Como filha, Luna se percebe como uma criança triste, já que os pais preferiam a
irmã, chegando a fazê-la assumir a culpa por peraltices cometidas por aquela. Além
disso, teria sido vítima de violência psicológica, em função do alcoolismo paterno que,
quando estava bêbado, costumava agredir verbalmente a todos da família. Era vítima
também da rigidez da mãe. A única pessoa que teria lhe dado alguma sensação de ser
protegida em sua infância, era sua avó.
Outra questão a se destacar mais interessante diz respeito ao fato que até os dias de hoje sua forma de ser filha nada mudou. A forma como teme os questionamentos que
sua mãe faz sobre todos os aspectos de sua vida, a dependência que parece ter do pai,
inclusive para ajudá-la a cuidar de seu filho mais “problemático”. Essa dependência
pode ser percebida concretamente, pois a casa onde mora fica no mesmo terreno da de
seus pais e é de propriedade deles.
O discurso dessa mulher teve, ao longo de todos os encontros, esse tom
poliqueixoso, de uma criança carente, que se torna dependente de quem lhe dá alguma
atenção.
mulher a passagem, a mudança de objeto amoroso da mãe para o pai, torna essa
vivência mais complexa; para ela em particular, esse momento foi mais difícil ainda.
Poder-se-ia dizer que ela se perdeu nesse “caminho”, pois percebe a mãe como hostil,
mas não pode eleger o pai como objeto de amor, dado seu alcoolismo e sua agressividade verbal. Diante disso, ela ficou presa nesse lugar e como filha agüenta tudo
calada, ou seja, não se defende, ocupando um lugar de menina comportada, obediente,
de vítima e, já que não se defende, precisa de outro para defendê-la, salvá-la é uma vida
depositada no desejo do outro. É como se ela ainda se perguntasse: “O que meus pais
querem de mim?” Existe uma dificuldade de formular o próprio desejo.
A dimensão da esposa torna-se prejudicada pelo fato de estar ainda muito
aprisionada à condição de filha, ela não sabe como eleger um objeto de amor, já que
possui dificuldades de formular o próprio desejo, ela não sabe se quer esse homem de
carne e osso, com quem convive ou se quer outros, talvez as duas coisas ao mesmo
tempo.
Um outro aspecto que evidencia a dificuldade de viver seu casamento são as dúvidas que apresenta sobre o que fazer quanto ao local que reside: não sabe se reforma
a casa onde mora, uma casa que não é dela, mas de seus pais. Atualmente fixou
residência “no lugar de filha”, mas ela intui que esse lugar não é garantido e nem
seguro. Ela diz que, quando seus pais falecerem, poderá haver uma nova divisão de bens
e ela ser despejada (“despejada do lugar de filha”). Outra saída seria mudar-se, mas,
para isso, precisa assumir um projeto de vida com seu atual companheiro por quem diz
não ter mais desejos. Mas aqui, parece importante ressaltar, que a sua dificuldade de
amadurecer e construir um relacionamento conjugal. Ela propõe também uma terceira
que poderá ganhar da Prefeitura e que ficaria no nome dela. Aqui se delineia um esboço
do próprio desejo.
Como ocupar o lugar de mãe, estando aprisionada à condição de filha e
assumindo tão precariamente a condição de esposa, com dificuldades para viver a sua sexualidade de forma adulta, talvez por isso demonstre tanto distanciamento afetivo em
relação à filha e mantém com ela uma relação horizontalizada, por exemplo: “eu queria
morar longe da minha mãe, assim como a minha filha mora de mim”. De uma forma
diferenciada, ela também possui um relacionamento distante dos homens de sua casa,
ela diz que não é uma pessoa de beijos e abraços, ou seja, de demonstração de carinho.
Sua palavra para os filhos é uma palavra vazia, parecido a um texto decorado, o que ela
acredita ser o mais adequado ao seu papel, pois de fato ela não está integrada a ele
Quanto à filha e ao filho mais velho, ainda tiveram alguma referência paterna,
mas Dimas não, ele ficou sendo apenas filho da mãe, o “problemático”, que cumpriu
Medida Sócio-Educativa e é usuário de drogas, cujo pai biológico não assumiu a
paternidade e seu companheiro se responsabiliza apenas em parte.
A relação dessa mãe com Dimas não parece ser entre mãe e filho, mas entre
iguais, não há hierarquia, parece ser uma relação geradora de culpa, de sensação de
aprisionamento. Sendo assim, existe uma grande dificuldade dessa mãe dar algum limite
para o filho, já que o limite pressupõe a referida hierarquia. Na verdade, ela parece presa
a uma armadilha da qual ela necessitaria de um terceiro que viesse ao seu socorro, mas
ela não permite a entrada do Nome do Pai de forma alguma, ela nem comenta sobre o
processo de cumprimento da Medida Sócio-Educativa ou é lacônica a este respeito. Ela
se refere à Justiça dizendo que o Juiz foi indiferente aos seus apelos, o promotor a
encontros, mesmo quando fala de sua família o faz de forma auto-referente.
Poder-se-ia fazer uma analogia em que Juiz /papai foi indiferente aos meus
apelos, o promotor/mamãe me culpou e o CAPS/ homens não me satisfazem, não me
salvam.
A forma como essa mulher é remetida ao Nome do Pai parece frágil, ela passou
a infância engolindo as palavras destrutivas do pai e aguentando, calada, as constantes
críticas da mãe, desse modo, não teve como contestar seus objetos primordiais, eles
ainda a determinam, aprisionam-na. Suas possibilidades de realização pessoal ficam no
terreno da fantasia: desejar, de fato, um homem que não seja seu marido, ter uma
profissão (enfermeiro- cuidar de alguém de forma voluntária e remunerada, e não de
graça e obrigatória, como faz uma mãe), morar em sua própria casa, sozinha.