Assistência Social, artigo .
O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: ... VI ‐ gestão democrática do ensino público, na forma da lei. CF, Da Educação, artigo
O Estado promoverá programas de assistência integral à saúde da criança e do adolescente, admitida a participação de entidades não governamentais ... CF, Da Família, da Criança, do Adolescente e do Idoso, artigo , parágrafo primeiro .
Na análise de Avritzer , p. , os mecanismos de participação introduzidos pela Constituição de atribuem‐lhe um caráter híbrido, pois ao lado das formas de representação – próprios da democracia representativa –, princípios da democracia direta também foram incorporados à Carta. No Capítulo IV, que discorre sobre os Direitos Políticos, três mecanismos de participação direta foram institucionalizados: o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular de lei.
A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I – plebiscito; II – referendo; III – iniciativa popular CF, artigo
.
O plebiscito ocorre quando a consulta à população antecede a elaboração de um ato legislativo ou administrativo. Por sua vez, o referendo permite que o eleitor aprove ou rejeite esses atos. Assim, o referendo ocorre após a discussão no Legislativo. E por meio da iniciativa popular, os cidadãos podem apresentar um Projeto de Lei para apreciação do Legislativo, desde que haja a obtenção de um número mínimo de assinaturas ALVES, , p. . Tais mecanismos também estão previstos para os demais entes federativos e também nas regras do processo legislativo: A lei disporá sobre a iniciativa popular no processo legislativo estadual CF, Dos Estados Federados, artigo , parágrafo . O Município reger‐se‐á por lei orgânica ... e os seguintes preceitos: ... XIII – iniciativa popular de projetos de lei de interesse específico do Município, da cidade ou de bairros, através de manifestação de, pelo menos, cinco por cento do eleitorado CF, Dos Municípios, artigo .
A iniciativa popular pode ser exercida pela apresentação à Câmara dos Deputados de projeto de lei subscrito por, no mínimo, um por cento do eleitorado nacional, distribuído por pelo menos cinco Estados, com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles CF, Do Processo Legislativo, artigo , parágrafo .
Apesar de presentes na Carta, esses mecanismos de participação foram muito pouco utilizados. Até , havia ocorrido apenas um plebiscito , um referendo e quatro iniciativas populares de lei.
Todavia, se o uso dos mecanismos de democracia direta tem sido pouco freqüente, outra forma institucional de participação social no processo de deliberação das políticas públicas derivada da Carta de tem sido amplamente difundida: os conselhos de políticas públicas.
Os conselhos de políticas públicas são fruto das legislações específicas que regulamentam os artigos , , e da Constituição Federal citados anteriormente AVRITZER, , p. . São elas: Lei Orgânica da Saúde LOS ‐ Lei nº . / , Lei Orgânica da Assistência Social LOAS ‐ Lei n° . / , Estatuto da Criança e do Adolescente Lei nº . / e Estatuto da Cidade Lei nº
. / .
Ocorrido em , convocado para que a população decidisse entre a forma república ou monarquia constitucional e o sistema de governo parlamentarismo ou presidencialismo ALVES, , p.
Realizado em , convocado para que a população se manifestasse a favor ou contra o Art. do Estatuto do Desarmamento, que versava sobre a comercialização de armas de fogo no país ALVES, , p. .
Lei no . , de , que modificou a chamada lei de crimes hediondos Lei no . / ; Lei no . / que modificou o código eleitoral alteração da Lei no . , de de setembro de e artigos do Código Eleitoral Brasileiro – Lei no . , de de julho de ; Lei no . / , que versou sobre o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social e criou o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social FNHIS ALVES, , p. . E, a mais recente: Lei Complementar nº , de de junho de , a chamada Ficha Limpa , que procura impedir que políticos com condenação na Justiça possam concorrer às eleições.
É importante frisar, contudo, que, no que tange à política urbana, a Constituição prevê a realização de planos diretores municipais em todas as cidades com mais de mil habitantes Da Política Urbana, artigos e , porém não determina que haja a participação social. Esta, por sua vez, está amplamente prevista no Estatuto da Cidade.
