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9.5.16. Duraklama ve Park Etme Davranışı
O curso “Em Defesa da Sociedade”, ministrado no Collège de France nos anos de 1975-1976, demarca um ponto de encruzilhada nos estudos foucaultianos. Podemos ver como Foucault tenta compreender fenômenos que se entrecruzam partindo por um lado das análises que se associam com o poder disciplinar e, por outro, das análises que se associam com o biopoder, ou seja, concepções que estão ligadas a uma problemática dos corpos dos indivíduos e concepções ligadas ao fenômeno das populações. Os dispositivos subjetivantes responsáveis por tais construções individualizantes são ora destrinchados por Foucault no seu livro “Vigiar e Punir”, que são os dispositivos disciplinares; ora destrinchados no seu livro “História da Sexualidade: a vontade de saber”, publicado em 1976.
Neste livro de 1976, o filósofo francês nos apresenta o dispositivo da sexualidade, que é responsável pela junção da matriz das disciplinas com a matriz das regulações da população. E é nesse entrecruzamento, nessa encruzilhada, que veremos surgir algo como o racismo de estado e, talvez, mais importante ainda, perceberemos como as tecnologias da anomalia se agregam com o dispositivo de exceção para permitir a eliminação e o extermínio dos indesejados, dos inassimiláveis, dos anormais. As faces do racismo (racismo étnico, sexismo, racismo de classe e racismo contra o anormal) terão sua simbiose consumada no racismo de estado.
A análise de Foucault sobre a política, nas aulas ministradas no curso de 1975-1976 no Collège de France, partiu da problemática sobre o poder que o filósofo concebeu através das genealogias das prisões, dos asilos, dos hospitais, das escolas, etc. Aqui encontramos Foucault novamente voltando ao princípio da problemática sobre o poder que já estava presente nos cursos anteriores. É bom ressaltar que em Foucault não existe uma teoria geral do poder. O que Foucault procura entender é como o poder político se articula. E como já vimos anteriormente, o filósofo assume outra postura de análise perante o poder, pois tenta analisá-lo não a partir da economia como fator preponderante. Para ele existem outros mecanismos que se articulam, se configuram e se desconfiguram para permitir o funcionamento das engrenagens das relações de poder. Foucault afirma que o poder não se dá, nem se troca, nem se retoma, mas que ele se exerce e só existe em ato.
Igualmente o filósofo também afirma que o poder não é, primeiramente, manutenção e recondução das relações econômicas, mas, em si mesmo, uma relação de força.97
Numa primeira premissa conclui-se que “o poder é essencialmente o que reprime. (...) O mecanismo do poder é, fundamental e essencialmente, a repressão” (FOUCAULT, 1999, p. 21).
Num segundo momento, Foucault desloca a análise do poder, que geralmente é feita em termos de cessão, contrato, alienação, em termos funcionais de recondução das relações de produção, para uma análise do poder em termos de combate, de enfrentamento, de guerra. Aqui vemos Foucault retornar ao conceito da guerra como operador analítico para podermos compreender as manifestações de poder dentro da sociedade. E dessa análise Foucault deriva uma segunda premissa que conclui que “o poder é a guerra, é a guerra continuada por outros meios” (FOUCAULT, 1999, p. 22). Aqui Foucault inverte a proposição de Carl Von Clausewitz, general prussiano, que afirmava que “a guerra não é mais que a continuação da política por outros meios; ela ‘não é somente um ato político, mas um verdadeiro instrumento da política [...]” (FOUCAULT, 1999, p. 22). A inversão foucaultiana vai afirmar que a política é a guerra continuada por outros meios. Ou seja, isso significa que o pacto social não é a paz, que o pacto social não estabelece o regime político-jurídico de uma “paz perpétua”. Aqui fazendo uma alusão a Kant (2008). Mas que a política, seu sistema político-jurídico, insere a perspectiva de continuação da guerra por outros meios de maneira silenciosa. Segundo Foucault:
As relações de poder, tais como funcionam numa sociedade como a nossa, têm essencialmente como ponto de ancoragem uma certa relação de força estabelecida em dado momento, historicamente precisável, na guerra e pela guerra. E, se é verdade que o poder político pára a guerra, faz reinar ou tenta fazer reinar uma paz na sociedade civil, não é de modo algum para suspender os efeitos da guerra ou para neutralizar o desequilíbrio que se manifestou na batalha final da guerra. O poder político, nessa hipótese, teria como função reinserir perpetuamente essa relação de força, mediante uma espécie de guerra silenciosa, e de reinseri-la nas instituições, nas desigualdades econômicas, na linguagem, até nos corpos de uns e de outros. Seria, pois, o primeiro sentido a dar a esta inversão do aforismo de Clausewitz: a política é a guerra continuada por outros meios; isto é, a política é a sanção e a recondução do desequilíbrio das forças manifestado na guerra. E a inversão dessa proposição significaria outra coisa também, a saber: no interior dessa ‘paz civil’, as lutas políticas, os enfrentamentos a propósito do poder, com o poder, pelo poder, as modificações das relações de força ‒ acentuações de um lado, reviravoltas, etc. ‒, tudo isso, num sistema político, deveria ser interpretado apenas como as continuações da guerra. E seria para decifrar episódios, fragmentações, deslocamentos da
própria guerra, mesmo quando se escrevesse a história da paz e de suas instituições (FOUCAULT, 1999, p. 22-23).
