Os primeiros raios da manhã ainda não adentraram a caverna que durante muitos anos abrigou Zaratustra em sua solidão. A solidão é um bálsamo fortalecedor para naturezas extraordinárias como a dele. Os ares montanhosos são benignos a todo aquele que transforma a solidão em uma atividade criadora. No percurso até ali trilhado, depois de experienciar o fracasso junto à turba reunida para assistir o espetáculo do funâmbulo, Zaratustra compreendeu que cometera uma insensatez indo até a praça do mercado, pois o que ele tem para ensinar não é propício para multidões. Ele pressente que é preciso “atrair muitos para fora do rebanho”, essa foi a mudança estratégica de Zaratustra, seus discursos passam a partir de então, a requisitarem um grupo mais seleto:
E, como falasse a todos, não falei a ninguém. À noite, porém, eram funâmbulos os meus companheiros, e cadáveres; e, eu mesmo quase um cadáver. Com uma manhã, contudo, uma nova verdade veio a mim; comecei, então, a dizer: “Que me importam a praça do mercado e a plebe e o estardalhaço da plebe e as orelhas compridas da plebe”. (NIETZSCHE, 1981, p. 287)
No entanto, ele precisou mais uma vez se retirar do meio dos homens e deixar que seu apelo de fidelidade à terra se disseminasse gerando frutos bem aventurados. Depois de anunciar a morte de todos os deuses, de renunciar a oposição entre corpo e alma, entre sensível e inteligível, apresentando a possibilidade do Além-do-homem como aquela que assume perspectivas para além do bem e do mal e com isso erige uma nova tábua de valores. Ele finda os diálogos da primeira parte se despedindo de seus discípulos e anunciando:
E algum dia, ainda devereis ser de novo os meus amigos e os filhos de uma única esperança; então, estarei convosco pela terceira vez, a fim de festejar convosco o grande meio-dia. E o grande meio-dia será quando o homem se achar na metade da sua trajetória entre o animal e o além-do-homem festejará seu caminho para a noite como a sua mais alta esperança: porque será o caminho de uma nova manhã. (NIETZSCHE, 1981, p.92)
Zaratustra deixa seus discípulos para se embriagar de solidão, mas passado alguns anos ele se sente impaciente, ansioso por mais uma vez dividir o vinho da taça que transborda.
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Em uma de suas manhãs solitárias ele acorda inquieto com um sonho que teve na noite anterior, uma imagem em particular lhe dar o indício de que é chegado o momento de retornar para o lado daqueles que outrora receberam seu ensinamento como dádiva. “O menino com o espelho”, título do primeiro capítulo da segunda parte, é também um fragmento de um sonho onde mais uma vez é acionada a presença de uma imagem que acompanha Zaratustra em todo o seu percurso trágico, a imagem do diabo, este que na primeira parte da obra aparece travestido no personagem do bufão da torre, agora ele surge como a outra face de Zaratustra, o seu reflexo no espelho: “O que me assustou tanto em meu sonho, que acordei? Não vinha ter comigo um menino trazendo um espelho? (...) Quando, porém, me olhei no espelho, dei um grito (...) porque não a mim, vi nele, mas a carantonha e o riso escarninho de um diabo”. (NIETZSCHE, 1981, p.97). Na carantonha do diabo Zaratustra advinha que seus ensinamentos estão perdendo a candência até mesmo entre aqueles a quem ama, e seus opositores estão deformando a imagem de sua doutrina. Zaratustra se dirige aos seus animais e tomado por uma alegria exuberante se sente mais uma vez pronto para deixar transbordar sua
selvagem sabedoria. E assim parte Zaratustra para as ilhas bem-aventuradas...
