No discurso do governo, das categorias de Bajoit (2006a), encontramos apenas a de pobre como Dependente. Em seus textos, os trechos que mais indicam isso são, em ordem de publicação no site:
Exemplo 01: O governo federal intensificará a estratégia de busca ativa para incluir, até o fim deste ano, mais 320 mil famílias extremamente pobres no Cadastro Único para Programais Sociais, a fim de que possam ser beneficiadas pelo Bolsa Família e outras ações (GOV 01, 01-04).
Exemplo 02: A família precisa aderir a esse projeto para receber o recurso financeiro, dividido em três parcelas e usado para organizar a atividade rural, seja na compra de pequenos equipamentos, de animais ou outras necessidades (GOV 02, 36-39).
Exemplo 03: E só o crescimento econômico não dá conta de promover a inclusão. Ela só acontece pela decisão política do governo de estender a essas pessoas o acesso a consumo e desenvolvimento. A grande força do Brasil são os 190 milhões de brasileiros. A população pobre não quer favor, mas sim oportunidade (GOV 03, 13-17). Exemplo 04: Eu falo aqui de uma tarefa que tem de ser a tarefa mais importante dos nossos governos que é a tarefa de resgatar da pobreza, resgatar da extrema pobreza e da miséria milhões e milhões de cidadãos africanos, latino-americanos e caribenhos (…) Nós sabemos que essa é a tarefa mais importante de um governo, que é resgatar para a cidadania, para a condição de consumidor, trabalhador, produtor, cidadão a população dos nossos países (GOV 04, 04-10).
O governo federal, nas notícias publicadas pelo site oficial do Plano Brasil Sem
Miséria, fala de uma chamada “busca ativa”, que seria um mecanismo para incluir no
Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) os brasileiros que vivem em situação de pobreza. Essa busca ativa nos ajuda a entender o modo como o pobre é retratado pelo governo federal, já que se busca aquilo que está perdido ou, pelo menos, longe, excluído.
O primeiro excerto a ser analisado vem através da Assessoria de Comunicação do MDS, transmitindo notícia referente à “busca ativa” ao público, como podemos ver em GOV 01, cujo título é Governo federal pretende localizar 320 mil famílias extremamente pobres
este ano. Neste texto, a voz da ministra do MDS, Tereza Campello, é presentificada
diretamente, e traz a tona excertos que elucidam uma imagem do pobre marginalizado, ou seja, a imagem de quem está fora do seio da sociedade, no discurso do governo. Não só fora do seio da sociedade, este pobre está excluído, em situação de dependência do governo. Em GOV 01, 17-19 encontramos o seguinte excerto: “Essa estratégia é importante porque não só unifica os cadastros, mas complementa a renda”. A apreciação – que é a avaliação de coisas ou objetos (SOUZA, 2011) – valorativa da estratégia pelo item lexical importante empresta ao governo, responsável pela busca ativa, uma imagem positiva. Neste caso, não só há a
apreciação da estratégia, mas, também, o julgamento positivo do governo federal em decorrência de suas ações.
Em outros textos também presentes no site, o governo fala que a busca ativa tem o intuito de resgatar os mais pobres. Partindo desse pressuposto, a construção discursiva da ministra fortalece a imagem do pobre como excluído, como aquele que precisa do governo para conseguir alcançar os serviços básicos. Esta ideia é reforçada em GOV 01, 28-29, quando, novamente, em discurso direto da ministra do MDS, é dito que “No ano passado
[2011], incluímos 1,3 milhão de crianças no Bolsa Família”. Ora, só se inclui o que está fora,
e segundo o governo federal, sem inclusão não há crescimento. Nesse aspecto, a postura do governo ao criar o Bolsa Família já trazia para si a imagem (e a função) de resgatar os pobres miseráveis de suas posições sociais. Ao trazer à tona o número de incluídos, o governo – na voz da ministra – se apresenta como salvador, aquele que provém e, por conseguinte, faz com que os pobres sejam entendidos como aqueles que são incapazes de se incluir não apenas no programa Bolsa Família, mas, participativamente, nas engrenagens da sociedade em que vivem, salvando-os da marginalização, trazendo-os para o seio da sociedade e os prendendo à peça fundamental da economia, com bem afirma a ministra do MDS, representando a voz do
governo federal em “O Brasil ter conseguido tirar milhões de pessoas da pobreza e integrá-las
à classe média é fruto das decisões de um governo preocupado em construir políticas de
inclusão” (GOV 03, 01-03).