As duas hipóteses levantadas por Foucault de que o poder seria repressão e a outra de que o poder seria uma relação belicosa precisam ser analisadas com bastante cuidado, porque o próprio filósofo vai colocá-las dentro de outros parâmetros. Para Foucault, o poder não é algo que se partilhe entre aqueles que o têm e que o detêm, e aqueles que não o têm e que são submetidos a ele. O poder não pertence ao Estado ou a alguns grupos sociais. A análise foucaultiana do poder não tem o Estado como ponto de partida.98 De acordo com o filósofo, o poder
deve ser analisado como uma coisa que circula, ou melhor, como uma coisa que só funciona em cadeia. O poder não é uma riqueza ou um bem, não pode ser localizado. O poder funciona. Para Foucault, “o poder se exerce em rede e, nessa rede, não só os indivíduos circulam, mas estão sempre em posição de ser submetidos a esse poder e também de exercê-lo” (FOUCAULT, 1999, p. 35). Completando este pensamento foucaultiano, Machado vai afirmar que o poder não existe, existem práticas ou relações de poder. O poder funciona como uma maquinaria, “como uma máquina social que não está situada em um lugar privilegiado ou exclusivo, mas se dissemina por toda a estrutura social. Não é um objeto, uma coisa, mas uma relação” (MACHADO, 2004, p. 14-15). Portanto, o poder está sempre presente e se exerce como uma multiplicidade de relações de forças.
Desta perspectiva, Foucault extrai a mesma conclusão que encontraremos no seu livro “Vigiar e Punir”, que o indivíduo é um efeito do poder, é fabricado pelo poder. Na mesma medida em que é um efeito seu, é também seu intermediário, o poder transita pelo indivíduo que ele constituiu. “Na realidade, o que faz que um corpo, gestos, discursos, desejos sejam identificados e constituídos como indivíduos, é precisamente isso um dos efeitos primeiros do poder” (FOUCAULT, 1999, p. 35). O poder é produtor de individualidades. E é esta concepção foucaultiana de poder que fará surgir a individualidade anormal, pois é através desta concepção multifacetada do poder, ou seja, o entendimento de que o poder não é algo centralizado no Estado, no soberano, que permitirá compreendermos como as tecnologias disciplinares se desenvolveram como processos de normalização e anormalização.
