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“Excursão para lugar nenhum” acontece dentro de um ônibus. Em suas andanças, o Alerta! percebe que esse veículo, apelidado também popularmente de “coletivo” por seu valor de uso, é apropriado de diferentes maneiras pela população. Por exem- plo, em algumas regiões do sertão nordestino seu uso é para a convivência e solidari- edade entre cidadãos vizinhos. Dentro de um ônibus, por exemplo, que sai de Maceió com destino à Crato, percebe-se que o veículo é utilizado para transportar animais e outras mercadorias para serem trocadas em alguma feira vizinha. Esses usuários, origi- nários da zona rural, são afeitos a “prosear” sem resistência para a interação com o outro. Nota-se que esse outro não é visto como inimigo mas como um vizinho.

Muito diferente é o uso que fazem os paulistas que utilizam o ônibus interestadual como um transporte individualizante, ou seja, um veículo onde ele poderá executar uma ação individual (ler um livro, dormir) sem ser perturbado por um rádio ou conver- sas altas. Em um ônibus entre São Paulo e Campinas, por exemplo, não é permitido a presença de pessoas em pé, mas mesmo quando isso acontece não se cultiva a atitu- de de revezar o lugar como alguém que está de pé. Para o paulista isso é sinal de perturbação. Muito diferente é a atitude do nordestino que, dentro de um ônibus lotado, carregador de uma carga pesada, compartilha do sofrimento do outro com mais natu- ralidade. Nesses coletivos nordestinos credita-se ao outro mais necessitado o direito ao assento mesmo que ele tenha chegado depois.

Passeando por linhas de ônibus dentro da cidade de São Paulo, alguns integrantes do Alerta! percebem diferenças na utilização do espaço do ônibus. Nas linhas que seguem por regiões mais periféricas, coletivos freqüentados por estudantes e traba- lhadores de classes menos favorecidas, pode-se notar a solidariedade como um ato cultural; já em linhas mais centrais, freqüentadas por trabalhadores e estudantes de classes mais abastadas, nota-se maior tendência ao individualismo, o ônibus torna-se um lugar de passagem sem características de habitação. Diferentes ainda são os mo- dos de apropriação dos coletivos em linhas que passam pela Av.Paulista. Freqüentada por estrangeiros, executivos bem sucedidos e gente que se veste de maneira diferen- te (os punks com suas roupas pretas e correntes pelo corpo; os performers com seus cabelos coloridos, suas tatuagens e intervenções corporais, e outros) suas viagens tomam a característica de exposição, na rua há o que ser visto, etc. Muito diferente das maneiras anteriores são os modos desses freqüentadores, modos que ainda não sabemos definir, mas que se caracterizam por um relaxamento maior na convivência.

O trajeto escolhido para a intervenção que aqui se relata é o que sai do metrô Santana para a periferia da zona leste. Percebe-se que, apesar da heterogeneidade da população, alguns passageiros efetivam uma relação de intimidade com o motorista, indicando um tipo de passageiro mais afeito à comunicação. No entanto, ao se entrar nesse coletivo, o que se percebe é a comunicação represada na “cara amarrada” de alguns, no silêncio constrangido do companheiro de viagem sentado ao lado e assim por diante. Para revelar esse desejo inconsciente de solidariedade que o Alerta! imagi- na existir entre os usuários, o grupo elabora uma intervenção que possa manifestar esse desejo de maneira coletiva. Para essa linha especificamente, surge a idéia de se realizar a paródia de uma viagem de turismo urbano. Para tal, os artistas fazem um estudo prévio dos estabelecimentos do lugar, tipos de arquitetura, pontos visuais de referências, modos de utilização do ônibus pelos usuários, algum tipo de referência histórica do lugar, etc. A partir desse levantamento fixam-se os “pontos” que inspiram estórias que podem despertar sonhos esquecidos daquela suposta coletividade. A par- tir daí, os atuantes elaboram um roteiro de improvisação para que se instaure uma cena completa, ou seja, uma cena com ação dramática e personagens. A ação propos- ta é a realização de uma viagem antiturística entre o trajeto realizado pela linha Vila Dionísia. Os personagens são guias turísticos e turistas.

