2.4 DUYGUSAL YEME
2.4.3 Duygusal Yeme Teoriler
Ao longo da investigação, foram encontradas duas obras que apresentam indícios que contribuíram para reconstruir o cenário educacional de Ouro Preto, nos primeiros tempos do século passado, e para problematizar as práticas utilizadas para legitimar e projetar o Grupo Escolar D. Pedro II. A primeira, intitulada ALMANACK – Administrativo, Mercantil Industrial, Scientifico e Litterario do Municipio de Ouro Preto, escrito por Manuel Ozzori53, em fins do século XIX, e publicado em 1890, ofereceu pistas a respeito da organização e localização de algumas escolas isoladas da antiga capital de Minas. A segunda obra refere-se a um livro que foi produzido por Nelson Senna, escritor e jornalista, em 1911, em razão das comemorações do bicentenário de Ouro Preto, movimento articulado, principalmente, por Senna. Intitulada de Bi-centenário de Ouro Preto: memória histórica, a análise dessa obra contribuiu para construir a relação entre a constituição de uma representação de escola legítima para o Grupo Escolar D. Pedro II e o processo de fabricação da imagem de lugar de memória preservada para Ouro Preto.
53 Manoel Ozzori era, no século XIX, redator do periódico O Trabalho, que defendia a abolição da escravatura
Além das duas obras mencionadas acima, também foram consultados dados estatísticos, pertencentes à base de dados do IBGE, a respeito da população e instrução em Ouro Preto, respectivamente, sobre os anos de 1900 e 1907.
******
O cruzamento entre todas as fontes54 foi fundamental, afinal nenhum material é inocente, neutro. Nenhum material pode ser compreendido como completamente verdadeiro ou mentiroso. Como afirma Le Goff:
O documento não é inócuo. É, antes de mais nada, o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para evocar a etmologia) que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados, desmistificando-lhe o seu significado aparente (1992, p. 547).55
Por isso, todas as fontes precisam ser analisadas com criticidade. Além de estar atento a esse aspecto, o historiador tem como função desconstruir as montagens que compõem o documento, investigando suas condições de produção (LE GOFF, 1992). O objetivo é produzir sentido para o passado, principal tarefa da história, para Guy Boutier e Dominique Julia (1998). É o discurso historiográfico que confere um significado para o real, que promove inteligibilidade para o passado, como salienta Michel de Certeau (2010). Ao realizar esta pesquisa procurou-se, justamente, tornar inteligível um dos aspectos concernentes à história da instrução primária no Brasil.
Com intuito de apresentar, de modo mais claro e coeso, a problematização a respeito do processo de legitimação do grupo escolar, em Ouro Preto, Minas Gerais, a argumentação elaborada foi estruturada em três Capítulos. O primeiro traz reflexões sobre o contexto educacional ouropretano, antes e após a implantação do novo modelo escolar; sobre os elementos relativos a aspectos mais gerais da organização,56 não apenas do Grupo, mas
54 No decorrer da argumentação, os documentos foram identificados e explicados em notas de rodapés, por meio
das siglas que dizem respeito ao acervo onde se encontram e por meio de sua natureza e conteúdo.
55
Original publicado em 1988.
56 É importante assinalar que no Capítulo I desta dissertação foram apenas pontuados alguns elementos mais
também das escolas singulares; sobre o desenvolvimento das primeiras discussões a respeito da criação do Grupo Escolar e a respeito da designação que lhe foi conferida – Grupo Escolar D. Pedro II -, uma alusão ao passado imperial.
O Capítulo II enfoca a configuração dos elementos referentes à cultura escolar. Desse modo, foram analisados o espaço, a organização do tempo, os saberes que pretendia-se desenvolver, as condições materiais e os sujeitos, não apenas do Grupo Escolar D. Pedro II, como também das cadeiras de instrução pública. A intenção foi compreender que tipo de influência exerceram na produção de legitimidade para o Grupo.
O Capítulo III versa a respeito das relações entre os rituais públicos57 empreendidos pelo e para o Grupo e a constituição de possibilidades de projeção e reconhecimento sociais para ele. Compõem esse Capítulo análises relativas aos exames públicos, à distribuição de prêmios e certificados, às exposições escolares, às festividades referentes à abertura da matrícula e ao encerramento do ano letivo, às comemorações do aniversário de Ouro Preto, às festas cívicas e à implantação da caixa escolar na instituição. Assim como nos demais Capítulos, na medida do possível, as reflexões a respeito dos rituais públicos do Grupo Escolar foram tecidas em relação a alguns dados produzidos sobre as escolas isoladas.
reconstrução do panorama sobre a instrução primária, da antiga capital de Minas Gerais, nos primeiros vinte anos do século passado, sem, no entanto, explorá-los em profundidade. Embora tais aspectos também componham a chamada cultura escolar, segundo as acepções de André Chervel (1990, 1998), Antonio Vinão Frago (1995) e Dominique Julia (2001), adotadas neste estudo, considerou-se mais pertinente explicar as abordagens daquele conceito na introdução do Capítulo II.
57 Apesar de as concepções de cultura escolar utilizadas neste trabalho possibilitarem a investigação dos rituais
públicos como parte de uma cultura própria da escola, optou-se por construir um capítulo especialmente para interpretá-los, por se considerar que dizem respeito a modos específicos de projeção do Grupo Escolar e das escolas isoladas.
CAPÍTULO I
OS PRIMEIROS PASSOS PARA A CONSTRUÇÃO