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Inicialmente eu desejava entrevistar moradores do Cria-ú que tivessem mais de 50 anos de idade por considerá-los (as) pessoas de referência na cultura da comunidade. Durante a primeira visita que fiz ao Quilombo, escutei dos idosos que a maioria de seus (uas) conterrâneos (as) mais velhos “acabaram-se todos”, ou seja faleceram. Constatei que na atualidade, o Cria-ú tem um conjunto de crianças, jovens e adultos com menos de 50 anos muito superior aos moradores acima dessa idade. Embora tenha pessoas como a moradora mais antiga Sra. Marcelina Eugenia do Rosário, nascida em 30.06.1912 , completou no mês de julho de 2010, 98 anos, e infelizmente, faleceu no dia 19.09.2010 desse mesmo ano, são poucas.

Por isso, precisei redefinir o grupo etário da pesquisa, que foi composto por informantes de idade cronológica a partir de 40 anos, se estendendo até 90. As únicas exceções foram a Sra. Lescione Menezes da Silva, nascida em 25.01.1974, por ser a

„Curandeira‟3

mais nova dentro da Comunidade do Cria-ú. Leci, como é conhecida pela comunidade, mora no Cria-ú de Cima e é filha de Dona Rossilda, curandeira, parteira e benzedeira que mora no Cria-ú de Baixo. Por Leci assumir um lugar relevante no tratamento espiritual e cura da saúde das pessoas que lhe procuram de dentro e de fora da comunidade, praticamente substituindo sua mãe que já não trabalha com os processos de cura com a mesma recorrência. Considerei importante conversar com ela porque é a sucessora de sua genitora. Dona Rossilda que chega mesmo a dizer que não faz mais trabalhos espirituais que demandam muito esforço, só que na verdade ainda realiza esses trabalhos para algumas pessoas reservadamente. Ela mesma indicou sua filha para ser entrevistada.

Considerei indispensável conversar e registrar o depoimento de Lescione sobre o Quilombo. E por ela trabalhar diferente como mencionou sua mãe que nos disse: a Leci trabalha diferente. Perguntei como assim diferente Dona Rossilda? Ela respondeu: “não trabalha assim como eu com incorporação”. Perguntei novamente, como ela trabalha então? Ela respondeu novamente: “com vidência apenas olhando e conversando com as pessoas”.

Após a conversa com a Dona Rossilda, fui a residência da Leci na companhia de minha irmã que recebeu-nos com toda cordialidade e bem querer. Abriu sua casa “porta a

dentro” para nos receber. Socorro Lino iniciou a conversa por ser sua madrinha e explicou o

motivo de nossa visita. Leci escutou-nos atentamente e disse ser tímida, ter vergonha de falar e principalmente ser filmada. Mesmo embarreirada por sua timidez concordou. Dissemos a ela que eu passaria em nova data para combinar o dia da filmagem. Conversamos por mais uma hora aproximadamente e na oportunidade indaguei sobre seu trabalho mediúnico. Ela nos respondeu que joga cartas e búzios, prepara remédios e que atende todos os dias em sua residência mesmo.

A outra exceção é o Alexandre do Rosário Silva, nascido em 05.04.1990, neto e filho de criação de Dona Marcelina, curandeira mais idosa dentro do Quilombo do Cria-ú. Considerei relevante escutar do Alexandre porque a Comunidade do Criaú vem sofrendo com índice de violência física entre seus moradores, principalmente os jovens e entre eles os homens. Escutá-lo, poderia ajudar a cercarmos o problema e procurarmos compreender seus

3 Pessoa que possui poderes mediúnicos para cuidar espiritualmente de quem necessitar. É o mesmo que

motivos e quiçá ajudar propositivamente esta comunidade a encontrar caminhos para combater a situação.

Sei que todas as vozes que se cruzaram e se completaram na tessitura desta tese são de pessoas que possuem as lembranças do Quilombo e suas transformações ao longo dos anos acesa em suas memórias. Em suas falas percebi a referência e o respeito pelos ensinamentos que acumularam ao longo de suas vidas, que frequentemente davam-se pela oralidade e também pela observação e pelo silêncio (escutar sem interferir na conversa).