Se na primeira parte da obra foi a Morte de Deus o tema norteador donde se desdobraram os conceitos de niilismo, Além-do-homem e último homem, na segunda parte de
Zaratustra será pronunciado pela primeira vez a doutrina da vontade de poder35. Mas antes ele precisa restabelecer os laços com seus discípulos e reacender a chama dos seus ensinamentos: “Sim muitas mortes amargas deverá haver em vossa vida, ó criadores! Assim sereis intercessores e justificadores de toda transitoriedade”. (NIETZSCHE, 1981, p.101)
Nas ilhas bem aventuradas Zaratustra retomará a crítica à hipótese de Deus, pois
o novo homem que deseja instituir valores deve não somente superar todo fundamento moral
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A expressão Wille zur Macht carrega uma dupla possibilidade de tradução, optamos por vontade de poder e não vontade de potência como fizeram alguns grandes intérpretes de Nietzsche, tais como Rubens Rodrigues Torres filho, Scarlett Marton, Roberto Machado, Eugen Fink, este último que traduziu o termo por “vontade de domínio”. No entanto, como afirma a própria Scarlett Marton no prefácio do livro “A doutrina da vontade de poder” de Müller-Lauter, o termo vontade de potência “pode induzir o leitor a alguns equívocos, como o de conferir ao termo “potência” conotação aristotélica, traduzir a expressão por vontade de poder corre o risco de levá-lo a outros, como o de tomar o vocábulo “poder” estritamente no sentido político (...)”. Sabemos ser absolutamente coerentes os argumentos de Scarlett Marton, mas optamos por vontade de poder em acordo com Oswaldo Giacoia Junior, tradutor da obra de Müller –Lauter, supracitada, onde ele afirma: ”Optei por vontade de poder, não pelo corrente termo vontade de potência, para traduzir o conceito nietzschiano Der
Wille zur Macht. A tradução tem o inconveniente de arriscar-se a circunscrever o conceito demasiadamente
no registro da filosofia política, mas apresenta também a vantagem de evitar a ressonância e a evocação da distinção metafísica entre ato e potência – o que certamente contraria a intenção de Nietzsche – assim como de manter presente um dos mais fundamentais aspectos de seu pensamento, qual seja, uma concepção de força e poder se esgotando, sem resíduos, a cada momento de sua efetivação”. Tendo em vista que, em nossa ótica a prioridade da explicitação do termo está em consonância com o pensamento nietzschiano, quando ele afirma em um manuscrito que: “Parece-me importante que abandonemos o todo, a unidade”, nesse sentido, a rejeitamos a interpretação segundo a qual, a doutrina da vontade de poder pudesse ser um fundamento subsistente, ou força fundamental como unidade organizadora permanente.
do mundo, mas também a “sombra” que pode sobreviver a esse ato de superação. A crença em Deus e deuses seria um entrave que impossibilitaria o surgimento para o homem criador de valores. O filósofo do futuro é aquele que ergue uma nova tábua de valores e a vontade criadora que precisa se efetivar nessa possibilidade de uma humanidade futura não poderá ser obliterada pela presença de uma suposta onipotência divina:
Deus é uma suposição; mas quero que o vosso supor encontre um limite no que pode ser pensado. Podeis pensar um Deus? Mas é isto que significa o vosso desejo de verdade: que tudo se transforme no que pode ser humanamente pensado, humanamente visto, humanamente sentido! Deveis pensar, até o fim, os vossos próprios sentidos! (NIETZSCHE, 1981, p.100)
A transitoriedade é a partir de então, o elemento de afirmação da vontade como força de criação, como arte. A presença de Deus no mundo impõe a ideia de eternidade. O tempo como traço indelével da efemeridade própria do mundo e dos seres naturais, é desvalorizado em nome da ficção de um ultramundo onde as ordens da impermanência da vida, isto é, o nascer e o perecer de todas as coisas é suprimida em nome do imperecível, imutável, então Zaratustra pergunta: “Como? Teria sido o tempo abolido e todo o transitório não passaria de mentira?” e logo adiante, “Más e anti-humanas chamo todas essas doutrinas do uno e perfeito e imóvel e sacio e imperecível”. (NIETZSCHE, 1981, p. 100)
É preciso afirmar o tempo como elemento constitutivo da humanidade do homem, criar e destruir, manar e se extinguir, esses são projetos de uma natureza verdadeiramente criadora que sabe ser impossível ultrapassar o devir incessante do jogo do mundo. Nisso consta a fidelidade à terra a que Zaratustra se refere no final da primeira série de pronunciamentos, antes de retornar mais uma vez à solidão de sua caverna. O Além-do-
homem situa-se precisamente na aceitação da transitoriedade como traço constitutivo da vida.
O criador de novos valores não tece cordas para atá-las ao céu, ele faz da própria terra o lugar de realização dessa vontade finita que horas declina de intensidade, e horas é superabundância de forças. A terra é esse corpo orgânico-inorgânico, essa mãe cruel e devoradora e ao mesmo tempo a nutriz mantenedora da vida. A terra é o nosso lócus temporal, nosso planisférico, o tablado onde os dados da vida são lançados. O tempo é, nessa perspectiva, compreendido como incremento à imagem do homem criador capaz de romper com velhos entraves culturas e realiza-se estabelecendo para si uma nova meta que não está estabelecida em nenhum lugar, pois é ele mesmo quem deve ousar pôr em vigor novas medidas e pesos.
Assim, Nas ilhas bem-aventuradas “O querer liberta: é esta a verdadeira doutrina da vontade e liberdade (...) Para longe de Deus e dos deuses, atraiu-me essa vontade; que haveria para criar – se houvesse deuses!” (NIETZSCHE, 1981, p. 101). Zaratustra investe contra a ótica Dos compassivos, Dos sacerdotes, da populaça, e contra todos aqueles para quem a virtude significa “ficar quietos no pântano”. Sacerdotes, a populaça, os compassivos e virtuosos conjugam a máscara do cansaço e do extravio das forças, é o desalento remanescente do sentimento de vingança, é o entorpecimento como antídoto contra o ressentimento. Entre as máscaras cumpridoras do sentimento de vingança há uma que a nosso ver, de forma mais acentuada deixa transparecer um dos temas capitais da filosofia nietzschiana, a justiça.