• Sonuç bulunamadı

Pensando na importância de se analisar o discurso sobre a pobreza extrema por meio da ACD, os pesquisadores María Laura Pardo (Argentina), Lésmer Montecino Soto (Chile) e Neyla Pardo (Colômbia), todos de renome teórico na América Latina, se reuniram e, em meados da primeira década de 2000, fundaram a Rede Larino-Americana de Análise de Discurso Crítica sobre a Pobreza Extrema, a RedLad. Atualmente, os seguintes países possuem representantes na RedLad: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Espanha e Venezuela (REDLAD COLÔMBIA, 2012).

De acordo com Pardo (2011), presidente da RedLad,

la pobreza es un hecho social de gran significado en América Latina, particularmente cuando se articula a dos fenómenos: los altos índices de exclusión social y simbólica, y el ocultamiento de esta exclusión en el Discurso mediático e institucional con las consecuentes implicaciones socioculturales, políticas y económicas que tienen sobre un sector poblacional amplio y heterogéneo.

Além de pesquisas em ACD, existem grupos da Escola Francesa de Análise do Discurso, liderado por Maria José Coracini, que se preocupam em estudar o discurso sobre a pobreza. A professora Coracini coordena o grupo de pesquisa "Vozes (In)fames: identidade e resistência", inscrito no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, que, por sua vez, participa da RedLad (CORACINI, 2011).

As pesquisas que mais despontam na RedLad são as de María Laura Pardo, que desenvolve análises sobre o discurso das pessoas em situação de rua em Buenos Aires; Lésmer Montecino Soto, professor da Pontificia Universidad Católica de Chile, que pesquisa o discurso sobre a pobreza em ambientes virtuais (YouTube, por exemplo); Neyla Pardo Abril, que tem suas pesquisas voltadas para a manifestação do discurso sobre a pobreza nos meios de mídia de massa; e Mariluz Domínguez Torres, professora titular da Escuela de

Letras de la Universidad del Zulia (VENEZUELA), responsável pelo projeto Lenguaje, género y etnicidad, na mesma instituição, que aborda questões relativas à pobreza e gênero,

por exemplo.

A RedLad organiza bienalmente eventos nos quais os pesquisadores veiculados discutem suas pesquisas e, inclusive, se reúnem com membros da sociedade civil organizada para discutirem políticas de apoio aos que vivem em situação de pobreza extrema. No Brasil,

as pesquisas, lideradas, atualmente, pela professora Denize Elena da Silva (UnB), enfatizam os moradores de rua.

No último evento realizado pela Rede, o VII Colóquio Internacional da RedLad: Contextos de Exclusão e Resistência na América latina, participamos contribuindo com as primeiras pesquisas desta dissertação, por meio do artigo intitulado Abordagem sociológica e

comunicacional do discurso (ASCD): a pobreza segundo o Governo Federal, publicado no

Caderno de Linguagens e Sociedade (L&S), v. 14, nº especial (abril, 2013).

Ademais, não só esta dissertação, mas igualmente o trabalho do doutorando Silvio Luis da Silva sobre o discurso do trabalho escravo, também sob orientação da profa. Dra. Cleide Emília Faye Pedrosa, e consequentemente inserido no mesmo projeto de pesquisa deste nosso trabalho, inclui a UFRN neste cenário, dividindo o compromisso de se utilizar da ASCD como aporte teórico para se estudar o discurso sobre a pobreza e a exclusão social causada por ela.

No Brasil, as pesquisas que utilizam ACD, método-teoria, para análise de discurso sobre a pobreza são baseadas, quando informadas, em Fairclough (2006). O principal grupo, coordenado pela Professora Denize Elena Garcia da Silva, da UNB, é intitulado Grupo Brasileiro de Estudos de Discurso, Pobreza e Identidades. Segundo Silva (2011, p. 14), este grupo “tem-se multiplicado através de projetos desenvolvidos em diversas instituições de ensino superior e, o que mais cabe ressaltar, colabora na formação de pesquisadores oriundos

de diversas regiões brasileiras”. O grupo enfoca a pobreza na mídia jornalística, nos

documentos legais e, ainda, na representação das pessoas que vivem em situação de rua, e é vinculado à RedLad. Além disso, apresenta várias publicações, sobretudo no periódico

Linguagem & Sociedade, da mesma instituição.

Fora as pesquisas na grande área da linguagem, há vários trabalhos que visam a entender e criar aparato para a extinção ou amenização da pobreza e/ou para a melhoria da qualidade de vida dos que vivem em situação precária. São trabalhos que vão desde a área das Ciências Sociais até as pesquisas da área de saúde e Economia, o que mostra que, sem dúvida, a pobreza e a pobreza extrema precisam ser estudadas pela academia em suas diversas áreas do conhecimento.

Quanto aos trabalhos específicos sobre discurso em pobreza, não podemos deixar de citar a dissertação O Jornal Aurora da Rua e o Protagonismo na Situação de Rua: Um Estudo

Discursivo Crítico, defendida em 2013, de Gersiney Pablo Santos – UnB, orientando de

capas de ‘street papers’, tipos de publicações artesanais que circulam em ambientes populares

urbanos.

Podemos citar também o trabalho de Marcia Sanocki Stormowski – UFRGS, da área de Filosofia e História, que se preocupa analisar o discurso (por meio de outro viés teórico) da pobreza nas década de 1950; sua dissertação, de 2011, tem por título Interpretações sobre

Pobreza na Época do Desenvolvimentismo: Análise dos Discursos de Vargas e JK.

