2.4 DUYGUSAL YEME
2.4.2 Duygusal Yeme ve Yeme Bozuklukları
Uma das mais importantes fontes desta dissertação foram os relatórios de inspeção do ensino. O cargo de inspeção escolar existe no Brasil desde o século XIX. Várias foram as formas pelas quais se organizaram os procedimentos de inspeção e diversas foram as denominações recebidas pelos profissionais que realizavam essa tarefa. No estado de Minas Gerais, a função que lhes competia era a de visitar as escolas pertencentes a cada círculo ou circunscrição literária.49 De acordo com Veiga (1999), com o passar dos anos, o papel dos inspetores sofreu modificações. Eles deixaram de apenas verificar a frequência dos(as) alunos(as) e construírem mapas estatísticos sobre ela, para também julgarem o desempenho dos corpos docentes e discentes. A natureza do cargo de inspeção também foi alterada. Por meio da reforma de ensino mineira de 1889, foi criada a inspeção extraordinária, cujos profissionais recebiam remuneração e eram responsáveis por criar o elo entre o governo de Minas Gerais e as escolas. Essa inspetoria extraordinária foi extinta em 1901, momento em que foi retomado o serviço de inspeção municipal e distrital, cujos profissionais nada recebiam pelo trabalho. As autoridades afirmavam que seu desempenho deveria ser desenvolvido por amor e patriotismo (GONÇALVES, 2006).
No bojo da reforma educacional mineira de 1906, a inspeção do ensino passou a ser dividida em dois grupos: o técnico e o administrativo (ISOBE, 2004). Esse último grupo era composto por inspetores escolares ou municipais, cujos cargos não eram remunerados e eram confiados, geralmente, a promotores de justiça que, além de exercerem suas profissões, fiscalizavam as escolas em relação aos aspectos burocráticos e administrativos. Já a inspeção técnica era uma instituição nova. Os profissionais que a realizavam eram professores de escolas normais extintas.50 Eles recebiam remuneração e se dedicavam exclusivamente ao serviço de inspeção escolar (ISOBE, 2004). Para operacionalizar a inspeção técnica, Minas Gerais foi dividida em
49 Essa divisão passou a ser adotada no estado a partir da Lei nº 13, na primeira metade do século XIX. Cada
círculo ou circunscrição era composto por um conjunto de cidades e de seus distritos (VEIGA, 1999). O Decreto n. 1.357, de 29 de janeiro de 1900, dividiu Minas em cinco circunscrições literárias. Ouro Preto integrava a primeira. Após a reforma do ensino de 1906, o estado foi organizado em 40 circunscrições. Naquele momento, Ouro Preto passou a compor a 13ª. Em 1911, com a promulgação do Decreto n. 3.191, de 11 de janeiro, o número de 40 circunscrições foi reduzido para 25 e foi determinado que a antiga capital do estado fizesse parte da 9ª.
50
No ano de 1911, por meio do Decreto nº 3.191, o serviço de inspeção foi reorganizado. O inspetor técnico passou a ser designado de inspetor regional. A nova nomenclatura veio acompanhada de uma nova função: os inspetores não apenas deveriam fiscalizar o trabalho docente, mas também orientar e guiar os professores, corrigindo-lhes os erros em relação à execução do programa e agindo, caso necessário, sobre o meio social. O mencionado decreto também estabeleceu a preferência por professores primários para serem inspetores regionais (GONÇALVES, 2006; ISOBE, 2004).
40 circunscrições literárias e, a cada uma, era designado um inspetor.51 Sua função era averiguar:
[...] a disciplina, a ordem e a regularidade dos trabalhos escolares, verificar se o programa do ensino primário está bem e fielmente praticado, dar ao professor as necessárias instruções caso verifique não ter ele bem compreendido o espírito do programa, assistir ao funcionamento das aulas, indicando ao professor tudo quanto repute necessário modificar no método por ele seguido e, finalmente, dentre muitos outros, inaugurar, sempre que lhe seja possível, as escolas de criação nova ou restauradas [...] (FARIA FILHO, 1996, p. 163).
