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4. DİZGECİ-İŞLEVSEL DİLBİLİM

4.2. Dizgeci-İşlevsel Dilbilgisi’nde Önemli Kavramlar

4.2.1. Dizge

Após o levantamento das edições das obras de Marinho e do olhar da crítica, é possível identificar a convergência para um dos pontos de destaque da produção do autor a que se refere ao humor e à violência.

Henry Bergson (1980), no livro O riso, chama a atenção para o fato de que só há comicidade dentro do que é propriamente humano. Quando rimos de um objeto ou de outro ser vivo, fazemo-lo por associar a alguma característica humana. Bergson ainda relembra que já se definiu o homem como o “único animal que ri”. Para compreender o riso, segundo o teórico, é preciso analisá-lo em seu ambiente natural que é a sociedade, devendo corresponder a certas exigências da vida comum com uma significação social. Por isso, a comicidade varia de acordo com a sociedade, o que causa o riso em determinado grupo pode não causar em outro, talvez por não compartilhar dos mesmos códigos como acontece comumente com a recepção de determinadas piadas ou textos humorísticos.

Marinho se aproveita das características humanas para promover o riso em seus leitores como para mostrar as facetas mais sórdidas do comportamento humano ao exagerá-las: frade glutão, professora interesseira, crianças mimadas, empregados insubordinados, autoridades corruptas, criminosos impiedosos etc. Para Nelly Novaes Coelho (2006), o autor retrata em suas obras o mundo-cão em que o planeta se tornou, devendo ser entendida como uma “denúncia irônica ou satírica de uma sociedade apodrecida e que precisa urgentemente ser recuperada” ( COELHO, 2006, p.364)

Quem já assistiu a um filme de Quentin Tarantino deparou com muito sangue, violência exacerbada e o exagero que tornam cômica as cenas. Assim como nos filmes de Tarantino, a obra de Marinho é marcada pela violência, situações inusitadas e exageradas, chegando ao ponto de que para algumas personagens é matar ou morrer. Pelo modo como são apresentadas ao leitor ou ao telespectador, tornam-se cômicas. Marisa Lajolo ao se referir a Sangue Fresco em artigo ao Jornal da Tarde em 12 de Novembro de 1982, conta que “o sangue começa espirrar nas primeiras páginas” quando é descrita a morte de Ricardinho. Nas palavras de Marisa Lajolo (1982):

Mas, se o assunto em que João Carlos Marinho inspira sua história é jornalístico, seu texto é definitivamente literário. Sem concessão nenhuma o romancista trabalha a violência da matéria de que trata pela intensificação e redundância. Os mortos são tão numerosos, a sangria é tão copiosa, as formas de matar e morrer são tantas e tão variadas – enfim

a violência se repete tanto que se torna outra coisa. Por exemplo, ingrediente do absurdo. (Jornal da Tarde, 12 de Novembro de 1982)

Além da morte de Ricardinho há a tentativa de sequestro das crianças, as cenas de violência já revelam o estilo de Marinho e a semelhança com os filmes de Tarantino:

Pulou miolo da cabeça de Teng que dava para fazer uma fritada completa. O chinês caiu no mar.

Era uma sangueira no oceano, boiavam os cadáveres de Angelo Fabrizio, de um chinês sem cabeça, de Mão de Onça e de Teng, tudo furado de bala; na lancha, O Pirata, ainda vivo, sangrava muito, e na lona do Cataraan, conforme as marolas, a cabeça de Huang ia para lá e para cá, feito um mamão: uma cena como o diabo gosta, pior que briga de marido e mulher. (MARINHO, 1982, p. 40)

[...] (o gordo) olhou para a cabeça de Huang, pôs o pé direito embaixo, levantou, matou no peito, baixou na lona e meteu um sem-pulo. Ajudada pelo vento, a cabeça foi cair dentro da feijoada de um farofeiro que estava tomando Skol e latinha e emporcalhando a praia de Ilhabela. (MARINHO, 1982, p. 40)

O cortador entrou no olho de Mathias, esguichou sangue pela sala, atingiu o cérebro e Mathias caiu morto no chão. (MARINHO, p. 1984, p.110) O frade deu uma risada e falou:

_Perfeito! Fiz um coquetel Molotov. Era assim que os guerrilheiros russos, que tinham poucas armas, combatiam os alemães na segunda guerra mundial.(MARINHO, 1984, p.116)

O grego soltou um urro, uma labareda levantou-se do peito dele, arregalou os olhos e morreu.