A educação pelo silêncio se apresenta referendada quando dizem:

Não sei o porquê. Quando eu me entendi já achei assim. Os (as) velhos (as), os (as) antigos (as) falavam (incluindo pais, avós e pessoas idosas da comunidade) e ninguém questionava eles (as). Ia seguindo aquilo ali sem questionar com eles (as). No nosso tempo era assim. Hoje tá tudo mudado. Ninguém respeita mais ninguém... (Essa fala foi recorrente em todas as pessoas idosas da comunidade)

Adotei como encaminhamento na conversa prévia, explicar pormenorizadamente sobre a pesquisa e seus objetivos aos possíveis informantes. Esse procedimento além de positivo é indispensável para que se faça investigação com seres humanos. As pessoas devem saber sobre O que é? Por quê? E Como? Quais objetivos e desdobramentos que se pretende? Riscos e se concordarem e estiverem dispostas a participar devem dar autorização por escrito em Termo Livre Esclarecido sobre a pesquisa que se pretende realizar.

Os (as) informantes devem participar de livre e espontânea vontade até o momento que desejarem. Cada interlocultor (a) é livre para sair a qualquer momento do trabalho e sua decisão deve ser acatada e respeitada pelo (a) pesquisador (a). Deixei todas as informações claras o suficiente e a possibilidade de perguntarem sobre o que desejassem se tivessem ou viessem a ter dúvidas sobre qualquer procedimento ou ocorrido dentro da pesquisa.

Após os interlocutores da pesquisa receberem todos os esclarecimentos sobre o seu desenvolvimento, alguns (mas) falaram prontamente, querer participar da investigação e que a entrevista registrada em vídeo poderia ser naquele exato momento. Outros (as) por timidez disseram: “eu não sei nada sobre a história do Cria-ú” e indicaram outras pessoas para a entrevista e algumas delas eram as mais idosas do Quilombo.

Após as pessoas tímidas escutarem que sabem muitas coisas importantes sobre a comunidade, sobre o Batuque, sobre tudo que existe em seu cotidiano por que são parte de tudo isso e, portanto, possuem vasto conhecimento sobre sua história e cultura local. Foram

convencidos (as) a dizerem o “pouco que sabem”, que para nós é um conhecimento rico e imenso, sobre a comunidade e sua história.

Fiquei sabendo através da investigação que as pessoas antigas de 60 anos em diante dentro do Cria-ú são poucas. O Quilombo do Cria-ú está perdendo seus (uas) idosos (as). Muitos (as) já estão em outro plano espiritual. Em relação á perda desse conjunto de pessoas, os autores (HAPÂMTÉ BÂ, 1997; KARASCH, 2000; SANTOS, 2006) em suas problematizações dão visibilidade à urgência que precisamos ter para não deixarmos escapar para sempre a oportunidade de escutarmos e registrarmos a voz da sabedoria e experiência do vivido da população idosa em todos os lugares.

Sei que a qualquer momento os (as) idosos (as) podem falecer e se não documentarmos os conhecimentos que possuem, levarão consigo capítulos guardados em suas memórias de uma história do vivido, sentido e por isso escritas vivas em seus corpos, alimentadas por suas lembranças que precisamos salvaguardar mesmo que seja na frieza das letras de um livro, que para nós jamais serão mortas, porque falam de vida, entrelaçadas com a nossa vida, anunciando vidas, de vidas e vidas que se formarão porque sempre se farão vivas.

Tive a preocupação de dizer aos meus informantes que o registro audiovisual e fotográfico seriam necessários para a salvaguarda das informações e desdobramentos pretendidos com o material que posteriormente comporia o banco de informações sobre a comunidade do Cria-ú dentro da Escola Estadual José Bonifácio.

Realizei o registro de imagens, depoimentos, festas e cotidiano do Cria-ú para que o acervo servisse após edição para o trabalho didático-pedagógico dos (as) professores (as) na escola da comunidade e demais escolas da rede estadual, municipal e particulares de ensino no Amapá. E também para que os educandos e pessoas que buscam informações sobre a história e cultura do Quilombo do Cria-ú, tenham acesso a esses registros. Para que essa inicitiva se concretize é necessário sua catalogação como acervo histórico sobre o território quilombola do Cria-ú.

Durante o desenvolvimento da pesquisa-intervenção fiz o exercício de escutar atentamente as pessoas que compõem os dois lócus de pesquisa. Primeiro, a comunidade do Quilombo do Cria-ú e o segundo os segmentos da Escola Estadual José Bonifácio para que a comunidade escolar durante os encontros de formação, fosse instruída a valorizar a história e a cultura local como material didático-pedagógico e portanto, como ponto de partida para a Implementação da Lei nº 10.639/03 na escola.