Portanto, competia aos inspetores analisar, julgar e, se necessário, exigir modificações das práticas escolares, além de divulgar os princípios pedagógicos vigentes, isto é, aos inspetores cabia garantir que os novos preceitos de uma realidade educacional nascente fossem praticados. Eles eram considerados “a alma do ensino” (GONÇALVES, 2006). Por isso, seus relatórios “[...] representam e materializam um dos momentos fundamentais da nova racionalidade que se quer introduzir na educação escolar mineira” (FARIA FILHO, 1996, p. 18). Não apenas os relatórios, mas também os termos de visita, um tipo de registro em que uma das cópias integrava o “Livro de Termos de Visita”, na própria escola visitada, e a outra era enviada à Diretoria de Instrução da Secretaria do Interior. Em algumas escolas, eram as professoras que escreviam os termos de visita, que narravam seu próprio desempenho, sob as vistas dos inspetores (GONÇALVES, 2006).
Outra importante incumbência que tinham os fiscais era a de tornar visíveis, não apenas os diversos grupos escolares, mas também as escolas isoladas. Afinal, em seus relatórios, aqueles profissionais detalhavam aspectos relacionados ao ensino – como o cumprimento do programa que vigorava, métodos e práticas pedagógicas adotados e materiais didáticos usados – e à organização e estruturação das instituições. Os inspetores escolares figuram entre
51 Segundo Gonçalves (2006), a partir do regulamento educacional mineiro que entrou em vigor a partir de 1909,
cada inspetor ficaria um semestre letivo em uma dada circunscrição e, no semestre seguinte, teria que ser transferido para outra, de acordo com a designação da Secretaria do Interior. Como era difícil para os inspetores escolares percorrerem todas as escolas de uma circunscrição duas vezes, número de visitas ideal, em apenas um semestre, reclamações foram feitas junto à Secretaria. Em virtude disso, o Decreto nº 2.795, de 1910, estabeleceu a nomeação de auxiliares de inspetores para percorrerem localidades que se distanciavam mais de 6 quilômetros da sede dos distritos. Outras pessoas também foram contratadas para ajudar, juntamente com os inspetores técnicos, no atendimento às regiões de maior extensão (GONÇALVES, 2006). A partir de 1911, os inspetores deixaram de ser obrigados a mudar semestralmente de circunscrição. Nesse mesmo ano, o estado de Minas Gerais foi reorganizado em 25 circunscrições literárias, fato que não significou, entretanto, redução em relação ao número de escolas que deveriam ser visitadas. Como explica Gonçalves (2006), o número foi aumentado, bem como a quantidade de vezes que os inspetores deveriam fiscalizar as instituições.
aqueles que mais contribuíram para o processo de produção da educação pública escolar mineira, pois ajudaram a conformar, moldar, criticar e difundir os discursos e práticas pedagógicas. Os registros desses agentes, apesar de algumas vezes apresentarem lacunas, criaram uma nova inteligibilidade da educação escolar mineira, além de serem a expressão da lei. Eles constituem uma produção reflexiva sobre o educativo escolar, cujos objetos são as finalidades da educação e da escola, a aprendizagem dos discentes, o trabalho docente e a disciplinarização (FARIA FILHO, 1998). Portanto, como enfatiza Isobe (2004), os relatórios de inspeção técnica eram dispositivos essenciais para a movimentação da engrenagem escolar.
Diante de todas essas considerações, é possível afirmar que os relatórios se constituem em importantes fontes para a história na medida em que, além de terem concedido visibilidade para o cotidiano escolar mineiro, apresentam críticas e reflexões sobre os aspectos educativos. Eles também produziram e expressaram representações e práticas que, de alguma forma, moldaram o contexto escolar (FARIA FILHO, 2002). Tendo como base todos esses aspectos e, não perdendo de vista suas condições de produção, para construir esta dissertação foram analisados relatórios de inspetores extraordinários, técnicos, regionais e municipais. Por meio deles, foi possível produzir dados a respeito do quadro mais geral relativo à instrução primária em Ouro Preto, ao espaço ocupado pelo Grupo Escolar e pelas escolas isoladas, à organização do tempo naquelas instituições, aos rituais públicos realizados, em especial, no Grupo Escolar D. Pedro II, aos saberes desenvolvidos, aos sujeitos que compunham as escolas de instrução elementar, às condições materiais de que dispunham e aos índices de matrícula e de frequência.