Era uma vez um ladrão literário. (MARINHO, 1984, p.116)

O professor Wanderley caiu, um buraco na cabeça, de onde esguicharam sangue miolos brancos: o barulho do tiro veio junto, seco, breve, curto. (MARINHO, 1990, p.83)

O cadáver do doutor José, os olhos fixos, imóveis, jazia no chão, rodeado por muito sangue e pedaços de pescoço que o Pancho esmigalhou. (MARINHO, 1990, p. 124)

Ainda se referindo à originalidade da obra, Zilberman (2005) destaca a perspectiva carnavalizada adotada pelo autor em que acontecimentos e pessoas são apresentados de modo caricatural. Para isso a fantasia presente na narrativa é “igualmente uma máscara que recobre as personagens, conferindo-lhes faceta caricata, como acontece ao professor Giovanni, treinador e comedor compulsivo de macarrão, ou o pai do Gordo, consumidor

obcecado por dispositivos eletrônicos.” (ZILBERMAN, 2005, p.118). Em constantes passagens é mencionada a representação caricatural dos personagens: o almoço do frade em O livro da Berenice dura três horas.

Pensando na postura adotada por Marinho, em Literatura infantil brasileira: história e histórias, Lajolo e Zilberman (1999) discorrem sobre o modo de narrar escolhido pelo autor:

Sua crítica a uma realidade social como a brasileira, pautada pelo consumo e pela violência, não se faz nem pelo discurso condenatório, nem pela inclusão, no texto, dos despossuídos, cuja miséria e pobreza constituem denúncia da desigualdade e da injustiça social. A forma pela qual o texto desse autor envereda por uma representação crítica do real é muito sutil e rigorosamente literária: por via da redundância vertiginosa e agressiva dos detalhes da violência, ou paradoxalmente, na naturalidade de registro de ações e instrumentos mirabolantes, ou ainda na sucessão de apelos recursos sofisticados da técnica, seus livros ferem a nota crítica. (LAJOLO E ZILBERMAN, 1999, p.142)

As cenas de violência são descritas com naturalidade, independentemente de envolverem crianças ou adulto que matam. Quando os criminosos são mortos, como o grego Papoulos Scripopulos pelo frade João ou o seu comparsa Mathias pelo Gordo que lança seu cortador, é para salvar a suas vidas. No entanto, ao representar assim, Marinho ameniza o impacto que pode causar no leitor a princípio ao se valer do grotesco, dando comicidade ao fato. Vladimir Propp em Comicidade e riso (1992) revela que o grotesco como forma de comicidade só “é possível nas artes e impossível na vida”. Para ilustrar essa situação, Propp diz: “Sua condição sine qua non é uma certa relação estética com os horrores representados. Os horrores da guerra, fotografados para fins documentais, não têm e não podem ter caráter grotesco.” (PROPP, 1992, p. 92) Essas mesmas ações narradas em uma notícia de jornal ou fotografia causariam um outro impacto e reação em que lê ou vê. As situações representadas por Marinho, por mais que remeta o leitor a situações reais, ainda se faz de modo cômico pelo exagero e por fazer parte de uma obra literária. No momento em que o Gordo é torturado em O gênio do crime ou quando é descrito o efeito do Napalm em Sangue fresco.

Embora algumas de suas histórias remetam-se a investigações de crimes e assassinatos, Marinho vale-se do humor para narrar as peripécias de sua turma. Por meio do exagero, do nonsense, da ironia, o leitor é levado ao mundo do cômico. O ritmo é frenético na narrativa, mas o autor sabe pausar no momento correto, por exemplo na

narração da morte de Ricardinho. Se a narrativa é apresentada de modo rápido, nestes momentos há a descrição detalhada:

O holandês tirou a chave o bolso, abriu o cadeado, atirou Ricardinho na gaiola e fechou.

A sucuri meneou, fez que sim, fez que não, e deu o bote.

Foi coisa de um instante, enlaçou-se no menino com os anéis, que foram apertando, quebrando as costelas, Ricardinho ficou azul e ia se transformando numa pasta mole, o bicho verde abraçando ele. [...]

A sucuri esmagou o crânio de Ricardinho, depois que o menino virou basta, ela foi soltando baba lubrificante sobre ele, a baba escorrendo da boca horrenda, às vezes parava um pouco e esticava o pescoço, em seguida babava de novo: quando Ricardinho estava bem babado, a sucuri engoliu tudo, em espasmos, a gente via o diâmetro dela estufar.