Em GOV 02, 07-08, o governo afirma que, “O serviço [Ater] alcança a população extremamente pobre, com renda mensal per capita de até R$ 70”. Se o pobre é alcançado é porque não está nos centros da sociedade, mas marginalizado, distante. Além do uso da palavra alcançar, os dados numéricos, que são amplamente repetidos pelo governo federal, em sua totalidade, reforçam a análise de uma imagem Dependente, amparada em Bajoit (2006a).
Em GOV 03, 06-08, “O Brasil cresce porque inclui. Não precisa esperar o bolo
crescer, pois é incluindo a população mais pobre que se desenvolve”, claramente é afirmado
que o desenvolvimento do país está, de acordo com o governo federal, diretamente ligado à distribuição de renda. Nesse texto, a palavra incluir e suas variações (inclusão, incluindo), que aparecem também no título, são repetidas sete vezes. Este recurso, segundo a Avaliatividade, é chamado de repetição (SOUZA, 2010) e está inserido na categoria de força, por sua vez imersa na Gradação, e é utilizado para chamar a atenção do interlocutor e dar peso, ênfase ao discurso do governo federal. O pobre, dessa forma, é retratado, mais uma vez, como aquele que está fora do núcleo da sociedade, e indica que a imagem que o governo, até aqui, postula dos que vivem na pobreza ou na pobreza extrema é de sujeitos sociais desfavorecidos.
A nosso ver, isso pode se dá pela própria política de governo do Partido dos Trabalhadores, PT, assim como uma possível preocupação com a opinião pública, que pode acusá-lo, como ocorreu em várias situações, de assistencialista ou adjetivos afins. Oportunidade está no campo semântico da economia, como, por exemplo, em “oportunidade
de emprego”, “oportunidade de um bom estudo” etc. Se a intenção nos textos é criar uma
identidade de trabalhador (mesmo que não trabalhe ainda) para o pobre, o governo não pode usar itens como favor, boa vontade etc. De acordo com Vian Jr. (2011), através da linguagem, avaliamos o outro, e uma escolha lexical poderá atribuí-lo uma imagem negativa ou positiva.
Segundo Mancebo (2002), não temos, hoje, uma cultura cuja imagem é coesa e coerente, o que vai ao encontro às afirmações de Hall (2005), que pregam que as identidades não são fixas, que estão em constante movimento.
O Governo Federa tem o entendimento de que a identidade, com o passar do tempo, é mutável, desta maneira, devido ao seu Poder-Influência, contribui para que as imagens do pobre, e, consequentemente, da pobreza, possam ser modificadas. Um exemplo disso é o uso do termo pobreza extrema em lugar de miséria no discurso oficial. Uma vez que o governo quer acabar com este problema social, não seria funcional ficar utilizando uma nomenclatura que, ao longo do tempo, foi adquirindo um revestimento pejorativo. Além disso, no discurso do governo, a transição entre as classes sociais é sempre destacada, como em
A ministra apresentou dados sobre os avanços sociais do Brasil. De 2003 até agora, 28 milhões de pessoas saíram da pobreza e 39,5 milhões entraram na classe média. Com o Brasil Sem Miséria, o governo quer tirar 16,2 milhões de brasileiros da extrema pobreza. As famílias extremamente pobres têm renda mensal de até R$ 70 por pessoa. Ela destacou ainda que o Bolsa Família atende hoje 13,4 milhões de beneficiários e citou o Brasil Carinhoso, que tem a meta de reduzir o número de famílias extremamente pobres com filhos de 0 a 6 anos (GOV
03, 30-38).