A memória de quatorze interlocutores do Cria-ú de Cima e de Fora e nove informantes do Cria-ú de Baixo e de Dentro trouxe de volta fatos e acontecimentos relevantes sobre a trajetória de vida da comunidade do Cria-ú. Estas memórias foram anunciadas pelas vozes de:

MORADORES (AS) DO CRIA-Ú DE CIMA E DE FORA

NOME SEXO DATA DE

NASCIMENTO Alexandre do Rosário Silva (neto de Dona

Marcelina) Masculino 05.04.1990

Esmeraldina dos Santos Feminino 11.01.1955

Francisca Ramos dos Santos (Tia Chiquinha) Feminino 26.06.1920

José Clarindo dos Santos (Seu Zé) Masculino 30.07.1919

Joaquim Paulo do Amaral, Seu Birrinha (filho

de Dona Marcelina) Masculino 27.05.1946

Joaquim Lourival de Abreu, funcionário da

escola da comunidade Masculino 27.08.1967

Joaquim Araújo da Paixão Masculino 09.02.1943

Joaquim Assunção Ramos – Sr. Chuteira filho

de Dona Marcelina Masculino 05.08.1930

Lescione Menezes da Silva Masculino 25.01.1974

Marcelina Eugênia do Rosário Feminino 30.06.1912

Maria Oliveira da Paixão Feminino 01.08.1924

Maria do Carmo dos Santos Feminino 01.05.1954

Pedro do Rosário dos Santos, conhecido como

Pedro Bolão Masculino 03.10.1960

Rosinaldo Menezes Silva - M. Silva (Artista

Plástico do Cria-ú) Masculino 11.11.1973

MORADORES (AS) DO CRIA-Ú DE BAIXO E DE DENTRO

NOME SEXO DATA DE

NASCIMENTO Ângela Maria dos Santos Luz - esposa do Tio

Duca Feminino 04.11.1959

Francisco Silvano da Silva (Seu Chico) Masculino 09.02.1933

Gonçalo Jovino Ramos - Tio Duca Masculino 10.01.1942 Ivanilde do Rosário Ramos (conhecida por

Vanoca) Feminino 03.03.1953

Josefa Maria de Miranda Feminino 02.05.1929

José Antônio da Silva – Seu Mióia Masculino 14.02.1954

Maria Lúcia Miranda Silva Feminino 22.10.1961

Rossilda Joaquina da Silva Feminino 16.08.1936

Roldão Amâncio da Silva Masculino 08.04.1935

TABELA 2: Moradores do Cria-ú de Baixo e de Dentro

E mais de 40 interlocultores dos segmentos da Escola Estadual José Bonifácio que participaram do percurso da pesquisa-intervenção.

Direção Rosa Elanha da Costa Ramos

Professores(as) da Educação Infantil

Prof. Nilma Maria Lopes

Prof. Antonio Rogério Corrêa Cardoso Prof. Eni de Jesus Jardim Pereira Prof. Maria Cleudenira Leite da Paixão Prof. Núbia Maria Ramos Lopes Prof. Maria Renilda da Penha Viana

Professores(as) do Ensino Fundamental

Prof. de Geografia :Marta de Souza Maciel Prof. de História: Maria Rosália Gomes de Farias Prof. de Matemática: Benedito Antônio da Luz Lobato Prof. de Ensino Religioso: Deusiana da Silva Machado Prof. Odilene Leite Lemos: Artes e Projetos

Corpo-Técnico Administrativo Supervisão e Orientação

Pedagógica

Irene Bonfim

Vanda dos Santos Rodrigues

Secretária Administrativa Ely Maciel do Rosário

Responsável pela Biblioteca Maria do Socorro Lino Videira

Auxiliar de Serviços Gerais Ivanilde do Rosário Ramos

Joaquim Lourival de Abreu

Merendeira Maria Lúcia Miranda Silva

Educandos (as) Educação Infantil

Ensino Fundamental TABELA 3: Funcionários daEscola Estadual José Bonifácio

Os vários enlaces apresentados no decorrer do detalhamento deste capítulo envolvendo inúmeros (as) interlocultores (as) do Quilombo do Cria-ú e da Escola José Bonifácio ganha corpo e desdobra-se no transcurso de toda a tese.