Ficaram de fora os pés de Ricardinho calçando os dois tênis verticais e paralelos como se o menino estivesse dormindo num vagão leito. (MARINHO, 1982, p. 16)

No momento em que se prepara a banheira com ácido para matarem o Gordo, Marinho narra cada passo:

O anão pegou o conta-gotas, mergulhou no vidro com muito cuidado e pingou quatro gotinhas marrons na banheira. Cada gota que caia chispava zigue-zague feito busca-pé-peixe-louco no meio da água e fazia fuim- fuim.

O chefe explicou:

_Este ácido é para dissolver os ossos; foi inventado recentemente. (MARINHO, 1969, p.127)

As situações do cotidiano comuns às crianças como ir à escola, reunir-se com os amigos, viajar com os pais, são mescladas com situações de nonsense ou fantásticas. Por mais absurdas que a resolução de alguns problemas pareça, o leitor não julga inverossímil, pois o universo criado pelo autor permite determinadas ações. Seu estilo é marcado pelo uso do exagero, pela paródia, uso de clichês da época. O narrador se vale de uma linguagem carnavalizada em que divino e profano se misturam, há a subversão da ordem normal das coisas, a começar pelas crianças que resolvem problemas que os adultos não conseguem. Se antes na literatura para crianças estas eram submissas ao adulto, na obra de Marinho elas são independentes, mais espertas que os adultos e enfrentam os criminosos.

Em Literatura infantil: gostosuras e bobices, ao se referir ao humor na literatura infantil, Fanny Abramovich (1995) destaca os trabalhos de Monteiro Lobato, Sylvia Orthof e João Carlos Marinho. Em relação a este, destaca o ritmo vertiginoso de sua narrativa em

que tudo pode acontecer, pois realidade e fantasia se misturam, permitindo que os exageros sejam aceitáveis no universo da narrativa. As personagens são crianças comuns, semelhantes aos seus leitores, o que facilita a identificação e a aceitação da obra, vivendo normalmente: indo à escola, participando de festas, viajando, sujeitas aos mesmos incidentes. As inserções de non sense dão ar lúdico à obra e permite que o leitor aceite as situações fantásticas como plausíveis no desenrolar da história.

Em Purismo e coloquialismo nos textos infanto-juvenis, Maria Alice de Oliveira Faria afirma que: “Ora, os melhores escritores de literatura infanto-juvenil hoje são aqueles que, competentes na criação de uma linguagem literária de seu tempo, incorporam com naturalidade o coloquial, a gíria, ou mesmo as frases desestruturadas do monólogo interior.” (FARIA, s/d, p.3). Com essa postura carnavalizada, o autor mescla a linguagem cotidiana com o erudito e atitudes nem sempre louváveis, ou politicamente corretas para crianças em idade escolar. Em um apêndice na primeira edição de O gênio do crime, Marinho explica aos professores e pais as razões de adotar uma linguagem menos formal (Anexo B):

Escrevi este livro para divertir adolescentes e meninos, sem nenhuma preocupação didática, mas a Coleção Jovens do Mundo Todo tem um convênio didático com escola secundárias e por causa disso achei bom dizer umas palavras para justificar o moderado informalismo gramatical que meu livro tem.

Para muitos e muitos professores o que vou dizer não tem nada original porque o ensino de hoje vai indo para se libertar dos formalismos e se preocupa em estimular a criatividade do aluno, o que é certo e prático; há cada vez mais profissões em que espontaneidade de criação é fundamental e a obsessão de um purismo gramatical escolástico, além de fazer muito aluno escrever carta sem graça para a namorada, pode lhe tirar a oportunidade de bons empregos. (MARINHO, 1969)

Acontece também a quebra de paradigmas. As atitudes dos personagens não são nada louváveis e revelam que a intenção é conseguir obter vantagens. Além da naturalidade com que as ações violentas são apresentadas pelo narrador e pelas crianças. Em O livro de Berenice, o Gordo afirma que nunca lera um livro, apenas gostava de histórias em quadrinhos. Embora não se reconhecesse um leitor de obras literárias, é possível perceber que se interessava por outras formas de leitura. Ele colecionava selos, gostava de saber sobre raças de cães e adestramento e sobre peixes e para isso ele pesquisava muito, além de participar dos eventos da área. Algumas informações são apresentadas ao leitor por meio do narrador, mas se sabe que é um conhecimento que o

Gordo já possuía. Assim, Marinho mostra um modelo de personagem que é inteligente, pois desde a primeira narrativa, é o Gordo quem descobre a fábrica clandestina em O gênio do crime, sem se valer, portanto, do conhecimento enciclopédico presente nos livros escolares. Apesar de não gostar de ler livros, o Gordo gosta de histórias em quadrinhos.