Como vimos anteriormente nas aulas ministradas no Collège de France, tal perspectiva sobre o poder nos leva a concluir que existe uma convergência entre a produção de saberes e os poderes constituídos que fabricam os indivíduos, pois podemos perceber que os estudos sobre a repressão e a exclusão vão convergindo, na perspectiva de que os indivíduos vão interessando às classes dominadoras através dos seus corpos e do poder que os atravessa. São os mecanismos de exclusão que interessam e produzem certo valor ou riqueza, ou certo saber que gera riqueza; são economicamente lucrativos ou politicamente úteis. Com o desenvolvimento da classe burguesa e sua dominação, surgiram concomitantemente os mecanismos de controle, à exclusão da loucura, à repressão e à proibição da sexualidade infantil, etc. Foucault afirma que o interesse da burguesia, o interesse do sistema, não foi que os loucos fossem excluídos, ou que a masturbação das crianças fosse vigiada e proibida, seu interesse estava voltado para a técnica e o próprio procedimento da exclusão. “Foram os mecanismos de exclusão, foi a aparelhagem de vigilância, foi a medicalização da sexualidade, da loucura, da delinquência, foi tudo isso, isto é, a micromecânica do poder” (FOUCAULT, 1999, p. 38), constituída pela burguesia, a partir de certo momento, que representou um interesse e que interessou a classe burguesa. Segundo o filósofo francês:
(...) Não houve a burguesia que pensou que a loucura deveria ser excluída ou que a sexualidade infantil deveria ser reprimida, mas os mecanismos de exclusão da loucura, os mecanismos de vigilância da sexualidade infantil, a partir de um certo momento, (...) produziram certo lucro econômico, certa utilidade política e, por essa razão, se viram naturalmente colonizados e sustentados por mecanismos globais e, finalmente, pelo sistema do Estado inteiro. (...) Em outras palavras: a burguesia não dá a menor importância aos loucos, mas os procedimentos de exclusão dos loucos produziram, liberaram, a partir do século XIX e mais uma vez segundo certas transformações, um lucro político, eventualmente até certa utilidade econômica, que solidificaram o sistema e o fizeram funcionar no conjunto. A burguesia não se interessa pelos loucos, mas pelo poder que incide sobre os loucos; a burguesia não se interessa pela sexualidade da criança, mas pelo sistema de poder que controla a sexualidade da criança. A burguesia não dá a menor importância aos delinquentes, à punição ou à reinserção deles, que não têm economicamente muito interesse. Em compensação, do conjunto dos mecanismos pelos quais o delinquente é controlado, seguido, punido, reformado, resulta, para a burguesia, um interesse que funciona no interior do sistema econômico-político geral (FOUCAULT, 1999, p. 39).
Coloquemos os fatos numa ordem. Primeiro, temos que o poder é a guerra, é a “guerra continuada por outros meios”. Como conclusão, temos que a política é a guerra, a inversão da proposição de Clausewitz: a política é a guerra continuada por outros meios. Em segundo lugar, temos que o indivíduo é um efeito
do poder, o poder transita pelo indivíduo. O poder não está estritamente relacionado à repressão, ou ao direito e à violência. O indivíduo como efeito do poder está dentro de uma concepção positiva produtiva do mesmo, e não dentro de uma concepção negativa repressiva. O poder produz controle para aperfeiçoar os indivíduos, deixá- los mais produtivos economicamente e mais dóceis politicamente.99 Estas
colocações vão nos levar à teoria foucaultiana da soberania. Foucault deixa claro que “a soberania é a teoria que vai do sujeito para o sujeito, que estabelece a relação política do sujeito com o sujeito” (FOUCAULT, 1999, p. 49). Isso implica que a “teoria da soberania é o ciclo do sujeito ao sujeito, o ciclo do poder e dos poderes, o ciclo da legitimidade e da lei” (FOUCAULT, 1999, p. 50). Mas este não é o campo propriamente percorrido pelo filósofo francês, que deixa de lado o sujeito, a unidade e a lei, elementos de atuação da teoria da soberania, para ressaltar as relações e os operadores de dominação.