As estórias dos “pontos turísticos” são inventadas a partir de elementos verdadei- ros, mistura-se ficção e realidade, e é dessa maneira que os artistas pretendem provo- car os usuários. Fazendo-os olhar para o trajeto como fazemos quando estamos visi- tando um lugar desconhecido, apontando os supostos “monumentos”, “casas de pes- soas famosas”, “marcos históricos e pitorescos”, induzindo os usuários do ônibus a se comportarem como se fossem companheiros de viagem, os atuantes vão revelan- do aos poucos sua bufonaria, convidando o usuário a fazer o mesmo. O título “excur- são para lugar nenhum” mostra se tratar de uma ação que propõe a invenção de uma espacialidade.

Em “Excursão a lugar nenhum” a ida ou volta para casa é transformada em uma viagem aproximada a um devaneio. Esse traço de surrealidade é importante dispositi- vo para se alcançar a transformação efetiva do significado meramente utilitarista do ônibus em um espaço para o encontro, para a comunhão, para a elaboração de identi- dades coletivas. Dessa maneira, acredita-se que o ônibus, ao receber a visita da cena artística, torna-se momentaneamente em um espaço público.

(255) Os relatos que se seguem foram gentilmente cedidos pelos integrantes do Alerta!. São relatos retirados de uma espécie de diário virtual, no qual são registradas as intervenções com material em foto, vídeo e as impressões que por acaso venham com elas. Também nele são publicados os textos teóricos ou não, produzido pelos integrantes.

Relato escrito à seis mãos e três tempos 255

Hoje é dia 13 de maio de 2004, são 9.33 h.

Vamos sair para o “ataque” pois é assim que gostamos que nossas ações sejam chamadas.

(Agora que me dei conta de que hoje é dia da abolição da escravatura!) A idéia inicial foi inspirada nos passeios dos dadaístas:

buscar descondicionar os valores adquiridos sobre a noção de belo. Saímos ‘as ruas em busca de objetos não estéticos e, dentro do transporte

coletivo de péssima qualidade e lotado, um ligeiro mal-estar e um desejo de se inventar uma excursão para lugares ausentes, inventar uma viagem não

turística na cidade de SP, lugares que não significavam nada! Nem turismo nem história.

É assim que nos sentimos dentro de um lotação.

A justificativa do grupo para intervir no lotação é ingênua, queremos despertar o olhar das pessoas – que julgamos anestesiadas – para o “não lugar” que é a cidade de São Paulo. Saímos com o propósito “revolucionário” de “revitalizar” o interesse do usuário dos ônibus a olhar pela janela e chamar sua atenção para seu cotidiano massificante (como se eles não soubessem!)

na esperança de mudar sua relação com a cidade.

Saímos à rua com uniforme da inexistente Cia de Turismo Alerta!, pegamos o ônibus Vila Dionisia e transformamos os usuários em nossos turistas.

Hoje ainda é dia 13 de maio e já são 20.19h. O ataque foi bem sucedido.

Nosso intuito, dessa vez, é ter o consentimento do motorista para não sermos mandados para a delegacia novamente. Alegamos ser um grupo de teatro

universitário, realizando “trabalho escolar”, dessa vez não queremos confrontos com a polícia e para isso arriscamos um pacto com o motorista que,

de maneira surpreendente, não só nos acolheu como aceitou integrar-se ao ataque como atuante.

Percebemos que os usuários sabem mais de seu cotidiano do que nós sabemos de seu saber. Tal como nós, eles têm uma teoria do cotidiano e, como

nós, inventam ações de escapes da vida moderna que lhes quer aprisionar o tempo.