A professora Jandira é uma boa profissional como o narrador informa ao leitor, principalmente pelas aulas de Português em O livro da Berenice. Se antes a figura da professora na literatura infantil era idealizada e, muitas vezes, estereotipada, Marinho desconstrói essa imagem ao criar essa personagem. Jandira é interesseira, sendo capaz de não se importar que crianças sejam mortas após terem seu sangue roubado ou que se apropriem indevidamente da obra de Berenice:

O grego afastou o prato e pegou na mão da professora Jandira. Jandira retirou a mão e disse:

_Não sou qualquer uma. Não vou dando a mão logo de cara.

Papoulos Scripopulos pegou um diamante luminoso e deu de presente para a professora Jandira.

Jandira pôs o diamante na bolsa e deixou o grego pegar na mão dela. (MARINHO, 1984, p.45)

Jandira sabe da sua beleza e se vale dela para obter benefícios:

_Escute, Berê. Eu posso ajudar. Não tenho falsa modéstia, sei que sou linda, sei que sou de fechar o comércio, sei que sou uma mulher de quatrocentos talheres. Vou lá no editor, bem vestida, ele se apaixona por mim e publica seu livro logo. (MARINHO, 1984, p.116)

A personagem, a pedido de Papoulos Scripopulos, aproveita-se da paixão de seu aluno para seduzi-lo e assim roubar o livro que estava sendo escrito pela Berenice. Em Leitura, literatura infanto-juvenil e educação, numa nota de rodapé, Célia Fernandes (2007) observa que a imagem de professora sensual parece ter sido inaugurada com a professora Jandira criada por Marinho. (FERNANDES, 2007, p. 195). Em um trecho presente na primeira edição de O livro da Berenice, a professora Jandira beija na boca seu aluno Godofredo:

Dizendo isso, largou o volante, abraçou Godofredo e deu-lhe um beijo na boca.

Godofredo via arco-íris, via a Via Láctea, agradecia ao Criador. O beijo foi tão chupado que a Jandira engoliu um dente de leite do Godofredo, que estava meio bambo.

“Pô” – pensou Jandira – “Namorar criança dá nisso, a gente acaba engolindo dente de leite.” (MARINHO, 1984, p. 86)

Esse trecho foi substituído nas outras edições, sendo narrado que a professora Jandira dá um beijo na bochecha do Godofredo. Para atenuar o impacto que a cena causa, pois a professora beija a boca de seu aluno, Marinho exagera ao dizer que Jandira engole um dente de leite do Godofredo. Diante dessas situações, são usadas imagens exageradas que acabam causando o humor.

Além da influência da produção de Lobato, João Carlos Marinho possui traços da prosa de François Rabelais, tendo como representante o frade João, que aparece pela primeira vez em Sangue Fresco: “–Somos capuchinhos – falou o frade forte – Meu nome é frade João, sou descendente do Frère Jean des Entommeures, não sei se vocês ouviram falar. [...]” (MARINHO, 1982, 120). As atitudes de frade João assemelham-se às do seu antepassado com a cena final em que com uma cruz acaba com os 180 capangas de Ship O‟Connors bem ao estilo rabelaisiano:

Frade João [...] curvou-se, pegou o pau da enorme cruz, levantou a meia- altura, deu uma volta em círculo, a cruz pegou impulso, a ponta da cruz, zunindo rasgou a barriga de quarenta e nove capangas [...] macetou os cóccix dos sessenta, com tal força que os fez vomitar a coluna vertebral, osso por osso, vértebra por vértebra [...]. (p.164)

A figura do Frade João também é representada de modo carnavalizado. Embora suas atitudes sejam boas como a proteção dos indígenas e das crianças, o modo como o faz é marcado pela violência exacerbada. A respeito de Frère Jean, personagem de Rabelais, Bakhtin afirma:

Em Rabelais, frei Jean é a encarnação da grande força paródica e renovadora que representa o clero de tendência democrática. Ele é um grande conhecedor “em matéria de breviário”, o que quer dizer que é capaz de transpor qualquer texto sagrado ao plano do comer, do beber, do erotismo, que ele sabe fazer disso um prato gordo, “salgado”. Pode-se encontrar, disseminada por toda parte na obra de Rabelais, uma importante quantidade de textos e sentenças sagradas transpostas. (BAKHTIN, 1996, p.74)

