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2.12. YAŞAM DOYUMU

2.12.2. Yaşam Doyumu Kuramları

2.12.2.2. Duyuşsal, bilişsel ve birleşik kuramlar

A quarta ação-ritual consiste em armar uma barraca de ambulante com objetos a serem trocados. Dessa vez, a personagem pode falar, incentivar os transeuntes a se aproximarem, negociar as trocas. Troca-se um objeto por qualquer outra coisa que alguém oferece sem qualquer juízo de valores. Esse é o jogo estipulado previamente para o performer. Uma caixinha de música, por exemplo, foi trocada por um jornal velho. Nesse exemplo, pode-se notar que o valor não está no preço das coisas mas nos modos éticos dos transeuntes de operar a troca.

A troca sem critérios pré-estabelecidos pelo performer parece provocar nos indiví- duos um espírito de desafio. Por exemplo, a troca descrita acima foi feita em tom de desafio por parte do participante da rua. Este não acreditou que sua oferta seria aceita e por isso a fez. No entanto, quando a performer sorridente e cônscia do desafio do outro aceita negociar, este volta atrás e pede para renegociar de maneira mais justa. No entanto, mais provocante ainda é a performer que não aceita a destroca. Ele fica com a caixinha e com a sensação de desconforto ético e ela fica com o jornal.

Outro exemplo do que esta intervenção provoca está em outra troca efetuada na- quele dia. Dessa vez, o transeunte oferece novamente um objeto que para ele é de menor valor monetário diante daquele que escolheu. Espera alguma reação da performer que não a esboça. Depois de uma pausa, o indivíduo pergunta ainda se não há neces- sidade de completar a troca com dinheiro, ao que a performer já sorridente responde negativamente. O homem então encara a moça e a olha através, como se estivesse vendo algo invisível e, emocionado, lhe oferece um “Deus te abençoe”, um misto de agradecimento com admiração; um agradecimento por relembrá-lo do sonho perdido do paraíso, da honestidade, da possibilidade de confiabilidade. O homem foi deslocado de sua posição de “esperto”, de “ave de rapina” para algo que não se pode definir mas que se aproxima da visão de uma criança diante de um anjo.

O jogo performático, jogo que tem por finalidade a distensão do nós coletivo, sus- pende momentaneamente o medo pelo outro fazendo com que dois estranhos ema- nem afetividade um para o outro. O sonho coletivo da irmandade surge como o avesso da cidade.

A quinta e última ação-ritual funciona como a consagração dos rituais que a prece- deram.

Sua estrutura é pensada previamente como um roteiro conduzido por persona- gens. Dessa vez, a caracterização deve ser exacerbada, carnavalesca ou surreal. Os personagens são: um rei, um garçom, um mordomo, dois músicos, um bobo-da-corte e um séquito de modelos, a personagem-gaiola, a bolha de canudinho e a mulher dos açúcares coloridos, todos vestidos com figurinos hiperbólicos.

Nessa intervenção, há um roteiro a ser seguido: o rei chega atrasado, tal como o coelho de Alice no país das maravilhas, faz discurso de boas-vindas e dá ordens para que a gelatina e o suco sejam servidos. A uma determinada hora, dá ordens para que o “espetáculo do entretenimento” seja servido à mesa: o desfile do arroto midiático. Ao final do mesmo, iniciam-se as trocas de presentes: cada conviva escolhe alguém da mesa para presentear, com direito a discursar caso tenha vontade.262 Toca o desperta-

dor depois de 60 minutos do começado o rei despede-se, pede licença e sai correndo. Mais uma vez o signo de “Alice” é posto como índice de leitura da cena. Por quê?

“Obrofagia 2” é a realização da utopia da cristandade, isto é, a utopia de colocar desconhecidos sentados em uma mesa para que possam descobrir seus parentescos, sua irmandade. A obra de Lewis Carroll funciona como referencial de loucura ou de sinalizar que esta utopia somente é possível dentro da cena de teatro. Mais uma vez o Alerta! quer atingir a vida através do devaneio, como se o “espelho de Alice” fosse a metáfora da utopia, o avesso da vida em sua natureza poética. Os personagens dessa cena são um apelo para esta imaginação que coloca explicitamente o ato delirante dos artistas, mas o delírio de que se fala não é a representação de um banquete ao ar livre. A motivação de realizar “Obrofagia 2” perpassa o desejo de sentar-se à mesa com quem nunca se viu antes no intuito de transformar a cena em um espaço público, espaço de elaboração de uma identidade coletiva. No entanto, por que fazer na rua?

Evento 5: O Banquete

(262) Os convidados são avisados previamente para que levem um presente que oferecerá alguém em hora determinada pelos atuantes responsáveis.

Uma multidão pára para “ver”. Mas não há “obra de arte” para ser contemplada. Por que então realizar tal cena em espaço aberto? Porque é justamente esse fato que possibilita deslocar a posição dos convidados para a de atores, e os apetrechos (mesa, cadeiras, pratos, comida…) em cenário. É o povaréu em volta da mesa que, fazendo-se de espectador, transforma o evento em “espetáculo”. A sobreposição de realidades (a cena teatral dentro da cena da vida transformando-se em evento cultural) reinventa a frente do Teatro Municipal, criando um campo de interesses coletivos (convidados e espectadores que incessantemente comentam e são estimulados a se relacionarem com personagens que orbitam ao redor, tais como a mulher bolha e a moça dos açúca- res). E o lugar “frente do Teatro Municipal”, mesmo à revelia da polícia, é invadido por artistas e populares que durante uma hora transformam em pública a escadaria e calça- da daquele teatro.