Avritzer explica que, apesar das leis específicas preverem diferentes formas de participação, estas passaram a ser conhecidas, a partir da década de , como conselhos. Em sua análise, os conselhos podem ser definidos como:
Instituições híbridas nas quais há participação de atores do Executivo e de atores da sociedade civil relacionados com a área temática na qual o conselho atua. O formato institucional dos conselhos, em todas as áreas mencionadas, é definido por legislação local, ainda que os parâmetros para a elaboração dessa legislação sejam dados pela legislação federal. Todos esses conselhos adotam a paridade como princípio, ainda que a forma específica da paridade varie de área temática para área temática AVRITZER, , p. . A partir da celebração da Carta de , assistiu‐se à institucionalização dos conselhos de políticas públicas em praticamente todas as políticas sociais no Brasil, uma vez que, com a descentralização das políticas sociais promovida pela Constituição Federal, os conselhos de políticas públicas tornaram‐se legalmente indispensáveis para o repasse dos recursos federais para Estados e municípios. Portanto, por estarem presentes nas três esferas da Federação União, estados e municípios , atuaram como elementos‐chave para o processo de descentralização das políticas sociais. Gohn indica a importância dos conselhos para a mudança nas relações Estado‐sociedade:
Com os conselhos, gera‐se uma nova institucionalidade pública pois, criam uma nova esfera social pública ou pública não‐estatal. Trata‐se de um novo padrão de relações entre Estado e sociedade porque viabilizam a participação de segmentos sociais na formulação de
políticas sociais, e possibilitam à população o acesso aos espaços onde se tomam as decisões políticas GOHN, , p. ; grifos
nossos .
Note‐se que os conselhos gestores de políticas públicas estão vinculados às políticas públicas concretizadas em sistemas nacionais e suas atribuições estão legalmente estabelecidas no plano da formulação e implementação das políticas na respectiva área governamental como, por exemplo, o Conselho Nacional de Saúde, o Conselho Nacional
Note‐se que, além dos conselhos de políticas públicas, há ainda os conselhos de programas, que são vinculados a programas governamentais concretos, em geral associados a ações emergenciais bem delimitadas quanto ao seu escopo e clientela ... . Exemplos são os Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural, de Alimentação Escolar TATAGIBA, , p. . Há ainda os conselhos temáticos: sem vinculação imediata a um sistema ou legislação nacional, existem na esfera municipal por iniciativa local ou mesmo por estímulo estadual TATAGIBA, , p.
de Educação e o Conselho Nacional de Assistência Social . No entanto, dado que sua regulamentação ocorre por lei específica, existe uma grande diversidade entre os conselhos, seja no número de membros e nos mecanismos de escolha dos representantes, seja no perfil dos segmentos representados. Essa característica atribui diferentes resultados na qualidade da sua representação ALMEIDA, , p. ; TATAGIBA, , p. . Vale frisar, contudo, que os representantes da sociedade civil são eleitos em fórum próprio, não sendo indicados por decisão unilateral dos governos CICONELLO, , p. . Com efeito, Avritzer e Pereira salientam que os conselhos de políticas públicas complementam os alcances da democracia representativa, pois representam uma: ... instância intermediária de debate e deliberação que não significa a supressão das instâncias formais o Poderes Executivo, o Poder Legislativo e o Poder Judiciário representados por autoridades, funcionários e técnicos e da atuação livre, autônoma e democrática da sociedade civil AVRITZER & PEREIRA, , p.
Ao longo da década de , foram criados inúmeros conselhos gestores, uma vez que, como mencionado, a legislação nacional obriga os municípios a criarem conselhos para o recebimento dos recursos federais . A partir de , com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República assiste‐se a estruturação de uma nova geração de conselhos em torno de novos direitos e temáticas , abordando temas como juventude, gênero, segurança alimentar e igualdade racial CICONELLO, , p. . Além dos mecanismos de democracia direta e dos conselhos de políticas públicas, há ainda outro mecanismo institucional de participação estruturado a partir das diretrizes constitucionais: as Conferências de Políticas Públicas. As Conferências atuam de maneira complementar aos Conselhos, pois também se referem a um espaço de discussão sobre as políticas públicas. Trata‐se de um espaço regular de deliberação ocorrem a cada dois ou quatro anos , com o envolvimento de milhares de pessoas. Seus participantes atuam
GOHN indica que é de a legislação que determina que os municípios devem criar seus conselhos para o recebimento dos recursos destinados às áreas sociais. Assim, a maioria dos conselhos existentes foi criada a partir deste ano. A autora ilustra com o caso dos conselhos de educação: em , dos . conselhos existentes nas áreas da educação, assistência social e saúde, deles haviam sido criados após ; entre ‐ ; e apenas antes de GOHN, , p. .
na elaboração da agenda das políticas, definindo seus temas e prioridades. As agendas definidas serão posteriormente monitoradas pelos conselhos e também pelas diferentes representações da sociedade civil CICONELLO, , p. .
As conferências são organizadas pelos respectivos conselhos de políticas públicas e são iniciadas na esfera municipal, onde são debatidos os aspectos relativos à política e definidos os delegados que participarão das conferências estaduais e da conferência
nacional CICONELLO, ; MORONI, .
Tal qual ocorrido com os conselhos, a partir de , início da gestão de Lula, aumentou‐ se significativamente a realização de conferências nacionais, ampliando‐se também os temas abordados.
2.4.4 De Sarney a Itamar: as câmaras setoriais como inovação na dinâmica de