Neste último excerto, o governo afirma que, num determinado período de tempo (2003-2012), vinte e oito milhões de pessoas saíram da pobreza e outras quase quarenta milhões entraram na classe média. Antes de qualquer coisa, é possível identificar uma diferença entre os números de saída e entrada, o que deixa subtendido que pessoas que estavam abaixo da linha da pobreza, pelo contexto, ascenderam à classe média. Quanto às escolhas lexicais, há um processo de repetição, uma vez que as palavras concernem ao mesmo campo semântico (mudança, movimento) são postuladas (SOUZA, 2011). Além disso,
é posto que “o governo quer tirar” outros mais de dezesseis milhões de “brasileiros da
extrema pobreza”, e tirar, da forma como está usada, tem sentido de resgatar. Ora, só se resgata quem está preso ou excluído, perdido, e, mesmo que não marcado explicitamente,
avaliar os que vivem em extrema pobreza como presos ou perdidos é uma avaliação negativa daqueles indivíduos. Quem está nesta situação precisa de ajuda, e, neste caso, este indivíduo novamente é pintado como Dependente, de acordo com classificação de Bajoit (2006a).
Podemos dizer, também, que ao falar que milhões de pessoas saíram da pobreza, e dizer, consequentemente, que mais pobres ascenderão, o governo federal, através de sua imagem de salvador, aponta o pobre posto em uma situação de transição, como aquele que irá, cedo ou tarde, mudar de classe social. Os que já saíram da pobreza foram encontrados, amparados. Este pobre que melhorou de vida é retratado como socorrido, os pobres que ascenderão ainda estão excluídos, necessitados e desfavorecidos (sem oportunidades).
A imagem do pobre excluído é fortalecida pelo uso do verbo atender ao falar sobre as famílias que vivem em extrema pobreza que recebem o auxílio do Bolsa Família. Comumente, utilizando este item lexical em situações cujo atendido está em necessidade, por exemplo, um médico atende ao paciente, uma pessoa atende ao telefone (pressupõe-se que quem liga precisa de algo, mesmo que dizer olá), o veículo atende às necessidades do usuário etc. Assim, o governo se apresenta como salvador, aquele que dá atendimento através de um programa social para a população que, sozinha, não consegue sair de sua realidade.
Para concluir, fazendo uma possível alusão ao fato de que o governo federal serviria de modelo e/ou tem coerência/respeito frente a outros países da América Latina, o segundo texto traz a voz do diretor do Instituto Social do Mercosul – ISM, Christian Adel Mirza, no trecho final de GOV 03, 42-46, que diz:
“É preciso discutir a integração não somente do ponto de vista econômico, mas de modo a conciliar com a
agenda social”, disse Mirza, reforçando a discurso da ministra brasileira. “Trata-se de falsa oposição entre
econômico e social.”
Aqui, é notória a intenção de postular que a preocupação com o outro, com os que vivem na pobreza ou na miséria, não é apenas econômica, mas, também e especialmente, social. Ao trazer o presidente do ISM, o governo federal, em seu discurso, concorda com as palavras proferidas pelo senhor Mirza, e postula, claramente, que o Plano Brasil Sem Miséria, que abarca grandes programas nacionais como Bolsa Família, Brasil Carinhoso – que complementa a renda das famílias com crianças de até seis anos – etc., tem um olhar voltado para o social, e não apenas econômico. O pobre, aqui, não é visto apenas como uma engrenagem da máquina econômica, mas como alguém necessitado, alguém que precisa de ajuda, desfavorecido.
Para Fairclough (2008, p. 94), “ideologia são os significados gerados em relações ao poder como dimensão do exercício do poder e da luta pelo poder”. Nessa perspectiva, o governo federal utiliza seu Poder-Influência para impingir uma determinada ideologia, que influenciará na identidade dos pobres. Isso se torna possível porque
os discursos não apenas refletem ou representam entidades e relações sociais, eles as
‘constituem’; diferentes discursos constituem entidades-chaves (sejam eles a ‘doença mental’, a ‘cidadania’ ou o ‘letramento’) de diferentes modos e posicionam
as pessoas de diversas maneiras como sujeitos sociais (idem, p. 22).
Porém, não é porque o governo, por ser, teoricamente, a instituição que detém mais poder no Estado que o indivíduo, neste caso o pobre, não tem autonomia sobre a sua própria identidade, pois “negociar a sua interação social, seus conflitos, suas histórias, suas línguas” (NAVARRO, 2009, p. 52) é uma característica deste indivíduo que, de acordo com Bajoit (2006b), se postula como sujeito ao gerir a sua identidade pessoal.