Foucault caminha na direção das relações de dominação tentando entender as intersecções entre o poder. Ele se pergunta: como a relação de força pode se resumir a uma relação de guerra? Como os fenômenos de antagonismo, de rivalidade, de enfrentamento, de luta entre indivíduos, ou entre grupos, ou entre classes, podem e devem ser agrupados nesse mecanismo geral, nessa forma geral que é a guerra? É neste ponto que a política e a guerra se cruzam, e uma pode servir-se da outra como meio, ou são a mesma coisa. Este momento histórico Foucault delimita-o quando da formação dos Estados-Nação, nos séculos XVII e XVIII, e isso possibilita o aparecimento de um novo discurso “histórico-político” sobre a sociedade, que difere do anterior filosófico-jurídico. Foucault afirma que esse discurso histórico-político que aparece nesse momento “é, ao mesmo tempo, um discurso sobre a guerra entendida como relação social permanente, como fundamento indelével de todas as relações e de todas as instituições de poder” (FOUCAULT, 1999, p. 56). E esse discurso diz o seguinte:
Contrariamente ao que diz a teoria filosófico-jurídica, o poder político não começa quando cessa a guerra. A organização, a estrutura jurídica do poder, dos Estados, das monarquias, das sociedades, não têm seu princípio no ponto em que cessa o ruído das armas. A guerra não é conjurada. No início, claro, a guerra presidiu ao nascimento dos Estados: o direito, a paz,
99 Vimos no capítulo anterior como isso de fato ocorreu. Foucault nos cursos anterior elaborou
detalhadamente tal perspectiva e no seu livro “Vigiar e Punir”, publicado em 1975, o filósofo sintetiza suas conclusão sobre os corpos dóceis e eficientes. Sobre as faces negativa e positiva do poder, ver MACHADO, 2004, p. 15-16.
as leis nasceram no sangue e na lama das batalhas. Mas com isso não se deve entender batalhas ideais, rivalidades tais como as imaginam os filósofos ou os juristas: não se trata de uma espécie de selvageria teórica. A lei não nasce da natureza, junto das fontes frequentadas pelos primeiros pastores; a lei nasce das batalhas reais, das vitórias, dos massacres, das conquistas que têm sua data e seus heróis de horror; a lei nasce das cidades incendiadas, das terras devastadas; ela nasce com os famosos inocentes que agonizam no dia que está amanhecendo. Mas isto não quer dizer que a sociedade, a lei e o Estado sejam como que o armistício nessas guerras, ou a sanção definitiva das vitórias. A lei não é pacificação, pois, sob a lei, a guerra continua a fazer estragos no interior de todos os mecanismos de poder, mesmo os mais regulares. A guerra é que é o motor das instituições e da ordem: a paz, na menor de suas engrenagens, faz surdamente a guerra. Em outras palavras, cumpre decifrar a guerra sob a paz: a guerra é a cifra mesma da paz. Portanto, estamos em guerra uns contra os outros; uma frente de batalha perpassa a sociedade inteira, contínua e permanentemente, e é essa frente de batalha que coloca cada um de nós num campo ou no outro. Não há sujeito neutro. Somos forçosamente adversários de alguém (FOUCAULT, 1999, p. 58-59, grifo nosso).
Vimos até agora que a melhor forma de expressão das relações de poder dentro da sociedade é através da luta, da guerra que a atravessa, seja silenciosamente pela política ou pelo enfrentamento direto, pelo derramamento de sangue. O deslocamento provocado pelo discurso “histórico-político” apresentado por Foucault remonta aos séculos XVII e XVIII, e principalmente, ao século XIX, no qual o autor encontra tal discurso da “guerra permanente” ligado ao da “guerra das raças”. Segundo o filósofo francês, os elementos fundamentais que constituem a possibilidade da guerra e que lhe garantem a manutenção, o prosseguimento e o desenvolvimento são encontrados muito cedo na sociedade: “diferenças étnicas, diferenças das línguas; diferenças de força, de vigor, de energia e de violência; diferenças de selvageria e de barbáries; a conquista e servidão de uma raça por uma outra” (FOUCAULT, 1999, p. 71). Foucault percebe que a teoria das raças possuem duas transcrições, uma fracamente biológica que opera antes de Darwin, mas que “copia seu discurso, com todos os seus elementos, seus conceitos, seu vocabulário, de uma anátomo-fisiologia materialista” (FOUCAUTL, 1999, p. 71).
Esta teoria é ambígua e se articula com os movimentos das nacionalidades na Europa e também com a luta das nacionalidades contra os grandes aparelhos do Estado. Ela também aparece articulada com a política de colonização europeia. Portanto, a primeira transcrição é biológica. Já a segunda vai operar a partir do grande tema e da teoria da guerra social. Foucault afirma que ela se desenvolve nos primeiros anos do século XIX e “que vai tender a apagar todos os vestígios do conflito de raça para definir-se como uma luta de classe” (FOUCAULT,
1999, p. 72). Estas duas transcrições vão possibilitar o surgimento de duas raças que derivam de uma única raça, uma super-raça e uma sub-raça. O que Foucault tenta mostrar é que através dos enfrentamentos das raças, na teoria do evolucionismo e da luta pela vida, vai se desenvolver um racismo biológico-social, com uma ideia totalmente nova de que a outra raça, que no fundo, não é aquela que veio de outro lugar, não é aquela que, por uns tempos, triunfou e dominou, “mas é aquela que, permanente e continuamente, se infiltra no corpo social, ou melhor, se recria permanentemente no tecido social e a partir dele” (FOUCAULT, 1999, p. 72).