Não conscientizamos ninguém, acredito que o contrário foi mais evidente. A rápida aceitação do jogo por parte do motorista e dos usuários

transformou a viagem em um delicioso passeio surrealista! Definitivamente, a arte não é necessária para conscientizar,

nem falar em nome de alguém.

Descobrimos uma coisa: os usuários são tão sediciosos quanto nós de burlar os lugares e o tempo vigiado.

A forma happening do ataque permitiu perceber que o espectador participativo não é somente uma necessidade cultural do teatro culto mas também uma

prática cotidiana das gentes que pouco vão aos teatros. Carminda

Um mês depois

Na excursão do ônibus uma história legal que inventamos era a da casa com telhado revestido de metal que encontramos no trajeto. Não sabíamos o por quê, mas afirmávamos para os usuários do ônibus que aquela casa era um ponto pitoresco pois em algum momento aquele telhado serviu como antena de

comunicação com extraterrestres. Dizíamos que ali naquela casa moravam pessoas com poderes para-normais.

Alan

Um mês depois do depois…

Inicialmente tínhamos a intenção de criar uma viagem fictícia usando um ônibus de linha. Seria como uma excursão com guias como se fossem de uma

agência de turismo, fazendo do próprio itinerário do ônibus o trajeto especial da viagem, e de seus passageiros os viajantes.

Partindo de informações do próprio trajeto inventaríamos histórias, informações históricas, fantasias, improvisando para envolver os viajantes

num jogo, numa brincadeira em que quanto maior a entrega maior o prazer. Usar do humor e da interação entre todos inclusive para passar

por questões públicas, locais.

A linha escolhida foi o VL. Dionísia, saindo do Terminal Santana. As passageiras disfarçadas embarcariam no Terminal

O Alan seria o guia principal e eu e a Milene assistentes (eu com a máquina fotográfica e ela com o chá e as bolachas). Jordana, Júlia (que moram na Vl. Dionísia e costumam pegar essa linha) e Carminda eram passageiras disfarçadas, encarregadas de observar os

comentários e as reações das pessoas.

Conforme os passageiros desciam, lhes era entregue um panfleto com dizeres intrigantes.

Mas contar história não é fácil. Contar piadas já não é uma coisa fácil. Improvisar histórias numa situação como essa é um puta desafio.

Quando o ônibus chegou no nosso ponto e lotou, nos sentimos inseguros em seguir em frente. Tentando sentir coletivamente, ficamos em dúvida. Seria inviável? Não daria para nos locomover? Seríamos ouvidos? Vai, não vai? Tentando decidir coletivamente, atacamos:

“Alerta! Alerta! Alerta!”.

Isso, claro, assustou algumas pessoas (por quê? assalto, seqüestro, pedinte?). Era difícil mesmo agir com a condução tão lotada.

Não dava para gesticular tanto ou chegar mais junto dos passageiros. Mas o improviso foi acontecendo.

Várias coisas valeram a pena. Algumas pessoas interagiram, opinaram, uma senhora contou uma história.

Algumas pessoas ficaram ainda mais mal-humoradas, de cara fechada. O ônibus foi esvaziando e foi possível fazer uma brincadeira em que a maioria dos passageiros participou (careca, bigodudo) e deu risada.

Talvez um trajeto prévio e as poucas informações que conseguimos sobre o local não tenha sido suficiente para sacar o trajeto e os passageiros.

Talvez precisássemos de mais intimidade para realizar tal interferência, para ir mais a fundo. Ou a prática nos levará a ter mais segurança para brincar com a fantasia, então a fantasia pode se sobrepor a qualquer

realidade e esse será o prazer, isso será mais interessante para desafogar do mal-estar num momento inesperado do dia-a-dia conturbado de São Paulo. Desafogar insatisfações e dar vazão a opiniões críticas, talvez indo além do tal jeito brasileiro

de fazer piada dos seus problemas, como uma atitude coletiva de conscientização e libertação de uma realidade viciada.