Pelo Poder-Influência do governo, e pela própria construção discursiva da imagem do pobre, o rosto de Dependente serve, também, para legitimar suas ações, para justificar a sua política assistencialista. Em “O Brasil ter conseguido tirar milhões de pessoas da pobreza e integrá-las à classe média é fruto das decisões de um governo preocupado em construir
políticas de inclusão”, (GOV 03, 01-03) o verbo escolhido para nomear a ação do governo no
auxílio social foi integrar, que seria o ato de incluir, colocar, neste caso, as pessoas pobres na sociedade.
A presidenta Dilma, em GOV 04, 05-10, numa reunião com líderes internacionais,
afirma que “(...) Nós sabemos que essa é a tarefa mais importante de um governo, que é
resgatar para a cidadania, para a condição de consumidor, trabalhador, produtor, cidadão a
população dos nossos países”. Deste excerto, novamente, com a voz direta da maior
representante do governo federal, temos a aparição de resgatar, que indica que estes pobres são Dependentes de uma política que vise a sua inclusão, o seu resgate.
Tarefa significa, na maioria das vezes, um trabalho que se faz por obrigação, como tarefa da escola, tarefas de uma dona de casa, por exemplo. Esta palavra, repetida várias
vezes no discurso da presidenta da república, configura-se como um recurso para aumentar a
força do enunciado, (SOUZA, 2011) e é aqui entendido como a forma com que a Dilma
escolheu para defender a obrigação dos governantes frente a este problema mundial: a pobreza extrema e, concomitante a isso, postular novamente seu compromisso assumido antes mesmo da abertura das urnas.
Ainda em GOV 04, 05-10 a tarefa de “resgatar da pobreza, resgatar da extrema
pobreza e miséria” é caracterizada como “mais importante”, o que, analisado pelo processo de
nominalização que, segundo a Avaliatividade, faz parte do sistema de Atitude (MARTIN; WHITE, 2005), expressa uma apreciação positiva ao elemento que modifica, ou seja, o
escopo de “mais importante” recai sobre “resgatar” e dá especial ênfase à atitude
governamental, a responsabilidade do governo. A Repetição do verbo resgatar sugere que as
pessoas foram ‘perdidas’ e que é dever dos governos encontrar essas pessoas perdidas e
auxiliá-las, dando-lhes condições para se encontrarem. A estratégia discursiva leva o leitor a entender que o governo brasileiro aqui se apresenta como um dos que estão trabalhando para isso e se propõe a trazer de volta ao seio da sociedade os que vivem na extrema pobreza e estão excluídos da sociedade.
Ainda sobre a repetição de palavras, outra que é repetida no discurso da presidenta (GOV 04, 13-15) é “possível”, que representa um processo de Focalização, de acordo com a Avaliatividade, servindo para reforçar a ideia a ser passada. Com isso, o interlocutor, que está recebendo influência do que Bajoit (2006b) chama de Poder-influência, é levado a crer na mudança social proposta por Dilma Rousseff, que, além de tudo, faz menção à melhoria da economia com o desenvolvimento dos três setores que seriam beneficiados pela ascensão do que ela trata como “os mais pobres”.
Por falar em poder, não é preciso dissertar sobre a importância do governo federal para o país, ou sobre o alcance que seu discurso tem na sociedade brasileira e mundial. Por essa razão, é importante se ater ao que os órgãos oficiais dizem pelo fato deles terem a capacidade de modificar a identidade coletiva dos que vivem na pobreza, pois, ao tratá-los, como já questionado, através de números, o que causa generalização, o governo, ao generalizar o alcance, ou seja, ao dizer que está ajudando ‘todos’ os que vivem na pobreza de forma tão eficiente pode, em certa medida, impedir que algumas relações sociais se estabeleçam.
Dessa maneira, por exemplo, de acordo com Bajoit (2006b), a insatisfação pode gerar comoção, portanto, essa estratégia do governo de elencar todas as suas ações positivas sem apontar as dificuldades como fator determinante lhe serve de escudo, e além de igualar os que vivem em situação de pobreza para as demais classes sociais, faz com que os pobres, caso tenham acesso a esse discurso, tenham a escolha de esperar pelas ações do governo ao invés de promoverem uma organização e possíveis protestos, só para ilustrar.