Neste contexto, podemos nos perguntar: que raça é essa? Essa distinção que Foucault percebe no tecido social se dá no próprio corpo social como cesura biológica, entre os próprios indivíduos que são fabricados pelo poder através dos dispositivos disciplinares-normalizadores. A guerra travada na sociedade, aquela que o pacto social não extingue, é a guerra que continuará a ocorrer a partir da norma e dos seus elementos. Ou seja, a outra raça será composta de todos aqueles que não se enquadram na norma, aqueles ditos anormais. A guerra, ou melhor, as guerras são todos os conflitos normalizadores travados pelo sistema disciplina-normalização e envolve todas as instituições de sequestração, bem como todas as tecnologias da anomalia. O processo de dessubjetivação do anormal é o processo de surgimento da sub-raça, da distinção dentro do corpo social de uma raça, de uma classe, de um grupo social mais valorizado socialmente do que outro. Aqui encontramos a convergência entre o racismo contra o anormal, desenvolvido pelas tecnologias da anomalia, e o racismo de estado que vão se cruzar e operacionalizar a eliminação e o extermínio dos desajustados, dos inassimiláveis, dos inimigos do estado, dos anormais, dos Homo Sacer. Para compreendermos melhor, segundo Foucault:
O que vemos como polaridade, como fratura binária na sociedade, não é o enfrentamento de duas raças exteriores uma à outra; é o desdobramento de uma única e mesma raça em uma super-raça e uma sub-raça. Ou ainda: o reaparecimento, a partir de uma raça, de seu próprio passado. (...) Desse modo, vamos ver essa consequência fundamental: esse discurso da luta das raças (...) vai ser recentralizado e tornar-se justamente o discurso do poder, de um poder centrado, centralizado e centralizador; o discurso de um combate que deve ser travado não entre duas raças, mas a partir de uma raça considerada como sendo a verdadeira e a única, aquela que detém o poder e aquela que é titular da norma, contra aqueles que estão fora dessa norma, contra aqueles que constituem outros tantos perigos para o patrimônio biológico. E vamos ver, nesse momento, todos os discursos biológico-racistas sobre a degenerescência, mas também todas as instituições que, no interior do corpo social, vão fazer o discurso da luta das raças funcionar como princípio de eliminação, de segregação e,
finalmente, de normalização da sociedade (FOUCAULT, 1999, p. 72-73, grifo nosso).
É interessante notar que Foucault percebe que o discurso presente na história até este momento desaparecerá. Discurso dirigido contra os inimigos, contra o outro grupo social ou mesmo contra o Estado, suas instituições, a estrutura do poder, que ajudavam aos inimigos na dominação. O que surge é um discurso voltado para a defesa da sociedade “contra todos os perigos biológicos dessa outra raça, dessa sub-raça, dessa contra-raça que estamos, sem querer, constituindo” (FOUCAULT, 1999, p. 73). Para o filósofo, este é o momento em que a temática racista não vai mais parecer ser o instrumento de luta de um grupo social contra um outro, mas vai servir à estratégia global dos conservadorismos sociais. Portanto, segundo Foucault, é neste momento histórico que vai aparecer um racismo de Estado, um racismo que uma sociedade vai exercer sobre ela mesma, sobre os seus próprios elementos, seus próprios indivíduos; “um racismo interno, o da purificação permanente, que será uma das dimensões fundamentais da normalização social” (FOUCAULT, 1999, p. 73, grifo nosso).
O racismo de estado tem suas raízes no discurso histórico-político que Foucault analisa. Este discurso não era predominante na Idade Média. O discurso que predominava era o discurso da soberania. O filósofo francês apresenta a história como um operador, “um intensificador de poder”. O discurso histórico, na “Idade das