E também podemos destacar o trabalho de Kelly Cristina de Almeida Moreira – UnB, orientanda de doutorado da professora Denize Elena da Silva, que aborda As

Representações Discursivas de Adolescentes em Situação de Rua, e que também se vale da

Linguística Sistêmico-Funcional para auferir a materialidade linguística para a ACD. Além disso, os integrantes da RedLad publicam em periódicos nacionais e internacionais.

Como podemos perceber, o tema ‘pobreza’, ou melhor, ‘o discurso sobre a pobreza’,

é amplo e presente em diversas áreas do conhecimento. Nosso trabalho tem por diferencial, além de trazer um aporte teórico novo, que valoriza o olhar sobre o sujeito discursivo, apresentar categorias de como o pobre é representado pelo outro.

Além da temática, é importante, também, destacar os trabalhos em ASCD. Apensar de um viés novo dentro da ACD, esta abordagem já produziu alguns trabalhos relevantes a exemplo não só dos textos de Pedrosa (2012a, 2012b, 2012c), que servem como base deste trabalho, mas a dissertação de Letícia Abella (2013), intitulada O DISCURSO DOS

TUITEIROS: UMA ANÁLISE CRÍTICA DA CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA COLETIVA E DO EMPODERAMENTO CIDADÃO, além de artigos e publicações de todo o grupo

4 ROSTOS DA POBREZA EM DISCURSOS

A pobreza antes era considerada obra de injustiça. O mundo moderno considera a pobreza incapacidade.

- Eduardo Galeano

Neste capítulo, enfim, analisaremos os excertos dos textos selecionados nos determinados locus que nos ajudarão a entender o discurso do governo federal, da Veja e da CUFA acerca dos que vivem na pobreza e na pobreza extrema, baseados nos rostos da

pobreza de Bajoit (2006a). Para tanto, o dividiremos em três grandes partes, que

contemplarão cada uma das instituições das quais foram coletados o corpus. Baseamo-nos nas categorias apresentadas em Bajoit (idem), que proporcionaram as primeiras análises. No entanto, a partir delas encontramos outras categorias, que nomeamos a partir da própria análise. Não queremos, desta maneira, propor uma nova classificação ou taxar de vagas as apresentadas por Bajoit (idem), apenas buscamos enriquecer através de uma análise micro a partir das macros oferecidas pelo sociólogo belga. Durante as análises, as ‘novas’ categorias serão explicadas, uma vez que não fazem parte de nenhuma das referências consultadas para este trabalho. Ademais, como consta na metodologia, é importante lembrar que analisaremos apenas os excertos, uma vez que os textos completos encontram-se nos anexos. Como recurso metodológico, apresentaremos os exemplos mais latentes20 de cada macrocategoria encontrados nos textos em análise e como são, de fato, exemplos, podemos não seguir a ordem dos mesmos.

Antes de passarmos às análises propriamente ditas, é importante fazermos uma pequena ponderação sobre o pobre como Dependente.

Bajoit (2006a) chama de Marginal o pobre que é referenciado pelos estudos sociológicos como aquele que vive distante dos grandes centros, à margem do seio da sociedade. Esses indivíduos não têm acesso aos meios de consumo – tanto os culturais quanto os materiais. O teórico belga afirma ainda que os que vivem em situação de marginalização

têm uma “subcultura”, que seria uma cultura inferior. Basicamente, Marginal, ou quem vive

em situação de marginalização, é aquele que vive longe dos serviços públicos de qualidade,

20

Os exemplos dão uma amostra do texto de onde foram coletados. As análises, logo, não se focarão necessáriamente nestes exemplos, mas no texto como um todo. A nossa intenção, com esta medida, é didatizar a análise, e salientamos que, caso haja necessidade, os textos completos podem ser lidos nos anexos.

podendo ser numa favela ou em um interior longínquo. No entanto, como enquadrado nos EC,

não podemos aceitar o termo bajoitiano “subcultura” por entendermos que não existe cultura

superior a outra.

Além disso, pode haver uma confusão ou uma relação sinonímica entre os termos

“marginal” e “dependente”, uma vez que ambos visam a definir o pobre que não pertence ao

seio da sociedade, que está longe dos serviços básicos. Ademais, o texto de Bajoit (2006a) não parece ser muito pretensioso na criação de categorias para os pobres, haja vista ser curto e não apresentar referências objetivas. Dessa forma, por questões metodológicas, visando ao cumprimento dos objetivos deste trabalho, vimos, durante as análises, que era possível mesclar as duas categorias, uma vez que o Marginal, independente do motivo e do sentido original atribuído por Bajoit (2006a) é Dependente.

Assim, ser Dependente, no nosso entendimento, é necessitar da ajuda do governo e da sociedade civil organizada para sair da condição de pobreza e ter acesso aos bens básicos para a sua sobrevivência, sendo, em primeiro lugar, comida e água, chegando até o lazer, direito de todo cidadão. Este rosto agrega, também, o delinquente, o provedor de mão de obra, o batalhador, o desfavorecido e todas as outras subcategorias que encontramos, além de subcategorias que não foram encontramos ou não existem nos textos selecionados, mas que podem existir em outros textos ou contextos.

A categoria Explorado foi mantida independente a Dependente, pois, apesar dele também ser dependente em certas questões, o sociólogo Bajoit (2006a) diferencia. Além disso, a condição de exploração empresta uma imagem mais pesada ao pobre do que a de apenas dependência. Por esta razão, dizer que um indivíduo ou um grupo de indivíduos é explorado faz com que o discurso sobre a luta de classes seja evidenciado, o que não se repete no caso do pobre como Dependente.

Benzer Belgeler