B. Vergi UyuĢmazlıklarını Çözmede Ġspat Araçları
1. Doğrudan Ġspat Araçları
A partir das cenas de leitura aqui descritas observou-se que tanto Nava como Graciliano, nos livros de cunho memorialístico, veem a relação com a leitura e com os livros como parte constituinte da formação da criança. Ler revistas, folhear enciclopédias, aventurar- se pelas bibliotecas da família, pelos livros nos caixões do armazém, pelas bibliotecas dos parentes ou dos amigos, soletrar com dificuldade são momentos repletos de emoções importantes na vida da criança.
Para Nava, a lembrança da leitura da infância apresenta-se como a possibilidade de sentir ―claras páginas, iluminuras resplandecentes‖. Para Graciliano, a lembrança da aprendizagem da leitura na infância se apresenta, não raro, como experiência da escuridão, da náusea, do enjoo. As infâncias distintas e os distintos métodos usados para a aprendizagem da leitura proporcionaram leituras distintas, consequentemente, memórias de leitura diferentes, distintas escritas da infância.
Em Infância, de Graciliano Ramos, a lembrança mais remota inclui a cantiga das crianças que soletravam esgoelando em uma ―toada única‖. Essa toada de que se lembra Graciliano difere da lembrança do menino em Nava. Sua lembrança de leitura mais remota vem em Baú de ossos, quando se recorda de que, mesmo antes de saber ler, já recebia de parentes do Rio os livros que manuseava. Ainda no campo das diferenças, as escolas, as ideologias, os métodos, os conteúdos e os professores são diferentes, como vimos.
A reincidência da compreensão da leitura como algo penoso, adquirida com dificuldade, numa relação conflituosa e sofrida com os adultos, aparece em vários momentos de Infância. Em Nava, há lembranças positivas da presença dos adultos na mediação da leitura na família ou na escola: desde a cartilha na sala de jantar das Andrés até o precioso exemplo de tio Salles.
No caso das cenas sobre o aprendizado da leitura, por exemplo, verifica-se que o menino Pedro, em Balão cativo, adere completamente ao processo. O que se vê, em Infância, é substancialmente diferente. O aprendizado das letras é acompanhado de dor física e intelectual. O menino, com a vista obscurecida pela oftalmia, luta para perceber diferenças entre as letras (o t e o d, por exemplo) e para compreender os textos. A dicção agônica do texto é fruto da agonia vivida no processo de aquisição da leitura. E a angústia do menino ao aprender a ler é expressa como angústia no próprio texto que, por sua vez, invade o leitor de Graciliano.
A imagem do leitor Nava não é angustiada; é, por vezes, eufórica, como a do
menino drummondiano diante de sua ―Biblioteca Verde‖. Na escola é um leitor que parece ter
nascido como tal. Suas lembranças não oferecem o momento da não-leitura. A leitura para Nava aparece como um banquete, repleto de livros, autores e leitores. Graciliano lembra-se de antes de ler, do momento em que a carta de alfabetização é encontrada, do início da alfabetização.
O menino de Graciliano, ao se lembrar da leitura na infância, alia-a ao sofrimento e ao distanciamento da casa. A leitura permanece como algo estranho a ele. Os livros não estão em casa, mas fora dela, os leitores proficientes estão fora da família, fora da casa. O leitor se configura, em Graciliano, mais como um exilado, um indivíduo esquisito; e em
Nava, mais como um inserido, um adaptado, um ―peixe n‘água‖.
O menino de Infância, ao ser levado para a escola, toma-a como a um castigo, pois ouvira falar dessa hipótese ―em horas de zanga‖. Para ele, ―[a] escola, segundo informações dignas de crédito, era um lugar para onde se enviavam as crianças rebeldes‖.87
O menino não compreende o motivo pelo qual é levado à escola, uma vez que não se sentia
rebelde. Ao contrário, comportava-se direito, ―encolhido e morno, deslizava como sombra‖. A
injustiça cometida pelo pai o fez se sentir em uma prisão e a escola aparece como ―o exílio entre paredes escuras‖. 88
A sensação de prisioneiro ou exilado era a mesma sensação que sentia em casa, ao estudar nos espaços de fora: o alpendre, o armazém. Sempre que se põe em contato com a leitura, o menino sente-se um desalojado. Para ir à escola, essa situação se agrava: ele é despejado de sua própria roupa, de seu pé na sandália. No caminho ia sentindo-se ―rês infeliz antevendo o matadouro‖. 89 87 RAMOS, 2002. p. 104. 88 RAMOS, 2002. p. 104. 89 RAMOS, 2002. p. 107.
Observou-se, ainda, que tal como nos diz Barthes, o leitor é efetivamente personagem. Esse é o caso dos narradores das narrativas autobiográficas analisadas nesta tese. Nelas os fatos encenados evidenciam a figura de um personagem-leitor, apresentado como o narrador das memórias. Ao narrar suas lembranças, o narrador cria uma fabulação sobre sua vida e explicita uma determinada imagem de si. Nessas obras a recuperação da cena de leitura guia ―a recuperação do passado de maneira satisfatória para o sujeito que rememora‖.90
Em Nava, o que se firma é a imagem de sujeito erudito que o homem usufruía em sua condição de médico bem-sucedido, antes de ser reconhecido como escritor pelo grande público. Essa imagem é consolidada em sua obra na forma como assimila o que leu. Em Graciliano, o estilo como o de Vidas secas transparece em Infância e a aproximação da literatura com a noção de mercadoria — convicção do escritor — recebe, no romance de cunho memorialístico evidente defesa em cenas como a presença do livro no interior do armazém.
Nos dois livros analisados, Balão cativo e Infância, os narradores criam imagens semelhantes de leitor. Ambos mostram um interesse intenso pela leitura e demonstram que, ainda crianças, os meninos teriam se tornado um sujeito apto a conhecer e a criticar a literatura de seu país, a evidenciar preferências estéticas. Podemos dizer que, ainda que haja diferenças fundantes nessas lembranças, algumas noções sobre o leitor e a leitura se aproximam dentre as que destacamos: a idéia do leitor como um devorador; o leitor como transgressor; o leitor como crítico; o leitor como criador. Ambos demonstram que são capazes de conviver com a leitura prescrita e com a leitura proscrita, lida clandestinamente. Mas como os caminhos percorridos para se chegar a essa construção de leitor são muito diferentes, as semelhanças são, a nosso ver, aparentes. O fato de eles usarem imagens semelhantes do leitor não esconde a diferença dos gestos de leitor (Nava devora, Graciliano fragmenta, por exemplo). São estes gestos que consolidam a diferença de concepção estética, poética e teórica existente entre os dois autores e os posiciona de modos distintos quando observada a sua condição de escritor e sua inserção na literatura brasileira.
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