No último parágrafo de GOV 04 há, novamente, a utilização do recurso de repetição, subcategoria de foco. No entanto, a repetição, aqui, se dá não pelo mesmo item lexical, mas
pelo campo semântico da mudança social em “mudam” e “transformam”. É importante ver,
ainda, que esta mudança se dá não apenas pelo governo, mas por todas as pessoas, que nos
“lugares certos e na hora certa” essa mudança acontecerá. Com isso, a pessoa mais poderosa
da nação divide, de certa forma, seu poder (e sua responsabilidade), o que percebemos, aqui, discursivamente pela utilização de mais recursos de apreciação que valorizam os elementos
do discurso, como a repetição de “certo/certa”, vinculados respectivamente a “lugares” e “hora”.
Além disso, podemos retomar o excerto “O Brasil cresce porque inclui. Não precisa esperar o bolo crescer, pois é incluindo a população mais pobre que se desenvolve” (GOV 03,
06-08), pois, além de ser mostrado como excluído, o pobre é retratado como desfavorecido,
pois “não tem autonomia e não tem sucesso, porque não tem capital social suficiente” (idem).
Ambas as classificações denotam um pobre Dependente.
Na tentativa de amenizar esta ideia que o governo transmite acerca dos menos abastados, a ministra Tereza Campello afirma que “A população pobre não quer favor, mas
sim oportunidade” (GOV 03, 17.). Neste trecho, a ministra utiliza a palavra oportunidade em
oposição a favor. Este recurso traz significações diferentes, mais positivas, pois empresta uma imagem menos passiva ao pobre, que, ao mesmo tempo, é Dependente, já que quem vive na pobreza, mas busca, ou está a espera, de oportunidades que o permitam fazer seu próprio destino. Assim, por inferência, o pobre é descrito como desfavorecido, que não teve oportunidades, ao invés de acomodado, inerte. Aqui, a dependência do pobre é reafirmada,
mas amenizada pela escolha lexical ‘oportunidade’.
Como pudemos perceber, a todo o momento o governo trata o pobre como alguém que está distante, mostra-o através de números e generalizações, isto, como dito, reforça a visão de Dependente que o pobre tem segundo o governo federal. A voz do pobre é omitida nos textos do governo, mesmo que levemos em conta a proposta do veículo de onde as notícias foram colhidas, que era a de mostrar as ações do governo no tocante ao combate à fome e à pobreza.
Em seu discurso, além de classificar o pobre como Dependente, o governo deixa claro que, sendo o salvador, suas ações não visam só à melhoria na vida dos que vivem na pobreza, mas na economia do país, evidenciado, por exemplo, em GOV 02, 47-50. A partir disso, vemos que a relação entre a pobreza e a estrutura econômica do país é bem estreita. Na concepção de pobreza, temos o entendimento de incapacidade econômica e a solução a ser dada para se erradicar a pobreza está vinculada à capacidade de o sujeito social pobre poder auxiliar na movimentação econômica do país.
No entanto, devemos considerar também que não é apenas pensando na economia e na sua imagem que o governo promove as notícias sobre o combate à pobreza. Percebemos, em GOV 01, a preocupação em evidenciar a necessidade de se criar outros mecanismos de
‘resgate’ social, uma vez que, pressupõe-se, o Bolsa Família, sozinho, não é suficiente. O
governo fala, no primeiro texto, que no ano passado, 2011, “407 mil famílias em situação de
pobreza extrema foram localizadas pela busca ativa e incluídas no Cadastro Único para receber o Bolsa Família” (GOV 01, 45-47), então, se o programa fosse suficiente, não
haveria a necessidade da criação do Plano Brasil Sem Miséria.
Na tentativa de sintetizar o discurso do governo feral, podemos citar, por exemplo, GOV 01, onde a imagem do pobre é reconstruída, não a imagem do pobre para o discurso governamental, mas a imagem tida como estereotipada do pobre, ou melhor, a principal ou mais evidente identidade emprestada ao pobre pela sociedade, pois se as pessoas foram localizadas é porque estavam perdidas, excluídas, e avaliar uma pessoa ou um grupo desta maneira elucida um afeto negativo, mas, ao mesmo tempo, remove as significações da pobreza e ela passa a representar não uma classe social abandonada, mas resgatada, localizada, amparada, descoberta não só pelo governo federal, mas por diversos setores da sociedade.
Desse modo, é possível afirmar, de acordo com o Sistema de Avaliatividade, que as escolhas feitas pelo governo para retratar o pobre caracterizam os que vivem em situação de