2 AS CULTURAS DOS QUILOMBOS AFROAMAPAENSES

Não podemos perder de vista, que o Brasil é o que é, porque teve e tem as referências africanas marcadas no seu território, na sua população e, sobretudo, na sua cultura. (RAFAEL SANZIO, 2009).

O nosso país é apontado estatísticamente como o território que possui a segunda maior população descendente de africanos do planeta. E por conseguinte, predominante e definidora da nossa identidade étnica como afrodescendentes e afrobrasileiros. As culturas de matriz africana estão na gênese do povo brasileiro.

Os Quilombos são territórios heterogêneos com direitos garantidos por lei e de culturas distintas que se constituem dessa maneira, porque, estão imbricados com o espaço geográfico e a constituição histórica que os origina. Insígnia são as culturas e suas expressões dentro desses espaços de maioria negra e também as denominações que recebem na contemporaneidade, que de certa maneira, dificutam a assimilação do sentido histórico do termo, impossibilitado de ser claramente compreendido devido as várias definições que recebe como: comunidades negras tradicionais, remanescentes de Quilombos, mocambos, comunidades negras rurais, quilombos contemporâneos, comunidades quilombolas ou terras de preto, quilombo urbano, espaços de maioria negra todos esses termos são sinônimos e se referem ao mesmo patrimônio territorial, histórico e cultural. A falta de clareza dos aquilombados sobre o sentido histórico dos Quilombos faz com que alguns de seus (uas) filhos (as) recuzem a identidade étnica de quilombola, porque para eles aceitar tal definição é aceitar ser escravizado (a) novamente.

Os Quilombos são locais relevantes para o desenvolvimento de pesquisas, mas só a pouco tempo estão suscitando o interesse da pesquisa universitária. O mesmo acontece com alguns órgãos oficiais do governo federal e estadual que timidamente vem dando atenção a esses grupos étnicos (ANJOS, 2009). Dois problemas maiores afetam a maioria dos Quilombos, o processo de reconhecimento e de titulação. Para maior visibilidade e aceleração no processo de titularização das terras quilombolas urge a necessidade de mapeamento minucioso destes para que reconhecidos e posteriormente titulados seus descendentes possam lutar para garantir seus direitos à cidadania plena.

É notório que a caminhada é longa em busca da cidadania quilombola e, só irá avançar se forem destinados recursos financeiros, técnicos e humanos para o mapeamento dessas comunidades em nosso país. As necessidades são, o mapeamento e o desenvolvimento

de pesquisas sobre a história e cultura dos Quilombos, bem como suas necessidades de serviços e investimentos públicos, precisam entrar na agenda de prioridades dos governos como políticas públicas específicas, caso contrário, a grande maioria continuará sendo expulsa de suas terras pela falta de infraestrutura, educacional, habitacional, saúde, entretenimento, desporto, transporte e técnico/profissional, ou seja, condições digna de vida para si e seus semelhantes.

A respeito das culturas dos Quilombos Rosa Acevedo (ano 2000), também afirma que são distintas e para compreendê-las é preciso enxergá-las em suas múltiplas práticas que vão desde o cultivo da terra à produção de conhecimentos materiais e imateriais, rezas, orações e também o compadrio, as relações de parentesco e consaguinidade. Para a autora essas características tornam complexa a referida cultura e impossibilita que os quilombolas a identifiquem não só como práticas sociais e cotidianas, mas como expressão de sua prática cultural ancestral africana e afrodescendente, a falta de compreensão a esse respeito é também

de toda a sociedade brasileira. Para Albuquerque (2007, p.78) “na medida em que o (a) filho

(a) do Quilombo, reconhece sua própria cultura, surge um elemento profundo de valorização

dessa cultura e dos sujeitos em questão.” (Grifo nosso).

Dentro dos territórios quilombolas cada morador sente-se parte do lugar por ligar- se a ele por sentimentos e conhecimentos que lhes foram passados por seus ancestrais via a tradição oral. A pertença a esses territórios está relacionada a ancestralidade, portanto a uma memória que articula passado-presente-futuro e por isso os Quilombos são considerados territórios tradicionais (ANJOS, 2009).

Pelos Quilombos serem heterogêneos como já mencionei, eles receberam e ainda recebem várias definições, por exemplo, no Brasil Colônia, esses territórios negros eram uma reconstrução e elaboração concreta de um tipo de organização territorial existente na África Meridional. Nesse continente a expressão tem várias significações e uma delas é um estado

permanente de guerra. A palavra aportuguesada Quilombo tem sua origem na estrutura da língua bantu ou banto (Kilombo) e pode ser entendido ainda, como acampamento guerreiro

na floresta ; o nome de uma região administrativa em Angola; habitação na região central do

antigo reino do Congo; lugar para estar com Deus na região Centro-Norte de Angola, “filho de preto que não é preto” (ANJOS, 2009).