Bakhtin (1996) referindo-se aos elementos que compõem a praça pública e causam o sentido do humor, está a cena de Frei Jean quando despedaça os corpos e há a descrição

minuciosa de cada parte do corpo sendo dilacerado pela cruz. Sobre o nome de Frei Jean, Bakhtin afirma:

As imagens de corpos despedaçados, de dissecações de todos os tipos desempenham um papel de primeiro plano no livro de Rabelais. Por esse motivo, o tema dos juramentos integra-se perfeitamente no sistema das imagens rabelaisianas. É sintomático observar que frei Jean fervoroso amante de juramentos, tem o sobrenome “d‟Entommeure”, ou seja, carne para patê, picadinha. Sainéan vê nesse fato uma dupla alusão, de um lado ao espírito marcial do monge, e do outro à sua marcada predileção pela boa comida. (BAKHTIN, 1996, p. 168)

A referência à personagem de Rabelais se dá também pelo nome além da personalidade. João em francês é Jean. Marinho traduz o nome da personagem da Idade Média em pleno século XX mantendo as mesmas características como a glutonaria, a violência e a paródia dos textos bíblicos. Além da apresentação em que fala sobre sua ascendência, frade João sempre é mostrado bebendo vinho e comendo muito:

_Puxa – falou a Berenice – O frade João comeu trinta frangos!

_E vou comer mais trinta, se Jesus me ajudar. Se você tivesse acordado às quatro da manhã, derrubado e desgalhado uma árvore de sessenta metros para fazer uma cruz, estaria com tanta fome como eu. (MARINHO, 1982, p.122)

_Eu converso bebendo. Sou como meu antepassado, o Frère Jean des Entommeures. Fico contente em rever os amigos que eu salvei do tal americano. (MARINHO, 1984, p.25)

_Nunca confie em memória de escritor e de padre – falou o frade. – Olhe a palma de minha mão.

E frade João mostrou a enorme mão esquerda onde estava escrita a reza do Pai Nosso que Estais no Céu. (MARINHO, 1984, p. 122)

[...] Sabem por que Eva se interessou tanto pela maça? É porque Adão era um chato, ficava só admirando a maravilha do paraíso e não conversava. (MARINHO, 1984, p.21)

Um dos pontos principais em sua narrativa é a linguagem carnavalizada adotada. Bakhtin chama de literatura carnavalizada àquela que “direta ou indiretamente, através de diversos elos mediadores, sofreu a influência de diferentes modalidades de folclore carnavalesco.” (BAKHTIN, 1981, p.92). Durante os festejos carnavalescos, as hierarquias e distinções sociais eram deixadas de lado e uma nova ordem surgia, invertendo essas relações. A vida “extracarnavalesca” com suas proibições e restrições eram revogadas

durante as festas carnavalescas, pois o festejo ser um momento em que não havia separação entre todos os homens. Ainda destaca como característica do carnaval a profanação, formada por sacrilégios carnavalescos, “por todo um sistema de descidas e aterrissagens carnavalescas, pelas indecências carnavalescas, relacionadas com a força produtora da terra e do corpo, e pelas paródias carnavalescas dos textos sagrados e sentenças bíblicas, etc.” (BAKHTIN, 1981, p.106). Ainda em relação à profanação, Bakhtin observa essa característica em Rabelais. A figura do Frei Jean representada em o frade João, mostra a carnavalização por meio da subversão de textos bíblicos. Bakhtin procura compreender a relação do carnaval enquanto manifestação popular e os traços presentes na literatura. O autor parte dos ritos realizados durante as comemorações que não se limitavam à praça pública, mas adentravam às casas das pessoas.

Se durante as festas de carnaval da Idade Média havia a mistura de sagrado e profano nos rituais, Marinho mescla erudição e popular e o sagrado e o profano. Por mais que o texto será veiculado nas escolas, não é sua intenção fazer um manual de conduta, pelo contrário, adota uma postura crítica que sugere invés de impor. Para isso, é necessário que o leitor compreenda os efeitos de humor adotados pelo autor. Aliás, só causará o riso no leitor se este for capaz de identificar os mecanismos usados para causar esse efeito.

O primeiro aspecto pode ser considerado a linguagem adotada por Marinho para

Benzer Belgeler