Os relatórios dos(as) diretores(as) que geriram o Grupo D. Pedro II também se constituíram em importantes fontes para este estudo. Concebido como figura central na organização do novo modelo escolar, o(a) diretor(a) exerceu papel fundamental no processo de transformação das escolas reunidas em escolas graduadas orgânicas, além de ocuparem a posição de interlocutores na relação entre a escola e a administração do ensino. As funções do(a) diretor(a) eram organizar, fiscalizar e coordenar o ensino (FARIA FILHO, 1996; SOUZA, 1998). Em virtude disso, eles(as), bem como os inspetores, também eram responsáveis pelo sucesso da reinvenção da escola primária (GONÇALVES, 2006). Uma das atribuições conferidas aos(as) diretores(as) era a elaboração de um relatório anual detalhado acerca de todo o movimento escolar do grupo, que deveria ser enviado para a Secretaria do Interior ao final de cada ano. Ao construir seus relatórios, os(as) diretores(as) do Grupo Escolar D. Pedro
II evidenciaram relevantes aspectos referentes à sua organização, seus problemas e às ações empreendidas para conferir maior importância e regularidade à instituição.
Da mesma forma que os relatórios, os mais diversos ofícios localizados também contribuíram para a produção de relevantes dados para esta pesquisa. Tais ofícios foram produzidos por inspetores de ensino, funcionários da Secretaria do Interior, professoras e diretores(as) do Grupo Escolar D. Pedro II, a respeito de aspectos do cotidiano da instituição. As listas de materiais recebidos e requeridos, de autoria de inspetores, dos(as) gestores do Grupo e de professoras de escolas isoladas também se constituíram como fontes importantes para este estudo, bem como as atas de exames, feitas por fiscais do ensino. Todos esses materiais, é preciso esclarecer, são manuscritos. No caso dos que pertencem ao APM, foi possível verificar que todos estão organizados em livros. Entretanto, os que compõem o acervo do APMOP são avulsos e organizados cronologicamente em uma caixa. De um modo geral, todos os objetos estão bem conservados.
3.3. Os jornais
Outro tipo de fonte consultado para a realização desta pesquisa foram jornais que circularam em Ouro Preto, no período de 1900 a 1920. Maria Lúcia Pallares-Burke (1998, p. 145) afirma que os jornais “[...] tem tido sempre sua quota de participação no processo educacional e podem, pois, ter muito a dizer sobre o modo complexo pelo qual as culturas são produzidas, mantidas e transformadas”. Ainda a respeito do uso de jornais como fonte em estudos históricos, Tania de Luca (2008) adverte que é necessário atentar para alguns aspectos como, por exemplo, os responsáveis pela produção do periódico analisado, sua linha editorial e as possíveis vinculações daqueles que produzem o jornal com diferentes grupos de poder e interesses.
Com intuito de investigar o processo de produção de um lugar legítimo para o Grupo Escolar D. Pedro II, foram verificadas 114 edições relativas a 44 títulos de jornais diversos que circularam em Ouro Preto, nas duas primeiras décadas do século XX. No entanto, em apenas um título foram localizados alguns poucos indícios referentes às escolas singulares da região. O periódico intitula-se A Cidade e era de propriedade de Jose Maria Rosemburg.52
52 Não foram localizadas informações a respeito de quem era esse sujeito no contexto ouropretano do início do
Organizado em quatro páginas, o jornal A Cidade era publicado semanalmente e versava sobre notícias de naturezas diversas. O jornal A Cidade possuía uma linha editorial de cunho monarquista. A Hemeroteca Pública contém 50 edições do mencionado periódico, referentes aos anos de 1901 (11 números), 1902 (16 edições) e 1904 (14 números). A partir da análise desse material, foi possível produzir dados relativos aos sujeitos, à organização e aos rituais públicos concernentes às cadeiras singulares de ensino primário.
Todos os jornais verificados estão digitalizados, o que, por vezes, facilitou sua exploração. No entanto, alguns exemplares estão bem apagados, fato que tornou a consulta, em alguns momentos, menos proveitosa. Além do periódico mencionado, foi encontrado, ainda, no APM, anexado a um relatório de inspeção de ensino, um recorte de um jornal intitulado Correio da Noite, contendo uma notícia sobre a disciplina no Grupo Escolar D. Pedro II. Embora a data tenha sido recortada, conclui-se que, provavelmente, a notícia inclusa nele referia-se ao ano de 1909, pelo fato de estar associada a registros daquela época. Não foram localizadas informações a respeito de quem o produzia e de sua linha editorial.