Na atualidade, a exemplo do período histórico do Brasil Colônia, os Quilombos são identificados por vários termos e seus (uas) filhos (as) continuam lutando para conservar suas terras e não serem vistos como parte do passado de nosso país, mas sobretudo do

presente e do futuro exigindo a garantia de seus direitos como brasileiros e a titulação (direito legal) de seus territórios.

Esse continuum cultural evidencia suas culturas heterogêneas que são marcadas por dimensões e características sócio-históricas e espaços geográficos distintos. Suas culturas são complexas, dinâmicas e seus sentidos estão impressos nelas mesmas. Isso implica dizer que para conhecê-las é preciso vivenciá-las em suas sutilezas, gestuais, símbolos, religiosidade, no que é dito pela oralidade, expressões faciais corporais e também pelo silêncio dos sentimentos e emoções.

Sendo assim, cada Quilombo representa a trajetória histórica da população do lugar. E face a falta de pesquisas acadêmicas nessa área de conhecimento, que dê conta de explicar a existência, junto com as singularidades desses territórios de maioria negra em todo país, levaremos para o futuro, sem explicação, parte significativa de nossa história que assim que começar a ser escrita revelará, acredito, novos capítulos da história do Brasil. Digo isto, porque grande parte dos Quilombos localizam-se em áreas de fronteiras e de difícil acesso, como é o caso da Região Norte e, no caso específico do Estado do Amapá, lugar de onde falo.

As comunidades do interior da Amazônia foram criando, ao longo do tempo, formas de enfrentar as realidades geográficas e climáticas, o que envolve a maneira de lidar com os imensos rios [...], de sobreviver na floresta densa, enfrentar as chuvas, calor e umidade, extraindo da natureza seu próprio sustento, alimento e bebida e cura para as enfermidades do corpo e do

espírito. A necessidade de sobrevivência levou os diversos grupos da região

a inventar uma diversidade de formas de lidar com as condições impostas. Ou seja, assim como suas concepções, também suas formas de resposta às condições dadas, que não são homogêneas (AMARAL, 2005, p. 191. Grifo nosso).

As populações negras brasileiras que corporificam os Quilombos em todo o território nacional sempre enfrentaram inúmeros desafios para chegarem a determinados espaços geográficos de difícil acesso, estrategicamente escolhidos para que conseguissem viver longe das diversas formas de agressões psicológicas, física, moral e espiritual a que eram submetidos pelo processo escravocrata brasileiro.

A fé que nutriam pelas forças espirituais em que acreditavam, as faziam confiar que poderiam viver em seu território em paz, liberdade e reconstituindo sua história e heranças culturais negras. Mesmo vivendo em lugares de difícil acesso os quilombolas não estavam isolados do conjunto da sociedade. Com esta mantinham negócios de compra e venda dos gêneros alimentícios que produziam e realizavam serviços especializados nas fazendas, as vezes até mesmo para seus ex-agressores – escravizadores.

Pela trajetória histórica da população negra brasileira refugiada nos Quilombos, sempre tendo que burlar a má sorte. Na atualidade, estão acessando lentamente a algumas políticas públicas porque vivem em crescente movimento político de reivindicação e garantia de seus direitos materializados em bens e serviços oferecidos pelo estado brasileiro a população em geral.

Dentre esses direitos reivindicados está a educação e, em especial, a educação em Quilombos que deve ser pautada num conjunto de preocupações que englobam sobretudo a necessidade da definição de uma concepção educacional, que na minha opinião deve ser a de Paulo Freire porque ajuda o sujeito a refletir sobre sua condição concreta e, conscientizá-lo disso, lutará para mudar sua realidade e afirma-se diante do mundo num que fazer libertador. E tem por princípio a valorização da cultura das pessoas no processo de conscientização sobre a realidade e atribui a ela possibilidades educativas concretas de ressignificação da condição do próprio sujeito que pode “ser mais” tornar-se melhor e portanto alterar o contexto em que vive.

2.1 AS DIFERENCIAÇÕES EXISTENTES NAS CULTURAS DOS QUILOMBOS

Benzer Belgeler